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80 ANOS DO ASSASSINATO DE LEÓN TRÓTSKI

Emilio Albamonte: entrevista sobre León Trótski e a atualidade de seu pensamento

segunda-feira 24 de agosto| Edição do dia

Para culminar esse ato de homenagem a Leon Trotski, nós da TVPTS pensamos em lhe fazer algumas perguntas para refletir sobre o significado histórico de Trotski e de sua corrente, e também da atualidade do trotskismo nessa situação de crise econômica, política e social agudizada pela pandemia do coronavírus. Para começar, qual o significado histórico do teórico e político revolucionário que estamos homenageando hoje?

Sim, para as novas gerações: No momento de seu assassinato, Trotski era uma figura temida. Não só pelo stalinismo, mas também por todos os governos capitalistas. Winston Churchill inclusive o descreveu, mesmo estando no exílio, isolado, como “o ogro da subversão internacional”.

Nos anos 1930, nos campos de concentração da fria Sibéria, era possível escutar centenas de fuzilados morrerem ao grito de “Viva Trotsky!”. Qual era o significado desse grito que vinha das bocas daqueles militantes bolcheviques veteranos, que em muitos casos haviam sido protagonistas da Revolução de 1917 e haviam lutado no Exército Vermelho?

Era um protesto com o último fôlego de vida, contra a liquidação da democracia dos Sovietes, os conselhos de trabalhadores e camponeses, por parte da burocracia que fazia retrocederem brutalmente as conquistas de democracia operária. Era um protesto contra a coletivização forçada e o massacre de milhões de camponeses. Contra a instauração do gulag. Ou seja, contra a expropriação política do poder da classe trabalhadora e a constituição de um regime totalitário.

Essa coragem e lucidez era também compartilhada por muitos dos seguidores de Trotski no ocidente. Lembremos de Rudolf Klement, que carregava consigo os documentos de fundação da IV Internacional e apareceu boiando no Sena, assassinado pela KGB, poucos dias antes da Conferência de fundação em setembro de 1938. Lembremos de Martín Monath, um jovem militante que, na França ocupada pelos nazis, organizou células no Exército alemão, que foram descobertas e provocaram o assassinato de todos os integrantes pela Gestapo, dando um enorme exemplo de fraternidade internacional dos trabalhadores. Mesmo fracassando em seus objetivos, conseguiram dar um exemplo de como milhões de vidas humanas poderiam ter sido salvas, se os grandes partidos social-democratas e stalinistas, ao invés de impulsionar o ódio chauvinista entre nações, tivessem desenvolvido em grande escala a confraternização entre os trabalhadores, agora fardados.

Antes do estouro da Segunda Guerra, os trabalhadores haviam protagonizado enormes revoluções que foram brutalmente traídas por social-democratas e stalinistas, como as revoluções chinesas de 1927 e 1928, a grandiosa revolução e guerra civil espanhola da década de 1930, ou o levante operário na França, traído pela Frente Popular. Só Trotski e seus seguidores no Ocidente, encarcerados, exilados e assassinados por nazistas, stalinistas e até pelos capitalistas “democráticos”, se opuseram à política suicida que relataram camaradas da Alemanha e que culminou com a Segunda Guerra Mundial.

Portanto, o grito “Viva Trotski!” das centenas que enfrentavam o pelotão de fuzilamento, sintetizava essas grandes lutas e essas grandes derrotas da classe trabalhadora internacional.

Como poderíamos definir a situação logo após a morte de Trotsky?

Muitas coisas mudaram e outras não. O fascismo foi derrotado pelos Aliados na Segunda Guerra Mundial, como todos sabemos. A burocracia stalinista sobreviveu algumas décadas após o triunfo da União Soviética sobre os Nazis, durante um período parecia que realizava seu sonho de industrialização e de socialismo em um só país, mas logo, como não poderia ser diferente, a economia estancou pela pressão do imperialismo mundial e foram derrotadas as tentativas de revoluções políticas na Polônia, Hungria e Tchecoslováquia. Se tornando realidade, no fim, uma das previsões de Trotski em seu grande livro A Revolução Traída, de que a burocracia dirigente iria se transformar em restauradora do capitalismo.

Certamente, houve muitas mudanças, principalmente depois da Segunda Guerra Mundial, mas como chegamos à situação atual?

