Internacional

Eleições presidenciais e crise do NPA na França: um debate com as correntes de esquerda do partido

O Novo Partido Anticapitalista (NPA) atualmente passa por uma forte crise, com risco de implosão no curto prazo. Nesse contexto, as diferentes tendências que compõem a ala esquerda do partido poderiam ter um papel muito importante a desempenhar, oferecendo uma perspectiva à centenas de militantes que não concordam com o último giro da antiga majoritária, cristalizado em acordos eleitorais muito oportunistas com o La France Insoumise para as eleições regionais. Esta carta, embora pública, se dirige em especial ao conjunto de militantes da esquerda do NPA e concretamente às correntes L’Etincelle, Anticapitalisme et Révolution (A&R) e Démocratie Révolutionnaire (DR).

quarta-feira 12 de maio| Edição do dia

Camaradas,

Há um tempo já é evidente que o debate sobre as eleições presidenciais de 2022 vai concentrar boa parte das discussões que atravessam o NPA no contexto da crise que o corrói há anos. Não é uma situação boa, e no outono havíamos avisado a vocês sobre os riscos de um adiamento do congresso; na medida em que isso podia ter como consequência o fato de ter que acertar a orientação e o candidato para as eleições antes de discutir a estratégia, o programa e o tipo de partido que necessitamos para o próximo período.

Embora seja certo que, dentro do NPA, os debates internos normalmente se cristalizam em torno das decisões eleitorais do partido, abordando em cada ocasião a questão da independência política em relação à esquerda institucional, essa inversão dos termos da equação é particularmente danosa na situação atual, já que permite à antiga direção evitar fazer um balanço de sua atividade e que se eleja uma nova direção representativa da atual correlação de forças, permitindo a essa antiga direção majoritária decidir sobre os acontecimentos e sem debater profundamente uma parte dos desacordos que atravessam a organização.

Isso é assim, porque é evidente que o ato de apresentar para as eleições presidenciais um camarada porta-voz de candidaturas comuns com o partido de Jean-Luc Mélenchon, La France Insoumise (LFI) é já, em grande parte, uma decisão de orientação e de perfil para os próximos anos. Principalmente porque essa decisão unilateral da antiga direção majoritária, de impor ao partido essas chapas, constitui uma política de compromisso com a esquerda institucional, que põe em questão as próprias delimitações, já insuficientes em si, que definiam o NPA desde sua fundação. Nos referimos à independência da chamada esquerda social-liberal, isto é, do Partido Socialista (PS) e do Europa Ecologia - Os Verdes (EELV).

A antiga direção majoritária se comprometeu em um giro político enorme, provavelmente sem possibilidade de retorno. Já que, diferente do que aconteceu em outras ocasiões, não existe realmente uma ala dentro do bloco da antiga direção majoritária que resista a essa política de liquidação do NPA enquanto partido anticapitalista independente. Como mostra o compromisso até o pescoço que aquela que se afirmava como “ala esquerda” da antiga direção majoritária (a “Contrecourant”) tomou no acordo eleitoral mais escandaloso, o de Occitanie, um pacto considerado como revelador de um "eleitoralismo sem princípios" inclusive por certos membros dessa antiga direção majoritária.

Essa virada à direita acontece após o fracasso retumbante da antiga direção majoritária frente aos desafios da luta de classes nos últimos anos. Um fracasso que, para além dos desacordos que pudemos manifestar, constitui um retrocesso importante, mesmo em relação à história do NPA e da LCR (Liga Comunista Revolucionária). Para os revolucionários, a questão de como um partido ou uma direção supera ou não as provas centrais da luta de classes constitui uma bússola. Como seguir considerando nesse contexto que basta que o NPA tenha um candidato, qualquer um que seja, para preservar a unidade do partido? Unidade em torno de que? Para fazer o que?

Somente nesse contexto é que é possível compreender nossa iniciativa de lançar a pré-candidatura de Anasse Kazib, da qual informamos os camaradas da esquerda do partido antes de introduzi-la nos debates do Conselho Político Nacional do NPA, para depois torná-la pública. Em um partido em que o conjunto dos debates internos se encontra profundamente esclerosado, em que ninguém pode afirmar hoje se haverá e quando ocorrerá o congresso, e em que a antiga direção majoritária faz sua política de forma pública, se servindo da totalidade das ferramentas do partido (como atesta o caso do empréstimo de 150.000 euros feito para financiar as candidaturas com a LFI, sem que jamais qualquer instância da direção eleita do partido tenha sido informada), essa era para nós a única maneira de fazer uma política alternativa à da antiga majoritária e de impor que o debate acontecesse.

Independente do que pensem, a realidade é que, se atualmente uma parte da antiga majoritária se vê obrigada a propor uma candidatura NPA (destacando que ela poderia ser retirada em favor de outra, mais unitária), enquanto outra se vê obrigada a assumir que não quer nenhum candidato, é em grande parte graças à pressão criada pela pré-candidatura de Anasse e pela recepção favorável que teve em importantes setores da nossa classe.

