Internacional

CONFERÊNCIA NACIONAL DO PTS

Elementos de caracterização e perspectivas da situação internacional

Claudia Cinatti

Buenos Aires | @ClaudiaCinatti

quarta-feira 23 de dezembro de 2020| Edição do dia

A pandemia aprofundou e agravou tendências anteriores ao coronavírus e que se arrastaram pelo menos desde a eclosão da crise de 2008. Essa crise encerrou a longa hegemonia neoliberal imposta com a derrota/desvio da ascensão de 1968-81, e foi reforçada com a restauração capitalista nos antigos estados operários. O esgotamento do ciclo neoliberal abriu uma nova etapa caracterizada amplamente por: 1) tendências à crises orgânicas (ou crises orgânicas abertas) nos países centrais e periféricos; 2) uma profunda polarização social e política herdada das condições estruturais do neoliberalismo (desigualdade crescente, perdedores com a globalização); 3) crise dos partidos tradicionais que sustentavam o consenso neoliberal, e o surgimento de novos fenômenos políticos de direita e esquerda; 4) o retorno da luta de classes em nível internacional, que teve uma primeira onda com a Primavera Árabe, as greves gerais na Grécia e o surgimento dos "indignados" no Estado espanhol, para citar apenas alguns processos; e uma segunda onda que começou em 2018 com a luta pela independência na Catalunha e a rebelião dos Coletes Amarelos na França. Nessa segunda onda, desenvolveram-se importantes elementos de radicalização, que em alguns países, como o Chile, abriram situações pré-revolucionárias. Embora esses processos tenham sido contidos por uma combinação de repressão e desvio, as classes dominantes só conseguiram estabilizações precárias, sem resolver a relação de forças a seu favor. Parte dessa situação da luta de classes e dos giros bruscos à direita e à esquerda, foi também o golpe reacionário na Bolívia. Esta onda entrou em pausa devido à pandemia e tudo indica que, uma vez terminada, se abrirá um período de fortes conflitos sociais.

Ainda é prematuro fazer definições categóricas sobre a dinâmica da situação internacional. Ainda não se sabe quando ou como a pandemia terminará. Por outro lado, em janeiro de 2021 tomará posse nos Estados Unidos o governo de Joe Biden, o que, se tratando da principal potência imperialista, terá consequências internacionais. Portanto, estas são notas provisórias sobre algumas tendências econômicas, políticas e de luta de classes que começaram a surgir e que servem como marco para pensar a dinâmica da situação na Argentina.

1) O coronavírus continuará sendo um tema de preocupação internacional

Quase um ano após seu início oficial em Wuhan, na China, a pandemia de coronavírus com suas consequências econômicas, políticas e geopolíticas, continuará a ser um fator central na conjuntura internacional, pelo menos no próximo ano. Embora várias vacinas contra a Covid-19 tenham sido aprovadas em novembro, o que implica um avanço em relação às incertezas dos meses anteriores, desafios importantes se colocam à frente, como sua produção em massa, a aquisição pelos estados e os problemas logísticos que envolvem a preservação de vacinas (a Pfizer deve ser armazenada a -70 °) e a vacinação em larga escala das populações. Por outro lado, deve-se levar em conta que as vacinas foram aprovadas em tempo recorde, com um limite mínimo de testes da fase 3 controlados pelos mesmos fabricantes, sejam laboratórios privados ou estados que as produzem (como Rússia e China). Em outras palavras, embora tenham demonstrado eficácia aceitável nesses estudos, sua verdadeira capacidade imunizadora e os efeitos adversos que podem ter serão vistos com o tempo. Além do aspecto sanitário, a falta de cooperação e controle internacional exacerba essas dificuldades.

