Política

Eleições 2020

Eleições no Entorno do DF: um debate com a esquerda

Diante de eleições com uma supremacia de candidatos de extrema-direita e de direita em boa parte das principais cidades do Entorno do DF, é fundamental que a esquerda utilize-se das eleições para fazer um palanque ativo para a luta de classes, potencializando a organização da nossa classe e dos oprimidos para varrer a extrema-direita do mapa.

terça-feira 3 de novembro| Edição do dia

Como podemos ver aqui, as eleições nas principais cidades do Entorno do DF revelam dados preocupantes: a direita e a extrema-direita tem chances muito fortes de ganhar em quase todas as cidades. Isso, diante da crise econômica internacional, a COVID-19 e em meio uma situação extremamente preocupante de desemprego, fome e miséria - a esquerda se encontra com um enorme desafio.

Em algumas das principais cidades, temos algumas candidaturas de esquerda que aparecem como progressistas, ou ao menos que tentam se colocar com melhores que a podridão da direita. Contudo, mesmo as alternativas disponíveis se encontram bastante desgastadas e, sobretudo, não se propõe a organizar a classe trabalhadora para enfrentar o regime - pretendem, na verdade, incutir ilusões na vanguarda da classe trabalhadora de que é possível administrá-lo. A questão que se mostra diante da atual crise do capitalismo mundial e na degradação profunda do regime do golpe institucional, é que não é mais possível administrar o capitalismo e governar para o povo pobre e trabalhador, atender suas necessidades mais básicas e fundamentais.

Em termos de regras do jogo, as eleições estão desfavoráveis para a esquerda tanto nas disputas, mas também nas próprias regras que a esquerda se submete. 14 dos 33 municípios do entorno não tiveram candidaturas de prefeito liberadas pelo TSE até o último dia 20: Luziânia, por exemplo, não tinha nenhum candidato à prefeito legitimado pelo cartório eleitoral; Santo Antônio do Descoberto tinha pelo menos 7 candidatos à prefeito aguardando resposta do TSE; em Águas Lindas de Goiás, havia sido deferida apenas a candidatura de extrema-direita de Hamilton Borges (PSL). Essa inércia da justiça mina a democracia, mas também revela diversos podres de candidatos ao longo do processo, demonstrando como o regime atual é corrupto e degradado. Veja a situação mais recente aqui.

Além disso, nas 10 cidades da RIDE (Rede Integrada de Desenvolvimento do Entorno do Distrito Federal) com mais habitantes, temos mais candidaturas mulheres e de negros que da última eleição, segundo o Correio Braziliense, mas a situação ainda é bastante desigual: 62 candidatos à prefeito (48% pretos e pardos, 14,5% mulheres) e 3350 para vereador (67% pretos e pardos, 33% mulheres). Em cidades como Planaltina e Formosa, o AVANTE é o partido com maior número de negros, enquanto em Luziânia o maior número de negros se candidatou pelo Patriotas - demonstrando que não basta representatividade se uma mulher ou um homem negro concorrem por partidos do centrão fisiológico ou de extrema-direita. 0,09% dos candidatos no Goiás são indígenas: Luziânia tem três; Santo Antônio do Descoberto, Águas Lindas de Goiás (sendo esse candidato pela extrema-direita racista do Patriotas), Valparaíso do Goiás, Novo Gama (candidato do centrão fisiológico do AVANTE), Planaltina e Cocalzinho de Goiás (candidato também do centrão fisiológico do PTB) tem uma candidatura indígena.

No regime do golpe institucional, com uma constituição já profundamente rasgada pelas reformas anti-operárias, as “regras do jogo” são cada vez mais desfavoráveis para a esquerda e para a própria pouca democracia que ainda temos. É nesse sentido que a esquerda não pode se contentar em apenas conquistar cargos parlamentares ou prefeituras, com a ilusão de que é possível construir “ilhas de progressismo” isoladas da realidade nacional. Precisamos de um projeto de esquerda que ouse se enfrentar com o regime de conjunto, utilize das eleições e do parlamento para fazer palanque para a luta de classes e potencializar a organização da classe trabalhadora e dos oprimidos do Entorno. Só assim, poderemos dar respostas à altura para a povo pobre e trabalhador, muito além de meia-dúzia de promessas eleitorais.