No entanto, se trata mais uma vez de uma decisão tática tomada em um contexto muito particular que nos foi imposto. O debate de fundo vai além da questão das eleições presidenciais e concerne o futuro e o próprio projeto do NPA. Como sabem, defendemos há anos a ideia de uma refundação revolucionária do NPA, em conexão com a emergência de uma nova geração operária e militante forjada pelas lutas que acontecem desde 2016. Estamos convencidos de que é a única saída positiva após o fracasso da experiência do NPA, que já ninguém pode negar e que será a única maneira de “conservar as conquistas do NPA”, como sabemos que é a preocupação de vocês.
Sabemos igualmente que a perspectiva de implosão do NPA pode ser temerária, já que constitui, apesar de seus numerosos defeitos, um marco político comum onde militantes anticapitalistas e revolucionários de diferentes tradições puderam, ao longo dos anos, conviver, por vezes impulsionar políticas em comum, e construir a organização, cada um segundo sua orientação. Mas a realidade é que a aceleração da crise do NPA é um produto puro da própria aceleração da situação política e da luta de classes. E o partido que precisamos para intervir corretamente nos acontecimentos do período que se aproxima é algo completamente distinto de um partido-zumbi, com pouca presença na nossa classe e ambíguo em seu caráter revolucionário e de independência em relação ao reformismo.

Com toda modéstia, se desde 2016 evoluímos de ser uma pequena corrente com poucas dezenas de militantes, com uma maioria de estudantes, a sermos várias centenas atualmente, com um princípio de estruturação mais séria no movimento operário, é em grande parte por termos aparecido, através do Révolution Permanente e pela nossa intervenção na realidade, como um grupo sensivelmente distinto, mais radical e mais em consonância com as tendências da luta de classes que o NPA “oficial". E se o Révolution Permanente pôde em alguns momentos contar com milhões de acessos mensais e se o discurso muito radical de Anasse conseguiu encontrar eco em determinados setores de nossa classe, isso também mostra as possibilidades de construir e expandir a influência de uma corrente revolucionária nesse período.

Estamos convencidos de que o surgimento de uma organização abertamente revolucionária e que tenha como centro de gravidade a luta de classes, depois de décadas em que não existia uma alternativa revolucionária consequente na França em oposição aos defeitos simétricos da LO (Lutte Ouvrière) e da antiga majoritária do NPA, poderia entusiasmar e tirar do ceticismo inúmeros trabalhadores decepcionados com esquerda institucional e com as direções sindicais, diante das quais, infelizmente, a extrema esquerda acabou por se adaptar. Esse é um debate que gostaríamos de ter com vocês, e que deve por fim ocorrer nos marcos de um congresso, que será necessário organizar, tendo ou não candidatura presidencial, daqui até o outono.

Além disso, nossas correntes souberam atuar de forma conjunta em determinados momentos. Quando a antiga direção majoritária lançou uma campanha orientada a provocar a cisão do partido, no verão do ano passado, a aliança entre os camaradas do L’Étincelle, do Anticapitalisme et Révolution, do Démocratie Révolutionnaire e do Révolution Permanente foi determinante para derrotar a tentativa da antiga majoritária de impedir que a totalidade dos militantes que havia entrado no partido durante o conflito contra a reforma da previdência pudesse participar das votações. Uma tentativa de não admitir que haviam perdido uma maioria que já era relativa no Congresso de 2018, onde a soma de votos das tendências de esquerda beirava os 50%.

Entretanto, não fomos capazes até aqui de ultrapassar esse bloco defensivo no terreno de propostas concretas pela positiva e de um real projeto de partido que seja capaz de tirar o NPA da crise que o corrói há mais de uma década. Mantivemos um cronograma regular de reuniões, principalmente com os camaradas do Anticapitalisme & Révolution e da Democratie Revolutionnaire - já os camaradas da l’Étincelle recusaram sistematicamente de participar, exceto em momentos pontuais, com a desculpa que não queriam entrar numa lógica de “bloco contra bloco”, que não faria outra coisa se não acelerar a implosão do NPA. Nesse contexto, tentamos por nossa parte apresentar, em inúmeras oportunidades, numerosas propostas para avançar a discussão e tentar fazer convergir nossos pontos de vista: uma reunião nacional comum, uma revista ou boletim de discussão, tribunas abertas…

Atualmente, nos foi imposta a data de uma conferência nacional sobre as eleições presidenciais antes do congresso do NPA, e consideramos que é nossa responsabilidade comum tentar providenciar juntos os meios necessários para deixar em minoria a orientação da antiga direção majoritária, hoje encarnada nas listas para as eleições regionais em Occitanie e em Nouvelle-Aquitaine, e oferecer uma perspectiva a centenas de militantes do NPA que não concordam com essa orientação oportunista de alianças com o partido de Mélenchon (e a pactos com partidos burgueses).