Em primeiro lugar, tenho que lhe dizer que o movimento Trotskista ficou sem direção. Deutscher o definiu como um barquinho pequeno com uma vela enorme, essa vela desapareceu sob a picareta stalinista. Na situação objetiva, mudou-se tudo para que nada mude, como disse o romancista italiano Lampedusa em O Gatopardo. O stalinismo fez um pacto nos acordos de Yalta e Potsdam com os vencedores capitalistas da Guerra, Estados Unidos e Inglaterra, onde foram divididas as zonas de influência para, sem deixar de competir entre eles, desviar ou derrotar a revolução internacional. Não puderam frear, no entanto, grandes revoluções como a chinesa, ainda que conseguiram com que grandes processos de independência no mundo semicolonial não chegassem ao socialismo. O capitalismo, que ganhou algumas décadas de ar reativando a produção para cobrir o que foi destruído na Guerra, o famoso Plano Marshall, não só seguiu nos submetendo a crises recorrentes, como a do petróleo nos anos 70, como também, assustado pelas enormes lutas de trabalhadores desde o final dos 60 até metade dos 70, iniciou a grande contra-ofensiva neoliberal, conseguindo infligir uma grande derrota aos trabalhadores não só no ocidente, como também conquistando para o capital o que chamávamos de Estados operários, fundamentalmente Rússia e China. Apesar desses avanços, não pode evitar a grande crise de 2008, que abriu um ciclo histórico de crises, o qual agora se aprofunda com a pandemia. Parece que estamos vivendo não só uma crise conjuntural do capitalismo, e sim uma crise histórica mais parecida com a dos anos 30 do que com a série de crises que viemos presenciando desde os anos 70.

Por que você diz que se parece com uma crise histórica como a dos 30?

Veja, em primeiro lugar, porque é parte de um ciclo aberto em 2008. Apesar das recuperações parciais, o capitalismo nunca conseguiu restaurar a situação de crescimento anterior a daquele ano. Nos primeiros meses da pandemia se levantou a ameaça de falências massivas de empresas, com a consequência de milhões de novos desempregados e redução dos salários e pobreza generalizada. Enquanto isso, os estados nacionais acionam resgates multimilionários que agravam seus enormes déficits e dívidas sem encontrar nenhuma solução estrutural para as economias de seus países.

A chamada “globalização” que marcou a história das últimas décadas, agora em crise, deu lugar ao “America First de Trump, às lutas por tecnologias como o 5G, à retomada da corrida armamentista, às guerras comerciais contínuas e às tendências nacionalistas que surgem nos diferentes países, e junto com isso, não se pode esquecer, uma renovada luta de classes.

Estão sendo feitas diversas análises sobre as consequências econômicas e sociais da crise, mas se fala muito pouco da luta de classes como fator decisivo.

Sim. Como vimos durante 2018 com os coletes amarelos na França ou com as grandes greves operárias dirigidas pelos trabalhadores ferroviários e rodoviários contra a reforma das aposentadorias, o mundo também foi sacudido por uma onda de revoltas por motivos econômicos, democráticos e políticos, que atravessaram de Hong Kong no extremo oriente, passando pelo oriente médio com Líbano, Irã e Iraque. Ou no norte da África, com Argélia e Sudão. E chegou até o nosso subcontinente, América Latina, com a grandiosa revolta da juventude e dos trabalhadores chilenos. Sem esquecer das jornadas revolucionárias do Equador, das grandes lutas dos trabalhadores colombianos, da resistência contra o golpe na Bolívia. Tudo isso pra procurar resumir os acontecimentos dos últimos anos. Mas devemos lembrar que, logo após a crise de 2008, houve uma revolução derrotada no Egito e todo um processo que se chamou de Primavera Árabe, e grandes ações de massas em países decisivos como Turquia, Espanha e Brasil. Se fala pouco de luta de classes, mas esteve muito presente desde o início da crise de 2008.

Hoje, quase no início dessa nova etapa da crise provocada pelo coronavírus, vemos a maior mobilização da história dos negros oprimidos e explorados no coração racista do imperialismo ianque.

Então como você definiria a situação atual de conjunto?

