Eleições 2020

Entrevista: “Para derrotar Bolsonaro e os golpistas a esquerda não pode repetir a conciliação do PT com a direita.”

Confira a entrevista com a Bancada Revolucionária de Trabalhadores, uma candidatura coletiva que luta contra Bolsonaro, Mourão e todos os golpistas.

sábado 3 de outubro| Edição do dia

Entrevistamos Diana, Letícia e Pablito, da bancada revolucionária de trabalhadores do MRT, uma candidatura coletiva para vereador em São Paulo, em filiação democrática pelo PSOL. Eles nos contaram sobre seus objetivos nas eleições e além delas.

ED: O que é a candidatura coletiva da bancada revolucionária? Por que estão se lançando como candidatos a vereadores?

Letícia: Uma candidatura coletiva é quando mais de uma pessoa concorre juntamente à um cargo nas eleições. No nosso caso, eu, Diana e Pablito estamos juntos. Na urna estará registrado “Diana e a Bancada Revolucionária”, e digitando 50.200 as pessoas estarão votando em nós três ao mesmo tempo, bem como em nossas ideias, propostas e programas que são de enfrentamento contra Bolsonaro, Mourão, todos os golpistas e seus representantes, como Russomano, Covas, Hasselmann e etc.

ED: Como vocês interpretam o contexto da atual conjuntura política em que irão ocorrer as eleições?

Diana: Nós consideramos que essas eleições municipais trarão grandes debates que são nacionais. O regime político em que vivemos é profundamente antidemocrático, e se torna cada vez mais. Em 2016, vimos um fechamento ainda maior do regime, com um golpe institucional. E isto para poder passar ataques como as reformas trabalhista e da previdência. Nas eleições de 2018, o candidato que estava em primeiro lugar nas pesquisas não pode participar, foi preso de forma arbitrária. Agora, governo de Bolsonaro vem avançando no autoritarismo e nos ataques, colocando militares no poder e governando à base de ataques cada vez maiores a nossos direitos. O STF, o legislativo e o executivo tem um pacto em que, apesar de suas diferenças, colocam a necessidade de nos atacar acima de tudo. Atacaram a greve dos Correios, e agora querem implementar a reforma da previdência. Por tudo isso que em nossa visão pra derrotar Bolsonaro, Mourão e os golpistas a esquerda não pode repetir a conciliação do PT com a direita e os grandes empresários.

ED: Frente a esse cenário, que ideias vocês estão apresentando?

Pablito: Por isso que nós colocamos como uma bandeira nossa o “Fora Bolsonaro e Mourão” e a luta contra a reforma administrativa que vai atacar a saúde e a educação. Além disso, exigimos também a revogação de todas as reformas que atacam o povo pobre e trabalhador, como a reforma trabalhista e da previdência. Queremos estar do lado de cada entregador, e de cada trabalhadora terceirizada, para lutar por emprego, salário justo e garantia de todos os direitos para todos os trabalhadores. Por isso, lutamos pela proibição imediata das demissões, algo que nenhum candidato defendeu no último debate na TV Band.

ED: Como tem sido a campanha de vocês?

Pablito: Diariamente estamos fazendo panfletagens e discutindo com o povo pobre e trabalhador em diversos pontos de São Paulo. Nossa campanha é militante, e todos que estão envolvidos nessas iniciativas fazem por convicção nas nossas ideias. Estamos fazendo grande panfletagens na Zona Oeste, Norte, Leste e Sul. Agora iremos impulsionar comitês de campanha para todos que também quiserem contribuir, construindo nossa campanha na sua vizinhança, local de trabalho, entre familiares e amigos. Em breve divulgaremos os diversos comitês nas redes da nossa campanha, e em nosso site. Todos que quiserem podem se somar.

ED: Como vocês se financiam?

Letícia: Nossa campanha só é possível graças a dedicação e esforço de centenas de jovens e trabalhadores. Não recebemos um real do estado, de empresas ou banqueiros. Como nossa candidatura é por filiação democrática no PSOL, não recebemos um centavo dos fundos eleitorais. Todos os nossos recursos são provenientes da doação da nossa própria militância, e de vários apoiadores, através de uma vaquinha que estamos impulsionando na internet. Aproveito para convidar todos a contribuírem, porque sem isso nossa campanha não seria possível, e a independência financeira dos capitalistas e empresários é um princípio que nunca abriremos mão.

ED: Vemos nas eleições que muitos candidatos fazem muitas promessas “mágicas” sem tocar nos problemas fundamentais da população trabalhadora. Qual a perspectiva da Bancada diante disso?

Diana: Queremos levantar um questionamento contra esse regime político não somente ao governo. Bolsonaro, Mourão, os militares e Paulo Guedes querem que sejamos escravos e pra isso contam com todas as instituições desse regime do golpe. Não basta ser contra Bolsonaro na atual situação do país nem somente falar contra os capitalistas ou de forma abstrata pela revolução socialista. As candidaturas que se dizem revolucionárias precisam enfrentar esse regime podre. Por isso consideramos fundamental lutar por uma assembleia constituinte livre e soberana. Nesse regime não dá pra achar que vamos resolver os problemas mudando os jogadores, é preciso modificar o conjunto das regras do jogo com uma nova Constituinte com representantes eleitos pelo povo que pudessem revogar todas as reformas e discutir os rumos do país. Mas não temos ilusões de que os capitalistas iriam permitir isso pacificamente já que questionaríamos todo o plano de ajustes deles em função de defender os interesses da grande maioria da população explorada e oprimida. Teríamos que nos auto-organizar pra enfrentar a repressão do estado. Neste caminho lutaremos por um governo dos trabalhadores de ruptura com o capitalismo.

