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América Latina | Eleições na Colômbia sob tensão política e as esperanças no centro-esquerdista Gustavo Petro

Os olhos do continente estão voltados para as eleições presidenciais na Colômbia neste domingo. Embora o mais certo seja que haverá um segundo turno, os fiéis da balança mantêm toda a tensão política, em um país que foi atravessado por rebeliões sociais antes e durante a pandemia. Está em jogo que, pela primeira vez em sua história, a direita tradicional possa perder o controle da Casa de Nariño, com a centro-esquerda de Gustavo Petro centralizando todas as expectativas. Mas Petro chega ainda mais adaptado ao regime político, tendo desempenhado um papel de contenção social nas últimas revoltas

domingo 29 de maio | Edição do dia

Tensão política é o que se vive nas eleições atuais, onde quase 39 milhões de colombianos estão aptos a votar no primeiro turno no próximo domingo, 29 de maio. É que a revolta que começou em 28 de abril de 2021, durou vários meses e que se seguiu à explosão social de novembro de 2019, colocou em crise o regime político colombiano como um todo. O clima político deu uma guinada acentuada e, consequentemente, se sente isso nas eleições, para a qual buscaram canalizar a explosão social, temendo que uma queda abrupta do governo de Iván Duque abrisse uma crise sem precedentes e encorajasse o movimento de massas a ir além e não apenas a queda de um governo. Daí a crueldade brutal da repressão, com dezenas de mortos e milhares de feridos e presos que se descarregou sobre o povo, sobretudo contra a juventude. Daí a urgência dos políticos em canalizar tudo para as eleições.

Para amplos setores da população, as grandes expectativas são depositadas em Gustavo Petro, candidato de centro-esquerda e representante do chamado Pacto Histórico; político e economista, senador desde 2018, foi prefeito de Bogotá de 2012 a 2015; ex-militante da guerrilha M-19. Ele se destaca como o primeiro em todas as pesquisas, embora sem chances de vencer no primeiro turno. No caminho de se tornar mais palatável, Petro estabeleceu alianças políticas com setores tradicionais, deslocando-se cada vez mais para o centro político. Para garantir seus votos pela esquerda, e porque há um setor importante que o questiona por sua adaptação política, Petro optou por levar Francia Márquez, a candidata mais bem posicionada, para a vice-presidência, e que mesmo na última consulta eleitoral obteve grande número de votos, com bastante apoio dos movimentos populares e sociais. Grande parte dos votos dos setores mais radicalizados são canalizados através dessa candidata popular e negra.

A certa distância, dois candidatos disputam o segundo lugar para disputar com o Petro em uma provável votação em junho. Seu candidato mais próximo é Federico Gutiérrez, do tradicional bloco de direita "Equipo por Colombia", liderado pelo Centro Democrático, o Partido Conservador, o Cambio Radical, o Partido de la U e o próprio Partido Liberal. Fico, como é chamado, é o ex-prefeito de Medellín, tem o apoio do Uribismo, a maioria empresarial do país e das elites econômicas que até agora não conseguiram impulsionar sua candidatura acima de 25% nas pesquisas. A incerteza que Petro gera para o establishment mais conservador mobiliza toda a direita e centro-direita em torno de Federico Gutiérrez.

O segundo lugar é disputado por Rodolfo Hernández, também de direita e empresário, mas que busca se apresentar como candidato do centro como político anticorrupção e outsider político, ao qual se juntou recentemente Ingrid Betancourt do Partido Verde Oxígeno, que se deixou a disput eleitoral para apoiá-lo. O ex-prefeito de Bucaramanga fez sua candidatura decolar nas últimas semanas com base em um discurso contra Fico e Petro que buscava angariar votos dessa forma, tirando o espaço do centro daquele que tradicionalmente o detinha, Sergio Fajardo, da Coalición Esperanza, que caiu em todas as pesquisas sem sinais de melhora.

O contexto dessas eleições e o desvio da revolta

Estas eleições continuam a ser realizadas sob o espectro das massas que rondam as ruas e confrontam o Governo de Iván Duque e o regime político. Uma explosão social sem precedentes em um país onde as tensões internas se acumulavam junto com a deterioração acentuada das condições de vida de milhões de pessoas, acelerando todo um processo que resultou na irrupção do movimento de massas. Houve uma rebelião em que uma aliança trabalhador-camponesa-indígena-jovem se fortaleceu nas ruas, como nunca antes, que chegou a abalar não só o governo de Iván Duque, mas o próprio regime político.

