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MIANMAR

Entrevista: "A luta contra o golpe militar em Mianmar"

Entrevistamos o ativista pró-democracia birmanês YanKyawMoe, que mora na Coreia do Sul, sobre a situação em Mianmar após o golpe de fevereiro e a violenta repressão do exército que matou mais de 500 manifestantes.

quarta-feira 26 de maio| Edição do dia

Esta longa entrevista foi publicada pelo grupo NuHaeTu (Organização Socialista para um Partido dos Trabalhadores Revolucionários) na Coreia do Sul com um trabalhador e ativista democrático de Mianmar, YanKyawMoe, sobre os eventos desde o golpe de 2 de fevereiro após os resultados das eleições de novembro de 2021, onde o Partido Liga Nacional pela Democracia havia vencido por grande maioria. Embora a entrevista tenha sido publicada no dia 8 de abril, parece-nos útil trazer um panorama de como foi a resistência e a história do país contada por um importante ativista pró-democracia que viveu vários anos naquele país, além de conhecer as redes de trabalhadores migrantes que organizaram sua solidariedade com os manifestantes.

Atualmente, a junta militar tem avançado no controle da situação nas grandes cidades. A resistência se retirou para áreas periféricas e aldeias onde acontecem manifestações quase diárias e o Exército lançou uma ofensiva contra grupos étnicos armados que lutam por sua autonomia. No entanto, a normalidade ainda não voltou em Mianmar, milhares relutam em voltar aos seus empregos ou abrir negócios, o Exército age como uma gangue criminosa nas ruas. E seu pedido de reuniões com os partidos para organizar as eleições de 2022 foi rejeitado por todos, já que o partido principal, a Liga Nacional pela Democracia, será proscrito. A situação ainda é instável.

Como está a situação desde o golpe em Mianmar?

Em 1º de abril, o número de mortos por armas de fogo pelo exército de Mianmar era de cerca de 560. E presume-se que cerca de 2.000 a 3.000 pessoas foram presas. Mesmo a Associação de Assistência a Prisioneiros Políticos (AAPP), a organização de direitos humanos de Mianmar, não consegue contar com precisão o número de mortes, feridos e prisões.

Em 27 de março, o exército de Mianmar matou 200 pessoas no protesto do "Dia do Exército" em Mianmar. Entre eles estavam trabalhadores, estudantes e cidadãos. O "dia do exército" costumava ser comemorado como um símbolo de resistência ao colonialismo japonês. No mesmo dia, décadas atrás, o general Aung San convenceu as pessoas a lutar contra o fascismo militarista japonês. No entanto, os militares se apropriaram desse dia como o Dia do Exército. Para nós, continua sendo um dia de antifascismo e resistência. Em 27 de março deste ano, trabalhadores, estudantes e cidadãos de Mianmar protestaram, afirmando que “o exército de Mianmar não é um exército que protege as pessoas, é um exército fascista que ataca e mata pessoas”.

A escala dos protestos diminuíram. Isso acontece porque o exército oprime cruelmente as pessoas. Durante a revolução de 1988 (conhecida como Revolta 8888), os militares também mataram várias pessoas. Mesmo naquela época, a ONU continuava a dizer que se opunha ao massacre do golpe, mas não agia, como é o caso nos protestos atuais. Tragicamente, os militares conseguiram não se isolar da comunidade internacional e manter seu poder sobre seu povo. Com base nessa experiência histórica, o governo militar parece acreditar que pode retomar sua autoridade assim que ceda a resistência nacional, aproveitando a cumplicidade diplomática com China, Rússia, Estados Unidos, Europa e Nações Unidas.

Protestar nas ruas não é a única forma de lutarmos. São três, para ser mais preciso. Primeiro, é o protesto de rua. O segundo é o Movimento de Desobediência Civil (CDM), que impulsionou a greve geral dos trabalhadores e o fechamento de empresas. Terceiro, o Comitê Representativo do Congresso Federal (CRPH - Comitê Representativo de PyidaungsuHluttaw).

Compreensivelmente, a febre por protestos de rua diminuiu um pouco. Você pode morrer se sair para a rua. No entanto, eles ainda estão ocorrendo. Protestos de rua estão ocorrendo em todas as regiões; é que sua escala ficou um pouco menor do que antes. Mas não estamos desapontados com a diminuição do número de participantes.