A médio prazo, a existência de vacinas eficazes pode começar a apontar uma saída, mas no imediato a pandemia continua a causar estragos. É fato que o hemisfério norte, ou seja, as principais potências ocidentais, não conseguiu antecipar com a vacina à segunda onda de Covid-19 que está em pleno andamento. Dificilmente terão uma parcela significativa da população imunizada antes da próxima primavera. Isso tem consequências sanitárias, econômicas e políticas. Os Estados Unidos continuam liderando o ranking das potências com maior número de infecções e mortes (que já ultrapassaram um quarto de milhão de óbitos). O primeiro desafio que Joe Biden enfrentará ao assumir o cargo em janeiro será, sem dúvida, o controle da pandemia tanto no aspecto sanitário, com a gestão e ampliação das operações de vacinação (que começou sob a presidência de Trump com logística do Pentágono), quanto no terreno econômico. Como presidente eleito, ele já luta para encontrar um equilíbrio entre as expectativas de sua base eleitoral de que tome medidas sanitárias e evite confinamentos que ameacem a ainda débil recuperação econômica. Soma-se a isso a oposição dos republicanos, que provavelmente impedirão medidas como pacotes de estímulo fiscal para apoiar a recuperação, fundos para estender o seguro-desemprego ou investimentos estatais em infraestrutura.

Na Europa, a maioria dos países foi obrigada a restabelecer as restrições à circulação e os diversos tipos de confinamento – ainda que mais moderados que em maio-abril –, com o consequente impacto na economia e no humor social. Na América Latina, que com desigualdades foi por muitos meses foi o epicentro da pandemia, com o Peru e a Argentina nos índices mais altos de número de mortes por milhão de habitantes, os alarmes voltaram a soar após relativo alívio, com picos de contágio no Brasil e em outros países.

Tanto a produção quanto o acesso às vacinas e a efetividade estatal nos planos de vacinação são afetados pela competição entre os diversos laboratórios da “big pharma” e por tensões e disputas geopolíticas que seguem uma lógica semelhante às guerras comerciais e tensões interestatais dos últimos anos, com Estados Unidos, União Europeia, Rússia e China como os principais concorrentes.

No campo sanitário, o “nacionalismo das vacinas” é a continuidade das tendências nacionalistas e de maior rivalidade entre potências que vêm se desenvolvendo desde a crise capitalista de 2008. Há uma corrida pelas vacinas. De acordo com a revista Nature, a União Europeia, junto com outras cinco nações (incluindo Canadá, Estados Unidos e o Reino Unido, que foi o primeiro a iniciar a vacinação da população de risco), já havia reservado metade da oferta esperada de vacinas até 2021. A Rússia começou a vacinação antes dos Estados Unidos e da China. Como consequência, os países mais pobres podem ter que esperar até 2024 para imunizar sua população. Tudo indicaria que "o Ocidente" tentará monopolizar as vacinas de seus laboratórios e o resto terá que ser fornecido pela Rússia e China (e Índia, que tem grande capacidade de fabricar medicamentos). No entanto, a OMS já está apontando que essa competição pode até atrasar a saída da pandemia, que só pode ter uma solução global e não nacional.

2) Recuperação incerta. Superendividamento. Aprofundamento da desigualdade

A dinâmica ainda indeterminada da crise sanitária influencia diretamente as perspectivas de recuperação da economia mundial, que, devido às medidas generalizadas de contenção adotadas pelos estados nos primeiros meses da pandemia, sofreu uma contração aguda e sincronizada a nível global, algo inédito desde a Grande Depressão dos anos 1930.

Desde a reabertura das economias, tem ocorrido uma recuperação desigual, que em alguns casos foi até melhor do que o esperado, como nos Estados Unidos, que após contrair 1,3% e 9% no primeiro e no segundo trimestres, registrou crescimento anualizado de 33,1% no terceiro trimestre de 2020 (ainda que, se medido em comparação ao mesmo período de 2019, implique uma contração de 2,9%), e uma redução da taxa de desemprego que estagnou em 6,7%. No caso da China, o crescimento no mesmo trimestre foi de 4,9% em relação ao mesmo período de 2019, o que implica que será a única grande economia a encerrar o ano com números positivos, embora o crescimento de 1,9% seja muito modesto. A previsão para 2021 é que volte a crescer em torno de 8%.

Essa reativação, em especial o dinamismo da economia chinesa, elevou os preços da soja e de outros alimentos, o que pode melhorar as perspectivas a curto prazo dos países exportadores dessas commodities e do petróleo (mas não do setor de mineração, que está em declínio e afeta países como Chile e Peru). No entanto, essa retomada econômica não deve ser confundida com uma tendência consolidada de recuperação, sobre a qual se abrem várias hipóteses: recuperação em L (estabilização em ponto baixo após a queda); em K (dualidade na qual certas atividades e ramos se recuperam e ganham, e outros entram em colapso); em V e W (queda e recuperação, duplo no último caso).

