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Eleições Argentina | Eleições na Argentina amanhã e as batalhas da esquerda para ser a terceira força

Amanhã ocorre as eleições primárias da argentina, para decidir que candidatos irão para o pleito em novembro.

sábado 11 de setembro | Edição do dia

Para o público brasileiro, o termo eleições primárias pode parecer estranho. No entanto, na Argentina, desde 2011 vigora uma lei em que o país tem eleições primárias, as chamadas “PASO” alguns meses antes da eleição oficial. As PASO colocam um piso proscritivo para que os candidatos possam participar das eleições gerais – uma medida anti-democrática contra a esquerda que o Cristina Kirchner tomou – e também permite que dentro das chapas, possam disputar listas diferentes. Nas eleições oficiais em novembro, se disputarão metade da Câmara dos Deputados, 1/3 do senado e parte das assembleias provinciais e municipais.

Após uma “lua-de-mel” no início do seu governo Alberto Fernandez enfrente uma crise de popularidade. Até meados do ano passado, o presidente tinha o prestígio por ter derrotado Macri e as cifras de Covid da Argentina estavam mais baixas que no entorno. No entanto, as cifras aumentaram e Argentina já ultrapassa os 113 mil mortos (numa população que representa entre 20 e 25% da população brasileira). Ao mesmo tempo, a situação de crise econômica e social se agrava. A queda do PIB ano passado foi de 10%. Junto com isso, caiu a renda e os indicadores sociais. O desemprego e a informalidade aumentaram, a inflação já supera 50% ao ano e 42% da população está abaixo da linha da pobreza.

Ao mesmo tempo, o governo peronista veio mostrando sua verdadeira cara. Atacou direitos dos trabalhadores e dos aposentados. Os aumentos são abaixo da inflação. As medidas de apoio durante a pandemia foram menores que o auxílio emergencial no Brasil. Mesmo tendo aplicado uma lei que proíbe demissões na pandemia, as empresas continuam demitindo impunemente. Com o aumento da crise, ocorreram várias ocupações de sem-teto, que o governo reprimiu fortemente, marcadamente a ocupação de Guernica. Após criticar a dívida com o FMI contraída por Macri, o governo aceitou o pagamento das mesmas, se limitando a renegociar um prazo maior, sob as condições impostas pelo fundo, ou seja, mais medidas de austeridade. No âmbito ambiental, o governo tem promovido o fracking [1] em Vaca Muerta, assim como tem tido várias políticas para beneficiar o agronegócio e a mineração argentina. Agora, está voltando o debate sobre a reforma trabalhista e que o governo está analisando as propostas. Chegou a um ponto que em meados desse ano houve um atrito de Alberto com sua vice Cristina, mas agora aparentemente se reconciliaram.

Ainda por cima vieram os escândalos. Enquanto a Argentina, assim como outros países latino-americanos, sofria com a escassez de vacinas, se descobriu que o laboratório mAbxcience estava produzindo o princípio ativo da vacina AstraZeneca mas exportando tudo para os países imperialistas. Além disso, o dono desse laboratório Hugo Sigman era próximo ao governo. Mais recentemente houve o escândalo do Olivosgate, em que vazaram fotos do presidente em uma festa privada no palácio de governo, descumprindo as medidas restritivas que ele mesmo colocou.

Com a queda de popularidade, a direita macrista do Juntos por el Cambio tem tentado se aproveitar do desgaste do governo. No entanto, o que prima é cada vez maior um sentimento contra a casta política. Nesse sentido, a extrema direita personalizada por Espert e principalmente Milei tem tentado crescer, capturando inclusive votos do próprio macrismo.

Essas duas figuras são conhecidas como “liberfachos”. Liberais na economia e conservadores nos costumes. A que tem ganho mais referência nessa eleição foi Javier Milei, economista. Ambos pregam um neoliberalismo radical na economia, mas se colocam contra o aborto e o as drogas, além de defenderem as medidas mais repressoras da polícia. Se inspiram em Bolsonaro e Trump (recentemente Javier Milei se encontrou com Eduardo Bolsonaro e reivindicou o governo de Bolsonaro). Atacam a esquerda falando que os “comunistas esquerdistas estão com medo”. Recentemente, Alejandro Fargosi, apoiador dessas figuras, fez ofensas anti-semitas à Myriam Bregman, candidata do PTS-FITU. Assim como sua referência tupiniquim, fazem discursos surfando no rechaço à casta política. Mas a verdade entre discurso e prática é plasmada quando vemos hoje Bolsonaro se refastelando com o corrupto “Centrão”, além do caso dos laranjas e das rachadinhas.

A Esquerda apresenta uma solução real aos problemas estruturais

Contra a polarização que querem forçar entre o peronismo e a oposição de direita, além da demagogia dos “liberfachos” que só servem ao grande capital, a Esquerda fez uma campanha dando resposta de fundo aos problemas sociais. A lista majoritária [2] da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores-Unidade (FIT-U), composta pelo PTS (grupo irmão do MRT no Brasil), IS e PO [3] está encabeçada por Nicolas del Caño na província de Buenos Aires e Myriam Bregman na capital.

