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Juventude Faísca | Encontro Nacional debate o trotskismo como ferramenta para a juventude no Brasil de Bolsonaro

Nos dias 10, 11 e 12 de dezembro, a juventude Faísca realizou um encontro nacional no Rio de Janeiro, com participação presencial e remota de delegações do Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo, Distrito Federal, Goiás, Bahia, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Maranhão, debatendo entre reforma e revolução, como o trotskismo precisa ser uma arma para a juventude no Brasil de Bolsonaro.

Marie CastañedaCoordenadora do CACS Marielle Franco da UFRN (Ciências Sociais)

Mariana DuarteEstudante | Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo

segunda-feira 13 de dezembro de 2021 | Edição do dia

Confira aqui como foi a programação e resoluções e moções da plenária final, rumo à refundação da Faísca, nos preparando para debater estas ideias com jovens estudantes e trabalhadores em todo o país.

O encontro começou com uma mesa de debate intitulada A Crise capitalista: reforma ou revolução? com Odete Assis, mestranda em literatura na UFMG, co-organizadora do livro Mulheres Negras e Marxismo e fundadora da Faísca, e Iuri Tonelo, pesquisador em sociologia da UFPE e autor dos livros No entanto, ela se move e A crise capitalista e as suas formas. Odete partiu de debater com as mazelas que atingem hoje a juventude e a necessidade de olhar além das saídas distópicas colocadas, buscando inspiração nos processos da luta de classes que a juventude protagonizou, entendendo a história da humanidade como a história da luta de classes e apresentou os processos do Black Lives Matter nos Estados Unidos em 2020 e da Revolta Chilena em 2019 e suas lições, com centralidade na auto-organização e na independência de classe, já que foram processos desviados para a institucionalidade. Iuri recuperou a história de um artista revolucionário, descrevendo os percalços e dificuldades que encontrou para perseguir o grande sonho de realizar a maior obra que poderia mesmo com a saúde e a própria Revolução Francesa deterioradas, para debater o enfrentamento que os revolucionários precisam ter com os momentos reacionários, desdobrando as características da crise econômica internacional aberta em 2008, o papel que as organizações conciliadoras cumprem no fortalecimento da extrema-direita e da direita, e como enfrentar isso levantando um programa que jamais ignore as questões estruturais determinantes, como a necessidade da reforma agrária, uma reforma urbana radical e outras. Vinculou este programa à necessidade de nos ligarmos aos irreconciliáveis, com uma reflexão sobre história brasileira, resgatando o legado de Zumbi dos Palmares e Dandara, irreconciliáveis que aterrorizaram a coroa portuguesa. E que atualmente do ponto de vista internacional como os revolucionários do PTS (Partido dos Trabalhadores Socialistas) na Argentina, na Frente de Esquerda Unidade, que batalham por um programa para que os capitalistas paguem pela crise, ou o PTR no Chile, que denunciou cada desvio da Revolta de 2019 e hoje batalha por uma saída independente frente ao reacionário Kast.

Na manhã do sábado aconteceu a segunda mesa, com Letícia Parks, professora, fundadora do Quilombo Vermelho e co-organizadora dos livros Mulheres Negras e Marxismo e A Revolução e o Negro, e Diana Assunção, organizadora dos livros A Precarização tem rosto de mulher, Feminismo e Marxismo e Lutadoras, histórias de mulheres que fizeram história. Letícia fez uma recuperação histórica do papel do marxismo no combate antirracista desde 1850, vinculando a existência de um combate antirracista revolucionário à Teoria da Revolução Permanente de Trotski e às experiências dos trotskistas sul-africanos contra a burocratização stalinista, passando por como as quatro internacionais comunistas abordaram a questão negra ao longo da história. Diana apresentou a Teoria da Revolução Permanente, combatendo as falsificações de todo tipo das quais essa discussão é alvo, em especial as stalinistas e os exemplos históricos que demonstram quão reacionária é a teoria do socialismo em um só país desenvolvida por Stalin. Logo, vinculou a luta pela emancipação das mulheres à luta pela Revolução Permanente, a experiência da Revolução Russa e o papel reacionário do stalinismo para as mulheres e um debate sobre o enfrentamento ao adoecimento mental da juventude e as aspirações que podemos ter como revolucionários, em combate frontal à resignação que a burguesia quer fazer a juventude engolir.

No sábado à tarde, foi realizada uma plenária nacional da Faísca. Luíza Eineck, estudante de Serviço Social da UNB e Giovana Pozzi, Coordenadora do Centro Acadêmico Dionísio, do Teatro da UFRGS, retomaram as batalhas dadas pela juventude Faísca desde sua fundação, destacando os desafios de manter uma política com independência de classe frente ao golpe institucional de 2016, a partir da necessidade de levantar uma juventude anticapitalista e revolucionária que defendesse a luta contra o golpe de forma independente do PT, e discorreram sobre os impactos concretos dos ataques implementados desde então, avançando na destruição dos direitos trabalhistas e condições dos serviços públicos, o que atinge em cheio a juventude com a Reforma Trabalhista, da Previdência e a Lei do Teto de Gastos. Neste sentido, resgataram as principais lutas que a juventude protagonizou no país desde então, e as batalhas pela auto-organização que demos nas universidades e locais de trabalho, defendendo a unidade entre juventude e classe trabalhadora, para batalhar pela superação das direções burocráticas e as experiências junto às greves operárias neste ano de 2021 e em momentos anteriores. Por fim, colocaram a importância de construir uma juventude que apresente um programa anticapitalista para se enfrentar com a crise criada pelos capitalistas, a partir de retomar uma proposta de Manifesto Programático que serviu como base para os debates na plenária.

