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Argentina | Entre a campanha e as chantagens do poder: uma crise que necessita de saída pela esquerda

Numa conjuntura atravessada por negociações com o FMI e pela crise de preços no período que antecede a disputa eleitoral, o Governo enfrenta simultaneamente o descontentamento popular e as exigências dos setores mais concentrados do poder econômico. Desde Washington e dos grandes empresários esse aperto chega sem dissimulação. Breve comentário sobre um livro que o convida a refletir sobre as lições dos anos 80. A “crise do cobertor curto” antecipa a necessidade de preparação da esquerda.

Fernando ScolnikBuenos Aires | @FernandoScolnik

quinta-feira 28 de outubro | Edição do dia

Em um livro recentemente publicado e extraordinariamente atual, Diário de uma temporada no quinto andar, o sociólogo Juan Carlos Torre narra de dentro suas atividades como funcionário da equipe econômica de Raúl Alfonsín entre 1983 e 1989.

Ao percorrer suas páginas, é impossível ao leitor atento não traçar paralelos de vez em quando entre os problemas daquele regime constitucional que nasceu depois da última ditadura, e os dos governos posteriores, até hoje. Como observador participante dessa experiência, Torre é protagonista e testemunha ao mesmo tempo das dificuldades e fracassos que levaram à frustração das esperanças que aquele governo radical (NdT: referente à União Cívica Radical - UCR) havia despertado em amplos setores da população.

Em tempo real (se trata de um diário), o escritor narra, entre outros assuntos, os detalhes da negociação com o Fundo Monetário Internacional sobre o peso de uma dívida ilegal herdada da ditadura, que o governo Alfonsín, após alguma hesitação, decidiu validar. Não era apenas um problema ético e moral, pois com a evolução da história fica evidente que as expectativas do próprio presidente tiveram de fazer um pouso forçado diante daquela decisão e se adequar aos compromissos de ajuste assumidos com aquele órgão internacional. O fim é conhecido: em poucos anos e após o fracasso do Plano Austral, as seguintes políticas econômicas, como o Plano Primavera, também não funcionaram, e Alfonsín acabou cedendo rapidamente a presidência em um contexto de crise hiper-inflacionária.

A história, claro, nunca se repete da mesma maneira e os resultados não se devem a uma única causa, mas a verdade é que hoje a Argentina está mais uma vez em um daqueles processos de negociação com o FMI, cuja única constante é que sempre terminam mal.

Antes de continuar, observemos também outra questão que hoje é semelhante com relação àquela situação do início dos anos 1980: enquanto negocia, o governo de hoje faz um discurso em que rechaça fazer o que está fazendo, isto é, um ajuste. Segundo Torre, os radicais da época tinham uma duplicidade semelhante que lhes permitia circunstancialmente "engolir o sapo da política de austeridade sem renunciar ao otimismo ou baixar suas bandeiras nacionais / populares". Porém, a realidade mostrou então os limites da autonomia relativa das histórias frente à constatação do panorama cru do real. Hoje essa transição ainda está em desenvolvimento, mas a derrota eleitoral do Governo nas PASO mostrou que este caminho já está sendo trilhado.

Leia mais: Argentina: muito ruído para seguir o mesmo rumo

Voltando ao presente, neste momento há novidades sobre este assunto crucial. Contradizendo em parte a mensagem tranquilizadora que Alberto Fernández havia sugerido há apenas duas semanas na Casa Rosada aos homens de alto escalão do poder econômico, e num giro que expressa em si mesmo as profundas dificuldades do problema, o Ministro Martín Guzmán relatou no domingo passado que “o acordo não está fechado, quem deve se apressar é o FMI para concordar em baixar as sobretaxas e aceitar nosso programa econômico”. Nesta quarta-feira, o mesmo foi ratificado pelo presidente no ato de homenagem a Nestor Kirchner. No mesmo endereço, o responsável pela economia também havia solicitado que o poder econômico local acompanhasse a negociação. Foi um apelo a essa classe empresarial que não só demite e precariza, mas, como ficou conhecida esta semana, 9 de suas 10 famílias mais ricas estão envolvidas no escândalo do Pandora Papers. Aparentemente, pouco espírito "nacional" será encontrado nesse lado.