Em vez disso, o número de participantes no movimento de desobediência civil, como greves de trabalhadores em geral e fechamento de lojas, continua a crescer. Além disso, o CRPH lançou o Governo de Unidade Nacional (GUN) em 1º de abril. A sua atividade também se expande e se fortalece.

Rebeldes de minorias étnicas em Mianmar apoiam o levante contra o golpe. O Exército da Aliança Democrática Nacional de Mianmar (MNDAA), o Exército Arakan (AA) e o Exército de Libertação Nacional de Ta’ang (TNLA) fizeram uma declaração conjunta. Nessa declaração, eles apoiaram a ’Revolução da Primavera de Mianmar’ e esclareceram que intervirão com armas se os militares continuarem a massacrar pessoas. Rebeldes da União Nacional Karen (KNU) lutaram contra o Exército na região de Hpapun. Aproximadamente 45 soldados morreram. Em seguida, os militares enviaram aviões de combate para atacar a aldeia. Muitas pessoas morreram e 10.000 pessoas tiveram que fugir para a fronteira com a Tailândia.

A revolução de 2021 é diferente da de 1988. Agora existem espaços na internet onde as pessoas podem expressar sua voz. Existem redes sociais como Twitter e Facebook que não existiam naquela época. Ao olhar para eles, muitos textos diziam: "Estou pronto para morrer! Quero lutar!" ou "Eu quero lutar com uma espada!" Agora que a força militar está massacrando o povo, lutamos mais fortemente contra ela e aguardamos a ajuda da comunidade internacional.

Atualmente, o Exército espanca os manifestantes durante o dia e os sequestra à noite. Existem espiões comprados em todos os bairros. Eles começaram a surgir recentemente. Os militares vão muito além da apreensão. Uma vez que um é preso, volta para casa depois de se transformar em um cadáver. No entanto, os militares encobrem o que estão fazendo. Mesmo assim, muitos jovens trabalhadores e estudantes saem às ruas para protestar.

Qual é a perspectiva de derrubar a ditadura de Mianmar?

É a Geração Z [pessoas nascidas entre 1990 e 2000, NdE] que dá esperança. Eles têm uma fé muito forte na recuperação da democracia contra o golpe militar. Eles são trabalhadores, estudantes do ensino médio e universitários, jovens adolescentes e na casa dos vinte anos. Alguns deles podem desbloquear a Internet cotada pelos militares. Portanto, eles compartilham a situação e as notícias da luta de Mianmar por meio das redes sociais.

A geração Z está se tornando a chave para essa luta. A saudação de três dedos simboliza eleição, democracia e liberdade. A geração Z não tem medo de morrer. As canções, poemas e escritos criados por esta geração também me encorajam. A grande solidariedade da Geração Z é uma de nossas grandes esperanças.

O CRPH também nos dá esperança. Eles lançaram o GUN seguindo os objetivos e planos anunciados pelo governo de fato. Preparando-se para o novo governo, o CRPH se reuniu com muitos políticos, grupos e legisladores da comunidade internacional para relatar sobre a situação em Mianmar e discutir o que fazer. O CRPH tentou apoiar os manifestantes exibindo um vídeo dos combates em Mianmar para a comunidade internacional.

O CRPH também se reuniu com forças rebeldes de minorias étnicas. O objetivo é criar um estado federal juntos. Esta é a melhor notícia para as minorias étnicas.

A colonização britânica estabeleceu o sistema de governo com o qual os birmaneses têm uma vantagem exclusiva. Apenas os birmaneses podem servir como presidente e comandante supremo das forças armadas. E entre os birmaneses, apenas os budistas chegaram ao topo. Embora não esteja estabelecido na Constituição, na verdade as minorias étnicas foram excluídas da política. Isso dificultou a participação política das minorias e sua posição no exército. A ideia de construir um estado federal com autonomia garantida é boa para as minorias étnicas. As minorias étnicas também se comprometeram a aderir aos protestos. O caminho que percorremos agora é a esperança de todos.