Olha, se tenho que definir em poucas palavras, pra mim parece que entramos em uma nova etapa onde se atualizam as características da época imperialista, que Lenin, Trotski e a Terceira Internacional caracterizaram como de crises, guerras e revoluções.

Fica claro quais são, para você, as condições objetivas para que os marxistas revolucionários avancem. Quais seriam as condições subjetivas para que essa etapa não termine em novas derrotas e frustrações? Que possibilidades você vê para revoluções socialistas?

Vou tentar responder sinteticamente, mas é uma pergunta que abre para uma resposta muito grande. Tenho que começar dizendo que como balanço do século XX, apesar do caráter de bombeiro do stalinismo e da social-democracia, houveram grandes processos revolucionários. Muitos deles foram derrotados ou desviados dos seus objetivos socialistas por todo tipo de direções. Já no distante 1906, se referindo a social-democracia alemã, que naquele momento contava com milhões de votos e filiados e dirigia grande parte dos sindicatos, Trotski previu que, pelo caráter centrista de sua direção, em situações agudas ela poderia se transformar em um fator enormemente conservador.Isso foi antevisto uma década antes da social-democracia votar no parlamento os créditos que permitiram a carnificina da Primeira Guerra Mundial. Fizeram assim todos os poderosos partidos europeus da Segunda Internacional: saíram em defesa de suas pátrias burguesas e traíram seus juramentos de enfrentar a guerra com greves gerais coordenadas. Esse tipo de traições se repetiram e aumentaram com stalinistas de todo tipo. Isso se transformou em um curso de ação comum, que incluiu inclusive guerras entre países que haviam derrotado o capitalismo. O caráter revolucionário do trotskismo em vida de Trotski, sem dúvida, é que ele e sua corrente se opuseram e levantaram alternativas revolucionárias frente a todo esse ciclo de grandes revoluções e traições.

Logo após a morte de Trotski e da Segunda Guerra Mundial, o próprio movimento trotskista, agora decapitado, se tornou conselheiro desses grandes partidos reformistas ou no outro extremo se refugiou em posições propagandísticas sectárias. Não puderam ser alternativa desse caminho que terminou na perda, pelas mãos do capitalismo e do imperialismo, de muitas das grandes conquistas da classe trabalhadora.

Então você afirma que a situação que a situação subjetiva é muito ruim para a grande crise que enfrentamos?

Sim e não (risos). É preciso ver dialeticamente. A existência da URSS e as revoluções triunfantes davam grande autoridade para direções como a maoísta ou a cubana em nosso subcontinente para implantar políticas de conciliação de classes que incidiam qualitativamente para que toda nova revolução fosse desviada ou traída, muitas vezes combinado a políticas ultra-esquerdistas como a estratégia de guerra de guerrilhas, que impulsionaram os cubanos nos anos 70 em nosso continente. A história do século XX tem algumas revoluções triunfantes sob direção stalinista ou pequeno-burguesa, que em vez de lutar pela extensão de suas conquistas, tiveram como objetivo realizar o socialismo em um só país. No que, após alguns êxitos iniciais, retrocediam, se estancavam e finalmente transformavam as burocracias dirigentes em restauracionistas do capital, provocando um grande retrocesso na classe trabalhadora não só nesses países como a nível internacional.

A parte positiva dessa tragédia histórica é que hoje não existe, frente à crise que enfrentamos, enormes aparatos com milhões de militantes e prestígio para frear, desviar e finalmente derrotar os processos revolucionários que se abram. Para lhe dar um pequeno exemplo, nossos jovens companheiros e companheiras do Chile que formam o PTR, conseguiram fazer uma coordenadoria em Antofagasta, no norte do país na zona mineira, e conseguiram para a greve geral uma frente única com a CUT, dirigida pelo Partido Comunista, que convocou um ato unificado de toda a região em meio ao processo de greve e revolta, que reuniu mais de 20 mil trabalhadores.

Isso era impossível, é claro, na década de 70, quando o PC tinha dezenas de milhares de militantes, formava parte do governo e terminou apoiando a monstruosidade de colocar Pinochet no gabinete de Allende, o que permitiu que os golpistas controlassem todas as posições um mês antes do golpe. Se, de um ponto de vista, esse ciclo de derrotas e resistência isolada debilitou a moral e inclusive a estrutura do proletariado, do ponto de vista dos obstáculos a serem enfrentados, estamos muito melhor. Esses aparatos entregaram conquistas e revoluções as custas de se desvalorizar e perder a maioria da hegemonia que exercia sobre as classes trabalhadoras.

