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Entrevista com Letícia Parks sobre o curso Mulheres negras e marxismo

Entrevista com Letícia Parks sobre o curso Mulheres negras e marxismo

Entrevista com Letícia Parks, que coordena o curso Mulheres negras e marxismo, iniciado na última terça-feira (6). O curso é gratuito e a inscrição é feita pelo Campus Virtual do Esquerda Diário.

Letícia, por que o curso se chama “Mulheres negras e marxismo”? Qual a relação que você vê entre o marxismo e a luta das mulheres negras?

Bom, o curso se chama Mulheres negras e marxismo porque é o título do nosso livro, a mais recente publicação das Edições Iskra, que tem esse nome justamente: Mulheres negras e marxismo, e foi organizado por mim, pela Odete Assis e pela Carolina Cacau. Nele a gente resgata um pouco dessa relação entre o marxismo e a luta das mulheres negras, que é uma relação bastante interessante porque o marxismo é uma teoria que vai buscar encarar as relações materiais da realidade para daí pensar como que sobre essas relações materiais se produzem ou se reproduzem preconceitos, estereótipos e opressões que vêm de outra época ou que são fundadas pelo próprio capitalismo, como é a própria opressão racista, que é uma invenção do capitalismo.

Nesse sentido, a gente busca neste livro, e também no curso, recuperar conceitos clássicos do marxismo que vão ajudar a gente a entender a dinâmica da exploração capitalista e como isso tem um efeito específico para as mulheres que vivem o dilema da opressão de gênero e da opressão racial, que são as mulheres negras. O marxismo, nesse sentido, é uma excelente ferramenta para entender tudo isso, né? Porque a realidade das mulheres é atravessada por vários dos paradigmas que compõem a sociedade de classes nessa fase da história que é o capitalismo. Por exemplo, as mulheres negras são vítimas dos salários menores, da dupla jornada, e também são vítimas das expressões subjetivas da opressão, que o racismo e o patriarcado produzem, como a sensação de inferioridade, de insatisfação permanente com o próprio corpo, como a ideia que persegue muitas de nós de que a gente só vai ser feliz dentro de um relacionamento amoroso, dentro de um casamento...enfim todos esses efeitos da opressão nas nossas vidas são gerados por uma sociedade que se apoia na opressão para manter viva a exploração capitalista e também para potencializar essa exploração.

Então nesse sentido o marxismo ajuda a gente a ver que a gente pode ser muito forte como classe trabalhadora – que no Brasil é uma maioria feminina e negra – porque ao mesmo tempo que a gente é quem tudo produz, a gente pode ser a força para lutar tanto contra a exploração capitalista como contra cada uma das opressões. Nesse sentido é importante dizer que quando a gente fala de marxismo, estamos falando de Marx, Engels, Lênin, Rosa Luxemburgo, de Leon Trótski, de C. L. R. James, e não das distorções do marxismo, como é o stalinismo, que na verdade não encara a batalha contra as opressões como uma batalha de hoje. Encaram como se as opressões pudessem ser resolvidas apenas de um ponto de vista econômico, que apenas a tomada do poder superaria as relações de opressão. A gente sabe que o terreno econômico livre da exploração é muito melhor para derrotar cada traço cultural do capitalismo, mas essa é uma luta também que diz respeito ao aqui e agora, contra os efeitos que a opressão gera na produção capitalista como os salários menores, como a terceirização, a ausência de direitos trabalhistas, ausência do direito de sindicalização. E também contra a violência policial, doméstica, a violência de gênero contra as LGBTQI+, que são todos os efeitos diretos de uma sociedade capitalista que precisa da nossa dor para inclusive dividir a classe trabalhadora.

Atualmente estamos vivendo no Brasil um avanço da pandemia de Covid-19, aumento da miséria e da desigualdade no país. Mas 2020, além do ano de início da pandemia, foi também o ano que emergiu uma grande luta negra nos Estados Unidos, com o movimento Black Lives Matter, influenciando o Brasil e o mundo. Qual a importância de estudar a relação entre mulheres negras e marxismo neste contexto?