De acordo com a última atualização do FMI, a economia mundial vai contrair em média 4,4% em 2020, e crescerá 5,2% em 2021, o que implica que até o final do próximo ano o PIB mundial será de apenas 0,6% acima do nível de 2019. Para o organismo, sair da recessão pandêmica será um processo custoso.

A OCDE [Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico], em seu relatório atualizado de dezembro, melhorou ligeiramente suas previsões ao conhecer a disponibilidade de vacinas. Mas nesse prognóstico "otimista", a previsão é de que o PIB mundial contraia 4,2% neste ano (5,5% para os membros da OCDE). Mesmo nos cenários mais otimistas, o PIB mundial só poderia atingir o crescimento previsto em 2019 em 2022.

Finalmente, a Oxford Economics concorda com a contração de 4,2% do PIB mundial para 2020, mas reduziu sua previsão de crescimento para 2021 de 5,2 para 4,9% devido ao impacto da segunda onda de coronavírus, à reimposição de restrições na Europa e à disputa entre democratas e republicanos nos Estados Unidos que pode colocar em cheque medidas de estímulo fiscal.

Junto à incerteza quanto ao futuro da crise sanitária, o outro elemento crítico para as perspectivas econômicas é o crescimento do endividamento estatal, que pode levar a uma nova crise da dívida nos países emergentes. Nos países avançados, as dívidas privadas (especialmente as corporativas) e as bolhas de ações (Wall Street teve um ano recorde em meio a uma recessão pandêmica) também são fatores importantes de crise.

Durante este ano, os estados injetaram grandes somas de dinheiro para sustentar a economia. O FMI estima que o estímulo fiscal e monetário foi equivalente a 20% do PIB nos países mais ricos, entre 6 e 7% nos países de renda média, e de 2% nos países mais pobres ou altamente endividados – como a Argentina –, o que implica maior vulnerabilidade a recessões prolongadas.

Kristalina Georgieva [diretora do FMI] desaconselha a retirada prematura de medidas de apoio fiscal (incluindo fundos para contenção social), que são insustentáveis ​​para grande parte do mundo, especialmente para países dependentes e semicoloniais submetidos a programas do FMI, como a Argentina, onde o governo de Alberto Fernández, em meio à pandemia, já começou a aplicar o ajuste para renegociar sua dívida.

Como aponta o economista marxista Michael Roberts, a bomba do superendividamento (estatal e privado) é anterior à pandemia, mas sua potência cresceu exponencialmente a tal ponto que, até o final de 2020, a dívida global será de 277 trilhões de dólares, o equivalente a 365% do PIB mundial. A dívida nacional dos Estados Unidos (que basicamente é a soma dos déficits anuais acumulados) atingiu 23 trilhões de dólares ao final do ano fiscal de 2020, o que representa 102% do PIB. A dívida não ultrapassava o tamanho da economia desde 1946, após a Segunda Guerra Mundial. Economistas próximos de Biden, como Paul Krugman, polemizando com a "austeridade" promovida pelos republicanos contra os governos democráticos, argumentam que a dívida não representa um problema porque a principal potência imperialista é financiada a taxas próximas de 0 ou até negativo, e, dessa forma, liquefaz o peso da dívida. Mas é uma bolha que pode estourar.

Em suma, mesmo nos cenários mais otimistas, praticamente ninguém duvida que a economia mundial, embora cresça em 2021, levará um ou dois anos para recuperar os níveis pré-pandêmicos. Isso não significa que não haja oportunidades para novos negócios e setores da economia que obtenham maiores benefícios, de fato, isso já está acontecendo. Esse é o caso da Amazon, WalMart, Zoom, Facebook e outras empresas que tiveram lucros fabulosos durante a pandemia.

Na verdade, tanto a recessão quanto a recuperação estão aprofundando a desigualdade não apenas nos países atrasados ​​e dependentes, mas também nas potências imperialistas. Por exemplo, nos Estados Unidos, os cinco grandes bilionários americanos – Jeff Bezos, Bill Gates, Mark Zuckerberg, Warren Buffett e Larry Ellison – aumentaram sua riqueza em 26% no mesmo período em que 25 milhões de trabalhadores ficaram desempregados.