É fundamental nos apoiarmos nas experiências mais recentes e mais fortes da classe trabalhadora e do povo pobre no mundo: na América Latina, os povos indígenas e a valente classe trabalhadora rejeitaram de forma avassaladora a direita golpista nas eleições; na Colômbia, a juventude se levantou contra a violência policial em protestos históricos; no Chile, a votação por uma nova constituinte e sem nenhum representante do governo atual foi massiva; protestos históricos também podemos ver na Costa Rica e no Equador contra o FMI, fora também a valente resistência dos sem terra em Guernica na Argentina - e a lista vai longe, desde Nigéria, Bielorrússia, Líbano, Indonésia e o levante negro no império dos EUA com o Black Lives Matter.

É nesse espírito que devemos nos apoiar no mais avançado da classe trabalhadora mundial e não ter ilusões: precisamos nos preparar para as lutas que virão aqui também no Brasil e construir uma esquerda à altura dos problemas mais fundamentais da classe trabalhadora e do povo pobre. É nesse sentido que precisamos pensar as eleições no Entorno.

Segue abaixo alguns apontamentos sobre algumas das principais cidades da região:

Valparaíso de Goiás

Diante de dois candidatos de direita que já foram prefeitos e uma série de trogloditas de extrema-direita, a esquerda em Valparaíso está cometendo erros grotescos.

De forma vergonhosa, o PSB de Rollemberg e o PDT de Tábata Amaral - que teimam em se reivindicar como esquerda mas estão sempre com a direita - apoiam Pábio (MDB) na mesma coligação com o PSC, ex-partido de Bolsonaro. Mas o PCdoB também não deixa por menos, estando na mesma coligação de Lêda Borges - a atual prefeita da cidade e uma das favoritas na eleição -, que está junta da extrema-direita do PRTB, Republicanos, do golpismo do PSDB, PP e PV, bem como do centrão do PL e DC.

O único candidato que se apresenta de esquerda é Professor Silvano do PT, vereador na cidade. Ele se apresenta como um candidato que valorizará a educação e os servidores públicos. Pergunto-me apenas qual o sentido, na verdade, de promover, então, concursos públicos para Guarda Municipal, esses que servirão tão somente para formar verdadeiros assassinos e torturadores da juventude negra da cidade, enquanto os próprios professores também estão à procura de um concurso público, trabalho e renda digna.

Para realmente valorizar o professor, o mínimo que o candidato deveria propor era que o salário de todo político e juiz fosse equivalente a de um professor (sendo que ele mesmo recebe, pelo menos 10 mil por mês, como foi o caso desse mês de outubro) - e que esse salário fosse proporcional ao que essa categoria necessita.

Para realmente valorizar o funcionário público, é preciso se opor contundentemente à reforma administrativa de Bolsonaro e Guedes, mas o PT não fará isso se continuar se coligando com o PSL em mais de 140 cidades, ou mesmo não organizando os professores desde a CUT para frear toda e qualquer tipo de reabertura das escolas públicas e privadas por fora da decisão dos próprios trabalhadores.

O PSOL está coligado com o PT, seguindo os passos da conciliação de classe, infelizmente.

Novo Gama

Em uma cidade com uma sonegadora da previdência condenada, um candidato apoiado por Caiado e figuras influentes do governo Ibaneis, fora a extrema-direita - é fundamental que a esquerda se coloque contundentemente contra os ataques e disposta a organizar a classe trabalhadora para barrar os futuros ataques que virão caso essa direita seja eleita.

Nessa medida, o único candidato que se apresenta de esquerda é o Professor Francisco, do PT - sim, mais um professor. Francisco é presidente do Sindicato de Professores do Novo Gama desde 2011. Segundo entrevista, o deputado federal Rubens Otoni está ativamente envolvido em sua campanha - irmão de Antônio Gomide, que quando prefeito de Anápolis proibiu o “aborto legal” nos hospitais públicos do município.

Diante da precarização do ensino e do trabalho do professor em Goiás no governo Caiado, é fundamental que a CUT, central sindical dirigida pelo PT, organize a luta dos professores e professoras, com contrato temporário ou não, para impedir a volta às aulas por determinação desses governantes privilegiados.

O problema é que o partido do Professor Francisco não só permitiu passar o ensino remoto precarizador do trabalho dos professores e do ensino, como não está construindo uma luta efetiva, organizando a categoria, se aliando com demais categorias para barrar as reaberturas - como poderia ter sido na greve dos Correios no entorno, quando os trabalhadores fecharam a principal via de Ceilândia ou fizeram piquete no centro de distribuição do Aeroporto de Brasília. A disposição de luta era evidente e forte. Mas mesmo assim, a CUT decretou fim à greve depois da justiça golpista do TST retirar mais de 40 cláusulas do acordo coletivo da categoria. Os sindicatos precisam estar nas mãos dos professores e trabalhadores das escolas para que, efetivamente, essas questões sejam sanadas.