Nesse sentido, não podemos deixar de lamentar que vocês tenham decidido recusar que tomássemos parte da tribuna que apareceu em L´Anticapitaliste a respeito das eleições, apesar de estarmos largamente em acordo sobre a questão, assim como sua negativa em aderir a moções, em certos comitês, opondo-se a nossa expulsão. Isso atesta para nós que existe uma certa adaptação à pressão que exerce a antiga direção majoritária para nos isolar e nos expulsar. E que existe uma tentativa de se colocarem como um uma espécie de “bloco de centro”, fatidicamente equidistante dos "dois demônios" que estariam representados pela antiga maioria e o Révolution Permanente. Para além do fato de que, após nossa exclusão, sua própria expulsão não seria mais que uma questão de tempo, nos parece que temos adiante a possibilidade de constituir juntos, apesar de nossas diferenças, um bloco para derrotar a orientação da antiga direção majoritária e impor uma candidatura revolucionária e de luta de classes para as eleições presidenciais.

Isso é assim porque, ao contrário das censuras a uma suposta “personalização” de que a antiga majoritária nos acusa (ao mesmo tempo em que ela usou e abusou para suas políticas do peso da personalidade de Olivier Besancenot, e depois de Philippe Poutou), nós não faremos da candidatura de Anasse um obstáculo para que possamos, juntos, nos opor à linha atual da antiga majoritária de se aproximar de La France Insoumise (Mélenchon), levantando uma linha independente, revolucionária e da luta de classes, cuja principal preocupação seja dialogar com as aspirações de trabalhadores e jovens, e com as formas de radicalidade expressas nas lutas dos últimos anos e não com a esquerda institucional.

Desse ponto de vista, mesmo convencidos de que Anasse, um operário jovem, combativo, filho de imigrantes e uma das principais figuras que surgiram na luta de classes nos últimos anos, seja provavelmente o melhor camarada para encarnar essa orientação, estamos abertos a discutir qualquer proposta de candidatos com um perfil semelhante, e dispostos a levar adiante uma tal candidatura.

Porém, isso requer da parte de vocês reconhecer que não há possibilidade de um candidato consensuado por todo o NPA. A antiga majoritária já se viu obrigada a afirmar que quer um candidato do NPA (algo que não quer uma parte de seus militantes e dirigentes), mas jamais aceitará um candidato que não seja de suas próprias fileiras. Na realidade, seus pré-candidatos já estão escolhidos. Em campanha nesse exato momento, em Occitanie e Nouvelle-Aquitaine, eles se chamam Philippe Poutou e Pauline Salingue, o que implica que quaisquer que sejam as discussões e textos aprovados antes do verão, se uma destas candidaturas for adotada, levará a marca da aproximação (“abertura”, diriam os camaradas da antiga majoritária) com a LFI de Mélenchon e uma ruptura pela direita com as delimitações, já insuficientes, do NPA frente à esquerda institucional. Uma tal candidatura, que não por acaso seria encabeçada pelos camaradas mais divisionistas do NPA, e será uma ferramenta para a construção de uma outra coisa que não o NPA, ao menos em sua conformação atual. Essa é a verdadeira ameaça ao futuro do NPA, não a pré-candidatura de Anasse.

Além disso, entre o adiamento indefinido do congresso (e alguns no seio da antiga direção majoritária falam de adiar até depois das eleições presidenciais!) e as ameaças permanentes de cisão e exclusão, as condições para mobilizar o conjunto da organização para ir em busca do apoio dos prefeitos [para legalizar a candidatura presidencial, NdT] serão mais precárias e fracassarão fatalmente. A única perspectiva positiva que poderia sair da próxima Conferência Nacional seria, nesse contexto, que as nossas correntes fizessem um bloco, para além de nossos desacordos, para impor, com nossa maioria numérica, uma linha política (encabeçada por um candidato) oposta àquela levada a cabo atualmente pela antiga direção majoritária.

Sem a ilusão de superar de uma só vez o conjunto das nossas diferenças, seria um primeiro passo para colocarmos em marcha todas as questões em que estamos de acordo e não permitir que os 12 anos de existência do NPA terminem com a adaptação da antiga direção majoritária à esquerda institucional e com a implosão em pequenas partes da esquerda do partido, o que deixaria numerosos camaradas desamparados e sem perspectiva militante. E há espaço para buscar organizar politicamente, para além de nossas diferenças, uma parte dos setores mais conscientes da classe operária, e essa nova geração de militantes que começou a se forjar nas lutas desde 2016. Essa política poderia ser majoritária dentro do NPA, e seria um passo adiante na perspectiva de nos prepararmos, todas e todos, sem um espírito sectário, para os momentos convulsivos em que a crise atual vai nos lançar mais cedo que tarde. A bola está nos pés de vocês.

Propomos, por nossa parte, uma reunião comum para discutir tudo isso antes do Conselho Político Nacional que registrará as plataformas para o processo de tomada de decisões a respeito das eleições presidenciais, nos dia 22 e 23 de maio, que ocorrerão antes das férias de verão [hemisfério norte].

Nossas melhores saudações revolucionárias.

Direção da CCR-Révolution Permanente

Publicado originalmente no site Révolution Permanente, integrante da rede internacional de diários La Izquierda Diario




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