A crise atingiu duramente os trabalhadores e setores populares. De acordo com o Banco Mundial, neste ano o número de novos pobres crescerá entre 88 e 115 milhões. E o Relatório Mundial sobre Salários 2020-2021 da OIT [Organização Internacional do Trabalho] observa que, no primeiro semestre do ano, os salários caíram em dois terços dos países, afetando principalmente os salários das mulheres e dos trabalhadores de baixa renda. No terço restante, não é que os salários tenham aumentado, mas que muitos dos empregos mais mal remunerados foram cortados.

Esta profunda crise social, que por enquanto está encoberta por medidas de contenção estatais e pelo impacto da pandemia, é a base material para processos mais agudos de luta de classes e de radicalização política.

3) A presidência de Joe Biden e a ilusão de restaurar a “normalidade” pré-Trump

O triunfo de Joe Biden representa uma tentativa senil de restauração do "centro neoliberal", atravessado por profundas contradições estruturais, que em grande medida impulsionam a polarização. Por isso, o bom senso é considerá-lo um “governo de transição”, ou seja, relativamente débil em seus primórdios. A alta votação que Trump obteve (mais de 73 milhões de votos) e sua insistência de que houve fraude corrói a legitimidade do futuro governo, que terá que lidar à direita com os republicanos (e a fração trumpista), e à esquerda com uma ampla vanguarda jovem que foi a base do "fenômeno Sanders" e expressa uma tendência à radicalização política e à luta de classes. Resta saber até que ponto o governo Biden, que até o momento não integrou nenhum líder da esquerda democrata, poderá desempenhar um papel de desvio da luta de classes. Mas já é um fato que deixará aberto um amplo flanco à sua esquerda. Desde já, a composição do gabinete com ex-funcionários dos governos Clinton e Obama, unidos a mil laços com o establishment e Wall Street, está sendo duramente criticada pelos setores progressistas que conquistaram uma vaga no Congresso e em outros cargos eletivos.

A nível internacional, a substituição na Casa Branca foi saudada com alívio por potências ocidentais, aliados asiáticos, governos de centro-esquerda ou governos não alinhados com a política de Trump na América Latina, pela Igreja Católica, entre outros. Esses atores da "comunidade internacional" esperam que Biden restaure o "multilateralismo" e a política de acordos comerciais dos governos Obama, após quatro anos de crescentes tensões comerciais e geopolíticas. Os primeiros gestos de Biden foram sinais de uma reversão do trumpismo, como a volta ao acordo climático de Paris e ao acordo nuclear com o Irã - ainda que com novas condições e incorporando inimigos do regime iraniano como a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos. E, sobretudo, com uma mudança discursiva.

A consigna "America First" pode desaparecer da retórica da Casa Branca, mas de maneira geral não há condições materiais para restaurar o status quo anterior a Trump. A globalização neoliberal, na qual aliados e parceiros dos Estados Unidos trabalharam para sustentar a liderança americana ao mesmo tempo que colhiam benefícios significativos, é coisa do passado. O esgotamento da hegemonia globalizadora, evidenciado pela crise capitalista de 2008, é o que em grande parte explica o surgimento de tendências nacionalistas expressas no trumpismo ou no Brexit, que não são fenômenos conjunturais.

A União Europeia foi enfraquecida pelo Brexit e pela ação de partidos eurocépticos. Não foi capaz de terminar as negociações do Brexit com o Reino Unido, enquanto a Hungria e a Polônia, dois “membros rebeldes” da UE com governos populistas de direita, bloqueiam a aprovação do orçamento, que inclui o fundo anticovid de 750 bilhões de euros, em chantagem aberta à liderança de Merkel.

