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MUNDO OPERÁRIO | Um vídeo circulou pelas redes essa semana mostrando um exemplo de solidariedade de classe. Um rodoviário da empresa Transol saiu em defesa de seus colegas trabalhadores da Canavieiras em Florianópolis (SC), que agora ocupa a mesma garagem da Transol e está demitindo seus funcionários se negando a pagar os salários e as indenizações. As demissões aconteceram logo após a Canavieiras entrar na justiça com ação de recuperação Judicial. Após o vídeo do circular no Whatsapp nos do Esquerda Diário procuramos o rodoviário Carlos Braga e o entrevistamos para entender sobre o processo de ataques que as empresas do transporte aplicam aos trabalhadores em Florianópolis.

Um vídeo circulou pelas redes essa semana mostrando um exemplo de solidariedade de classe. Um rodoviário da empresa Transol saiu em defesa de seus colegas trabalhadores da Canavieiras em Florianópolis (SC), que agora ocupa a mesma garagem da Transol e está demitindo seus funcionários se negando a pagar os salários e as indenizações. As demissões aconteceram logo após a Canavieiras entrar na justiça com ação de recuperação Judicial. Após o vídeo do circular no Whatsapp nos do Esquerda Diário procuramos o rodoviário Carlos Braga e o entrevistamos para entender sobre o processo de ataques que as empresas do transporte aplicam aos trabalhadores em Florianópolis.

sábado 5 de junho | Edição do dia

No vídeo um trabalhador indignado partiu pra cima da direção da empresa Canasvieiras em solidariedade aos colegas que estão sem salário ou indenizações por conta da empresa entrar em recuperação judicial. Tratava-se de um trabalhador rodoviário da empresa Transol, do consórcio Phoenix em Florianópolis, que divide a mesma garagem e são parte do mesmo grupo como a Tinga/trevo ou Vap/Estoril em Porto Alegre no RS, que também estão atacando os trabalhadores para aumentar seus lucros. Carlos Braga,64 anos, 39 como rodoviário, e trabalhou na Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA). Foi "cipeiro" por 5 mandatos, utilizando a sua posição como cipeiro para defender os colegas da empresa Canasvieiras. Carlos embora com seu salário em dia, comprou briga e foi pra cima e garantiu que, se não mudarem a situação dos trabalhadores da Canasvieiras, eles vão partir com tudo pra cima da patronal.

Assista o vídeo:

O esquerda diário procurou o senhor Carlos, que gentilmente concedeu uma entrevista emocionante que reproduzimos a seguir; boa leitura.

Carlos, qual o motivo da mobilização dos rodoviários de Florianópolis e como vocês estão vendo a situação do transporte na cidade?

O consórcio das empresas de Santa Catarina é um sistema que não funciona, é um monopólio, porque o interesse dos empresários é que nenhuma outra empresa entre em em Florianópolis para que os empresários possam explorar nós funcionários à sua vontade. Esses consórcios ganham da prefeitura em torno de 20 anos de licitação e atendem tanto dentro da ilha quanto fora. Fazia anos que os rodoviários não tinham paralisações, porque nossa categoria aqui na cidade tem um histórico de lutas muito forte e os patrões deram uma recuada durante um tempo. O que nos motivou a fazer essa nova paralisação foi a pandemia, por conta das rotinas de trabalho árduas que aumentam de forma brutal em cima dos trabalhadores. A gota d’água mesmo do processo de ontem foi que as empresas estavam quebrando os acordos coletivos dos anos anteriores.

Todo o mês de janeiro nós fazíamos um acordo coletivo, mas como aconteceu a pandemia, ficamos sem fazer o acordo esse ano, e então a empresa decidiu fazer as coisas à sua maneira. As empresas começaram a fazer propostas de demissão voluntária para os rodoviários, e então algumas partes da categoria aderiram à ação, mas outra parte da categoria não, e mesmo com a maior parte dizendo que não, ainda assim foram demitidos. Durante esse processo as empresas entraram com uma ação de recuperação judicial para declarar falência, mas isso depois que os funcionários foram demitidos. Durante todo esse processo aqui em Florianópolis as empresas aplicaram redução de frota, redução de horário, e redução do salário do trabalhador.

Estão pagando 75% dos salários para os trabalhadores, e isso se dá por conta das MPs (do Bolsonaro). Essas empresas entraram com esse processo para simular falência para poder atacar os trabalhadores, porque não pagando a gente, eles acabam engordando os seus lucros. Curioso é que as reuniões do consórcios entre si nunca davam certo, e agora nesse momento eles decidiram se unificar.

Nós trabalhamos 365 dias mas nós nunca sabemos a arrecadação dos patrões. Ninguém nunca sabe as quantias que eles ganham, mas eles estão sempre falindo. Todos os anos no mês de janeiro existe um aumento da passagem… já fazem 20 anos que isso acontece. Essa pandemia, com todos esses ataques dos patrões e a redução de horários junto com a redução da frota, enquanto eles nos demitem, é o motivo da nossa indignação. Todas duas empresas entraram com o processo de recuperação judicial, e quem decide o quando os trabalhadores vão ser pagos é a justiça. A gente sabe que no Brasil a justiça não funciona para os pobres e sim para os ricos.


E como está a situação da organização dos trabalhadores e do sindicato dentro da garagem agora com a unificação da Canavieiras com a Transol?

