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Engels e a atualidade da relevância da teoria desde uma perspectiva revolucionária

Gonzalo Adrian Rojas

Engels e a atualidade da relevância da teoria desde uma perspectiva revolucionária

Gonzalo Adrian Rojas

“Sem teoria revolucionária não tem movimento revolucionário”

Lenin: "Que Fazer?"

Vladimir I. Lenin resgata de forma clara no Que fazer? (1903) o prefácio de Friedrich Engels ao livro As guerras camponesas na Alemanha (1874) para destacar a importância que o revolucionário alemão dava à luta teórica. A luta da classe trabalhadora para Engels, como destacaremos, deveria ser conduzida em três direções: a luta teórica, a política e a econômica - prática. Não é casual que Lenin toma esse prólogo de Engels para articular a importância dessa luta teórica no livro que foca na necessidade de construção de um partido revolucionário, com independência política dos governos, dos patrões e do Estado.

Esta ideia de Engels sobre a teoria tem como ponto de partida uma relação entre teoria e práxis que aparece nas Teses sobre Feuerbach (1845) de Karl Marx, comentadas pelo próprio Engels, em particular a Tese XI, quando afirma que até agora os filósofos hão se dedicado a compreender o mundo, porém o que é preciso é transformá-lo. Para Engels também é necessário opor ao idealismo, não um materialismo simples, vulgar, de fato empirista, que acaba se adaptando aos fatos e a realidade, mas ao invés disso desde outra perspectiva teórico epistemológica, o materialismo histórico dialético para, a partir de uma análise teórica, ter uma melhor intervenção na luta de classes que permita transformar a realidade em termos revolucionários.

Também Engels incorpora as ideias sobre a teoria, que Karl Marx apresenta na Introdução a Crítica da Filosofia do Direito de Hegel (dezembro 1843 – janeiro 1844) onde aparece a questão de que a arma da crítica (teoria) não pode substituir a crítica das armas, já que a força material só pode ser derrubada pela força material.

Na Ideologia Alemão e no Manifesto do Partido Comunista, Marx e Engels já haviam afirmado que as ideias de uma época são as ideias das classes dominantes, por isso é central para o proletariado ter sua própria teoria que permita elaborar uma estratégia revolucionária contra o capitalismo que tenha como objetivo sua superação.

Focando no mencionado prefácio ao livro As guerras camponesas na Alemanha, escrito em Londres 01 de julho de 1874, Engels deixa importantes lições sobre a teoria do ponto de vista do marxismo revolucionário.

A primeira ideia que aparece é a vantagem que tem o movimento operário alemão por pertencer ao povo mais teórico da Europa. Estes, para Engels, conservam um senso teórico que já havia deixado até de pertencer apenas a chamada Alemanha “culta”. Isto é importante porque coloca a questão de que o socialismo científico surge a partir da crítica ao conjunto da filosofia, ideologia alemã em geral e as ideias de Hegel em particular, sem isso o socialismo científico não teria sido fundado. Este senso teórico da classe operária permite que assimilem o socialismo científico numa boa escola. Esta preocupação teórica diferencia o movimento operário alemão do inglês, fortemente sindicalista e as confusões que geravam as ideias anarquistas tanto na sua versão proudhoniana na França, como na sua versão Bakunista na Itália e Espanha. Desde o início vemos em Engels que a preocupação pela teoria não remete a um teoricismo abstrato, senão à relação entre teoria e política, e para afirmar uma posição marxista revolucionária era preciso a luta teórica contra o sindicalismo inglês, que de fato separava luta econômica de luta política, e o anarquismo, que negava a necessidade de ação política da classe trabalhadora.

Uma segunda vantagem do movimento operário alemão seria que justamente por haver nascido “depois” que o inglês ou francês, já surge como possibilidade de crítica ao socialismo utópico, de Robert Owen, Saint Simon ou Charles Fourier por exemplo, permitindo a partir dessas críticas e sua superação, também a construção do socialismo científico. O importante do socialismo utópico radica na experiência. Esta experiência do sindicalismo inglês e o socialismo francês, além da crítica aos economistas políticos ingleses, assim como a Comuna de Paris de 1871 nos permite realizar um balanço, tirar lições teóricas e políticas. Por exemplo, da Comuna surgem duas ideias centrais, em primeiro lugar da necessidade política do partido revolucionário ser direção política da classe trabalhadora e também que o Estado burguês não pode ser tomado e colocado a funcionar em benefício do proletariado, mas sim deve se quebrar e a partir desta ruptura criar uma nova forma de organização política num novo regime social, o socialismo como fase de transição ao comunismo onde se definharam o Estado e acabariam as classes.

