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Entre demagogia Democrata e assédio, trabalhadores da Amazon seguem luta por sindicalização

Contra o homem mais rico do mundo, Jeff Bezos, os quase 6 mil trabalhadores de um depósito de distribuição da Amazon em Bessemer (Alabama) vêm há semanas empreendendo uma luta incansável para formar um sindicato. A luta se dá na esteira do potente Black Lives Matter, com 85% dos trabalhadores sendo negros, e não diz respeito a um local isolado, no Alabama, mas pode ter impactos em todo o mundo.

terça-feira 2 de março| Edição do dia

A batalha dos trabalhadores da Amazon por sua sindicalização já ultrapassa o tempo de um mês, e a empresa está desesperada. Eles têm até o dia 29 de Março para votar sobre o tema. Enquanto isso, o Washington Post já relatou que trabalhadores estavam recebendo cerca de 5 mensagens de texto por dia, com a Amazon pressionando com argumentos como os de que a sindicalização apenas lhes custaria dinheiro, com inclusive panfletos anti-sindicais nas portas dos banheiros. Eles também estavam sendo obrigados a comparecer presencialmente em reuniões sobre o tema, com a empresa violando as políticas de distanciamento social. Por sua vez, a Payday Report noticiou que a Amazon também ofereceu um bônus caso os trabalhadores se demitissem, justamente para que não votassem pela sindicalização.

Enquanto isso, para além do assédio intenso, os trabalhadores estão sendo movidos pelo anseio de enfrentar situações como a retirada de seus celulares durante os turnos, pausas completamente insuficientes para almoçar e ir ao banheiro e corridas que percorrem uma distância equivalente a 14 campos de futebol americano desde a entrada do complexo para conseguir bater ponto. O autoritarismo sedento por lucros da gigante já rendeu denúncias escandalosas, em distribuidoras ao redor do mundo, em que trabalhadores da Amazon usavam fraldas ou urinavam em garrafas, pelo ritmo da jornada. Denunciam que um simples atraso pode custar o salário ou uma demissão. Por tudo isso, no Alabama, estão dizendo a plenos pulmões que “não são robôs” e querem se sindicalizar.

Na pandemia, a “linha de frente” da Amazon contou com mais de 20 mil trabalhadores contaminados e cerca de uma dezena (até outubro passado) faleceu por Covid-19. Em março do ano passado, trabalhadores que exigiam EPIs em State Island também foram demitidos. Evidentemente, a contra-cara da superexploração e adoecimento dos trabalhadores é o exponencial crescimento da fortuna de Jeff Bezos. No ano passado, somente em 3 meses, a empresa viu seu faturamento aumentar 37%. O depósito que é palco do atual conflito foi inaugurado para responder à enorme demanda da pandemia.

Essa gigante tecnológica é a segunda maior empregadora nos EUA, com 400 mil trabalhadores. Como escrevemos aqui, desde 1995 tem conseguido barrar a sindicalização. Entretanto, após a conformação do sindicato dos trabalhadores da Google, podemos estar diante de mais um passo rumo à organização da classe trabalhadora norte-americana, em um estado sulista que não só carrega o peso histórico do racismo escravagista, como possui leis draconianas contra a sindicalização. É o único lugar do mundo onde os trabalhadores da Mercedes-Benz, por exemplo, não são sindicalizados. Portanto, é simbólico que aí possa ser o primeiro lugar do imperialismo norte-americano onde trabalhadores da Amazon vão se sindicalizar.

Com mais de 1,2 milhão de trabalhadores em todo o mundo, se avança a sindicalização no Alabama, a despeito de todas as formas de chantagem e coerção da empresa, essa medida pode servir de exemplo e moralização para os trabalhadores de sua cadeia internacional, que na Europa já coordenaram distintas greves em datas como a Black Friday contra a precarização do trabalho. Esse ímpeto também pode ser base para que o sindicato não fique nas mãos de direções burocráticas, e sim seja de fato uma ferramenta dos trabalhadores que estão se enfrentando com o autoritarismo ditatorial da empresa, desesperada.

Há dois dias, Biden publicou um vídeo em que não à toa não cita o nome da empresa, mas faz referência à luta no Alabama, o que mostra a imensa repercussão desse exemplo no sul do país. Afirma que não cabe a ele e nem aos empregadores decidirem por isso. Mostra-se forçado, pela base social que expressou sua gana por mudança nas ruas no ano passado de maneira explosiva, a acenar e buscar pacificar o processo. Isso porque, na profundidade de lutas como essa, podemos ver os impactos do movimento do Black Lives Matter em sua dimensão não imediata. Biden e os democratas buscaram canalizá-lo ao Partido imperialista mais antigo do mundo se valendo do ódio contra a extrema direita de Trump. O presidente que acaba de bombardear a Síria mostrando sua sanha em satisfazer os grandes monopólios norte-americanos demonstra que sabe que não será simples enterrar de vez o “espírito” aberto pela profunda rebelião no coração do império, e as expectativas dos setores em luta têm potencial para se chocar, cedo ou tarde, com seu projeto que, em campanha, anunciou que não mudaria fundamentalmente nada nos EUA.

Assim, os trabalhadores da Amazon estão mostrando que o único caminho é sua organização, para que não paguem pela crise enquanto figuras como Jeff Bezos vêem no drama da pandemia e na precarização do trabalho uma imensa oportunidade de lucrar - e Biden, obviamente, quer fazer de tudo para manter os lucros dessas gigantes intocados.




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