O outro é o movimento de desobediência civil. Os heróis e heroínas deste protesto são trabalhadores, estudantes e cidadãos. Os trabalhadores estão em greve geral e acham que a ditadura militar deve ser derrubada. O movimento de desobediência civil não é novo para os trabalhadores de Mianmar. Houve também 1988. Em 1988, todas as pessoas fizeram campanha pela desobediência civil. Todos os 24 ministérios e agências governamentais foram fechados. Todos os funcionários e até mesmo a polícia também participaram de greves e protestos. Entre os soldados participou a Força Aérea. Então, quando os militares não conseguiram mais se segurar, eles disseram: “Teremos eleições democráticas em seis meses.” Políticos, trabalhadores e cidadãos, incluindo Aung San SuuKyi, pensaram: “Nós vencemos”.

Após um acordo mútuo, o povo parou de protestar e houve eleições. No entanto, os militares prenderam os políticos eleitos do LND e os enviaram para a prisão. Os funcionários que aderiram à greve foram presos um a um. Assim, diante de uma situação difícil de voltar a lutar, o exército continuou no poder.

Por experiências anteriores, todos sabem que este é um ataque poderoso agora na luta contra um golpe militar. Os jovens trabalhadores e estudantes gritam. "Não é 88, é 21" e "Não pare, não acredite em nada, não faça pactos com os militares!"

O que você pensa quando vê os trabalhadores de Mianmar na linha de frente da luta?

Olhando para a história de Mianmar, os trabalhadores foram os primeiros a lutar. Durante a colonização britânica, houve Thakin Po HlaGyi. Ele marchou de Chauk a Yangon em 1938-39 para protestar pelas reivindicações dos trabalhadores contra os britânicos. No início, algumas dezenas de pessoas começaram, mas quando chegaram a Yangon, 10.000 trabalhadores se reuniram. Ele também liderou a greve dos trabalhadores do petróleo e é o representante mais famoso da revolução pelos direitos dos trabalhadores na história de Mianmar. Ele aparece nos bilhetes de Mianmar, nas quais ele quebra as correntes amarradas em seu pescoço.

Em 1948, Mianmar tornou-se independente da Grã-Bretanha. Como outros países asiáticos, a Grã-Bretanha entregou armas às minorias étnicas, fez com que lutassem entre si e foi embora. Naquela época, Mianmar iniciou a democracia. No entanto, o presidente deu poder aos militares.

Houve um golpe militar em 1962. Naquela época, o povo não protestou. Alguns acharam o golpe estranho, mas outros acharam que seria bom. À medida que a guerra civil com as minorias étnicas continuava, as pessoas pensavam que talvez depois que os militares estabilizassem o país, ele se tornaria uma democracia. Mas o soldado tirou o uniforme militar e se tornou um político, e disse que era um país socialista. Externamente se manifestavam como socialismo, mas na realidade era uma ditadura militar.

Eles tiraram muitos benefícios que iam para os militares. Só os que continuaram no comando militar viveram bem e enriqueceram. Aqueles abaixo eram pobres. Não havia classe média, então a lacuna entre ricos e pobres era grande. Trabalhadores, funcionários, agricultores e cidadãos foram localizados na parte inferior. O governo, legisladores e generais militares estavam no topo. Essa parceria se sustenta há muito tempo.

Em 1988, Aung San Suu Kyi veio para Mianmar para cuidar de sua mãe devido a uma doença. A democracia foi importada para Mianmar e passou a viver outras experiências. No entanto, embora o povo tenha tentado construir a democracia por meio da revolução de 1988, ela foi reprimida.

Mesmo durante a Revolução Açafrão de 2007 [um grande movimento liderado por monges budistas, NdE], os trabalhadores foram os primeiros a lutar. No entanto, as coisas são ligeiramente diferentes entre o passado e agora. Agora, trabalhadores, estudantes e cidadãos experimentaram o sabor da democracia. A democracia já começou, a situação está voltando a uma ditadura militar. Trabalhadores, estudantes e cidadãos não podem permitir essa tentativa. É por isso que lutam por suas vidas.

