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LITERATURA OPINIÃO

Entre o “crepúsculo das alegrias” e o “amanhecer de todos os jardins”

Sobre "A mulher habitada", de Gioconda Belli

segunda-feira 27 de julho| Edição do dia

Imagem: A autora de A mulher habitada na Feria Internacional do Livro em Guadalajara (México) em 2018. Fotografia de Yliana Domínguez.

O nome da escritora nicaraguense Gioconda Belli é um dos mais importantes das letras latino-americanas contemporâneas. Todos seus romances estão caracterizados por uma magnífica prosa, profundamente sensível, e ao mesmo tempo realista que abunda nas desigualdades sociais para relatar histórias intimamente humanas. Às vezes se valendo das as diferenças culturais e o espaço “fronteiriço” entre tradições como no caso de Sofía de los presagios (1990), em outros casos se amparando na autobiografia como em El país bajo mi piel, memorias de amor y de guerra (2001), ou em outros casos desenvolvendo com maestria o romance histórico como em El pergamino de la seducción (2005). Mas sempre, e independentemente do gênero literário no qual incursione, Belli sempre dá vida a livros extraordinariamente profundos e cativantes, todos eles com uma presença e força poética difíceis de igualar, e impossíveis de imitar. Talvez por isso a poesia seja seu gênero mais cultivado e a qual sempre volta.

Possivelmente A mulher habitada (La mujer habitada) seja seu romance mais conhecido. Publicado originalmente em espanhol em 1989 e com numerosas edições e reimpressões o livro recebeu os prestigiosos prêmios Casa de las Américas e Anna Seghers no mesmo ano da sua primeira edição, e foi traduzido para mais de 6 idiomas. No Brasil, foi publicado em 2000 pela editora Record (algo verdadeiramente curioso levando-se em conta a linha editorial deste selo) com tradução de Henrique Boero Baby. O romance narra as histórias de duas mulheres que avançam paralelamente nos territórios da Nicarágua. Na primeira, temos Itza guerreira indígena, de língua Nahuatl, que percorre o passado para nos relatar a chegada dos colonizadores hispânicos no século XVI e a intensa luta de resistência da sua sociedade contra a sanguinária colonização espanhola. Na segunda, Lavinia, uma arquiteta da classe burguesa recém retornada da Europa volta para Manágua e descobre as desigualdades socioeconômicas durante a ditadura militar de Anastácio Somoza Debayle (1925-1980), se envolvendo completamente na luta revolucionária com o Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN).

O espaço ocupado por ambas histórias resulta, em certa medida, assimétrico já que seguimos com maior detalhe a vida da Lavinia na década dos anos setenta do século passado. Porem a autora utiliza os seus grandes recursos narrativos para fazer da presença da Itza uma história total que “habita” desde a primeira até a última palavra do romance. Aqui, Belli utiliza dois focos narrativos: a primeira pessoa quando se trata da história da Itza, a quem conhecemos pela sua própria voz, e, a terceira pessoa quando se trata da Lavinia. E é precisamente a Itza quem narra intimamente a história da Lavinia. Este interessante jogo do lugar enunciativo, ao mesmo tempo em que apaga as diferenças temporais e culturais, aproxima as suas histórias enquanto mulheres lutadoras para demonstrar que sejam guerreiras nas florestas do século XVI ou guerrilheiras urbanas do século XX a história da América Latina está concebida pela luta das mulheres. A narração encarna também a presença física da Itza durante a história da Lavinia, não só como memória social ou como recurso de resgate cultural, senão precisamente como corporificação concreta. Itza vive, “está” e “habita” com Lavinia na medida também em que Lavinia “habita” na Itza. Não possível expressar com maior ênfase este fundamento do romance sem vender a trama do livro. Basta dizer que as duas mulheres, e as suas histórias estão, inexoravelmente unidas, e não por laços de parentesco senão pela irmandade que se gesta no calor da luta.

Mas A mulher habitada, é também uma obra de profunda crítica social, contextualizada na Nicarágua da dinastia dos Somoza, e que hoje parece se ancorar em outra dinastia, também familiar. Os questionamentos que se apresentam no romance transcendem a crítica à política nacional para enfrentar também os complexos problemas do espaço doméstico e do amor romântico. É por isto que o feminismo crítico da Gioconda Belli faz uma leitura escalar e complexa da sociedade nicaraguense numa história de longo prazo. A trama não é só o relato da revolução em um país (o qual por se só já seria de grande valor), e também a demonstração de uma revolução mais interna e muito mais intima. Itza duvida e se opõe a algumas das escolhas do seu companheiro, Yarince, um importante guerreiro Nahuatl. Lavinia enfrenta e luta com o seu companheiro Felipe que num primeiro momento não consegue aceitar sua entrada no movimento sandinista. Merece especial destaque a forma como estes diversos e escalares campos de luta que se desenvolvem ao longo do livro estão narrados com uma maestria e uma sensibilidade inigualável, as e os personagens são humanos, estão cheios de dúvidas, de contradições, de incertezas.

Dúvidas e incertezas que envolvem a totalidade dos espaços sociais e políticos da novela. Neste ponto em que, sem perder seu comprometimento, a autora implicitamente abona elementos para tratar e ampliar importantes debates, desde as relações interpessoais de amizade, amor e companheirismo laboral, até os problemas derivados do “foquismo” revolucionário. Ainda que tenha se passado mais de trinta anos da primeira edição do livro e tanto a conjuntura política quanto o debate político têm, sem dúvida, alcançado novos patamares, o romance continua sendo imensamente atual e imensamente íntimo. Uma intimidade que só pode ser alcançada por alguém, como a autora, que participou ativamente do movimento sandinista em todas suas expressões e assumindo todos os riscos. Em razão disso, inclusive, a história e os elementos narrativos do romance são tão vívidos e realistas, pois boa parte destes foram escritos desde a própria experiência da autora. São, neste sentido, “memorias de amor e de guerra” (como a própria intitulou sua autobiografia), e por isso mesmo são memórias “imortais”, porque tal e como declama Itza no que possivelmente seja um dos fragmentos mais bonitos do livro: “nadie que ama muere jamás” (aquele que ama jamais morre).

Não é possível negar a força de Ruben Darío, nem a presença valiosíssima do também nicaraguense Ernesto Cardenal, mas será Gioconda Belli a autora que as gerações atuais e futuras reconhecerão e lembrarão com fascinação, saboreando as palavras por ela conjugadas “no crepúsculo das alegrias” e “no amanhecer de todos os jardins”.




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