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ELEIÇÕES ARGENTINAS

Eleições Argentinas: entre a polarização "macrismo e peronismo", há uma alternativa à esquerda

terça-feira 30 de julho| Edição do dia

Breve Cenário Argentino

A Argentina vive uma grave crise econômica e social sob os ditames do FMI. No último ano o valor dos alimentos subiu 60,4%, a inflação de junho foi de 2,7%, se somando aos já 22,4% acumulados ao ano, o que atinge com força as condições de vida da classe trabalhadora. A juventude deixa suas vidas em bicicletas, abandona os estudos para poder ajudar suas famílias, idosos são reprimidos pela polícia ao vender alface em feiras. A pobreza que já atinge 35% da população contrasta com o lucro de 200% conquistado pelos bancos privados apenas em maio. O presidente argentino, ansioso pela sua reeleição, é linha de frente do servilismo imperialista junto a Bolsonaro, seja cedendo a quaisquer vontades de Trump, apoiando a tentativa de Golpe na Venezuela ou agora com o recente acordo de recolonização assinado com a União Europeia

O desemprego supera os dois dígitos (10,1%) segundo dados de junho e o trabalho não formal chega a 35%. Este cenário desvalorização salarial e aposentadorias de fome foi arquitetado por Macri junto ao Fundo Monetário Internacional, que à serviço das grandes potências imperialistas, avança em submeter a América Latina a que paguemos as contas da crise capitalista internacional. O FMI, como demonstração pelos serviços prestados por Macri já deu cinco empréstimos de Stand By, totalizando ao redor de 44,4 bilhões de dólares para “salvar” a economia. Este dinheiro não foi para nenhuma das necessidades do povo trabalhador, mas sim para o pagamento da fraudulenta e interminável dívida pública e para dividendos com grandes empresários, que organizam uma gigantesca fuga de capitais.

Estes “resgates” que estão custando a vida da classe trabalhadora, das mulheres e da juventude não se deram por bondade do FMI, muito pelo contrário, foram submetidos à uma série de ataques, aprovados com votos dos deputados peronistas e kirchneristas, assim como o apoio dos governadores peronistas e do Partido Judicialista, e com a colaboração da burocracia sindical kirchnerista e outras, que convocam paralisações para lavar a cara, sem construí-las nos locais de trabalho e estudo. Assim aprovaram a Reforma da Previdência sob uma duríssima e histórica repressão, na qual o Partido dos Trabalhadores Socialistas (o PTS, organização irmã do MRT na Argentina) na FIT (Frente de Esquerda e dos Trabalhadores) e as agrupações no movimento operário, estudantil e de mulheres cumpriram um papel histórico de mobilização.

Neste sentido também aprovaram o Orçamento de 2019, após uma gigantesca greve da educação no ano passado, onde a força da Maré Verde, que desenvolveremos mais adiante, se juntou aos docentes em greve pelo reajuste salarial e defesa da educação e resultou em centenas de universidades ocupadas. Também houve a tentativa de fechamento do Estaleiro Rio Santíago, que resultou em uma heróica greve em defesa dos seus postos de trabalho e pôde ser barrada. Também tiveram destaque os tarifaços, com os quais as contas de água e luz tiveram aumentos homéricos, impossibilitando até mesmo o aquecimento das casas no severo inverno argentino. Há poucas semanas um caso trágico ilustrou a situação da população, quando um jovem faleceu intoxicado por CO2 por tentar se aquecer com carvão.

A polarização eleitoral

As eleições na Argentina possuem primárias, chamadas as PASO, que constituem em uma medida anti-democrática instituída em 2009, sob governo de Cristina Kirchner, exigindo de cada candidatura ao mínimo 1,5% dos votos nas eleições primárias, para dificultar a participação de candidaturas dissonantes e da classe trabalhadora, que não sejam financiadas por grandes empresários.

De acordo com as últimas pesquisas eleitorais, a polarização é sem precedentes, enquanto a Frente de Todos, de Alberto Fernández e Cristina Kirchner contam com 45% das intenções de voto, a Juntos Pela Mudança, de Maurício Macri e Pichetto contam com 43%. Esta polarização se dá no marco da profunda crise social argentina, onde Cristina Kirchner, ex-presidente, aparece como esperança na retomada de um ciclo de crescimento inviável, com a recuperação do perdido, ou ao menos como impedimento de perder ainda mais; ilusões essas que persistem embora o governo anterior de Cristina tenha se dedicado a administrar os interesses dos capitalistas nacionais e estrangeiros, abrir caminho aos monopólios estrangeiros e submeter os trabalhadores ao controle férreo da burocracia sindical peronista.

Sua candidatura foi inicialmente definida como “perigo chavista” por Trump e Bolsonaro, não sendo a preferida do FMI. Mas no dia 15 de Maio, ao anunciar que será vice de Alberto Fernández, um peronista com íntimas relações com a patronal e a burocracia sindical, conseguiu reaproximar governadores que haviam se afastado do kirchnerismo e conquistando o apoio de Sergio Massa, do Partido Judicialista.