Eram trabalhadores, setores populares, camponeses pobres, indígenas organizados e, sobretudo, uma juventude sem nada a perder e sem futuro que emergiu de todas as cidades e vilas do país para não continuar condenada à miséria. Não houve nenhum canto colombiano que este turbilhão não surgisse com grande força e intensidade e de forma inusitada. Os protestos foram vistos mesmo em áreas onde há alguns anos seria impossível sequer sonhar com isso, e a juventude emergiu em meio às massas como o setor social mais preponderante.

Foi uma explosão contundente do cansaço do povo colombiano, acumulado por anos de extrema desigualdade social imposta por uma classe dominante rançosa e um regime profundamente repressivo, em um dos países do mundo que se caracteriza por ter mais assassinatos de sindicalistas, lideranças sociais e defensores da terra, dos povos indígenas, que deixaram um rastro sangrento de dezenas de milhares de mortos e desaparecidos.

A violência contra os de baixo na Colômbia tem sido sistemática historicamente e no presente. Só em 2022, foram 36 massacres de lideranças sociais, camponesas e indígenas, com 133 vítimas. No primeiro trimestre, 50 líderes sociais foram assassinados (somados aos 145 em 2021), em um ano que se configura como um dos mais sangrentos desde o Acordo de Paz, segundo o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento e a Paz.

Os chamados Acordos de Paz, por um lado, não resolveram nenhum dos problemas estruturais da Colômbia, como a questão fundiária, e agora vemos como os militares declaram sem represálias como assassinaram dezenas de milhares de jovens como falsos positivos e outras atrocidades durante a guerra; por outro, vieram mostrar a catástrofe da estratégia de guerrilha das FARC que terminou na integração política ao regime burguês.

Vale ressaltar que os jovens que entram na política com as ações de protesto após os acordos de paz, sentem-se liberados daquele clima da atmosfera dos cinquenta anos anteriores, do terror do Estado, e perdem o medo de sair nas ruas para reivindicar suas demandas. Tudo isso em um dos países com mais contrastes sociais e concentração de riqueza em poucas mãos. Mais de 21 milhões de colombianos estão na pobreza, 21% dos jovens estão desempregados.

Gustavo Petro e a contenção social

Desde a explosão social, Petro foi o mais bem posicionado para capitalizar o desconforto da revolta. E isso também tem sido entendido por setores mais lúcidos do próprio regime político. Como escreveu Alejandro Gaviria, acadêmico e ex-candidato: “Há muito desconforto. Pode ser melhor ter uma explosão controlada com Petro do que deixar o vulcão engarrafado. O país está pedindo uma mudança”.

Eles estão cientes do papel inestimável desempenhado por Perto no desmantelamento dos protestos e, ao mesmo tempo, canalizando grande parte desse descontentamento. É que o candidato do Pacto Histórico buscou constantemente conter a revolta, muitas vezes com políticas de direita, lançando-se até mesmo contra aqueles que chamava de "os desordeiros", que não queriam sair das manifestações de rua. Pediu mais de uma vez que a greve fosse suspensa, ou, na falta disso, apenas os bloqueios, o que dava no mesmo. Lançou o discurso de que quanto maior a violência, maiores as chances de que o próximo presidente seja aquele que Uribe quisesse, e se opôs à renúncia de Duque quando isso era um clamor nacional, buscando chegar até 2022.

Foi Petro quem disse às massas nas ruas que deveriam ter “declarado vitória” após a primeira tentativa de retirada da reforma de Duque, aconselhando que estabelecessem alguns objetivos imediatos e sentassem para dialogar com o governo. Dessa forma, prestou um serviço inestimável à classe dominante, atuando para salvar o enfraquecido governo Duque, impedir sua queda e consolidar o desvio do processo até as eleições atuais.

Na juventude, que foi uma das protagonistas mais importantes da revolta social, Petro não é muito bem visto, mas é provável que o mal menor prevaleça, pois é verdade que, pela primeira vez em sua história, a Colômbia poderia muito bem escolher um presidente de centro-esquerda nas eleições presidenciais.