Os trabalhadores participaram muito mais em 2021 do que em 1988 e 2007. Porque no passado não havia empresas com investimento estrangeiro. A maioria das empresas eram instituições e fábricas administradas pelo governo. Todos os trabalhadores eram servidores públicos que recebiam salários do Estado. O comércio exterior também era controlado pelos militares.

A transição democrática começou em 2010. Conforme as sanções econômicas diminuíram, empresas estrangeiras da China, Japão, Estados Unidos, Alemanha, Coréia, Tailândia e Cingapura entraram. Então, o número de trabalhadores aumentou e o número de agricultores diminuiu porque os agricultores vieram para a cidade e tornaram-se trabalhadores.

Qual é o número de trabalhadores migrantes de Mianmar na Coreia do Suk? Eles estão lutando juntos?

Aproximadamente 25.000 trabalhadores migrantes de Mianmar estão trabalhando na Coreia. Além disso, o número total, incluindo imigrantes casados ​​e estudantes internacionais, é de aproximadamente 28.000.

Desde o início do golpe em 1º de fevereiro, migrantes de Mianmar agiram de sua própria maneira em muitas regiões da Coreia. Agora, eles estão em contato uns com os outros e se comunicam pela Internet sobre o que fazem.

No caso de Busan e Gyeongnam, campanhas de piquete e manifestações foram realizadas. Enviamos nossa inscrição ao Conselho Municipal de Busan e realizamos uma entrevista coletiva. O povo de Mianmar em Seul criou um grupo de arrecadação de fundos para apoiar aqueles que lutam em Mianmar. Um total de 1,2 milhão de won [107 mil dólares, NdE] foi arrecadado para apoiar os participantes do Movimento de Desobediência Civil de Mianmar.

O movimento de cidadãos e trabalhadores coreanos apoia a revolução democrática em Mianmar e se opõe ao massacre militar em curso. Até agora, trabalhadores de Mianmar, estudantes internacionais e migrantes realizaram reuniões, manifestações e campanhas em Seul, Gwangju, Gyeonggi, Busan, Incheon, Chungnam, Ulsan, Daegu, Changwon e Masan, juntamente com trabalhadores coreanos, assistentes sociais e políticos, além de grupos cívicos contra a ditadura militar de Mianmar.

A Coreia é o país onde ocorre o maior movimento de apoio à revolução democrática em Mianmar. Isso pode ser comparado a outro país onde há trabalhadores migrantes de Mianmar. Em Cingapura, as pessoas não podem se mover devido à política do governo. O governo torna isso impossível. Também o faz na Tailândia. No Japão, há pessoas ativas de Mianmar e organizações japonesas que os apoiam, mas ainda são pequenas.

Qual é a principal demanda?

Existem duas demandas principais. Em primeiro lugar, a democracia deve ser restaurada. Devemos reconstruir um país democrático. A segunda é que os resultados das últimas eleições sejam reconhecidos. Agora, porém, foi inaugurado um novo governo que aboliu a Constituição promulgada em 2008, de modo que novas eleições são necessárias. Se a democracia for devolvida, os militares devem ser punidos.

No dia 1º de abril, deverá ser aplicado o conteúdo básico promulgado pelo GUN, que inclui a construção de um estado federal democrático e a derrubada total da ditadura. Uma nova constituição está sendo redigida e, anteriormente, a "Carta Democrática Federal" foi criada.

A reivindicação mais importante das minorias étnicas é um estado federal democrático que garante autonomia. É uma reivindicação das minorias étnicas desde a época da independência como colônia britânica. Agora está prevista a criação de um Exército Federal junto com as minorias.

Essas demandas são a esperança de todos aqueles que lutam em Mianmar. 80% da população de Mianmar é um grupo étnico majoritário, os birmaneses. Agora que a maioria dos birmaneses está dizendo: “Sinto muito, nós, birmaneses, estamos enfrentando os difíceis problemas que vocês enfrentaram nos últimos 50 anos.” Muitas pessoas dizem que realmente simpatizam com o sofrimento das minorias étnicas.

Você acha que temos que fazer uma mudança diferente daquela que a LND tentou antes do golpe?