A FIT-U foi a vocalizadora de todas as lutas em curso, como várias greves e ocupações de terrenos. Denunciaram como tanto a direita macrista como o governo peronista estão comprometidos com todos os ajustes do FMI. Levantaram a necessidade do aumento do salário mínimo para o valor de uma cesta básica, assim como a necessidade de diminuir a carga de trabalho para 6 horas sem diminuição do salário, e a repartição das horas excedentes entre os desempregados, assim como a necessidade de se romper com o FMI. Defenderam também o fim da exploração do fracking em Vaca Muerta e o fim da megamineração poluente, além de denunciarem todas as medidas para o agronegócio.

A campanha da FIT-U entusiasmou milhares de trabalhadores e jovens, muitos deles que acabam de romper politicamente com o peronismo e votará na esquerda pela primeira vez. Além disso, reuniu o apoio de centenas de intelectuais, artistas e cientistas. Sua combatividade deixa a extrema-direita “nervosa”, como afirmou um jornal frente aos ataques sofridos por Myriam Bregman.

Antes da campanha oficial, as correntes da FIT-U e principalmente o PTS fizeram uma forte campanha pela unidade da esquerda socialista. Infelizmente alguns grupos preferiram manter o seu sectarismo. O Nuevo MAS e a tendência do Partido Obrero lançaram listas próprias. Frente ao chamado do PTS pela unidade da esquerda e ampliação da FIT-U, a resposta Nuevo MAS propôs um “debate” com Nico del Caño. Sim, apenas com Nico, se recusaram a realizar o debate com as outras forças da FIT-U e saíram isoladamente. Já a tendência do Partido Obrero, de Jorge Altamira, nem respondeu a proposta e também saiu isoladamente. Preocupados mais com seus aparatos, a política dessas correntes só serve aos partidos do regime de explorar a divisão da esquerda, ao mesmo tempo que essas correntes só aprofundam seu isolamento, fazendo campanhas marginais e apagadas e no caso do Nuevo MAS tendo que recorrer a “candidatos fantasmas” [4]. Infelizmente, também privilegiando seu próprio aparato, o MST, que integra a FIT-U, também resolveu fazer uma lista separada de última hora criticando o “sectarismo” (?) das outras forças.

O que esperar das eleições e do pós?

O resultado das eleições ainda está muito incerto. O que vem se afirmando é um rechaço cada vez maior à casta política, não à toa as campanhas dos partidos do regime estão quase todas focadas em tentar apresentar os candidatos como “pessoas normais”. Além disso, a tendência é aumentar os votos brancos, nulos e abstenções.

O governo tenta manter sua maioria no congresso, mas é provável que a oposição macrista seja melhor que nas eleições de 2019, por mais que a extrema-direita capturará alguns de seus votos.

Os resultados das PASO podem definir a política desses setores no interregno entre as primárias e as eleições definitivas. Dependendo do resultado dos votos do peronismo, pode haver uma pressão por medidas sociais que aumentem o gasto público, para apenas retirá-las depois das eleições. No entanto, dependendo da votação de Milei e Espert, isso pode gerar uma direitização do conjunto dos atores.

Já a FIT-U luta para ser a terceira força nacional em novembro. Uma boa votação da FIT-U é um recado a todos os poderosos. A eleição de mais parlamentares significará mais cadeiras a serviço da luta dos trabalhadores. Como já mencionado a FIT-U é a única que levanta as demandas que podem resolver a situação do país. É também a única alternativa capaz de combater a extrema direita, como mostrado pelo fato que a reação tanto do macrismo quanto do peronismo a emergência desse setor é girar cada vez mais à direita.

No contexto em que assistimos crise em partidos amplos, como o NPA e diretamente nerorreformistas como Podemos e PSOL, uma votação forte da FIT-U também mostrará que não é necessário abrir mão de suas pautas e princípios para conseguir ter peso político.

Além disso, diferentemente desses partidos que tem seu foco nas eleições, a FIT-U possui seu centro de atuação na luta de classes. Sua projeção eleitoral não é fruto de figuras eleitorais, e sim da sua inserção real em vários setores de trabalhadores e do movimento estudantil. Seus candidatos são conhecidos por estarem ombro a ombro nas ruas em cada luta dos trabalhadores, do movimento de mulher, do movimento LGBTQI+, das lutas por moradia etc e que seus cargos parlamentares são para fortalecer essas lutas.

Por tudo isso, convidamos todos a acompanhar a cobertura aqui no Esquerda Diário.


[1Meio de exploração de petróleo super poluente ao meio-ambiente, proibido em vários países do mundo

[2Na Argentina, as eleições parlamentares são em listas de candidatos, não nas pessoas como no Brasil.

[3O MST saiu em uma lista a parte dentro da FIT-U.

[4Prática nefasta e oportunista de inserir nomes nas listas sem consultar nem avisar as pessoas, apenas para inflá-las.





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