Eu acho que importância se dá através de analisar a realidade. Uma das fortalezas do marxismo é que a gente tá sempre olhando para a realidade para produzir teoria, e não tentando fazer a teoria “caber” na realidade. E o que a realidade está mostrando para gente é que frente a uma pandemia surgem grandes processos de luta de classes com mulheres e massas negras à frente, como foi o processo do Vidas Negras Importam, nos Estados Unidos, o maior movimento de massas da história contemporânea desse país, e também um fenômeno de luta proletária em resposta ao golpe militar em Mianmar, uma revolta massiva que tem as operárias têxteis à frente, as mulheres trabalhadoras.

O marxismo então, frente a essas lutas, vai ser a ferramenta que permite ver que esses setores da classe trabalhadora, à frente da luta contra os efeitos da crise, podem construir um programa e uma perspectiva política que permita levar ao máximo a sua potência. Frente ao processo de luta negra nos Estados Unidos, de jovens e trabalhadores que tinham ódio do Trump e da extrema direita, vieram setores burgueses sequestrar o que existia de mais radical desse movimento e buscar uma tradução eleitoral pros anseios das massas negras dentro dos limites do partido Democrata, que foi justamente a eleição de Biden-Harris. O efeito disso é o esvaziamento de uma potência que esse movimento tinha que era de oferecer uma saída da classe trabalhadora na luta contra a extrema direita. O marxismo nos permite ver que estão tentando colocar nossa luta no cabresto, e ao mesmo tempo, nos permite buscar sair dos limites das possibilidades que o sistema capitalista oferece, porque a gente sabe que o capitalismo não é o fim da história e que a gente é capaz através da organização da classe trabalhadora, junto ao povo pobre e a todos os setores oprimidos, com as mulheres as massas negras a frente, tomar o céu de assalto, como fizeram há pouco mais de cem anos as massas trabalhadoras na Revolução Russa.

Aqui no Brasil o que a gente vê é um antessala disso. Cresce o ódio e o rechaço ao bolsonarismo por conta da tragédia que esse governo transformou a pandemia, mostrando que não vai resolver nada mas só piorar a situação com o negacionismo, com ataques à classe trabalhadora, que inclusive está sendo demitida, tem fábricas fechando, ou seja, o bolsonarismo é o antagonismo da resolução do problema da pandemia. O que se coloca hoje pra gente frente à crise do bolsonarismo no Brasil é a possibilidade da classe trabalhadora, com a força da mobilização, apresentar uma saída profunda contra a extrema direita, o que passa por derrotar Bolsonaro, Mourão e os militares, mas também todo o regime do golpe, autoritário e assassino, que fez com que eles chegassem no poder e que também é responsável pela tragédia da pandemia. Isso é possível fazer com uma Assembleia Constituinte conquistada pela força da nossa luta, que seja livre e soberana e que mude não apenas os jogadores mas também as regras desse jogo da política e permita que a maioria da população possa decidir os rumos do país e não esses juízes eleitos por ninguém e que vivem como milionários. Essas são as lições que o marxismo traz das experiências passadas da classe trabalhadora, mas também de processos do presente, como o que foi feito pela força do povo chileno, que impôs uma Constituinte pra colocar em ruínas o regime pinochetista, e que agora esse mesmo regime está tentando desviar.

A nossa luta não pode parar, né? Agora lá é contra os desvios. Enquanto a força da nossa luta pode conquistar tudo isso, o que a gente vê sendo feito pelo reformismo, por setores inclusive da esquerda, é aceitar a passividade, esse pacto de paz das centrais sindicais com o governo, e oferecer saídas por dentro da institucionalidade burguesa, que nunca foi nosso terreno de batalha, porque não tem nada a ver com os interesses da classe trabalhadora e do povo pobre, e que hoje é a institucionalidade do regime do golpe. Falam de um impeachment que colocaria o Mourão no poder! Ou seja, no lugar de oferecer uma perspectiva que coloque a máxima potência da classe trabalhadora pra resolver essa crise de forma definitiva, entregam nossas esperanças numa espera por 2022 ou num suposto Lula salvador, oferendo inclusive como meio pra tudo isso o caminho aliança com os nossos inimigos, como o chamado Centrão – que de centro não tem nada, é a mais tradicional direita brasileira – e que esteve à frente de dar o golpe institucional pra lançar ataques mais profundos que o próprio PT já vinha fazendo. Um Centrão que se apresenta hoje como oposição ao Bolsonaro mas que na verdade são responsáveis pelo cenário atual de bolsonarismo e também da tragédia da pandemia, porque estão à frente de governos estaduais por todos os cantos do país implementando políticas que também atuam como potencializadoras da crise sanitária, reabrindo escolas de forma insegura, em processos lentos de vacinação, questões que são inseparáveis do cenário atual de mais de 4 mil mortes por dia.