4) Declínio da hegemonia norte-americana e surgimento de potências regionais

O declínio hegemônico dos Estados Unidos e a retirada unilateral de Trump deram origem a um certo ativismo de potências intermediárias ou regionais que buscam desempenhar um papel maior nos negócios internacionais. Isso pode implicar no desenvolvimento de conflitos e guerras regionais de magnitude, mesmo que não envolvam diretamente as grandes potências. É o caso da Turquia e da Rússia que, por meio de sua interferência na Síria, ou da guerra reacionária em Nagorno Karabakh, onde a Turquia apoiou a ofensiva do Azerbaijão, pressionam por seus interesses, mas ao mesmo tempo deslocam as potências ocidentais das mesas de negociação e resolução de conflitos. A Síria do pós-guerra é liderada pela Rússia, Turquia e Irã. E em Nagorno Karabakh, o grupo de Minsk deixou de existir e os negociadores da “pax” são a Rússia e a Turquia. Em outro nível, as aspirações hegemônicas do Irã, como resultado indesejado pelos Estados Unidos da guerra do Iraque, fazem parte desse mesmo processo. Enquanto Obama tentava contê-lo comprometendo o regime iraniano com o acordo nuclear assinado pelas grandes potências, Trump voltou à linha dura, impôs sanções e montou uma “frente sunita” de países inimigos do Irã, que passou a restabelecer relações com o estado de Israel. O assassinato do cientista iraniano, considerado o cérebro do desenvolvimento nuclear, muito provavelmente obra dos serviços israelenses, deve ser visto à luz dessas mudanças geopolíticas na região.

Essas tendências de maior rivalidade entre potências e o surgimento de outros polos regionais que complicam os planos dos Estados Unidos e de outros aliados ocidentais, baseiam-se, em última instância, na competição capitalista, nos interesses divergentes das burguesias imperialistas e de seus estados que minam a instituições “multilaterais” da ordem (neo)liberal anterior, baseadas na liderança incontestável dos Estados Unidos. O desenvolvimento de tendências nacionalistas nos países centrais, o acirramento da disputa entre os Estados Unidos e a China e a proliferação de conflitos e tensões regionais e crises políticas impedem as tentativas de coordenação global que, não sem contradições, permitiram evitar que a crise de 2008 se transformasse em uma grande depressão.

5) Competição estratégica entre os Estados Unidos e a China sob o governo Biden

Há várias fontes de tensões geopolíticas de magnitude, como o Oriente Médio, o Cáucaso meridional e, de forma mais geral, a esfera de influência da Rússia, além do fato dos Estados Unidos ainda não terem conseguido se retirar totalmente do Iraque e do Afeganistão. Mas o que sobredetermina as relações e conflitos interestatais é a relação entre os Estados Unidos e a China, as duas principais economias do mundo.

No governo de George W. Bush, a China passou de "parceira" a "competidora" estratégica dos Estados Unidos, embora isso não se traduzisse imediatamente em hostilidade política porque a inércia da relação "virtuosa" entre os dois ainda perdurava. Em seu segundo mandato, Obama buscou se retirar do Oriente Médio para dedicar os recursos militares, políticos e econômicos à região Ásia-Pacífico, e promoveu como principal ferramenta para isolar a China o Tratado Transpacífico, que incorporou todas as economias da região em um bloco com os Estados Unidos, deixando a China de fora.

Trump assumiu uma postura dura contra a China, lançando uma guerra comercial em 2018 que se manteve com intermitências até agora, principalmente focada em minar a vantagem tecnológica da China com o 5G. Responsabilizou o governo Xi Jinping pela pandemia de coronavírus (chamando-a de "vírus chinês"). A política "anti China" foi um dos eixos de sua campanha. Ele aprofundou a militarização do Mar do Sul e consolidou o "quarteto" de segurança anti-China com Austrália, Coreia do Sul, Japão e Vietnã.

Por sua vez, sob a liderança de Xi Jinping e o rígido controle do Partido Comunista, a China abandonou sua tradicional cautela e embarcou em uma política mais agressiva, com projetos ambiciosos como a Rota da Seda, iniciou o rearmamento e modernização de suas forças armadas e avançou em pôr em ordem seu próprio território, reforçando o controle sobre Hong Kong como um sinal de alerta também para Taiwan. E aproveitando o vácuo relativo deixado pelo unilateralismo norte-americano, acaba de assinar o acordo para estabelecer a maior associação comercial do mundo (30% do PIB mundial) com 15 países da Ásia e da Oceania, conhecida como Associação Econômica Integrada Regional (RCEP na sigla em inglês).