Internamente a canavieiras funciona como um regime militar, agora que ela e a Transol se unificaram para ocupar a mesma garagem, o nosso tipo de trabalho é outro. Virou uma ditadura. A nossa o que mais nos indigna é que todos os trabalhadores da canavieiras receberam uma carta aberta da empresa explicando como funcionava o processo de recuperação judicial. Mas aquilo não me convenceu. Eles estão com dívidas imensas com vários trabalhadores. Dívidas de férias atrasadas, dívidas por falta de pagamento de tickets e não pagar férias, alguns trabalhadores têm de receber no mínimo 5 mil. A empresa escreveu que pagariam menos que a metade das dívidas nessa carta. Proporam de 5 mil para 1500, e mesmo assim propuseram que só pagariam com a autorização da justiça.

A Transol está pagando em dia, e a canavieiras não está pagando, sendo que ambas agora estão unificadas e estão na mesma garagem. É uma sacanagem com os trabalhadores. Eu sou de outra empresa, e estou defendendo os meus amigos e companheiros rodoviários, porque isso é uma injustiça. Independente de canavieira, transol, eu defendo os meus colegas rodoviários estando aposentado. A nossa Cipa (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes) dentro da Transol sempre foi muito elogiada, mas a da canavieiras não. Os presidentes da cipa são escolhidos pelo os presidentes das empresas. Eu sempre fui um dos mais votados quando concorri para a Cipa pelos meus colegas rodoviários.

Sobre o Sindicato e nossa organização, eu pertenço ao SINTRATURB há muitos anos. Eu considero ele um sindicato de lutas, e não só um sindicato como também uma família. me orgulho disso. Hoje o SINTRATURB se encontra com as mãos atadas. As empresas abrem processos contra os diretores dos sindicatos, e os proíbem de estar nos terminais para não causar aglomeração, além de ter proibido de entregar os jornais para os trabalhadores. A justiça proibiu o sindicato de se comunicar com os trabalhadores.

Então o senhor mesmo sendo cipeiro e aposentado da Transol, estando com o salário em dia lutou ao lado dos trabalhadores da canavieiras que estão com seus direitos atacados e que estão na mesma garagem que vocês?

Eu estou aposentado há 9 anos e o único aposentado que está na Transol sou eu. Eles estão expulsando os aposentados com o argumento de que os aposentados tinham renda e por isso era necessário que se demitisse os aposentados para dar lugar a novos funcionários. Mas eu luto ao lado dos meus colegas da Canavieiras porque quero que um dia eles tenham a mesma estabilidade que eu com os mesmos direitos. A gente precisa utilizar da nossa posição com estabilidade para ajudar os nossos colegas!

Lá no Rio Grande do Sul as empresas de transporte estão fazendo o mesmo com todos os rodoviários, e o prefeito Sebastião Melo está querendo privatizar a Carris e ameaçando os cobradores de demissão. O que o senhor tem a dizer para os trabalhadores do país, rodoviários ou não, que estão sofrendo durante a pandemia com aquilo que o governo chama de passar a boiada?

Eu gostaria de dizer para os funcionários da Carris, que o mesmo que está acontecendo com vocês está acontecendo com a gente. Se não existirem os cobradores, os empresários vão lucrar muito mais e não vão reverter em nada para a compra de ônibus.A mente dos empresários é só direcionadas para os lucros e mais nada. Querem nos demitir para lucrar mais. Eu queria dizer que se pros rodoviários de Porto Alegre que se o elefante soubesse a força que tem, ele não estaria no circo. Eu digo para todas as categorias do Brasil, que elas lutem pelos seus direitos. Nós temos força para isso, um exemplo é que coloco é que a primeira proposta dos patrões oferecida para a assembleia, era ofensiva e não pretendia pagar quase nada para os rodoviários. Quando houve a segunda assembleia e quando ameaçamos fazer “arruaça na cidade” em menos de 5 horas os patrões voltaram atrás nas decisões e enviaram uma proposta nova.

Precisamos entender que as leis não funcionam para os trabalhadores, e nossos direitos não são iguais, porque quando o direito dos trabalhadores começa o do patrão termina e vice-versa por isso precisamos nos organizar. Eu vou continuar independente de estar aposentado, pois os trabalhadores precisam de estabilidade assim como eu, é que eles tenham condições dignas de trabalho. Os trabalhadores têm que lutar, porque a luta nos dá gosto e precisamos nos orgulhar de sermos trabalhadores e lutadores. Categoria unida jamais será vencida. Além do mais, Se não houver uma solução, nós iremos acampar dentro da garagem com nossos filhos e esposas e parar tudo.

Nós também vamos parar o transporte coletivo se não houver vacinação para todos os funcionários, porque essa foi uma das promessas do prefeito Gean Loureiro (DEM) ao se eleger. Eu me orgulho muito de estar dentro da categoria, enquanto deus me permitir eu estarei vivo lutando pela minha categoria. Eu gostaria de dizer que não desistam, pois Deus nos ajuda, Deus nos protege! Um dia irei para porto alegre e olhar para os olhos dos rodoviários e dizer: Fizemos lutas, e elas estão surtindo efeito há 23 anos em Florianópolis. Desistência e medo são palavras que não podem existir no dicionário do rodoviário, então precisamos ir pra cima mesmo com todas as nossa limitações.




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