Professor Francisco, nesse sentido, apenas repete os passos da burocracia sindical da CUT de não organizar a resistência aos ataques do regime do golpe. Na cidade, o PSOL está coligado com o PT, se eximindo de ser uma alternativa à esquerda do PT, novamente.

Ademais, prestamos solidariedade à Chico Viana (PSOL), candidato à vice-prefeito que morreu devido a COVID-19. Ele tinha diabetes, uma comorbidade que compõe um quadro de grupo de risco para a doença.

Cidade Ocidental

Em Cidade Ocidental, temos três candidatos de direita - todos o mais do mesmo corrupto e comprometido com a extrema-direita.

De forma vergonhosa, o PCdoB apoia a candidatura do atual prefeito Fábio Corrêa, na qual se encontram dois dos ex-partidos de Bolsonaro - o PSC e o PP -, fora o PSDB, DEM e DC. Não há absolutamente nenhum compromisso com uma luta independente da direita golpista e da burguesia, mas a questão é que essa política do PCdoB é, na realidade, nacional.

Pela esquerda, a única representante é Kedma do PT. A tentativa da candidata é propor que, se eleita, fará uma gestão mais participativa e popular, tentando dialogar também com a juventude da cidade. Infelizmente, o que acontece é o oposto na prática.

Mesmo em uma das cidades mais violentas do Brasil, Kedma acredita que prestando homenagens à Guarda Municipal, dizendo que eles precisam ser mais valorizados e assim que se resolverá a violência na cidade. O problema é que é impossível conciliar os interesses do povo trabalhador, das mulheres, dos LGBTs e de toda a classe trabalhadora com os da polícia genocida que extermina diariamente a juventude negra no entorno do DF. Esse é um erro importante da candidata, mas que também não é surpresa pela própria política histórica do PT de, inclusive, estimular maior policiamento com as UPPs no Rio de Janeiro.

Para combater a violência, é preciso batalhar contra o sistema capitalista, que por meio do Estado burguês está intimamente ligado com os chefões do tráfico de drogas, e batalhar pelo fim da polícia e a guerra às drogas - que na verdade é uma guerra declarada contra a juventude negra e trabalhadora.

Formosa

Em Formosa, mesmo com um candidato capitão da PM de extrema-direita, um sargento e uma outra infinidade de candidatos do centrão fisiológico - mostrando uma promiscuidade cada vez maior dos militares no sistema político, seja legalmente ou ilegalmente - a esquerda continua cometendo erros graves.

Temos Sd Caetano pelo PDT, um policial militar - o que apenas demonstra que o PDT não tem nada de esquerda, é um partido da ordem que apenas pensa em administrar o capitalismo, fortalecer as forças de repressão do Estado e assassinar a juventude negra e pobre do entorno. Um partido que conta com Tábata Amaral, que foi favorável à reforma da previdência, e lança um policial militar em uma cidade com concorrentes militares e de extrema-direita não pode ser chamado de esquerda.

Por último, o candidato do PT é Jorge Antonini, um servidor público aposentado da Embrapa Cerrado. Diante de candidatos tão à direita, infelizmente, pouco podemos contar com o PT.

O partido governou pacificamente com o latifúndio, mesmo que isso tenha levado a fortalecer a burguesia da região que foi ativa no golpe institucional - e Caiado é um exemplo. O conflito agrário no Goiás é permanente, apenas 4% dos indígenas do estado residem em reservas, fora o conflito que também ocorre no entorno e não cessa. Ademais, ao que tudo indica, Formosa é a cidade que surgiu após o “desaparecimento do mapa” do povoado indígena criado pela tribo Crixá, dando o lugar à Santo Antônio de Itiquira.

Nesse sentido, Jorge Antonini apenas pretende continuar o legado de coexistência “pacífica” com o latifúndio - mesmo que isso signifique morte para os indígenas e seca para os pequenos camponeses devido às mudanças climáticas e queimadas. É preciso um plano que, para além do que o candidato propõe de conselhos de camponeses - o que é fundamental - organize os camponeses e os trabalhadores da indústria, do comércio e a juventude em direção a uma reforma agrária radical que exproprie todo o latifúndio, concedendo o direito democrático à terra para quem nela produz.

Luziânia

Diante de uma situação de fome e desemprego, em uma das cidades mais violentas do país e uma das mais pobres da região, o PT e o PCdoB simplesmente se aliam com partidos burgueses, golpistas e até com a extrema-direita, oferecendo nenhuma resistência e nenhum interesse em organizar a classe trabalhadora e o povo pobre para combater esse regime e fazer com que os capitalistas paguem pela crise.