É isso que eu quero dizer. A maioria dos trabalhadores participa da revolução democrática. E existem estudantes e cidadãos. Muitos deles são críticos da Liga Nacional pela Democracia. Eles criticam o governo anterior do LND, mas também questionam "o que estão fazendo agora".

A maioria dos sindicatos odeia os dias do governo da LND. Eu entendo perfeitamente os trabalhadores. A LND não se importou em nada com os direitos dos trabalhadores. A realidade dos trabalhadores era dura, mesmo sob o governo do LND. Quando os trabalhadores participaram da manifestação, eles também foram capturados e detidos naquele momento. Eles foram espancados pela polícia e processados. Do ponto de vista dos trabalhadores, os ferimentos são muitos.

Os trabalhadores dizem: "Votamos para tornar um país democrático. Por que temos que ser detidos quando reivindicamos os direitos dos trabalhadores?" Mesmo quando algumas pessoas se reuniram, eles foram presos. Essa era a situação durante o governo anterior do NLD.

Para ser honesto, não tínhamos outra escolha. Muitos dizem que não há outra alternativa. Não há nada mais do que o LND. Escolhemos a LND para subir uma escada e, nisso, lutamos por mudanças. Prefiro lutar contra o governo da LND. Devemos alcançar nossos direitos humanos e direitos dos trabalhadores lutando contra a LND.

O que o golpe significa para os trabalhadores de Mianmar? E o que isso significa para os trabalhadores migrantes de Mianmar na Coreia?

Embora não fosse uma democracia completa, Mianmar iniciou uma transição para a democracia em vez da ditadura militar em 2010. Além disso, o número de fábricas aumentou, de modo que o número de trabalhadores também aumentou. Nos últimos cinco anos, empresas estrangeiras entraram em Mianmar e muitos trabalhadores trabalharam em fábricas estrangeiras. Notícias e informações se espalharam rapidamente a partir de 2010. Graças às redes sociais como o Facebook, o pensamento das pessoas foi ampliado.

O papel dos sindicatos também se expandiu em Mianmar. Em 2010 foi formado um sindicato e teve início a luta pelos direitos trabalhistas. Embora os trabalhadores tenham sido presos por lutar e exigir seus direitos, o governo não matou pessoas como faz agora. Depois de um mês ou dois na prisão, os trabalhadores foram libertados e tornaram-se famosos e heróis, tornando-se líderes e representantes respeitados por outros trabalhadores. Quando foram presos novamente, eles se tornaram muito mais famosos e seu papel no movimento se expandiu ainda mais. Eles eram admirados e respeitados por outros trabalhadores. E outros trabalhadores também passaram a participar do movimento, observando esses ativistas.

As pessoas perceberam que era a estrutura (sistema) democrático que os capacitava para a luta, porque durante a ditadura militar os trabalhadores não podiam ousar. Não foi porque o país se tornou amigo, ou porque os militares mudaram de ideia, mas por causa do sistema democrático.

E países estrangeiros também estavam observando Mianmar. Existe um acordo pelo qual uma embaixada estrangeira sanciona se alguma lei do trabalho for violada. Os trabalhadores começaram a descobrir, o que lhes deu coragem para lutar.

O que a Geração Z diz é surpreendente. Eles dizem com firmeza que a LND está errada. Eles falam duramente com o governo e também com os soldados. Antigamente, dizíamos tudo com cuidado e cautela. Mas agora a Gen Z fala e critica sem hesitação.

Não deveria ter havido golpe militar. De acordo com a Constituição, os militares controlam todos os poderes fundamentais do Ministério da Defesa, do Ministério do Interior e do Ministério das Fronteiras. Os militares são donos de grandes empresas governamentais. Eles possuem entre 20 e 30 empresas de petróleo, gás, construção e siderurgia. Os lucros dessas grandes empresas não são usados ​​como orçamento nacional para o povo, mas são usados ​​para os militares. Todo o orçamento nacional é administrado pelos militares e é usado para proteger a vida dos soldados. Além disso, as empresas estrangeiras devem subornar os militares para obter permissão para fazer negócios em Mianmar.

Os trabalhadores imigrantes de Mianmar na Coreia também têm sonhos. Eles sonham em fazer algo grande quando retornarem a Mianmar. Todos esses sonhos foram destruídos pelo golpe. Trabalhadores, estudantes, cidadãos, empresários e todos os demais de Mianmar estão lutando pelo futuro porque não podem suportar o fim do futuro.