Alberto Fernández ocupou cargos públicos por 24 anos, foi parte do governo neoliberal de Carlos Menem e seus fortes ajustes antioperarios na década dos 90, assim como de Duhalde e Kirchner, com quem havia rompido em 2009. Os sindicalistas que o apoiam somam 600 anos em seus cargos e foram responsáveis, especialmente a CGT (principal central sindical argentina), pela passividade e apoio aos planos de Macri. Em seus primeiros pronunciamentos como candidato, já se declarou fiel ao pagamento da dívida pública e à negociação com o FMI, ao passo que diz querer retomar o crescimento econômico dos anos 2000, uma promessa inviável frente à situação da economia internacional. Alberto Fernández procura agradar a todos, até mesmo se declarando cinicamente "favorável" a avançar para a legalização do aborto, enquanto é um dos principais lobistas da Igreja Católica, tendo como aliado Alberto Manzur (ex-Ministro da Saúde de Cristina), que obrigou uma menina de 11 anos a parir, fruto de um estupro.

Enquanto Alberto se desvencilha um pouco da figura de Cristina para priorizar suas relações com os governadores peronistas, a ex-presidente se defende das acusações afirmando que é uma defensora mais ardorosa dos capitalistas que todos aqueles que a questionam. Caso eleitos, prometem uma acelerada experiência das massas trabalhadoras com suas ilusões reformistas, uma vez que a "chapa Fernández" defende seguir pagando o roubo da dívida aos banqueiros e não romper com o FMI, o que significa que aplicarão os ajustes exigidos contra os trabalhadores, as mulheres e à juventude.

O direitista Macri recebeu recentemente o apoio de Mike Pompeo, secretário de Estado de Trump, apoio que elucida qual o futuro que este quer continuar na Argentina. Aplicou reformas duras como a da previdência, contra os trabalhadores, e ajoelha no altar do FMI. Afirma que “do outro lado do rio nos espera algo diferente” e que suas medidas são expressão de que os argentinos deixaram de adiar os problemas e encará-los de frente, assim como “o pior já passou”. Também recorrentemente diz que quer que a Argentina avance com trabalho, que todos trabalhem para fazer avançar o país, algo curioso de um presidente que passou uma porcentagem altíssima em férias, enquanto quer que a juventude se lasque em trabalhos precários e promete substituir a educação civil por militar. Queridinho do FMI, a atual situação argentina já evidencia o que isso significa.

Um termo em alta nas eleições argentinas é o “panquequismo”, que significa rápidas mudanças de opinião, perspectiva e até mesmo filiação política por parte dos candidatos da burguesia, de acordo com interesses próprios. O peronismo se apresenta nas duas principais candidaturas. Com Cristina e também com Macri, pela candidatura de Miguel Ángel Pichetto como seu vice. Pichetto foi um dos maiores aliados do governo Macri no Senado, garantindo as aprovações das leis ajustadoras, garantindo os votos do Partido Judicialista no Congresso. Ainda assim chegou ao Senado como parte do Frente Para La Victoria e já foi o homem de confiança de Cristina Kirchner na Câmara dos Deputados.

Existe também uma auto-intitulada “Terceira Via” de Roberto Lavagna como candidato a presidente e Juan Manuel Urtubey como vice, responsável nesta semana por uma violenta repressão aos professores, que responderam com manifestações ainda mais massivas.

O cenário segue em aberto, cada candidatura da polarização, a sua maneira, representa a continuidade do pagamento da dívida pública, submissão ao FMI e a miséria da população. O que definirá como se darão os ajustes será a força de organização da classe trabalhadora, das mulheres e da juventude para se enfrentar com o governo que se eleger e essa preparação se dá desde já.

Frente de Esquerda Unidade: sempre do mesmo lado

A FIT, Frente de Esquerda e dos Trabalhadores, frente ao grave cenário econômico, social e político atual, realizou um chamado à Unidade da esquerda anticapitalista para uma frente eleitoral sob um programa de independência de classe, que defende que sejam os capitalistas os que devem pagar as contas da crise, na perspectiva de um governo dos trabalhadores que, em base à mobilização das massas, rompa com o capitalismo. Assim, foi criada a Frente de Esquerda Unidade (FIT Unidad), encabeçada pelo PTS e que conseguiu congregar 90% da esquerda anticapitalista argentina. Da FIT fazem parte o PTS, o Partido Obrero e a Izquierda Socialista; a FIT Unidad agrega ainda o MST, Poder Popular e o PSTU, com chapas unitárias em todo o país.