Para concluir a resposta à sua pergunta, a profundidade da crise que se evidenciará no próximo período e a debilidade de todo tipo de direção reformista ou burocrática é uma vantagem para que nós, os trotskistas, se desenvolvemos e impulsionamos a acumulação de quadros que temos alcançado em muitos países, podemos jogar um papel decisivo nos levantes dos trabalhadores que se vislumbra.
Talvez muito superior ao desempenhado pelos trotskistas em crises e ascensos anteriores.

Onde se expressa hoje o movimento de massas?

Os social-democratas reformistas do ocidente se transformaram abertamente em neoliberais. Incluindo grandes partidos stalinistas de massas, como o italiano, se tornaram também diretamente neoliberais. Os partidos comunistas como o francês, o uruguaio e o chileno, são incomparavelmente mais fracos agora que em seu momento. As novas formações reformistas, ou neorreformistas (como nós chamamos) como o Syriza e o Podemos, são fenômenos essencialmente eleitorais, sem militância, portanto também são expressão dessa debilidade.

Para responder sua pergunta até o fim, importantes setores de massas, com grandes diferenças entre países, seguem se expressando nos sindicatos, que mesmo sendo impotentes e sem prestígio, constituem o lugar central onde muitas vezes se expressam as lutas das e dos trabalhadores. Por isso é preciso trabalhar neles.

Suas cúpulas burocratizadas oscilam entre exigências de reformas que em geral são impotentes, quando não se transformam diretamente em agentes da contrarrevolução, como fizeram na Argentina na década de 70 formando parte da Triple A, que assassinou 1500 dos melhores ativistas operários antes do 24 de março de 1976.

No Programa de Transição, Trotski afirma que os sindicatos não agrupam, no melhor dos casos, mais que 25% da classe trabalhadora, mas que muitas vezes neles e em suas organizações de base (corpos de delegados, comissões internas etc) se encontram os setores mais conscientes e organizados. É por isso que sustenta que quem dá as costas aos sindicatos, dá as costas às massas.

É preciso ganhar peso militante dentro deles para arrancar das cúpulas burocratizadas das suas poltronas, conseguir chamados à luta para que, na própria ação, por mínima que seja, a classe trabalhadora termine de fazer experiência com essa casta apodrecida e nos permita conquistar os sindicatos para uma luta de classes consequente.

Claro que a luta dentro dessa minoria da classe trabalhadora não é suficiente para dirigir as grandes massas que entram em combate em um processo revolucionário. É preciso levantar um programa que estabeleça a hegemonia dos trabalhadores sobre a imensa massa de precários informais que a crise faz aumentar diariamente. A luta por recuperar nossas organizações é inseparável de unir as fileiras dos trabalhadores, hoje divididos entre empregados, precários e desempregados, tendo também uma política para o imponente
movimento de luta das mulheres, para o movimento negro, para os imigrantes e para as classes médias arruinadas, para que não sejam enganadas pela direita.

Tudo isso deve nos encorajar para que, se a crise se desenvolve e atuamos bem, teremos uma oportunidade para que possamos forjar partidos com influência de massas e refundar a Quarta Internacional. E nisso esperamos confluir com as tendências de nosso movimento que busquem, como nós modestamente fazemos, levantar um programa e uma estratégia consequentes. Sem ir mais longe, o êxito da Rede Esquerda Diário, com milhões de acessos nos momentos agudos de luta de classes, e que são editados diariamente em vários idiomas, parece antecipar essa perspectiva.

Você disse que se abre uma oportunidade para que os trotskistas possam construir partidos revolucionários em diferentes países e reconstruir a IV Internacional. Mas o que significa ser trotskista hoje no século XXI?