Nos últimos anos, a questão negra tem estado cada vez mais em pauta na mídia, na arte e na política, com debates como a identidade negra, a representatividade e o empoderamento. Qual a contribuição do marxismo nesse debate?

Isso tem a ver com a dinâmica da luta de classes, que tem sido protagonizada por fenômenos de luta negra e luta das mulheres, como se viu nos Estados Unidos, na Argentina, Índia, Mianmar…e dos Estados Unidos, a luta negra tomou o globo. Também teve processos que a gente viveu aqui no Brasil de greves operárias onde é inegável o papel das negras e negros, porque foram lutas da classe trabalhadora em categorias onde negras e negros são a maioria na linha de frente, como foi a greve dos garis no Rio de Janeiro, a greve da Cedae, as greves de Jirau, ou mesmo o processo de luta na categoria de professores nos últimos quatro anos, uma categoria majoritariamente feminina e bastante composta por negras e negros. Hoje a gente tá vendo lutas de rodoviários e trabalhadoras da saúde por vacinas e condições de trabalho também com protagonismo das mulheres e das negras e negros, que são maioria dentro dessas categorias.

O que acontece é que ao mesmo tempo que esses processos de luta vão acontecendo, os capitalistas abrem uma disputa utilizando todas as artilharias possíveis que eles têm disponíveis pra apresentar saídas para o racismo e o patriarcado que sejam dentro do capitalismo. Uma representatividade, por exemplo, dentro do que eles permitem que seja dito, uma mulher ou negra no topo supostamente nos representando, mas com conteúdo necessariamente pró-capitalista e pró-imperialista, que bombardeiam povos. Buscam apresentar um tipo de empoderamento que é individual, como se a “vitória” de uma mulher resolvesse o patriarcado que humilha e vitimiza milhões. Pra nós marxistas, quando vemos a força que a classe trabalhadora tem, que tudo produz, sabemos que as possibilidades são muito superiores às saídas individuais ou a um ou outro de nós nos “representando” em aparência ali no topo enquanto defende as ideias desse sistema nojento.

A gente pode ter um “empoderamento” de massas, e não de indivíduos, e não tem outro nome pra isso que não seja revolução. Um “empoderamento” específico que é o de tomar poder e controle sobre a economia, controlar a produção e o Estado, organizar a sociedade pros interesses da grande maioria, como fizeram as mulheres e homens bolcheviques à frente da Revolução Russa de 1917, com a força da classe trabalhadora. E nesse sentido, a maior representação que podemos ter é a marca dessas lutadoras, muitas vezes anônimas, que se juntaram como classe e apresentaram saídas muito profundas contra o patriarcado. Também é uma representação poderosa o exemplo as massas negras haitianas na luta revolucionária contra a escravidão no século XVIII e XIX colocando em xeque a Revolução Francesa com seu discurso de liberdade igualdade e fraternidade, que na prática não se comprovava verdade nem na vida das grandes massas trabalhadoras francesas, que tiveram que ser reprimidas pela direção burguesa da revolução porque queriam essa igualdade de fato, nem para as massas escravizadas nas colônias, que pra poderem encontrar a liberdade tiveram que se organizar e de pés descalços, com fome e com uma vida marcada pela dor e pelo estupro, uma rotina na escravidão, derrotaram o mais poderoso exército da época, nada mais nada menos que o exército de Napoleão Bonaparte.

O marxismo é uma ferramenta para mostrar que esse “empoderamento” pode ser traduzido ou entendido pelas massas trabalhadoras como a tomada do poder do conjunto da sociedade, e não torcer para que um de nós esteja no poder desse sistema que nos oprime e nos explora, e que a mulher negra ou a mulher ou negro no topo, enquanto se entender que o único topo possível é o capitalista (o que significa governar em nome dos interesses dos capitalistas estadunidenses, do governo em nome dos interesses da burguesia brasileira), se o que a gente quiser for esse topo, alguns de nós vão chegar lá em cima, olhar pra baixo, e ver o chão sujo de sangue negro, feminino, indígena, LGBTQI+, operário. Podemos pensar em um topo do conjunto da humanidade, através do fim do capitalismo e das classes sociais.

