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Eleição na Câmara: aprendendo algo com as táticas absurdas

Aliar-se com o braço direito de Temer, Baleia Rossi, ou com Lira, o candidato de Bolsonaro? Apoiar Rossi no primeiro ou no segundo turno? Estes foram alguns dos tenebrosos debates táticos na esquerda e centro-esquerda brasileira. Mesmo nestas trevas é preciso encontrar alguma luz, aprender algo do absurdo.

Leandro Lanfredi

Rio de Janeiro | @leandrolanfrdi

segunda-feira 1º de fevereiro| Edição do dia

As táticas parlamentares, e especialmente de composição de chapas nas eleições parlamentares estão longe de expressar uma exceção oportunista na orientação da centro-esquerda e da esquerda nacional. Estas táticas brilham como as pontas de um iceberg sob o sol, permitindo ver parte de todo o corpo glacial e, assim, proceder a uma crítica que vise a superação não somente destas táticas, mas também daqueles que as fortalecem e reproduzem.

O debate tático na esquerda institucional brasileira esteve todo concentrado na Câmara. No Senado se consensuou o voto no candidato de Bolsonaro e Alcolumbre. Não houve malabarismo retórico que permitisse tornar compreensível essa discrepância de posições nas duas casas.

As credenciais de “independência” de Rossi são escassas, talvez só os filhos de Bolsonaro votem mais com o governo. No PSOL o debate Rossi centrou-se em quando ser parte ativa desta operação, no primeiro ou no segundo turno, já no PT que fechou posição pelo primeiro, surgiu uma dissidência pró-Lira, porque este não se mostraria tão bolsonarista (sic). É chamativo que essa dissidência petista foi articulada por ninguém menos que o presidente da Assembleia Legislativa do Rio, um petista que serviu de aliado primeiro a Witzel e agora serve ao bolsonarista Castro. Com “oposição” assim como não se consolida o regime golpista e catástrofes contra os trabalhadores como vemos no Rio?

A coligação eleitoral com os partidos de Lira e Rossi não é estranha ao PT ou ao PcdoB. País afora estão coligados com o MDB e com PP, que até nomeia o vice-governador da Bahia. A novidade do debate do PSOL sobre essa composição, havendo divergência de “como” e não de “se”, expressa o salto de aceitação e integração deste partido no regime do golpe.

O voto na Câmara é para a esquerda que administra o capitalismo (e não o combate) só a ponta deste iceberg que tem o dia-a-dia da gestão coligada do regime do golpe como uma de suas partes submersas. Neste debate também se expressa deixo da superfície visível a materialização do mal menor como negação de uma estratégia. O mal menor significa a capitulação não de uma vez só, mas passo a passo. Se é para capitular ao golpismo porque não aderir direto ao candidato de Bolsonaro?

O debate “tático” da Câmara também mostra uma posição política que é dependente de que o inimigo – subitamente – deixe de ser inimigo para se tornar “aliado”. Todo centro “tático” da atuação da centro-esquerda e da esquerda nacional esteve em convencer Rodrigo Maia a ser algo diferente de Rodrigo Maia, que ele aceite o impeachment, que ele não coloque determinada reforma ou privatização em pauta, etc.

Trata-se da materialização de uma esquerda que abriu mão de uma agenda própria, aceitou o terreno imposto como o limite do pensável. O raciocínio arcano criou a consigna “aceita Maia”, e que prontamente será substituída pelo “aceita Rossi” ou pelo ainda mais absurdo “aceita Lira”.

Quando Maia ou Lira aceitarão abrir um processo de impeachment? Quando já não houver utilidade de Bolsonaro como agente conjuntural da implementação da agenda do golpe, de ataques aos trabalhadores, privatizações, etc, aí, quando isso se materializar – por pressão das ruas ou não – haverá aceitação.

Maia, Lira, ou Rossi não são aventureiros soltos que podem fazer algo acidental, eles são a nata de oligarquias políticas, com mil e um laços com o latifúndio, com a indústria, com o capital financeiro e com o imperialismo. Quando soar a hora de Bolsonaro na Bovespa já terá sido votado um substituto, um gabinete ministerial e um programa. Lembremos da “Agenda para o Futuro” de Temer ou das privatizações de Itamar Franco. É falacioso tratar um governo nascido de um impeachment como um governo fraco, nossa história mostra o contrário, são governos de “coalizão ampla” e que gozam de tolerância das massas por terem substituído um governo desgastado, permitem mudar o jogador sem mudar as regras do jogo.

Enquanto esta esquerda semeia ilusão no impeachment e que o DEM ou o MDB ou o PP vão querê-lo, enquanto se insiste no caráter “destituinte” do procedimento, a burguesia lida com o mesmo de forma diferente, para ela o impeachment é também uma votação presidencial indireta. Toda votação de impeachment é também a votação de formação de um novo governo.

Há muitas lições a aprender com o imprestável debate da Câmara. Até mesmo eleitoralmente há lições do absurdo já que se configura alta a probabilidade da vitória de Lira e não de Rossi, sem que sequer uma agenda própria da esquerda tenha vindo à luz. Mas muito mais importante são outras lições: trata-se de atuação da esquerda ajudando a fortalecer o regime do golpe e sua agenda social nefasta. Faz falta construir uma outra esquerda, revolucionária, que confie e aposte na mobilização independente dos trabalhadores, e que se enfrente com todo o regime do golpe e seus agentes.




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