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O que a mídia pensa | Editoriais da mídia: nos jornais o salário mínimo, nos bancos o lucro máximo

Editoriais da mídia burguesa se esforçam para enquadrar a realidade de ameaça da fome e miséria no país, falando sobre a alta da cesta básica e o salário mínimo, mas a verdade é que estão atrelados aos interesses dos banqueiros que vêm desfrutando de lucros máximos nos últimos meses.

terça-feira 24 de agosto | Edição do dia

Nos editoriais da mídia deste domingo 23/08 a deterioração das perspectivas para o cenário econômico foi o que prevaleceu. Paulo Guedes pode insistir na retórica de retomada em “V” da economia que não convence mais nenhum de seus pares da Faria Lima. Os índices econômicos não são um mar tranquilo para o governo, como fizeram questão de apontar os editoriais da Folha de S. Paulo e do Estadão. Em seu editorial “O preço do desgoverno”, a Folha de S. Paulo mirou os números da valorização do dólar e da queda da Bovespa para mostrar a deterioração das expectativas dos investidores que estariam fugindo com seus capitais.

Outro dado que a Folha também usou e o Estadão explorou ainda mais em seu editorial - “A cesta, o mínimo e os ruídos” - foi o da alta da inflação. Nem mesmo a alta das commodities, captada na alta do preço dos alimentos, tem sido uma boa notícia para o governo, que no cenário de miséria da economia brasileira atual significa o crescimento da fome no país, pois como cita o editorial a cesta básica já alcança o patamar do salário mínimo. O crescimento da economia neste ano, que ainda busca recuperar o patamar anterior à pandemia, tem em uma de suas principais dificuldades em produzir emprego e renda para os trabalhadores brasileiros, o que se aproximando de um ano eleitoral preocupa muito Bolsonaro.

Porém, os números que os editoriais fazem questão de não comentar são a respeito do lucro dos grandes bancos, que para variar bateram novos recordes. Segundo o Valor Econômico, o montante de 23,1 bilhões da somatória dos quatro principais bancos do país - Banco do Brasil, Bradesco, Itaú e Santander - é o maior da história para um único semestre. Ou seja, não é verdade que estamos em uma crise que todos têm a reclamar, enquanto os mais pobres se aglomeram em filas disputando o osso da carne, os banqueiros estão reclamando de barrigas bem cheias - ao menos os bolsos nunca estiveram tão cheios.

Dada essa situação de alta rentabilidade do capital financeiro brasileiro, do qual essas mídias são mero porta-vozes, fica a pergunta: a que se deve, então, essa suposta deterioração das expectativas dos investidores brasileiros? Porque estaria insatisfeita a burguesia brasileira? Parte da Faria Lima já deixou claro em manifestos contrários ao governo Bolsonaro sua insatisfação estando disposta a encampar outro projeto. Porém outra parte mais pragmática, como um e-mail de um analista do Santander revelou, faz o cálculo entre Bolsonaro e Lula e prefere o capitão - talvez por subestimar o esforço que o petista se mostra disposto a oferecer para mais uma vez pronunciar a frase que gosta de dizer: “vocês nunca ganharam tanto quanto no meu governo”.

Existe claramente essa divisão entre as parcelas do capital financeiro nacional, entre aqueles que olham para a instabilidade permanente do governo Bolsonaro e pensam: “poderíamos estar melhor, as reformas poderiam estar sendo aplicadas exemplarmente”. Essa é uma posição que desde a reforma da previdência muitos analistas burgueses defendem. Se não fosse a disfuncionalidade de Bolsonaro, que provoca tumulto atrás de tumulto, a reforma poderia ter sido mais draconiana, arrancado mais direitos da classe trabalhadora. Esses são os saudosos partidários de Temer, alguém que atraia menos atenção e passava as reformas, como a trabalhista e o teto dos gastos, com menos ruído. O Estadão aliás reviveu o ex-presidente golpista para citar como exemplo de austeridade fiscal, de não intervenção na economia, enfim da cartilha liberal. Esse é justamente o setor que quer emplacar a terceira via, como o Estadão dedica todo outro editorial para isso - “A população não quer mais isso” -, que diz com todas as letras: “O lulopetismo e o bolsonarismo já foram testados e categoricamente reprovados, como mostram as respectivas taxas de rejeição”.

Mas é importante frisar que essa é apenas uma fração da burguesia financeira, outra parte está representada no conteúdo golpista do analista do Santander. Mais fria essa burguesia gosta de jogar com as cartas que têm às mãos, e vê em Bolsonaro não um personagem disfuncional, mas um dano colateral que na verdade não prejudica o andamento das reformas, que pelo contrário, produz a cortina de fumaça necessária para desviar as atenções, como o desfile do esquadrão da fumaça em meio a votação da mini (enorme) reforma trabalhista. Mais do que isso, monta o palco para os editoriais estejam sempre disciplinando todas as demais alas, cobrando a unificação pelos objetivos importantes, passar as privatizações e as reformas. Assim, as reformas passam em uma velocidade poucas vezes vistas, enfileira-se a privatização da eletrobrás, dos correios, a minirreforma trabalhista.

Então, na cabeça dessa fração a conta é simples: o que importa que Bolsonaro intervenha na política de preços da Petrobras? Que mude o comando da empresa? Se no dia seguinte a gritaria da mídia burguesa vai disciplinar mais uma vez o liberal de conveniência. Que importa que Guedes seja mais uma vez desmoralizado nos jornais? Esteja pela enésima vez a ponto de sair, enquanto segue ali como a ponte permanente entre o governo e a Faria Lima. O que importa a aliança com o Centrão? - Aliás, outra fração da burguesia nacional - , o que importa os bilhões e bilhões em emendas? Se, enfim, o objetivo das reformas for e está sendo alcançado.

Dessa forma, a mídia esbraveja e cumpre seu papel de porta voz direto de parte dos setores burgueses, enquanto o outro setor apesar de ter outra política, também se satisfaz de ter alguém sempre bradando por ajustes mais duros, mais disciplina fiscal, atrair mais investimentos estrangeiros, quando na verdade seus bolsos seguem cheios como nunca.




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