Quem não se sentiu muito feliz com estas declarações de Guzmán foi o futuro embaixador dos Estados Unidos na Argentina, Marc Stanley, que respondeu esta terça-feira dizendo que "a dívida com o FMI, de 45 bilhões de dólares, é enorme. O problema, porém, é que cabe aos dirigentes argentinos traçarem um plano para devolvê-lo, e ainda não o fizeram”.

Lembremos de passagem, no entanto, que ambas as partes estão de acordo quanto ao fato de que a dívida ilegal deixada por Mauricio Macri não está em questão. É apenas uma questão de discutir quanto ajuste (mais ou menos) eles farão na Argentina para que ela seja paga.

De qualquer forma, e caso o caráter colonial de suas declarações não tenha sido claro, Stanley também acrescentou que não só pediu um duro ajuste econômico, mas também destacou que “a Argentina ainda não se juntou aos Estados Unidos e outros países para pressionar por reformas significativas em países como Venezuela, Cuba e Nicarágua”. Como é habitual, dois pesos e duas medidas - ele não parecia preocupado com problemas democráticos em outros países da região, como o Brasil de Jair Bolsonaro.

Mais uma: o futuro embaixador também afirmou que "por causa de barreiras regulatórias" algumas empresas norte-americanas estão deixando a Argentina.

Uma nota antes de continuar: na vertiginosa Argentina, até pouco tempo atrás, algumas pessoas falavam que o FMI havia mudado em relação a esse organismo que, merecidamente, teve uma reputação tão ruim no passado. Mas se olharmos para o assunto a partir dos depoimentos dos dirigentes norte-americanos (principal acionista do Fundo), parece que enfrentamos a mesma ingerência imperialista de sempre, com suas receitas usuais. Os episódios críticos que fizeram sua cabeça, Kristalina Giorgieva, estremecer no escritório, podem trazer novidades na conjuntura, mas nada muda de Fundo. Uma questão hoje é diferente: o peso da dívida é ainda maior e qualquer expectativa de uma saída "negociando duro" nada mais é do que uma ilusão.

A crise do cobertor curto

As (habituais) fricções na negociação com o FMI, no entanto, inscrevem-se num quadro mais amplo, ao qual já apelidamos em outra ocasião de “crise do cobertor curto” do Governo da Frente de Todos. Os giros discursivos do partido no poder, bem como as idas e vindas de suas disputas internas, também se explicam, em parte, por essa contradição sem solução possível.

Como um cronômetro avançando em seu tempo, o futuro do desenvolvimento político está se aproximando dos choques mais fortes que a Frente de Esquerda previu desde o início: aqueles causados ​​pelo fato de ser impossível cumprir com o FMI ao mesmo tempo que com aquela velha campanha prometida pelo peronismo nas eleições de 2019.

Se de um ponto de vista estritamente político o resultado das PASO foi eloquente neste sentido, hoje vemos o problema se aprofundar também por outro ângulo. Não se trata apenas da dura negociação com o FMI, mas também das disputas entre governo e setores empresariais em torno do congelamento de preços ordenado pelo Poder Executivo.

A essa medida morna, insuficiente e ineficaz tomada às pressas após a derrota eleitoral, houve uma dura resposta dos empresários, tanto da Argentina quanto da Amcham (que representa poderosas multinacionais norte-americanas no país). Não é surpreendente: por que o poder econômico concentrado teria que aceitar limites aos seus enormes lucros, por parte de um governo que não só está enfraquecido, mas também demonstra como em Vicentin que late mas não morde os poderosos?As balas são apenas para os explorados, como recorda o aniversário da expulsão das famílias em Guernica, com Sergio Berni à frente.

Por enquanto, o Governo mal tenta resistir à crise e, com um discurso e uma postura mais confrontadora em relação ao FMI e aos monopólios formadores de preços, para ver se recupera terreno eleitoral para o dia 14 de novembro. Os limites dessa operação se dão pela limitação tardia das medidas, quando a inflação já deteriorou consideravelmente a renda popular. O veredicto final será dado de qualquer maneira pelas urnas, que serão decisivas para finalizar a análise dos contornos do próximo período.