O chamado a votar na FIT, como coloca Myriam Bregman, candidata a deputada federal em Buenos Aires e importantíssima referência na luta pelo direito ao aborto e contra a impunidade dos genocidas da sanguinária ditadura, é “para dar uma forte mensagem aos inimigos do povo”, como podem ver neste spot:

A FIT é a mais exitosa experiência de uma frente política de independência de classes no mundo. Com um programa de independência de classe, anticapitalista e socialista, conseguiu avançar em sua influência política desde sua criação em 2011, chegando a receber 1,2 milhão de votos nas eleições legislativas de 2013, tendo hoje 40 legisladores nacionais (entre deputados federais, estaduais e vereadores), figuras que são reconhecidas pela própria burguesia como a nova cara da esquerda argentina - como disse a rede CNN - e com a particularidade de ter uma forte inserção militante nas estruturas operárias e estudantis mais importantes da Argentina (especialmente em função do PTS).

Essa força material, militante, participou junto a milhares de jovens, mulheres e trabalhadores dos principais fenômenos da luta de classes no país, base sólida para o avanço de sua influência nas estruturas chave da economia. Ao contrário das experiências em decadência do neorreformismo europeu, como o Syriza na Grécia e o Podemos no Estado espanhol - que nunca tiveram qualquer política anticapitalista, nem força militante, e que aplicavam ajustes neoliberais onde tinham responsabilidade executiva (no caso do Syriza, dirigindo o Executivo nacional aplicando os ajustes da Alemanha) - o desenvolvimento da FIT revela que a esquerda que avança é a que não modera seu programa, a que busca construir um grande partido revolucionário na Argentina para fazer com que os capitalistas paguem pela crise.

Por isso, a FIT é um grande exemplo para a esquerda internacional, já que apresenta um programa que evidencia o quanto os interesses dos capitalistas e da classe trabalhadora são opostos, assim busca construir uma unidade que será extremamente necessária para lutar contra os ataques do porvir. Seu principal mote é “Sempre do mesmo lado”, já que os integrantes da FIT estão sempre ao lado da classe trabalhadora, das mulheres e da juventude, radicalmente diferentes dos políticos burgueses, que viram a casaca a todo momento, sempre em benefício da patronal. Enquanto a polarização Macri x Kirchner apresenta candidatos milionários como a única saída, os políticos da FIT defendem que cada político ganhe o mesmo salário que um professor e assim vivem, doando todo o restante a lutas sociais.

Defendem a imediata ruptura com o FMI e o não pagamento da dívida pública, eixo programático que é elencado como ilusório e excessivamente radical, mas sobre o qual questionam “E o que acontecerá se não rompemos com o FMI e deixamos de pagar a dívida pública? É possível defender as necessidades da classe trabalhadora por fora desta ruptura?”. O que evidencia que só pode aprofundar as mazelas sentidas pelas massas. Defendem a inversão das prioridades com o mote “Nossas vidas primeiro”, para organizar a economia à serviço das necessidades da população trabalhadora: saúde, educação, emprego e moradia.
Estes objetivos ficaram evidentes no emocionante encontro realizado para o lançamento da campanha da FIT em Buenos Aires:

A FIT Unidade se opõe radicalmente aos tarifaços, defendendo a nacionalização de todos os serviços públicos sob administração dos trabalhadores, para que deixem de ser fonte de lucro dos patrões e péssimos serviços para a classe trabalhadora, que tem sofrido até mesmo com recorrentes apagões. Frente aos fechamentos de fábrica, onde os patrões alegam falência para roubar dos trabalhadores quaisquer direitos e coloca famílias nas ruas, a FIT defende que toda fábrica que feche seja colocada sob controle dos próprios operários. A FIT não se cala 3 exige: nenhuma família na rua.

A única força política que busca uma saída para a mazela do desemprego que atinge a classe trabalhadora é a FIT: as horas de trabalho precisam ser dividas, sem diminuição dos salários, para que todos aqueles que precisam possam trabalhar. Repudiando também a terrível precarização do trabalho, que atinge em cheio a juventude.

A Argentina foi palco de massivas manifestações de mulheres desde 2015, o que começou com o movimento #NiUna Menos se transformou em uma imensa Maré Verde em defesa da vida das mulheres e da legalização do aborto, assim como educação sexual e saúde sexual integrais. Apesar do massivo apoio e da aprovação na Câmara dos Deputados, os dinossauros do Senado impediram o direito de decidir das mulheres, que condena à morte milhares anualmente. Enquanto Cristina Kirchner pede que as mulheres esperem e sigam morrendo silenciosamente, a FIT Unidad é a única que defende o aborto legal, seguro e gratuito. Em emocionante discurso, Myriam Bregman expressou o que é a construção do feminismo socialista, que sempre defende as mulheres trabalhadoras:

Nós do Esquerda Diário, integrante da rede internacional de diários La Izquierda Diario, impulsionados pelo Movimento Revolucionário de Trabalhadores e pelo Partido dos Trabalhadores Socialistas na FIT Unidad respectivamente, convidamos todos a acompanharem as eleições argentinas e a atuação dos revolucionários no ardiloso terreno das eleições burguesas, defendendo um programa e uma saída de independência de classe, para preparar as batalhas do porvir!




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