Gênero e sexualidade

ENTREGADORAS RECIFE

Enquanto entregadoras passam dor, donos de app tem seus lucros garantidos

“São os piores dias, por que você ficar na moto, menstruada, com dor, no sol quente ou na chuva. Paro para ver como está o fluxo, para ver se não molhou a roupa. Porque a gente se preocupa, afinal de contas entramos e saímos do estabelecimento. Houve dias em que senti muitas dores, que pioravam com a trepidação da moto. Já cheguei a parar de trabalhar em dias assim”

quarta-feira 3 de março| Edição do dia

Acima está um trecho do depoimento de Raquel Rodriguez para o jornal de Recife Marco Zero, publicado em reportagem ontem intitulada Precarização no serviço de delivery é mais grave entre as mulheres, na qual quatro entregadoras relatam as dificuldades vividas em uma das categorias mais precarizadas da atualidade e majoritariamente masculina no Pernambuco.

Elementos que podem até mesmo passar despercebidos, mas tem consequências nas condições físicas cotidianas das trabalhadoras. O peso da bag, mochila utilizada para transportar alimentos, é conhecido por prejudicar fisicamente amplamente os entregadores e com as mulheres possui outra especificidade. A faixa que se apoia no busto para equilibrar minimamente o peso não é pensada para quem tem seios, Andressa Silva explicou: “Tem que reajustar para a fita ficar abaixo dos seios. Então, se você ficar em locais onde saem muitos pedidos e com refrigerante, aí fica muito pesado, incomoda, entendeu?”

Os meios para aliviar a dor física são limitados e as consequências de adoecer são concretas, porque na ausência de um vínculo trabalhista nem os mínimos direitos são garantidos. Ao passo que todas declaram que gostariam de ter ao menos seguro de saúde para lidar com as consequências do seu trabalho e seguro de vida para que a manutenção daqueles que dependem delas siga, o que resta está colocado é deitar “literalmente com as costas no chão para aliviar a dor na coluna, causada pelo peso da bag ao longo de um dia mais puxado” e respirar fundo.

Estas condições contrastam cruelmente com os lucros bilionários que os donos dos aplicativos obtém, aproveitando-se da precarização do trabalho aprofundada pelo Golpe Institucional de 2016, com a Reforma Trabalhista e levada a níveis inéditos na história recente por Bolsonaro, o Congresso e o aval do STF, que já vinha do alastramento da terceirização durante os anos de governo do PT.

Ainda assim, nem um centavo de lucro existiria se este exército de homens e também mulheres, marcadamente negras e negros, não movimentassem refeições e compras em cima de suas motos e bicicletas, como ficou evidente no #BrequedosApp que ocorreu no dia 1º de julho de 2020. Em meio à pandemia, estas trabalhadoras e trabalhadores demonstraram em todo o país que sua força poderia paralisar tudo. E qual poderia ser a força desta categoria com as mulheres à frente se voltasse a se organizar?

Nós mulheres do Pão e Rosas batalhamos todos os dias para que a condição de possibilitar que coisas sejam produzidas ou transportadas, sendo parte da classe trabalhadora e maioria de mulheres dentro dela, nos faça sermos linha de frente da luta contra a exploração que vivemos.

Neste sábado, 6 de março, o coletivo de mulheres Pão e Rosas convida todas e todos a participarem de uma plenária nacional para debater a batalha pelo feminismo socialista e marxista para lutar contra o patriarcado e o capitalismo nos tempos de crise e pandemia.

Não percam! Acesse o link e se inscreva: Plenária aberta do Pão e Rosas: por um feminismo socialista




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