Petro se previne contra as críticas de setores tradicionais afirmando que “qualquer empresário não deve temer um programa de governo que busque aumentar a produção nacional”. Mas se ele for o próximo presidente da Colômbia, terá que criar amplas coalizões nas duas câmaras do legislativo para governar, fortalecendo alianças com os setores mais tradicionais, já que no parlamento, nas últimas eleições legislativas, ele não conseguiu uma representação forte o bastante para além do aumento em assentos.

Um fato que parece menor e que passou despercebido foi um debate entre vice-presidentes realizado nos Estados Unidos e do qual participou Francia Márquez, juntamente com os demais candidatos. Foi organizado pelo Instituto da Paz dos Estados Unidos, uma agência federal financiada inteiramente pelo Congresso dos EUA, que inclui em seu conselho os secretários de Estado e Defesa dos Estados Unidos, juntamente com o diretor da Universidade de Defesa Nacional do Pentágono. O Atlantic Council e o Woodrow Wilson Center também fizeram parte da organização do evento. O Atlantic Council tem em seu conselho de administração honorário composto por quatro ex-secretários de Defesa, três ex-secretários de Estado, um ex-presidente do Estado-Maior Conjunto e um ex-funcionário da Segurança Interna. Qual era o significado de tal evento? É um caso de supervisão de Washington?

Nem os candidatos da direita, nem o mal menor de Petro

A crise da direita colombiana que se apresenta através de vários candidatos goza da rejeição geral de grande parte dos trabalhadores e da juventude, confrontando-os nas ruas, já que representam o mais rançoso e repressivo da burguesia colombiana. Mas muitos votarão em Petro e Márquez sobre quem semeiam esperanças; alguns, embora questionem a política de Petro, acabarão votando nele pelo mal menor, pois o Uribismo e toda a direita colombiana devem ser derrotados.

Compreendemos o ódio ao Uribismo, à burguesia e a toda a direita rançosa, mas Petro já demonstrou amplamente que, além de vagas promessas de reformas, está longe de representar os interesses dos trabalhadores, dos pobres, dos camponeses, dos indígenas e da juventude. Pelo contrário, como já explicamos, concentrou todos os seus esforços em tirar as massas das ruas e impedir a queda de Iván Duque. Para aqueles que optam por Petro como o mal menor, podemos apenas dizer que não se trata apenas de castigar a direito e o Uribismo, mas sim fazer valer seus próprios interesses.

A Colômbia deve se ver no espelho do Chile com a eleição de Gabriel Boric. O novíssimo presidente chileno, que centrou grandes expectativas de um povo e uma juventude que estava nas ruas, não demorou dois meses para frustrar as esperanças de amplos setores com seus acordos com o establishment, o regime político e com os militares chilenos . Não mudou praticamente nada, não libertou os presos da revolta, mas avançou na militarização de Araucanía, reprimiu as marchas da juventude, não permitiu o uso do dinheiro da AFP com base nas necessidades populares. Em suma, não mudou nada substancialmente na situação do povo do Chile, o que levou a uma rápida perda de 20 pontos de popularidade. Com Petro não será menor.

Por isso dizemos que a luta pela conquista das demandas populares que deram origem à rebelião social continua e só pode se resolver nas ruas. A classe trabalhadora e as grandes maiorias populares, a juventude, os camponesas e indígenas só podem contar com suas próprias forças, como tem sido demonstrado nos constantes protestos, e não nesses desvios eleitorais que lhes são apresentados.

Não haverá solução para a questão da terra; para as grandes demandas dos povos originários; das comunidades afrodescendentes; para o problema estrutural da habitação, da saúde, da educação; das demandas históricas da classe trabalhadora; do problema que paira sob a juventude com desemprego crônico; da fome de milhões; dos massacres perpetrados pelas Forças Armadas assassinas e suas quadrilhas paramilitares; dos pagamentos vergonhosos da dívida externa que está nas mãos do FMI e da submissão do imperialismo - não haverá solução senão com o povo trabalhador organizado e nas ruas com total independência política e de classe.

Nessa luta, propõe-se a criação de organizações de autodeterminação das massas, estreitando aquela aliança operário-camponesa-jovem-indígena que já vimos na revolta de 2021, mas indo além, para níveis mais elevados de organização, na perspectiva da luta por um governo dos trabalhadores e dos explorados em ruptura com o capitalismo. Este é o desafio que se apresenta aos trabalhadores, setores populares, camponeses pobres, indígenas e jovens na Colômbia.




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