Sob a presidência de Trump, as tensões escalaram a ponto de Pequim denunciar que os Estados Unidos estavam avançando em direção a uma nova "guerra fria". A analogia é inexata porque a China não representa um sistema diferente do capitalismo, como era a União Soviética apesar da burocratização, embora seja um capitalismo diferente do Ocidente, com uma forte liderança estatal. E, além disso, enquanto os Estados Unidos e a ex URSS praticamente não tinham trocas comerciais, a China é um dos principais detentores de títulos do tesouro norte americano, sendo um elo fundamental nas cadeias de valor das empresas imperialistas; e, apesar da tentativa de Trump de dissociar a economia com tarifas e medidas protecionistas, isso ainda não aconteceu.

A expectativa dos aliados da União Europeia e da Ásia-Pacífico (e das empresas norte americanas) é que a Casa Branca abandone as guerras comerciais que afetam seus próprios negócios, tendo em vista que a China é o principal parceiro comercial da Austrália, Vietnã, Japão e Coreia do Sul, e que em 2020 se tornou o principal parceiro comercial da União Europeia, deslocando os Estados Unidos.

Até agora, Biden disse que buscará alinhar todos os seus aliados por trás dos Estados Unidos para enfrentar o "comportamento abusivo" (como a transferência de tecnologia) e a violação dos direitos humanos e, ao mesmo tempo, cooperar em questões de interesse comum, como a mudança climática. Mas, concretamente, apenas se sabe que não retirará imediatamente as tarifas de 25% impostas por Trump que cobrem quase metade do total das exportações da China aos Estados Unidos, e que tentará implementar a chamada “fase 1” do acordo que Trump assinou, no qual a China deve aumentar a compra de bens norte americanos em 200 bilhões de dólares. Essa continuidade, pelo menos no início com uma política hostil, tem uma base popular nos Estados Unidos. De acordo com uma pesquisa do Pew Research Center, em 2020, 73% dos entrevistados tinham uma visão negativa da China (eram 47% em 2017, quando Trump assumiu o cargo).

A contradição entre o declínio imperial dos Estados Unidos e a ascensão da China é um processo estrutural de longa data e veio para ficar. Embora hoje a China não conteste a hegemonia mundial, para os Estados Unidos é o principal concorrente estratégico, razão pela qual está no topo das prioridades da estratégia de Defesa e Segurança Nacional. Por isso mesmo, a necessidade de conter e atrasar a ascensão da China é uma política de Estado, embora existam diferenças táticas na forma de fazê-lo: com guerras comerciais e tarifas propostas por Trump, ou com a construção de alianças como o Tratado Transpacífico que permite isolar a China, como Obama tentou com o chamado "pivô para a Ásia" que provavelmente será retomado por Biden. Não é uma estratégia “mercantil” voltada para o déficit comercial, mas uma estratégia global que inclui uma política militar ativa no Mar da China Meridional, na qual os Estados Unidos têm envolvido seus aliados na região – principalmente a Coreia do Sul, Japão, Austrália e Vietnã –, e que teve uma maior continuidade sob Trump.

Em última análise, essa contradição estrutural que apontamos acima é o que explica a agressividade norte americana e coloca em perspectiva uma exacerbação dos confrontos comerciais e tensões geopolíticas.

6) América Latina. Mudança de tendência política, crises orgânicas e luta de classes

A esmagadora derrota dos golpistas na Bolívia teve um impacto regional, enfraquecendo objetivamente as tendências mais reacionárias, como os governos de extrema direita de Jair Bolsonaro e Iván Duque. Esses governos de extrema direita, e de forma mais geral grupos reacionários como o Grupo Lima, receberam um golpe adicional com a derrota eleitoral de Donald Trump, com quem haviam se alinhado incondicionalmente.

Embora a política de Biden para a América Latina ainda não seja conhecida, os governos "progressistas" esperam que ele tenha uma política mais amigável e que possibilite algum tipo de negociação, obviamente mantendo os termos de submissão ao imperialismo norte americano. Essa é a expectativa, por exemplo, do governo Alberto Fernández para a renegociação da dívida com o FMI. De resto, a política de Biden em relação à Venezuela não difere muito da de Trump; ambos reconheceram o golpista Guaidó e trabalham pela emergência de um governo mais próximo dos interesses norte americanos, embora Biden provavelmente tente uma política mais eficaz por meio de restabelecer as relações com Cuba – ainda que em patamar inferior ao "degelo" de Obama – e buscar a colaboração do regime cubano para resolver a crise na Venezuela, como já havia colaborado anteriormente para a assinatura dos acordos de paz na Colômbia. Seu excelente relacionamento com a Igreja Católica e com o Papa Francisco também influenciará a política para a região, que, sob o impacto do coronavírus e seus efeitos econômicos catastróficos, está entrando em uma nova fase de instabilidade política, crise burguesa e conflito social.