E essa luta tem sua tradução em práticas para hoje: significa lutar por questões elementares do combate ao racismo e ao patriarcado que fazem parte do cotidiano das nossas vidas. A luta pela igualdade salarial entre negros e brancos, entre homens e mulheres, a luta pela legalização do aborto, pelo direito à maternidade, pelo direito a uma educação plena e livre, à saúde pública, pela reforma agrária e urbana radical, pela reconversão da indústria para poder garantir que as indústrias estejam produzindo tudo que for necessário para combater a pandemia... Todas essas lutas que atacam os lucros capitalistas são um “manual antirracista” muito mais efetivo do que aconselhar os capitalistas a contratarem mais negros para “aumentar a produtividade”. Não queremos ser ferramenta de lucro, queremos uma vida plena de sentido. Isso se traduz em batalhas para hoje, aqui, agora, que enfrentam o patriarcado e o racismo na sua manifestação na vida concreta.

Quais são as principais referências teóricas e históricas para o desenvolvimento do curso?

A gente está passando nosso curso nas leituras clássicas do marxismo, então tem Salário, preço e lucro, palestras que Marx deu para trabalhadores sobre como no terreno da luta por melhores salários se expressa um combate fundamental contra a exploração. Utilizamos também o Manifesto do Partido Comunista, A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, e algumas referências de O Capital. Um texto que foi muito importante na trajetória de construção do livro foi o Marx Nas Margens, do Kevin B. Anderson, que é uma referência bem forte para quem está buscando as expressões de antirracismo e anticolonialismo que estão presentes no marxismo desde as origens, nos textos de Engels e Marx.

Utilizamos como referência as elaborações do nosso grupo internacional, a Fração Trotskista, tanto em relação ao debate de gênero quanto em relação às reflexões sobre estratégia socialista. A Josefina L. Martínez, que é uma companheira do Estado Espanhol, elaborou o artigo sobre interseccionalidade, e a Andrea D’Atri, da Argentina, foi uma referência importante, junto à Diana Assunção, como pioneira nos debates de gênero e marxismo na nossa geração. A Andrea D’Atri é fundadora do grupo internacional de mulheres Pão e Rosas e a Diana fundou ele aqui no Brasil.

Também tivemos referência em intelectuais que debatem a relação entre luta negra e luta de classes, como o C. L. R. James, que faz parte da nossa tradição trotskista, a Angela Davis, que apesar de uma tradição maoísta apresenta uma contribuição importante para entender o dilema das mulheres negras nos EUA, e brasileiros que também fazem esse debate, como João José Reis, Flávio Gomes, Lélia Gonzalez, que a gente vai fazer debates ao longo do livro reivindicando contribuições presentes nas elaborações de cada um deles.

Em relação a processos históricos, citei aqui alguns já, mas vale ressaltar as experiências quilombolas na América Latina, a luta pelos direitos civis nos EUA, as lutas em defesa da igualdade de trabalho para os migrantes que percorre distintos países na Europa, e também o processo de combate contra o apartheid, e não poderia deixar de dizer, a luta por justiça pelas crianças, adolescentes, pais, mães, companheiros de vida, que tanto pelas mãos da polícia quanto pela mão da violência da exploração capitalista, transformaram mulheres negras em grandes lutadoras com as quais tivemos o privilégio de poder dialogar e nos influenciar. Em todos esses processos, as mulheres negras cumpriram e cumprem hoje um papel de destaque, e buscamos ao longo do livro e do curso, mostrar isso.

Você pode explicar para nós a dinâmica do curso e se tem algum público especial que você busca atingir?

É um curso com aulas de curta duração, no máximo uma hora. São quatro aulas nas terças- feiras de abril, às 20 horas, pulando só a terça-feira dia 20/04, e por isso vamos terminar no dia 04/05. O público alvo são todas as negras e negros, mulheres de todas as cores, homens brancos que tenham uma perspectiva de desenvolver uma reflexão antirracista a partir de um combate contra o capitalismo, gente que esteja buscando fundamentos para subsidiar essa perspectiva política. A aula é bastante didática e nesse sentido não tem que ser iniciado no marxismo pra participar. Pode ser estudante, trabalhadora, trabalhador. Pode ser idoso. Qualquer uma é bem vinda, todos são bem vindos. Também estão sendo organizados grupos de estudos que acontecem por região depois de cada aula, aprofundando os temas. Recomendo bastante que participem dos grupos porque ajuda a alimentar mais reflexões.

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