No entanto, os problemas mais profundos ocorrerão depois do 14 de novembro. Em certo sentido, quem alertou claramente as classes dirigentes para as profundas dificuldades que se avizinham, marcadas pelas pressões da desvalorização e pelo peso da dívida, foi a própria Cristina Kirchner, por ocasião da celebração do 17 de outubro. Naquele dia não só pediu classicamente uma aliança entre capital e trabalho, mas também alertou alguns setores das classes dominantes que não deveriam comemorar ingenuamente o resultado eleitoral, visto que “um terço do eleitorado fez uso de outras opções eleitorais e não eram as do centro, contra tudo o que recomendam analistas e cientistas em nosso país. Não, eles foram a extremos. Ou votaram em quem quer queimar o Banco Central, porque é ele que produz a inflação, ou em quem continua defendendo que tudo deve ser desapropriado de todos”.

Nessa descrição (caricatural) das tendências de polarização política e social, a vice-presidente antecipou a gravidade da situação e os perigos que podem sofrer a "governabilidade", ou seja, o possível surgimento de uma luta de classes maior. Não em vão, eles deixaram transparecer que depois de 14 de novembro, o partido no poder irá convocar, especialmente o Juntos por el Cambio (NdT: macrista), um pacto nacional, de realização incerta, mas sintomático das preocupações do governo.

No centro do pensamento oficial está como governar mais dois longos anos marcados por ajustes. As nomeações de Juan Manzur ou Aníbal Fernández são ilustrativas do "peronismo da ordem" que se prepara para momentos, talvez, ainda mais complexos do que aqueles que já vivemos. Governadores, intendentes, forças repressivas e burocracia sindical se preparam agora para reagir ao possível aumento do conflito social que o desenvolvimento da crise traz consigo. As ingênuas promessas sobre “a vida que queremos” ficaram longe da realidade, embora até o consultor catalão que orienta a campanha da Frente de Todos continue buscando o retorno com uma mensagem positiva às fronteiras do duranbarbismo (NdT: em referência à Jaime Durán Barba, consultor político macrista).

Por sua vez, desde as direitas do Juntos por el Cambio e daqueles que se identificam com José Luis Espert ou Javier Milei, há dúvida de que aceitarão o convite a um acordo nacional, pois consideram as eleições de novembro como um meio para melhorar o relação de forças no Congresso e nas legislaturas, mas também, e sobretudo, como um trampolim para 2023, caminho em que cabe decidir quem prevalece como o candidato de direita com mais chances de chegar à presidência.

Diante dessas complexas perspectivas, e das fortes pressões imperialistas para fechar com o FMI, não há espaço para meias medidas em uma situação que já é muito grave: enquanto a direita pede o aprofundamento do ajuste e medidas como a reforma trabalhista, o Governo permite (e promove) ataques, enquanto colocam alguns remendos. A verdade é que, como a Frente de Esquerda propõe e fica claro por todas as lições da história, só pode haver uma saída afetando os interesses dos mais poderosos para reorganizar a sociedade não de acordo com os interesses de alguns, mas para resolver as necessidades da grande maioria.

Nesse caminho, é imediatamente necessário lutar para impor às centrais sindicais que saiam de sua passividade cúmplice. É fundamental a realização de assembleias de base para discutir um plano de luta por um reajuste emergencial de 20% para salários, pensões e planos sociais com automática indexação pela inflação e controle popular de preços e contra as demissões e a precariedade, dentro de um caminho fundamental por medidas como o não pagamento dívida pública, o rompimento com o FMI e a nacionalização dos bancos e do comércio exterior. Essas são algumas das medidas elementares de autodefesa nacional que só podem ser impostos através da luta de classes, bem como a distribuição da jornada de trabalho entre empregados e desempregados.

As vozes de Nicolás del Caño e Myriam Bregman se fizeram fortes nesse sentido nos debates televisivos das últimas semanas, levando essas propostas a milhões e desmascarando os candidatos do ajuste e da mão pesada. Em Jujuy, isso se expressa pela grande popularidade de Alejandro Vilca, assim como de outros candidatos de outras províncias.

A grande campanha que a Frente de Esquerda vem realizando em todo o país, e o apoio a todas as lutas como a da Latam e Guernica nos dias de hoje, só pode ser entendida a partir desta perspectiva: levantar uma plataforma forte para chegar a milhões com essas ideias, mobilizar milhares para essa perspectiva e conquistar novos deputados e deputadas, para chegar mais forte e, desta vez, virar a história para nosso lado.




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