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Eleições no Chile: Os partidos dos 30 anos foram derrotados, agora precisamos lutar para derrotar o Chile dos 30 anos

Os principais representantes do regime dos anos 30, a Direita e a Concertação são os principais perdedores. A classe trabalhadora e o povo tem que aproveitar a derrota dos governos dos 30 anos de neoliberalismo retomando o caminho aberto em outubro de 2019, para organizar a luta e mobilização por nossas demandas, só assim poderão ser conquistadas.

segunda-feira 17 de maio| Edição do dia

O título faz referência o grito de guerra “Não são 30 pesos (moeda chilena), são 30 anos!” da revolta chilena, onde se evidenciava que o aumento no valor do metrô foi apenas o estopim para uma revolta que questionava o conjunto do neoliberalismo chileno e o questiona até hoje.

Ontem aconteceram as eleições para a convenção constituinte, para governadores e municipais. Os velhos partidos do regime são os principais perdedores. A alta abstenção é um dos primeiros dados centrais: abaixo do plebiscito, expressou de um amplo repúdio aos velhos partidos do regime, até a canalização para expressões políticas dos “independentes” que conseguiram quase 40% dos votos.
Nestes marcos, de baixa votação, o regime ficou golpeado. Seus principais representes dos partidos dos 30 anos, da Direita e da ex Concertação, foram os principais derrotados recebendo um amplo repúdio.

A direita chegou a 20% mas foi derrotada porque não conseguiu o “terço” que lhe permitiria bloquear qualquer mudança que quisesse na convenção e perde muitos governos e prefeituras. Ainda que faça alianças com independentes da centro-direita é difícil que consiga bloquear. Foi uma dura derrota do governo e de toda a coalizão governante. Na região metropolitana isso se expressou em que a direita tenha ficado de fora do segundo turno para Governador, ficando a disputa entre a Democracia Cristã e a Frente Ampla.

Mas não foram somente eles. Como sinalizou Mario Desbordes, do Partido Renovação Nacional: “todos aqueles que governamos os país sofrimos uma derrota”. A Concertação é derrotada pelo bloco do Aprovo Digno (Partido Comunista - Frente Ampla) e em várias regiões por várias candidaturas. Obtém um pouco mais de 14%. A Democracia Cristã, chave em toda a política destes 30 anos e continuadora de toda a herança da Ditadura, sofreu uma dura derrota com apenas dois mandatos, e somente o Partido Socialista de Chile conseguiu ficar melhor.

Os principais beneficiados foram:

  • O “fenômeno” dos independentes, particularmente a Lista do Povo. Com um programa parecido com o do Partido Comunista - Frente Ampla, foram a principal “novidade” com cerca de 40% dos votos.
  • Aprovo Dignidade. Com o Partido Comunista-Frente Ampla fazendo uma boa eleição com cerca de 19% e derrotando a Unidade Constituinte, não somente com um bom bloco na convenção mas ganhando diversas prefeituras a nível nacional e em governadores ficando em segundo lugar na Região Metropolitana de Santiago passando para o segundo turno (e ganhando diretamente o governo de Valparaíso).

O resultado expressa uma situação “à esquerda” no país, expressão do que foi a rebelião popular e a tentativa de desvio para levá-lo aos “canais institucionais”. As candidaturas que se mostravam por fora dos velhos partidos tradicionais, assim como independentes, deram a surpresa de uma importante eleição. No entanto, a Frente Ampla que sai fortalecida, foi uma das “cozinheiras” (a negociação parlamentar para desviar processos de luta no Chile, onde os inimigos dos trabalhadores saem ilesos, é chamada de cozinha, NdT) do Acordo pela Paz e inclusive chegaram a votar a favor de leis de criminalização, sustentando Piñera. O PC que denunciou a “cozinha” acabou legitimando todas as armadilhas. O fenômeno dos independentes por hora se trata de um programa de reformas sociais nos marcos do regime.

A convenção constituinte vai ser o centro da atenção por onde passará a política nacional e onde estão colocadas amplas expectativas e ilusões que de produzirá mudanças. A convenção não resolve as contradições abertas pela rebelião popular.
Trata-se de um repúdio aos partidos do regime, com a ilusão em “cidadãos” e independentes para que escrevam uma nova constituição, enquanto o poder da presidência, de Carabineros (polícia, NdT) e do poder econômico seguirão governando dia a dia. Por isso a classe trabalhadora e os bairros populares temos que nos organizar, retomando o caminho aberto em outubro de 2019, por todas as nossas demandas.