Qual foi o papel dos sindicatos nas greves contra a ditadura? De onde vem a força?

Entre 2010 e 2011, novos sindicatos foram criados. Também foi criada a Confederação dos Sindicatos de Mianmar (CTUM). Trabalhadores em indústrias de manufatura, como costura, vestuário, calçados e acessórios, que têm na maioria na casa dos vinte anos, muitos são mulheres, fazem greve e se voltam para protestos de rua para se unir e juntar forças. Para derrotar o golpe militar, trabalhadores de vários lugares devem unir forças.

A indústria de confecções, calçados e acessórios é um ramo no qual as empresas estrangeiras investem. Não acho que o poder direto da greve nessas fábricas seja grande. Porque são empresas privadas. Mas eles têm algum poder político, como vimos.

Existem muitos outros trabalhadores. Ferrovias, ônibus, hospitais, professores, bancos, portos e minas. Entre eles, greves de trabalhadores de ferrovias e ônibus agora são importantes em Mianmar e são as mais eficazes para atingir os militares. Porque os trens vão de Yangon para várias áreas. Yangon fica ao sul e, para ir para o norte a partir de Yangon, é necessário pegar um trem.

Agora todos os trens foram parados devido a uma greve geral dos ferroviários. Quando o trem para, os militares estão em apuros. Como todos os maquinistas entraram em greve, o transporte de suprimentos militares, como soldados e armas, foi interrompido. Os soldados foram para o dormitório dos ferroviários durante a greve geral do final de fevereiro e prenderam o maquinista e obrigaram-no a dirigir o trem. Os ferroviários são funcionários públicos, porque os trens são administrados pelo Estado, não por empresas privadas. Então, os militares disseram aos ferroviários que deixassem a residência quando fizessem greve. Muitos trabalhadores estão sem teto porque perderam seus dormitórios.

E há banqueiros, professores e funcionários de hospitais (médicos e enfermeiras). No início, os militares ameaçaram os médicos e enfermeiras. Os médicos e enfermeiras disseram: "Você também tem uma promessa dos soldados. Você não cumpre sua promessa de proteger o país e o povo. Por que temos que cumprir nossas promessas?" Os trabalhadores de ferrovias e hospitais que entrarem em greve geral poderiam atingir os militares com mais eficácia.

Os trabalhadores da indústria também são uma grande potência. Os trabalhadores da indústria participam de protestos de rua, aumentando o tamanho dos manifestantes, ajudando uns aos outros. Greves gerais de longa duração por parte desses trabalhadores da manufatura poderiam atingir efetivamente os militares. Quando os trabalhadores da indústria fazem greve, a renda dos militares não é gerada. Portanto, a greve geral dos trabalhadores da indústria corta as veias dos militares.

Os militares respondem duramente à greve geral dos trabalhadores. Eles apontam a arma para os trabalhadores ferroviários para dirigir o trem. Soldados armados entram nos dormitórios dos trabalhadores, os expulsam, prendem e encarceram. Eles ameaçam, sequestram e matam ativistas que atuam como representantes sindicais.

Existem muitos sindicatos amarelos agindo como mãos e pés do governo. Os militares de Mianmar também aprenderam a usar os sindicatos amarelos. Na verdade, eles estão tentando construir um sindicato com pessoas que ouvem os militares.

Mas também existem sindicatos que se organizam de forma independente. Esses sindicatos são organizados por fronteiras regionais. Eles realizam muitas reuniões e dirigem um centro de consulta para os trabalhadores.

O que a Liga Nacional pela Democracia pode fazer?

Representantes entre os membros eleitos do parlamento local formaram o CRPH. Agora, a LND lançou o Governo de Unidade Nacional por meio do CRPH. A maioria dos representantes ativos da LND está sob custódia. O novo governo foge para o exterior e trabalha por meio de videochamadas. A LND encontra-se em estado de grande inoperância.