Após contribuições de mais de 40 jovens trabalhadores e estudantes, Mariana Duarte, estudante de Letras na USP, resgatou os principais eixos de contribuições e foi aprovada uma comissão nacional que finalizará o manifesto programático, base da discussão da plenária, a partir dos aportes que foram realizados ao longo da discussão, o que foi seguido pela apresentação das resoluções gerais, que foram aprovadas junto às moções e podem ser lidas abaixo:

INTERNACIONAL

Estamos ao lado e nos sentimos parte da luta das e dos trabalhadores, juventude, negras e negros, mulheres, LGBTs e povos oprimidos de todo mundo. Apoiaremos ativamente cada processo de luta internacional, desde as demandas mais elementares e contra os ataques, como parte da nossa luta contra o sistema capitalista explorador e opressor, sempre com uma perspectiva de independência de classe, internacionalista e revolucionária. O capitalismo e seus governos destroem o planeta, destroem nossos biomas, nossas florestas e o meio ambiente de conjunto. Destruamos o capitalismo! Viva a luta dos trabalhadores e povos oprimidos de todo o mundo! Que os capitalistas paguem pela crise!

NACIONAL

Seguir nossa luta pelo Fora Bolsonaro e Mourão, combinado com a luta contra o conjunto das instituições desse sistema político como o Congresso e o STF, que atuam a serviço da grande burguesia nacional e estrangeira. Nessa luta, não vemos como aliados os governadores e a burguesia que se diz opositora e “democrática”, mas apoiam os ataques contra os trabalhadores, a juventude e setores oprimidos. Sem confiar na conciliação de classes, no programa e estratégia institucional do PT, lutaremos com toda força pela mais ampla unidade da classe trabalhadora com a juventude e os movimentos sociais na luta contra os ataques, este governo e o regime político do golpe institucional de 2016.Contra qualquer saída e tentativa de desvio institucional da nossa luta, conectamos cada batalha política cotidiana à luta por uma revolução socialista no Brasil e em todo o mundo.

UNIVERSIDADE

Ampliar a campanha pelo direito de estudar da juventude, batalhando ainda mais para que todas as organizações de juventude que se reivindicam socialistas e combativas a construam também. Essa luta não pode seguir fragmentada em cada universidade, chamamos as organizações de esquerda a batalhar para que seja uma campanha de toda a UNE e que convoque a juventude que está fora da universidade para essa luta. Precisamos de uma campanha nacional que reúna todas as entidades e organizações do movimento estudantil, sem confiança de que as reitorias e todas as estruturas de poder antidemocráticas das universidades vão conceder o direito à permanência estudantil sem luta. Por permanência estudantil plena para todos os estudantes que necessitam! Por uma universidade a serviço da classe trabalhadora e das maiorias exploradas e oprimidas.

JUVENTUDE TRABALHADORA E PRECARIZADA

Em defesa do futuro da juventude precarizada e pobre. Lutamos contra a precarização do trabalho e pelo direito à educação pública para toda a juventude. Pelo direito de estudar da juventude, com bolsas de estudo e permanência para todos, todas e todes que precisam. Basta de subemprego e terceirização, pela redução das jornada de trabalho e por empregos com plenos direitos para todos. Abaixo a repressão policial que ceifa a vida da juventude negra! Pelo direito ao lazer e à cultura, basta de repressão às expressões culturais e espaços de lazer da juventude, pela liberdade de toda e a arte! A crise capitalista provoca degradação das condições de vida e perspectiva de futuro que, junto aos impactos da pandemia, massificam distúrbios psicológicos. Nos recusamos a aceitar a resignação, defendemos o direito a tratamento garantido pelo SUS e apontamos que a sede de lucro da burguesia e seu sistema miserável estão na raiz deste problema social.

EM DEFESA DO MARXISMO

Promover debates e iniciativas, como os grupos de estudos, que sejam parte da batalha em defesa do marxismo e para a apropriação da tradição revolucionária clássica que tem como principais expoentes Marx, Engels, Lenin, Trótski, Gramsci e Rosa Luxemburgo, desde uma perspectiva contra a tradição stalinista em suas distintas variantes.

CONSTRUÇÃO DE JUVENTUDE

Esta plenária dá início a um processo de debates e transformações que vão culminar numa plenária nacional virtual no próximo ano. Votamos uma comissão nacional provisória responsável por conduzir a organização e cronograma desse processo, tomando o retorno do calendário acadêmico e calouradas como oportunidades especiais para debater as nossas ideias massivamente com a juventude. Em cada estado e universidade, promoveremos intensos debates sobre todos estes aspectos, entre militância do MRT, independentes que já decidiram se incorporar a este processo e debatendo com novos setores que podem ser parte de construir essa perspectiva conosco.

MOÇÕES

1. Punição de todos os responsáveis pelas Chacinas do Jacarezinho e Salgueiro no Rio de Janeiro. Chega de chacinas e operações policiais. Por uma investigação independente!
2. Toda solidariedade operária e popular às vítimas do alagamento no Sul da Bahia e em Minas Gerais que colocou em estado de emergência 51 municípios e 220 mil pessoas. Por um plano de emergência!
3. Toda solidariedade à classe trabalhadora e juventude argentina que hoje toma as ruas contra o FMI e pelo não pagamento da divida pública
4. Todo apoio à luta dos trabalhadores da Proguaru. José presente!




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