Nós do Partido Revolucionário de Trabalhadores (PTR) participamos nestas eleições para defender as bandeiras da rebelião de outubro, a necessidade de derrubar este governo com uma greve geral e defendendo claramente que a Convenção Constitucional foi pactuada na “cozinha” do Acordo de Paz pela Nova Constituição, que incluia da União Democrata Independente até a Frente Ampla para salvar Piñera, que não teria sido possível se o Partido Comunista não tivesse declarado uma trégua nas ruas a partir da CUT, principal Central Sindical chilena. Um programa totalmente independente dos grandes empresários e seus partidos é necessário para acabar pela raíz com este regime e toda a herança da Ditadura. Defendemos a necessidade de acabar com o saque destes 30 anos, acabar com as AFP (Fundos privados de aposentadoria, NdT), com a educação e saúde de mercado, nacionalizar o cobre, a água e o lítio sob controle dos trabalhadores.
Por isso chamamos a impulsionar uma frente política de luta comum para agitar um programa de independência de classe, socialista e revolucionário, como uma ferramenta política para a mobilização e a organização da classe trabalhadora e do povo. Chamado ao qual organizações como o Movimento Internacional de Trabalhadores (organização irmã do PSTU brasileiro, seção chilena da LIT) lamentavelmente se negaram, somando-se de forma oportunista à maré “independente” e “contra os partidos”, finalmente entrando na Lista do Povo com um programa sem delimitação de classe, nem socialista, que apesar das importantes expectativas que atrai, não se diferencia nas propostas programáticas das defendidas pela lista Aprovo Dignidade (do PC e Frente Ampla). Esta conveniente adaptação também se expressou em grupos como o Movimento Anticapitalista que depois de discussões para impulsionar conjuntamente uma frente de independência de classe, se limitou a apresentar nos últimos minutos 2 candidaturas independentes.

Participar da eleição com bandeiras claras e sem ocultar nossa perspectiva de construção de um partido revolucionário da classe trabalhadora é chave para preparar as batalhas que se aproximam.

Apresentamos listas em 8 distritos do país. Com 50 mil votos nos apresentando como partido, em que pese não obtermos constituintes, fizemos uma boa eleição apresentando candidaturas operárias e socialistas. Em Antofagasta, capital mineira do país e um dos centros de concentração da classe trabalhadora chilena, para Governador Regional emergiu Lester Calderón, como uma das principais referências políticas do movimento operário na região, superando a Federação Regionalista Verde (parte do Aprovo Dignidade) e localizando-se como quarta força com cerca de 13%, a poucos pontos da candidata da Frente Ampla. No nível da convenção constituinte, nossa lista encabeçada por Daniel Vargas obteve cerca de 7%, poucos pontos da lista da ex Concertação “Lista Aprovo”, que obteve um pouco mais de 9%, e inclusive superou vários partido individualmente como o PS e o PC. Nos bairros operários e combativos do norte da cidade recebemos milhares de votos. Na eleição para vereadores, quando fechamos este artigo, a companheira Natalia Sánchez estava eleita como vereadora.

A nível nacional, como partido conquistamos 50 mil votos e superamos partidos como o Partido Humanista de Pamela Jiles e a União Patriota. Agradecemos os cerca de 50 mil votos de operários, estudantes, mulheres e moradores dos bairros populares que confiaram nas nossas candidaturas a nível nacional. Nós do PTR participamos destas eleições com um grande esforço militante, sem o dinheiro dado pelos grandes empresários a seus partidos, coletando milhares de assinaturas em plena pandemia para conseguir a legalidade e com somente 1 segundo na propaganda eleitoral, temos orgulho de ter chego com nosso programa a centenas de milhares de trabalhadores, de ter organizado centenas de companheiros e companheiras que colaboraram conosco nas fábricas, minas e portos, escolas e bairros populares, para defender neste terreno a única perspectiva realista para acabar com o regime dos 30 anos, herdeiro da Ditadura, retomar a luta de 2019 para acabar com este regime que levou milhões de trabalhadores e trabalhadoras aos piores sofrimentos.

O novo cenário que se abre com a forte derrota dos partidos que governaram o Chile durante 30 anos coloca que será fundamental retomar a mobilização e auto-organização da classe trabalhadora e do povo. Devemos aproveitar a derrota dos partidos dos trinta anos para organizar a luta por nossas demandas: para conquistar o fim das AFP, garantir uma educação e saúde públicas e acabar com os negócios privados com os nossos direitos, pela liberdade dos presos, pelo fim da impunidade e conquistar o julgamento e castigo dos repressores, como também nacionalizar os recursos naturais como o cobre, a água e o lítio sob controle dos trabalhadores e das comunidade, a devolução das terras ao povo mapuche o direito à auto-determinação dos povos originários.

Piñera não pode governar nem um dia mais. Devemos retomar o caminho da organização e da coordenação. Assim como o fizemos impulsionando o Comitê de Emergência e Resguardo de Anfofagasta que organizou o greve geral no dia 12 de novembro de 2019, imponto à burocracia da CUT um ato comum com mais de 20 mil pessoas na cidade. Como o fizemos impulsionando comitês de saúde e segurança durante a pandemia, as coordenações contra a repressão em Puente Alto e a coordenação de sindicatos portuários, da indústria, da saúde e educação, familiares de presos, organizações de Direitos Humanos com as quais organizamos a paralisação nacional do dia 30 de abril. Uma necessidade que chamamos a impulsionar conjuntamente.




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