O PCdoB está com Diego Sorgatto do DEM, deputado estadual de Goiás apoiado por Caiado e que recebeu quase R$ 415 mil de seu tio, um dos maiores produtores de tomate do Brasil. Sem dúvida, o PCdoB não tem nenhum compromisso com a reforma agrária. Mas o PT não fica para trás, se aliando com a Professora Edna - uma verdadeira usurpadora do título de professora que quer apenas descarregar a crise nas costas dos professores também -, uma candidata do centrão do Podemos, coligada com o PDT, o fundamentalismo religioso do PSC e a extrema-direita do PRTB de Mourão e o PSL.

O único candidato de esquerda é Professor Lukas do PSOL. Como o próprio candidato coloca, nos mais de 270 anos de existência de Luziânia, a cidade sempre esteve nas mãos de meia-dúzia de famílias. Nesse sentido, para garantir educação de qualidade, emprego e renda para a população, não bastarão algumas propostas eleitorais dentro do regime do golpe institucional que vão solucionar esses profundos problemas.

Em seu plano de governo, Lukas não menciona nenhuma vez BoIsonaro ou o quão degradado está o regime atual - muito menos a necessidade de combater a extrema-direita com a organização dos trabalhadores, LGBTs, negros e todes es oprimides. Infelizmente, o PSOL em Luziânia se apresenta tentando ocupar o espaço do PT, com as mesmas propostas que os candidatos do PT no entorno estão apresentando.

Nesse sentido, é fundamental a construção de uma candidatura de esquerda que organize a classe trabalhadora e os oprimidos para enfrentar o regime, não repetir os passos do PT.

Águas Lindas do Goiás

Já em Águas Lindas do Goiás, temos um subtenente, um tenente e um pastor concorrendo nas eleições. Sem dúvidas, todas as candidaturas são retrógradas e perigosas para a classe trabalhadora e os oprimidos.

Nessa medida, a única candidatura de esquerda é pelo PSOL com a Mandata Coletiva, uma candidatura coletiva e progressista que propõe dialogar com a juventude e os oprimidos da cidade - e a única candidatura de esquerda nessas eleições na cidade. Tratam de temas fundamentais como a luta contra as opressões, acesso à cultura e emprego.

Infelizmente, as candidatas continuam a tendência do PSOL e cometem erros profundos, como apoiar “mais policiamento em toda a cidade”, ou “efetivar o batalhão nas escolas”. Ao mesmo tempo que propõe o combate à violência contra a mulher querem mais policiamento, propondo inclusive que mais mulheres entrem na guarda municipal, como se isso fosse mudar o fato de que essas mulheres estão armadas e operando a favor da repressão do Estado.

Como combater a violência policial, o feminicídio e a LGBTfobia dando melhores condições para a repressão policial? Diante da direita militaresca e racista que está concorrendo na cidade, precisamos nos colocar contra a violência policial, apoiando o desfinanciamento da polícia e, inclusive, batalhando pelo seu fim - a luta contra o capital é a luta pelo fim da polícia.

Nessas eleições, precisamos de uma saída na qual os capitalistas paguem pela crise

Seja para combater o latifúndio, a LGBTfobia, a fome e o desemprego, a precarização do trabalho, para combater o bolsonarismo e o regime degradado do golpe institucional que descarrega a crise nas costas da classe trabalhadora, é fundamental construir uma esquerda com independência de classe. Ou seja, um partido revolucionário que não concilie com a burguesia, organize a classe trabalhadora e os oprimidos para enfrentar o regime de conjunto.

Nesse marco da conjuntura eleitoral, as eleições municipais demonstram ser mais nacionais do que nunca, aproveitando do espaço que se abre para colocar as nossas candidaturas no parlamento à serviço da luta de classes, fortalecendo a organização da classe trabalhadora para as batalhas contra o capital com uma política anti-regime e não apenas anti-governo, sem a ilusão de que é possível administrar esse regime profundamente corrompido.

Um exemplo de como fazer isso é o que o Movimento Revolucionário de Trabalhadores está construindo em São Paulo com a Bancada Revolucionária de Trabalhadores, em Contagem/MG com Flávia Valle e em Porto Alegre/RS com Valéria Müller.

Nós do Esquerda Diário, aqui representados como Comitê Esquerda Diário DF/GO, convidamos à todes que compartilham de nossas ideias e não querem uma alternativa de esquerda "em geral", sem um programa muito claro, a se somar aos nossos debates e à nossas ideias. Para entrar em contato com o Esquerda Diário Centro-Oeste escreva para: [email protected]

Contra Bolsonaro, os golpistas e os patrões! Que os capitalistas paguem pela crise!




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