Sim, que difícil dizer em poucas palavras. Alguns companheiros dizem que a definição de “trotskista” só remete a um “problema ideológico”, dando a entender que não é central do ponto de vista de desenvolver uma prática revolucionária hoje. Não se trata de um problema simplesmente de “nomes”. Quando falamos do “trotskismo” não nos referimos a mais uma ideologia, como pode se professar essa ou aquela religião, como ser católico, protestante ou budista, mas a uma teoria com bases científicas que fundamenta um programa e uma estratégia para que as e os explorados possam vencer em sua luta contra os exploradores. Tudo isso está condensado na Teoria/Programa da Revolução Permanente e no Programa de Transição, que nos dão um tipo de GPS para percorrer o caminho que nos leve ao triunfo da classe trabalhadora e dos oprimidos a nível nacional e internacional.

Para as novas gerações, qual é a teoria do trotskismo?

Os camaradas que me antecederam explicaram diferentes aspectos da teoria da Revolução Permanente.

Já no século XXI é evidente que não é mais do que uma ilusão pensar que os países atrasados, ou chamados de subdesenvolvidos, vão se desenvolver e libertar centenas de milhares que vivem na miséria em todo o mundo das mãos das burguesias locais, atadas por milhares de laços com o capital financeiro internacional.

Na América Latina, a até poucos anos, vivemos um ciclo de ascenso daqueles que apostaram em desenvolver as famosas burguesias nacionais como Lula, os Kirchner ou Chávez. Somente vendo o desastre no qual ficou a Venezuela após duas décadas de chavismo, nos poupa de ter que dizer mais. Colocar a culpa somente nos bloqueios e tentativas de golpes imperialistas não é mais que uma desculpa para os seguidores destes governos.

Somente países como Rússia e China, que protagonizaram enormes revoluções onde a burguesia foi expropriada, ainda que tenham tenham degenerado ou tenham se deformado, conseguiram sair do atraso e da dependência, porém o domínio das burocracias stalinista e maoísta respectivamente acabaram prendendo essas revoluções nas fronteiras nacionais, levando à restauração do capitalismo. Mais uma vez, a Teoria da Revolução Permanente mostrou sua superioridade contra as pseudo teóricas do socialismo em um só país.

Essa teoria é só para os países atrasados?

Não. Nos países desenvolvidos, as tarefas são diretamente socialistas, ou seja, não é necessário se livrar das castas latifundiárias, nem do imperialismo que aplica mecanismos de opressão e saque, aí os trabalhadores podem chegar mais tarde à tomada do poder, porque enfrentarão uma burguesia muito mais forte, mas como são países desenvolvidos com uma alta produtividade do trabalho, se tomam o poder, além de emancipar junto os países atrasados, poderão avançar com muito mais velocidade na luta pela redução das horas de trabalho, ou seja, pelos objetivos comunistas do nosso programa. O fato de que os trabalhadores alemães, dirigidos pela social democracia e o stalinismo, não tenham triunfado nem em 1921, nem em 1923, nem em 1929, não apenas permitiu o ascenso de Hitler, mas também deixou a Rússia sozinha em meio a seu atraso, o que explica a maior parte do ascenso da burocracia stalinista, como explicou o companheiro da Alemanha. Imaginemos se o alto nível científico e técnico dos trabalhadores alemães se visse combinado à disposição de combate dos trabalhadores e camponeses russos, nós teríamos evitado o stalinismo, o fascismo e a própria Segunda Guerra Mundial. Esse era o programa e a estratégia de Leon Trotski.

E qual é o programa, ou seja, qual é a compreensão comum das tarefas das massas mobilizadas?

Para libertar o proletariado do sistema de escravidão moderna, de escravidão assalariada, tanto em países atrasados quanto desenvolvidos, vou me referir por um momento não apenas ao escrito literal do programa, mas ao método para que se possa se materializar nas grandes massas.

Os milhões que se mobilizam quando explode um processo revolucionário, não avançam na sua consciência por meio da mera propaganda. Somente uma minoria de trabalhadores avançados que fazem parte da vanguarda e mais especificamente da militância dos partidos revolucionários, podem chegar por esse meio a uma consciência revolucionária. Trotski redata o Programa de Transição em 1938 partindo dessa premissa. Continuando a tradição dos primeiros anos da III Internacional, busca estabelecer uma ponte entre as reivindicações e necessidades atuais das e dos trabalhadores e aquelas que conduzem à tomada do poder.
Para te dar um exemplo simples:

A crise, se se aprofunda, vai trazer o fechamento de fábricas e empresas, então, o que podem fazer os trabalhadores dessas empresas em um cenário onde existem cada vez mais desempregados? Tomá-las e colocá-las para produzir sob controle dos próprios trabalhadores, exigindo a estatização sem indenização, diz o programa de transição. No meu país existe uma grande experiência nesse sentido, onde nós trotskistas estivemos na vanguarda deste tipo de iniciativas. Se a situação que estamos descrevendo dura vários anos e tem a potencialidade de se converter em revolucionária, o que nós prevemos hoje, isso estará colocado não em uma ou duas fábricas mas em ramos inteiros da produção e dos serviços, o que implicaria em um nível de planificação mais geral, buscando fazer uma escola de planificação socialista.

Mas então vem outra pergunta: com quais recursos financeiros estas empresas vão funcionar em meio à crise? Ou vão funcionar sem recursos se baseando em salários que não cobrem o básico para a subsistência, parecido com os desempregados? Somente caso se expropriem os bancos privados e se unifiquem todas as poupanças nacionais em um banco único, os trabalhadores podem impedir que estes recursos financeiros fujam para a especulação e a fuga de capitais, e assim obter dinheiro para que aquelas empresas e indústrias possam funcionar, preservando é claro os pequenos negócios, que sempre são esfolados pelos banqueiros. Algo parecido acontece com os insumos: como vão conseguir os insumos necessários para estas indústrias, a verba, ou seja, os dólares que são necessários para comprar o que precisa ser importado do exterior? Como superar a chantagem e as negociações das corporações capitalistas que controlam o comércio internacional dos países. Por exemplo, na Argentina, esse comércio é controlado por um punhado de transnacionais cerealistas e latifundiárias. As e os trabalhadores têm que impor o monopólio estatal do comércio exterior para colocá-lo à serviço dos interesses das maiorias.

Isso que eu falei é um mero exemplo que indica que, quando a crise se aprofunda e os trabalhadores entram em uma etapa revolucionária, sua consciência vai mudando e avançando na medida que fazem experiências com os problemas que se enfrentam. Não se trata apenas de fazer propaganda, ainda é necessário fazer muita luta teórica e ideológica, mas defender as consignas adequadas em cada momento para que os trabalhadores possam resolver progressivamente as enormes dificuldades que enfrentarão. Tudo isso é certo sempre que se leve em consideração que não temos apenas inimigos externos, como são os capitalistas e seus estados, mas também internos, como são as direções burocratizadas dos sindicatos ou dos movimentos sociais, que tentarão, mediante engano ou repressão, reforçar os preconceitos reformistas dos próprios trabalhadores dizendo-lhes que nada é possível além de serem mendigos da assistência estatal ou patronal.

Onde entra no programa o lugar em que os trabalhadores se devem organizar?

O Programa de Transição coloca que ao redor da luta pelas suas demandas, a classe operária pode e deve desenvolver sua auto-organização para arrancar os sindicatos das mãos da burocracia que os subordina ao Estado e os transforma em agentes dos planos de fome dos próprios capitalistas, e que assim tem que avançar em constituir organizações verdadeiramente democráticas que sejam capazes de aglutinar todos os setores em luta e garantindo, mais além, a auto-defesa contra a repressão e os grupos paraestatais.

Os trabalhadores russos, e logo foi repetido por trabalhadores em numerosas revoluções, criaram organizações muito superiores aos sindicatos. Seu nome original foi soviet, que significa nada mais do que “conselho” e unia os trabalhadores de uma cidade por cima dos sindicatos, com delegados revogáveis e mandatados pelos seus companheiros de trabalho para debater e centralizar as respostas frente a todo tipo de problema criado por uma situação da luta de classes.

Vou te dar um pequeno exemplo. É impossível falar hoje de hegemonia dos trabalhadores, que são os que controlam as alavancas da economia, sobre outros setores oprimidos sem órgãos de democracia direta que fazem confluir a luta dos e das trabalhadores com os poderosos movimentos que se expressaram nas últimas décadas, como por exemplo o imponente movimento de mulheres e dissidências sexuais, ou os movimentos raciais e da luta contra as catástrofes ambientais. Somente este tipo de organização, que é muito superior aos sindicatos, pode unificar e centralizar todas as reivindicações.

