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Eleições México 2021: Avanços e retrocessos de Morena e da direita

Num contexto de grande polarização política, começa a se expressar certo desgaste do governo de Andrés López Obrador.

quinta-feira 10 de junho| Edição do dia

Foto: AE/AFP

Numa jornada eleitoral onde esteve presente a violência - como em San Luis Potosí, Baja California, Campeche e Estado do México - destacou-se a alta participação do eleitorado, que, segundo dados oficiais, poderia chegar a 52%, quando a média histórica em eleições intermediárias é de 45%. O aumento na participação se pode explicar, em parte, porque se realizaram eleições para governador em 15 entidades, junto com deputados federais em todo o país.

Os resultados preliminares apresentados pelo Instituto Nacional Eleitoral sinalizam que Morena, o partido de López Obrador, teria obtido aproximadamente 35% dos votos, e que junto com seus atuais aliados - o Partido do Trabalho e o Partido Verde, antes companheiro do PRI - poderia chegar a 45%. cabe ressaltar que a maioria das pesquisas projetavam nos dias anteriores às eleições, 40 ou 43% para o partido de situação, que finalmente ficou abaixo das expectativas. A aliança de oposição, composta pelo PRI, PAN e PRD, estariam obtendo entre 40 e 41%. A coalizão da situação se mantém assim como a primeira força eleitoral, porém diminuindo bastante a diferença com a oposição, que havia sido expresso nas eleições de 2018 impulsionadas pelo triunfo esmagador de AMLO.

Segundo resultados preliminares, de 330 cadeiras de deputados que Morena e seus aliados ganharam em 2018 através de sua coalizão Juntos Haremos Historia, agora poderiam perder até 60. Manteria junto com seus aliados PVEM e PT umas 292 cadeiras no melhor dos casos. Isto significa que terá a maioria absoluta, mas a maioria qualificada de dois terços renunciará.

Se isto se confirmar, debilita a hegemonia do partido AMLO para garantir reformas constitucionais que o presidente prometeu. Assim como sua agenda legislativa, que visa limitar ligeiramente os privilégios das transnacionais e empresários que os governos do PRI e PAN garantiram, como aconteceu com a regulação do outsourcing, ou com as reformas elétrica e petroleira. AMLO pode depender, muito mais que antes, de acordos com a oposição.

O resultado obtido teria dado para conquistar, no terreno das governanças, importantes avanços. Se se confirmar sua vitória em Michoacán (antes PRD), Colima (lugar histórico do PRI), Baja California Sur (antes governada pelo PAN), Sonora (até agora governada pelo tricolor), Guerrero (também do PRI até 2021), Tlaxcala (até agora do PRI) e Zacatecas (outro bastião que o PRI perde), pelo menos. Sete de quinze, neste panorama, será um importante avanço nacional do Morena, que acumula vários governos do PRI.

As causas do resultado eleitoral

Neste processo eleitoral, a direita levou adiante uma campanha militante de não votar no Morena. Uma grande frente incluindo PRI-PAN-PRD, setores do empresariado liderados por Gustavo de Hoyos e Claudio X. González, figuras públicas do Sí por México, a hierarquia eclesiástica católica e meios massivos de comunicação nacionais e internacionais, estiveram em ação durante todo o período eleitoral.

No norte do país, aproximadamente 500 mil trabalhadores, gestores e fornecedores passaram por seminários, conferências e propagandas de todo o tipo para que votassem no lema "Cuidam do seu emprego e cuidam da sua empresa", em nome do Estado de direito para os negócios capitalistas. Esta foi uma campanha similar à que levaram as cúpulas empresariais antes das eleições de 2018, após o presidente ter lhes “estendido a mão”, gerando um diálogo permanente com os mesmos.

Entretanto, a campanha da direita e a emergência da mesma coalizão não explicam o resultado eleitoral. O que se mostrou em 6 de junho é que seu governo, ainda que mantenha parte de sua força, sofreu um desgaste relativo. Isto se expressa na desilusão de parte de parte de sua base eleitoral, que em 2018 deu ao AMLO 53% dos votos, baseado nas expectativas geradas por seu discurso antineoliberal e suas promessas de mudança. A causa disso não pode ser atribuída às campanhas da direita.

Nestes três anos se expressou a contradição entre o discurso de tons progressistas, a respeito de uma política que manteve muitos dos planos neoliberais ordenados desde Washington e aplicados pelos governos desde Miguel de Madrid em diante. Exemplo disso é a persistência da militarização e da precarização do trabalho, a obediência ao pagamento da dívida externa, conservar elementos como as “empresas produtivas do Estado”, que permitem a associação com empresas privadas. Assim como outras ações como o anúncio do retorno às aulas presenciais sem condições seguras, que despertaram grande insatisfação no setor da educação, bem como a recente repressão aos professores e a situação enfrentada por diferentes setores em luta, como os trabalhadores da Notimex.

A pandemia implicou em um retrocesso no nível de vida da maioria da população, pois empresários e multinacionais aproveitaram a crise atual para impor cortes de salários, demissões e maior precarização do trabalho. Ataques dos quais tanto o Morena, quanto o PRI, PAN e o PRD são cúmplices, e que as direções sindicais atuais deixam passar.

Se AMLO capitalizou em 2018 o descrédito dos velhos partidos e a ruptura de muitos eleitores com estes, sua política é o que está abrindo o caminho para a recomposição da direita.

Para combater estes ataques, e os que virão, as e os trabalhadores necessitam impulsionar uma política independente, baseada na mobilização e na luta por direitos. Para isto, é fundamental forjar uma alternativa política independente dos empresários, dos partidos de direita assim como de Morena, e a burocracia sindical que mantém uma trégua com o governo. Um partido anti-imperialista, internacionalista e revolucionário que proponha um programa de emergência para os trabalhadores diante da crise, que enfrente a subordinação ao imperialismo estadunidense e apresente uma perspectiva de independência de classe.




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