Engels nos remete ao movimento operário de diferentes países, em cada formação econômica social específica, mas sua perspectiva desde os Princípios do Comunismo, escrito em 1847, que foram rascunhos em forma de perguntas e respostas que contribuíram com a elaboração do Manifesto do Partido Comunista escritos com Marx, é internacionalista, seu combate a todo chauvinismo aparece de forma permanente no conjunto de sua obra.

Como mencionamos, o central em Engels é compreender que o movimento operário agora tem três elementos que com política, método e coesão, fazem a força do proletariado ser invencível em termos históricos, articulando as lutas teóricas com as lutas políticas e as lutas econômicas. Nesse ataque concêntrico aparece a força do movimento operário como invencível.

Esta preocupação de Engels pela teoria será retomada por Lenin, Rosa Luxemburgo, León Trótski ou Antonio Gramsci entre outros marxistas clássicos.

Lenin dedica a Engels a quarta parte do primeiro capítulo do "Que fazer?", intitulada "Engels e a importância da luta teórica". É a partir das reflexões de Engels que o líder da revolução bolchevique na Rússia afirma que sem teoria revolucionária não pode existir movimento revolucionário e reforça que jamais será exagero insistir nesta ideia.

Por sua vez, Rosa Luxemburgo cita também a Ferdinand Lassalle para destacar a importância da teoria e a luta teórica. Rosa articula a luta teórica com a luta política seja em Reforma ou Revolução (1899) polemizando com Eduard Bernstein como em Greve de Massas, partidos e sindicatos (1906) polemizando com Karl Kautsky sempre desde uma perspectiva marxista revolucionária e internacionalista.

Trótski em Bonapartismo e fascismo (1934) expõe a enorme importância prática de uma orientação teórica correta e fundamentalmente em momentos de crises e conflitos. Mudanças na situação política permitem diferenciar diferentes regimes políticos no marco do capitalismo e essa melhor caracterização dos regimes do entre guerras permite uma melhor intervenção na luta de classes desde uma perspectiva anticapitalista e socialista.

Enquanto Gramsci, fundador do comunismo italiano afirmará que não existem intelectuais neutros, ou são intelectuais a serviço do príncipe moderno, neste sentido, o partido político da classe operária ou são intelectuais a serviço do bloco histórico dominante.

Mas essa importância da teoria destacada por Engels tem total atualidade, depois de décadas de descontinuidade revolucionária, de reação neoliberal, de restauração capitalista em países onde o capital havia sido expropriado, em alguns mesmo de forma burocrática e de pós-modernismo como espírito de época, que pretendeu desterrar a ideia de revolução, assim como a necessidade de construção de um partido revolucionário. Afirmaram-se ideias como as do fim da história de Francis Fukuyama, o fim das ideologias, o fim da luta de classes e da classe trabalhadora como sujeito histórico com a adaptação das direções populistas socialdemocratas e stalinistas ao credo neoliberal como bem afirma Perry Anderson em Balanço do neoliberalismo.

Como mencionamos, um dos balanços que faz Engels da derrota da Comuna de Paris, é a ausência de partido revolucionário. Frente a crise e a aceitação de teorias como o fim da classe operária, também acabaria a necessidade da construção de partidos revolucionários, surgindo como proposta fazer partidos amplos baseado nos movimentos sociais, sem delimitação de classe nem independência política, onde participaria a classe trabalhadora mais como um ator social mais entre muitos outros sem hierarquia alguma, como poderia ser as experiências de Syriza na Grécia , Podemos na Espanha, a Frente Ampla chilena ou PSOL no Brasil.

Outros grupos políticos se confinam no seu sectarismo como poderia ser o caso do PSTU, auto proclamatórios, são incapazes de elaborar uma política hegemônica.

Mas no marco de uma crise orgânica, econômica, política e social que se aprofunda com a crise sanitária do COVID-19 se abre a possibilidade de ressurgimento revolucionário no século XXI. Para isto é central reatualizar as condições subjetivas depois de décadas de ofensiva capitalista o que abre possibilidade de luta para construir partidos no nível nacional e internacional, mas para isso a reconstrução de uma teoria marxista revolucionária com centralidade estratégica é fundamental como vem fazendo os partidos que fazem parte da Fração Trotskista – Quarta Internacional como o Movimento Revolucionário dos Trabalhadores (MRT) no Brasil. A Conferência Latino-americana e dos EUA, organizada pela FT-QI, realizada este ano foi um ponto alto nesse sentido.

No bicentenário de seu nascimento, Engels nos deixa como legado a relevância da luta teórica. A luta teórica é central para a reconstrução de uma subjetividade revolucionária são indispensáveis frente ao antiteoricismo de boa parte da esquerda, “cirandeira”. Necessitamos uma esquerda que articule teoria e práxis no sentido de Engels – para defender o comunismo como alternativa – o de Lenin e Trótski, livre de todo burocratismo stalinista.

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