Qual é o objetivo final do programa?

Começarei pelo penúltimo. O objetivo é que ao redor desta experiência, a classe trabalhadora e os setores oprimidos cheguem à conclusão da necessidade de conquistar seu próprio poder. Uma república de trabalhadores, a qual Marx chamou de “ditadura do proletariado”.

Assim como a burguesia, sob os regimes democráticos ou autoritários, mantém sempre a ditadura do capital impondo constantemente seus próprios interesses, o proletariado deve impor os interesses das grandes maiorias operárias e populares. Uma república de trabalhadores que funcione em base à democracia dos que trabalham, através de Conselhos de delegados eleitos por unidade de produção (empresa, fábrica, escola, etc), para que governem os trabalhadores no sentido mais amplo do termo, não se limitando a votar a cada dois ou quatro anos, mas defendendo cotidianamente o rumo político da sociedade, assim como a planificação nacional dos recursos da economia.

Ou seja, que os Conselhos operários passem de ser órgãos de centralização da luta para ser a base de um novo Estado, das e dos trabalhadores.

Agora, uma das perguntas mais difíceis: como arrancar o poder dos capitalistas e das suas forças armadas e de segurança?

Vou te responder em termos gerais.

Lembro de um artigo recente da revista New Left Review, onde o sociólogo socialdemocrata de esquerda, Wolfgang Streeck, analisa o pensamento militar de Engels e leva o debate para a atualidade para dizer que os avanços tecnológicos, o desenvolvimento dos drones para assassinatos seletivos por exemplo, ou o desenvolvimento de sofisticados sistemas de espionagem informática fazem com que seja necessário hoje descartar uma perspectiva revolucionária.

É uma discussão de primeira importância, já que versa sobre a possibilidade ou não da revolução. O erro fundamental da tese de Streeck é reduzir a força ao seu aspecto técnico-material. Trotski partia da tese do general prussiano Carl von Clausewitz, já que não se trata apenas de “força física” mas também sua relação com o que chamava de “força moral”. No caso de uma revolução operária, o número de trabalhadores e seus aliados, que são infinitamente maiores do que qualquer exército profissional ou de recrutas; e sua disposição de levar a lutar até o final. A isso se soma, obviamente, a qualidade da direção, que não pode ser improvisada na própria luta.

Vejamos exemplos.

Há um século, Trotski analisava o caso das ferrovias, que naquele momento eram um enorme avanço porque permitiam aos exércitos transportar tropas às cidades em uma questão de horas. Ele respondia que não se poderia esquecer que uma verdadeira insurreição de massas supõe em primeiro lugar a greve que paralisa as próprias estradas de ferro. Hoje poderíamos dizer algo similar sobre os sofisticados sistemas policiais de informação dos quais falava Streeck, o que acontece se os trabalhadores das telecomunicações cruzam os braços, ou os da eletricidade cortam o fornecimento de determinados lugares, como costumam fazer os trabalhadores na França? A burguesia poderá ter melhores armas e mais meios para reprimir, mas aqueles que movem a sociedade são os trabalhadores e uma verdadeira insurreição de massas supõe a greve geral, que é a base de toda insurreição.

Já Hannah Arendt, insuspeita de ser trotskista, sustentava que a Guerra Civil espanhola tinha demonstrado que os operários dirigidos pelos anarquistas, armados com pistolas e navalhas, pelo seu enorme número e a divisão das classes dominantes, tinham conseguido triunfar nas cidades onde predominaram, derrotando o exército muito profissional de Franco alçado contra a república. Concluía que, em situações revolucionárias não se pode contar só a quantidade e a capacidade técnica das forças da ordem, mas é necessário ver a disposição para o combate dos oprimidos e a vontade de atirar dos repressores.

A milícia operária tem como objetivo central colocar dúvidas e paralisar essa vontade repressiva.

Por que você disse que era o penúltimo objetivo do programa?