Os trabalhadores e jovens dos protestos de rua dizem: "Não podemos ver os líderes do LND nas ruas. Nós somos os líderes. Temos que nos proteger." Vários representantes do LND já foram assassinados. Havia um diretor de escola que era representante do LND, que conheço pessoalmente, e foi assassinado. Eles nos assustam que nós também podemos morrer.

Durante os primeiros dias do golpe militar, não houve protestos de rua. As pessoas estavam esperando pela situação. No início, as trabalhadoras da indústria de manufatura iniciaram uma manifestação de rua no complexo industrial. Em 6 de fevereiro, a Federação dos Trabalhadores do Vestuário de Mianmar (FGWM) apareceu na rua com cerca de 4.000 trabalhadores da indústria manufatureira. E havia uma mulher que começou um protesto de rua no centro de Yangon. É uma política crítica com o LND. Gritamos que "Esta revolução não é para a LND. Apoiamos a LND de todos os modos, mas lutamos pela democracia."

Quais são os desafios que o movimento de Mianmar enfrenta? Além disso, quais são os desafios de organizar os trabalhadores de Mianmar?

O Estado federal democrático mencionado acima pode ser construído por todos. O que eu quero quando a revolução democrática tiver sucesso é a defesa dos direitos trabalhistas. Porque para enfrentar um golpe, mesmo que se repita depois, os trabalhadores devem se unir. Mesmo depois do sucesso da revolução democrática, a luta dos trabalhadores deve continuar. Se o país se acalmar, os detentores do poder poderão provocar novamente esta situação, ignorando o povo. Mesmo que haja um pequeno problema, se os direitos dos trabalhadores forem apenas ligeiramente infringidos, os trabalhadores devem continuar a lutar por seus direitos. Só assim podemos criar uma sociedade em que as pessoas não sejam ignoradas pelos militares ou políticos.

Como você vai proceder na luta com os trabalhadores de Mianmar da Coreia?

Estamos considerando principalmente duas coisas. Em primeiro lugar, pressionar o governo coreano e persuadir o povo a não reconhecer o golpe e fazer todos os esforços para punir as forças golpistas. Não podemos atingir esse objetivo se estivermos isolados. Cooperaremos com trabalhadores e organizações coreanas.

Em segundo lugar, apoio financeiro para os rebeldes. Os participantes do MDL e dos protestos de rua estão sendo seriamente prejudicados. Os incêndios provocados pelos militares são outro problema. Eles estão queimando centenas de casas e móveis ali. Estamos tentando apoiar todas as vítimas em Mianmar arrecadando fundos. Existe até um trabalhador migrante que está enviando dois milhões de won coreanos (aproximadamente US$ 2.000) por mês, o que é igual ao seu salário. Eles apertam seu orçamento ao máximo para enviar todo o seu salário para os protestos. Eles dizem que usarão apenas o depósito de sua conta e continuarão a enviar seu salário para os manifestantes em Mianmar.

Se a guerra civil estourar, haverá mais sofrimento. Se isso acontecer, o que podemos fazer aqui é dar a conhecer aos trabalhadores e cidadãos coreanos a realização do protesto em qualquer parte da Coreia.

E para terminar, quero dizer algo aos trabalhadores de todo o mundo. Os trabalhadores produzem tudo o que o país precisa. Nenhuma nação pode funcionar sem trabalhadores. É por isso que digo que "os trabalhadores não têm fronteiras".
Os trabalhadores de todo o mundo devem se unir. Alguns trabalhadores estão sendo explorados em um ambiente hostil, enquanto outros estão se saindo muito melhor. Espero que mantenhamos nossas vozes altas para nos posicionarmos em solidariedade além das fronteiras do país. Mais uma vez, os trabalhadores devem se unir e mostrar solidariedade.

A democracia é outro valor que não deve ter fronteiras, pois é assim que a democracia deve realmente ser. Quando há um ataque à democracia como o de Mianmar, os países que já alcançaram um sistema democrático devem participar ativamente da situação.

Direitos dos trabalhadores também. Devemos enfrentar a opressão contra os trabalhadores de outros países como o nosso, e devemos lutar pelas condições de trabalho de outros países também. Os direitos dos trabalhadores e a democracia não são algo que possa ser dado como garantido. Devemos lutar para consegui-lo.




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