Na América Latina, em sintonia com o triunfo de Biden como tentativa de restaurar uma suposta normalidade pré-Trump, o retorno de governos de “centro esquerda” como Arce do MAS na Bolívia; o resultado do plebiscito constitucional no Chile a favor de um constituinte (porém nos termos do desvio negociado pelos partidos do regime); a derrota do bolsonarismo nas eleições municipais no Brasil, nas quais emergiu fortalecida a direita tradicional do “centrão” (como definimos o bonapartismo institucional); exprimem a ilusão de reconstruir uma espécie de “centro político” (incluindo os progressistas e a direita liberal) que, face às tendências extremas, restaura um curso de moderação.

No entanto, as condições materiais tornam extremamente difícil para o "centro" se estabilizar e estão forçando governos supostamente "populares" a fazer ajustes severos. É o caso da Argentina, onde a coalizão governamental da Frente de Todos está em crise por conta do ajuste exigido pelo FMI que Alberto Fernández já está aplicando. Isso significa que no próximo período, e com os ritmos de cada país, aumenta a probabilidade de que se acelere a experiência de amplos setores de trabalhadores, jovens, camponeses, povos indígenas e setores populares com o que consideram seus governos.

A região é uma das mais atingidas no mundo pelo coronavírus. Dados do final de setembro mostraram que, sendo 8,2% da população mundial, a América Latina concentrou 28% de todos os casos e 34% das mortes. Essa proporção provavelmente não mudou.

Esta crise sanitária sem precedentes atualizou os males estruturais de dependência e subordinação ao imperialismo dos EUA e ao capital internacional, aprofundou a desigualdade obscena e destacou os efeitos catastróficos das quatro décadas de neoliberalismo nas condições de vida dos trabalhadores e dos setores populares.

O FMI prevê que na América Latina e no Caribe o PIB se contraia em 8,1% em 2020, devido ao impacto da recessão global sincronizada pelos confinamentos no início da pandemia e sua refração local. O emprego já caiu 20% em média ao largo dos meses da pandemia (embora se destaque que no Peru pode chegar a 40%), a um ritmo muito superior ao PIB. Isso se explica pelo alto grau de informalidade (que atinge pelo menos metade da força de trabalho da região) e pela abundância de empregos pouco qualificados em áreas de contato intensivo que não permitem o teletrabalho. As perdas de receitas, segundo o relatório, “podem apagar alguns avanços sociais alcançados até 2015”, ou seja, fazer retroceder a tímida ascensão social ocorrida durante o superciclo das matérias primas e que constituiu o núcleo duro dos chamados “governos progressistas” (pós-neoliberais). A consequência imediata já percebida nas periferias das grandes cidades é o aumento significativo da pobreza e um novo salto da desigualdade.

As perspectivas para o futuro não são melhores. A previsão de crescimento do FMI para 2021 é de 3,6%, isto, em contraste com o nível de destruição, implica que alguns países – não todos – poderiam recuperar seu PIB pré pandêmico apenas em 2023, e a renda per capita em 2025. Isto seria metade de uma década perdida.

Outras instituições têm previsões semelhantes. A CEPAL [Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe] estima a contração em 9,1%. O mais otimista é o Banco Mundial, que projeta uma queda de 7,1%.

Após uma pausa imposta pelos confinamentos, o descontentamento está se transformando em luta de classes aberta. Os meses de paz que a primeira onda da pandemia concedeu a vários governos encurralados pelas mobilizações do final de 2019, tendo o Chile como seu ponto mais avançado, parecem ter se esgotado.

A crise econômica, social e política e as profundas divisões inter burguesas estão permitindo o surgimento da luta de classes, sob a forma de protestos, greves e explosões sociais.