ED: Mas o que vocês defendem como os interesses dessas maiorias que são exploradas e oprimidas pelos capitalistas?

Letícia: Bilionários como Luciano Hang, o véio da Havan, os banqueiros, os empresários, os latifundiários nadam em dinheiro e privilégios. O capitalismo brasileiro é fundado em um racismo perverso, e somos o país que mais recebeu negros escravizados em todo o mundo, e o último a abolir a escravidão. Uma das coisas fundamentais a combater é esse racismo. Defendemos a igualdade salarial entre negros e brancos, nesse país em que uma mulher negra recebe até 60% menos do que um homem branco. Na pandemia, os negros são os mais atingidos em todos os âmbitos, tanto na contaminação e nas mortes, como com o desemprego. Defendemos um plano de emergência, a proibição das demissões e um salário emergencial de R$ 2 mil reais durante a pandemia para os que necessitem. Além disso trilhões saem dos cofres públicos para pagar uma dívida pública ilegal, ilegítima e fraudulenta. Por isso defendemos o não pagamento da dívida pública, e a suspensão do teto de gastos que impede o aumento de investimentos na saúde e educação.

ED: E em relação aos problemas relacionados à moradia e aos problemas das cidades?

Pablito: São Paulo hoje é uma cidade dos grandes empresários. Para as pessoas que são de regiões como o Capão Redondo, bairro onde eu nasci, as condições são outras. Fruto da especulação imobiliária, onde um punhado de milionárias, são donos de quase toda a cidade, para a população trabalhadores e pobre só resta moradias precárias, sem acesso a estruturas mínimas, como esgoto, creches, transporte público, postos de saúde. A única coisa que o Estado oferece é o chumbo e a violência policial que precisa acabar urgentemente, se não mais vidas negras continuarão sendo perdidas. Por isso nós defendemos uma reforma urbana radical, a começar pela expropriação de grandes propriedades e imóveis sem uso. Não a toa na pandemia quem mais morreu foram as pessoas da periferia, enquanto poucos podiam fazer a quarentena, e sem testes massivos, centenas de milhares tiveram as suas vidas ceifadas para atendes os interesses dos grandes capitalistas, no estado governado por Dória.

ED: Você tocou no tema do racismo, como enxergam o problema relacionado às mulheres e LGBT´s?

Diana: A luta contra o machismo, o patriarcado, a LGBTfobia, a violência de gênero e pela legalização do aborto sempre foram uma prioridade para gente, não só nas eleições. É por isso que a gente impulsiona junto com milhares de companheiras mundo afora o Pão e Rosas, que luta por essas bandeiras em uma perspectiva anticapitalista. No país de Damares e da cruzada da extrema direita contra as mulheres e LGBT´s, é preciso colocar essa força nas ruas para dar um basta a tanto reacionarismo. Mas não estamos ao lado de todas as mulheres como por exemplo a asquerosa Joice Hasselman que quer nos ver trabalhar até morrer.

ED: E como vocês tem analisado as candidaturas que se dizem de esquerda?

Pablito: Temos visto as organizações tradicionais dos trabalhadores, seus sindicatos e centrais sindicais, ficarem totalmente passivos diante dos ataques que estamos sofrendo. Essa paralisia não é por acaso: enquanto algumas centrais são diretamente controladas por máfias ligadas aos capitalistas, outras estão atreladas a partidos que surgiram no campo da esquerda, mas que foram progressivamente se vinculando a um projeto político de conciliação de classes, ou seja, de tentar fazer acordos com os capitalistas para governar junto com eles. Este é o caso do PT, que dirige a, a CUT, e que por treze anos gerenciou os negócios dos capitalistas à frente do Estado. Esse caminho foi o que levou ao golpe, sem resistência alguma, e hoje o PT busca encontrar seu espaço nesse regime mais autoritário, chegando mesmo a se aliar ao PSL (partido pelo qual Bolsonaro se elegeu) em 140 municípios. Em menor medida, o PCdoB, que dirige a CTB, também cumpre esse papel, e inclusive votou com toda a sua bancada a favor das isenções milionárias aos empresários da fé. Mas também fazemos críticas ao PSOL, que nacionalmente vêm fazendo coligações inclusive com partidos burgueses como DEM e PSDB, rumando um caminho semelhante ao PT, e em um vale tudo eleitoral inédito em sua curta história. Essas discussões em nossa visão tem uma importância grande e vai pra além das eleições porque nós lutamos há anos na batalha por construir um partido revolucionário no Brasil, por isso hoje construímos o MRT.

ED: E qual recada final vocês querem mandar para os leitores do Esquerda Diário?

Letícia: Em primeiro lugar fazemos um chamado a esquerda para rever essas posições e colocar de pé um forte polo anti-burocrático que organize a luta pra além das eleições nos preparando pra enfrentar os duros ataques que já estão em curso. Mas também chamamos todos os que tenham ódio do capitalismo, de toda a miséria que ele nos impõe cotidianamente, a participar da nossa campanha, a fazer dela um instrumento seu, de debate político, de organização, para lutarmos por uma perspectiva de uma vida verdadeiramente livre e plena, que valha a pena ser vivida. Cada curtida e compartilhadas nas redes sociais, cada contribuição na vaquinha, e cada panfleto entregue é muito importante para nós. Vêm com a gente construir essas ideias!




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