Simplesmente, porque o objetivo final é o comunismo, um conceito que foi deturpado durante grande parte do século passado pelo stalinismo e os chamados “socialismos reais”. Trata-se de recuperar a luta por uma sociedade sem classes sociais, sem Estado, sem exploração e sem opressão. Isso é o comunismo. Nunca pode ser uma questão nacional, mas produto da união e coordenação de todas as forças produtivas da humanidade a nível internacional, e em última instância mundial. Isso potencializará infinitamente a capacidade produtiva da nossa espécie para que os seres humanos se liberem do trabalho obrigatório embrutecedor. Lembremos que a palavra “trabalho” vem de um instrumento de tortura que era utilizado pelos romanos contra os escravos, chamado “trepalium”.

Boa parte da filosofia do século XX se dedicou a insistir unilateralmente sobre os males da tecnologia. Estas visões negativas vão desde visões da extrema direita como o afiliado e simpatizante do nazismo, Martin Heidegger, passando pelos pós-modernos, até visões de esquerda socialdemocrata como Adorno e Horkheimer. Sem ir mais longe, hoje podemos ver montantes de séries que relatam distopias, onde a tecnologia domina os seres humanos, no estilo da Black Mirror. Máquinas que escravizam massas amorfas e indefesas de gente que não pode resistir seu domínio. Não estão fazendo previsões, estão exacerbando alguns traços da ditadura das grandes transnacionais e seus Estados no capitalismo atual.

Somente nós marxistas revolucionários, imaginamos a potencialidade que podem ter os avanços da ciência e da tecnologia para reduzir a um mínimo insignificante o tempo dedicado por cada indivíduo ao trabalho como imposição em uma sociedade não capitalista. Não podemos esquecer que as decisões estratégicas sobre o desenho, a utilização e o desenvolvimento das tecnologias são todas tomadas por pessoas, não pelas próprias máquinas. Não somos escravos de robôs, e sim vivemos sob o domínio das multinacionais e seus estados, a escravidão moderna é a do trabalho assalariado. Tudo, inclusive a ciência e a tecnologia, se subordinam a este mando.

O desenvolvimento da ciência e da tecnologia permite reduzir o tempo de trabalho socialmente necessário para a produção de mercadorias que precisamos para viver. Mas como dizia Marx, sob o capitalismo, isso não se transfoma em maior tempo livre para as grandes maiorias, mas massas de desocupados, subocupados e trabalhadores precarizados que vivem na miséria em um polo da sociedade, e no outro polo toda outra parte da classe trabalhadora que se vê obrigada a deixar a vida no trabalho com jornadas de 13, 14 horas. Tudo para o benefício dos capitalistas e suas grandes multinacionais, e conseguir que 25 milionários tenham a mesma riqueza que metade da humanidade, ao mesmo tempo que destroem o planeta e a natureza.

A conquista do poder pela classe trabalhadora permitiria acabar com essa irracionalidade absoluta e dividir as horas de trabalho, distribuindo-as de forma igualitária, garantindo ao mesmo tempo um salário condizente com as necessidades sociais. A perspectiva da revolução socialista, justamente, é a que pode abrir no século XXI o caminho para colocar os enormes avanços da ciência e da técnica à serviço da libertação da escravidão assalariada, incluindo o trabalho doméstico, empregando assim todas as capacidades humanas em uma relação equilibrada e não predatória com a natureza. Por isso, quando falamos da luta por um Estado dos trabalhadores, nos referimos a um Estado transicional rumo a uma sociedade sem classes onde o Estado desapareça em sua função repressiva.

Como destacava Trotski, o propósito do comunismo é desenvolver a técnica para que a matéria dê ao ser humano tudo que ele precisa e muito mais, mas este objetivo responde a outro fim mais elevado que é o de libertar para sempre os poderes criativos do ser humano de todas as travas, limitações ou dependências humilhantes e que as relações pessoais, a ciência, a arte, já não tenham que sofrer com nenhuma sombra de dominação despótica.

Você quer adicionar algo para encerrar?

Sim. Repassamos rapidamente diferentes problemas com os quais nos enfrentamos. Neste dia de homenagem pelo trágico assassinato de Trotski, considero que a melhor homenagem que podemos fazer para ele é desvendar as oportunidades abertas aos revolucionários pela crise capitalista. Por isso fizemos esse vídeo e essa entrevista só podem encerrar dizendo:

Viva a vida e o legado de Trotski, dedicado a libertar os explorados e oprimidos de toda a terra!

Viva a luta pela reconstrução da IV Internacional!





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