Essa situação torna-se particularmente aguda em países onde o neoliberalismo teve mais “sucesso” como Chile, Peru e, em certo sentido, a Colômbia, onde despertou para a vida política e para as ruas uma geração que não viveu as ditaduras de Pinochet ou Fujimori, ou, no caso da Colômbia, o período após os acordos de paz com as FARC. Os jovens que sofrem os maiores níveis de precariedade e desemprego, e que em muitos países latino americanos devem se endividar para estudar (como no Chile, Peru e Colômbia) são os protagonistas indiscutíveis das lutas e rebeliões na América Latina (e no mundo).

Como parte dessa incipiente nova onda de luta de classes, estão as mobilizações e greves nacionais na Colômbia contra a violência policial e o governo Duque; as mobilizações na Guatemala que obrigaram o Congresso a recuar da aprovação de um orçamento sob medida para a burguesia simpática ao governo direitista de Alejandro Giammattei; os protestos e bloqueios de estradas na Costa Rica contra o FMI e as políticas do governo Alvarado; bem como as marchas contra o FMI no Equador. Ou a mobilização massiva no Chile, um ano após o levante contra Piñera. Talvez o processo mais agudo até agora tenha sido a eclosão popular no Peru, no contexto de uma crise de domínio burguês que parece não encontrar terreno. O mais interessante deste processo, do ponto de vista político e de suas demandas, é que parece ter aberto uma nova dinâmica de luta de classes, como mostra a greve dos trabalhadores agrícolas no início de dezembro, que alcançou uma vitória com a revogação das leis escravistas aprovadas durante o fujimorismo.

Embora em um nível inferior, na Argentina, a ocupação de terras em Guernica e as múltiplas lutas de setores assalariados, jovens precários, ambientalistas, que em muitos casos tendem à auto organização, devem ser lidos nesta perspectiva regional e, de forma mais geral, no marco das tendências da situação internacional.

7) Pós pandemia e luta de classes

Apesar de ainda haver uma situação de contornos indefinidos, nossa hipótese é que como decorrência da pandemia e de suas consequências, combinada com as crises burguesas, estão se criando condições objetivas favoráveis ​​para o desenvolvimento de processos mais intensos e radicais de luta de classes, retomando em maior escala os processos anteriores à pandemia.

A rebelião popular nos Estados Unidos contra a violência policial e o racismo após o assassinato de George Floyd pegou a classe dominante de surpresa e mudou abruptamente a situação. Foram dias de mobilizações em massa, com extensão nacional (estima-se que participaram 26 milhões de pessoas), que contagiaram várias partes do mundo, de Londres, Paris e Berlim ao Brasil e à Colômbia.

Pela sua dimensão histórica e por ter ocorrido no centro do capitalismo mundial, este levante popular, embora mais tarde desviado para a mudança eleitoral e o voto em Joe Biden como mal menor, marcou um ponto de inflexão na luta de classes internacional, que a partir desse momento se iniciou em um incipiente curso ascendente. No Líbano, com as massivas mobilizações contra o governo após a explosão do porto de Beirute. Na Índia, com uma greve geral massiva, e depois a mobilização de centenas de milhares de camponeses contra os ataques do governo nacionalista de direita de Modi. Na França, onde cerca de 300 mil manifestantes condenaram a tentativa autoritária do governo Macron de conceder impunidade à polícia por atos de violência e repressão. E na América Latina com os processos que indicamos no ponto anterior. Embora essas lutas não tenham ultrapassado o caráter “revoltista”, nas condições criadas pela pandemia podem abrir a perspectiva de intervenção da classe trabalhadora com seus métodos de luta e o desenvolvimento de situações pré revolucionárias mais clássicas.

Num cenário de agudização da luta de classes e da experiência política de amplos setores da vanguarda com variantes reformistas "malmenoristas", é essencial dar passos ousados ​​para avançar na construção de fortes partidos operários revolucionários e na reconstrução da Quarta Internacional. Nesse sentido, a proposta de constituir um Movimento por uma Internacional da Revolução Socialista ganhará importância ao convergir, a partir de lições programáticas comuns dos principais acontecimentos da luta de classes, com correntes centristas da esquerda que se orientem em um sentido revolucionário ou com setores de esquerda do movimento trotskista.




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