Política

CORONAVÍRUS

Entre o risco visível da fome e o risco invisível da doença

Se a situação está ruim para todos os trabalhadores e ninguém aguenta mais ficar em casa, temos que pensar nos trabalhadores mais precarizados que moram nas favelas. Porque, para eles a situação é de catástrofe: O risco de perder alguém se soma a fome e a total falta de estrutura sanitária.

domingo 29 de março| Edição do dia

Se a situação está ruim para todos os trabalhadores e ninguém aguenta mais ficar em casa, temos que pensar nos trabalhadores mais precarizados que moram nas favelas. Porque, para eles a situação é de catástrofe: O risco de perder alguém se soma a fome e a total falta de estrutura sanitária. Os Informais estão sendo dispensados sem nenhum direito, e perdem sua única fonte de renda. Com as crianças em casa as famílias têm mais gastos, pois a merenda escolar era uma refeição fundamental.

Enquanto isso os trabalhadores informais esperam ansiosamente o governo e o congresso decidirem sobre como e quando farão chegar a renda emergencial aprovada, de R$ 600 reais, que pretende atenuar a catástrofe social iminente, pois o risco visível da fome é muito mais assombroso que o risco invisível da doença.

Nesse sentido, é preciso levar em conta que a miséria já é a realidade da quarentena nas favelas brasileiras. Tomados por um total desespero, muitos moradores saem de casa para pedir ajuda de parentes, de amigos e até mesmo entidades que organizam a solidariedade na periferia. A miséria já era a realidade antes, e agora se torna um monstro de proporções assustadoras.

Muitos ambulantes nos semáforos, ônibus, e ruas, seguem atrás de bicos. Não raro trabalhavam apenas para conseguir o alimento de um único dia, num jogo de soma zero infinito. Em vários bairros não há qualquer medida de isolamento social, alguns pequenos comerciantes embarcam firmes na campanha de “O Brasil não pode parar” encabeçada por empresários e o clã Bolsonaro. Estes comerciantes abrem as portas, se negando a seguir os decretos estaduais, ignorando as medidas sanitárias, e colocando a vida de seus trabalhadores em risco. A polarização e o negacionismo do presidente, durante esta pandemia, oferece um risco imenso nessas regiões, que sempre viveram sob péssimas condições sanitárias.

A condição sanitária da favelas é uma questão muito importante, pois de que vale uma quarentena, em um lugar onde não dá para manter o isolamento social? Em lugares onde as famílias precisam se amontoar em cômodos apertados, dividindo o mesmo banheiro e instalações. Segundo a PNAD, por exemplo, só no nordeste, 12 milhões de moradores não tinham acesso diário a água encanada, durante o ano de 2018. Como lavar as mãos nessa realidade?

Uma pesquisa do Data Favela, nesta semana, mostrou que 72% das famílias nessas comunidades não têm poupança para se manter nem por uma semana. Pouco menos de 10% da população brasileira vive em favelas nessas mesmas condições socioeconômicas. O último Censo do IBGE contabilizou 6.329 favelas, em 323 municípios. Metade dessas moradias fica no Sudeste, 23% em São Paulo, e 19% no Rio de Janeiro. Belém era a capital com a maior proporção de favelados por habitante, 54,5%. Salvador (33%) São Luiz (23%), Recife (23%), e o Rio (22%) vinham a seguir. São nas favelas que vivem a maior parte dos cerca de 13,5 milhões de brasileiros na extrema pobreza, que passam o mês com menos de R$ 145 obtidos em trabalhos precários, contando os centavos para garantir a vida.

O Brasil tem 38,3 milhões de informais, que ganhavam, em média, cerca de R$ 1.400 mensais antes do isolamento. O governo promete ajudar com R$ 600 por três meses, o que é uma medida totalmente insuficiente.

Precisamos de um plano de emergência para enfrentar a crise gerada pelo novo coronavírus e pelo capitalismo. Bolsonaro e seu governo demonstram um completo desprezo pela vida dos trabalhadores vulneráveis.

A classe trabalhadora das favelas precisa tomar as rédeas da crise, porque o que estamos presenciando com essa pandemia é o fato de que que o capitalismo não dá mais. É por isso, que devemos apontar nosso enfrentamento a essa situação num sentido abertamente anticapitalista e revolucionário: se o capitalismo não consegue colocar toda sua tecnologia para proteger a população de um vírus derrotável por métodos já conhecidos, é porque o vírus é o próprio capitalismo, que só sabe produzir miséria, destruição do meio ambiente, guerra e transforma a saúde em um mero negócio lucrativo para um punhado de parasitas.

Nós do Esquerda Diário defendemos que os trabalhadores sejam abrigados nos hotéis e resorts, para que tenham garantidas a sua saúde. Se a vida nas favelas é inaceitável em tempos normais, em tempos de pandemia é a certeza de um genocídio! A renda mínima é insuficiente para garantir a vida desses trabalhadores, por isso defendemos que cada trabalhador receba 2000,00 reais. A estrutura urbana brasileira é um crime: o urbanista das nossas cidades é o capital. Esse modelo só pode ser modificado por uma grande revolução na estrutura das nossas cidades, na qual sejam garantidas condições dignas para os trabalhadores. Hoje mais do que nunca “nossa vida vale mais que o lucro deles”.




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