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OPINIÃO | É preciso livrar o amanhã não só de Bolsonaro mas de todo golpismo

“Sem esperança”, “desisti”. Quantas vezes ouvimos essa frase nos últimos anos. O amanhã parecia inexistente ou uma repetição modorrenta, e agravada, de um hoje já terrível. Sob esse signo transcorreram boa parte dos dias de 2017 a praticamente ontem, é claro que comportando, aqui e acolá, diversas oportunidades de mudanças, mas que não terminavam de “coagular”. Bem, hoje a sensação nos locais de trabalho (ou nos grupos de zap, para quem está desempregado ou em trabalho não presencial) é outra, mesmo que a mudança não seja da água para o vinho, o amanhã foi reabilitado.

Leandro LanfrediRio de Janeiro | @leandrolanfrdi

segunda-feira 15 de março | Edição do dia

Foto: Dida Sampaio

Há mudanças em todo o continente, a mais recente no Paraguai com suas fortes mobilizações contra o governo aliado de Bolsonaro. As importantes mudanças aqui, ainda sem “rua” e sem luta de classes, já criaram um terremoto na política e até mesmo dentro do gabinete ministerial com a iminente queda do general Pazuello do Ministério da Saúde. Nesta curta coluna não é possível abordar satisfatoriamente os motivos de da mudança de alinhamento de um Fachin, de um Gilmar Mendes ou mesmo do tom de parcela do mercado financeiro perante Lula e o PT. Cabe pontuar que há entre os motivos do movimento como um todo (independentemente de cada ator) um sentido preventivo para a burguesia brasileira e também os interesses imperialistas aqui investidos ou preocupados com o potencial de luta de classes e o efeito transbordamento de nosso país diante dos vizinhos.

Não só a luta de classes aparece “precificada”, como entra em discussão o que será do amanhã e como cada fração e seus representantes políticos (não só os votados, mas também militares, juízes, mídia, igrejas) se preparam para se localizar diante de crise tanto de Bolsonaro como do golpismo. A raiva de Bolsonaro poderia se tornar também uma raiva dos governadores e dos empresários? Se sim, não seria melhor para a burguesia ter quem possa conduzir essa raiva mantendo-a nas estreitas margens do aceitável? É possível constituir uma grande frente contra Bolsonaro, tal como se fez contra Trump, que preserve as conquistas do regime do golpe e tudo que é autoritarismo e ataque aos direitos trabalhistas, sociais e civis? Quem não tem um partido Democrata para tentar colocar os negros, as mulheres, os trabalhadores detrás de um Biden, pode ter que caçar de Lula. A mera presença do adversário muda o jogo de Bolsonaro, obrigando-o a ir ao centro (mantendo e agradando sua base dura ou em detrimento dela está em aberto) e talvez a rezar ainda mais na cartilha de Guedes para não perder apoio na Bovespa. As alianças eleitorais estão longe de fechadas, mas alas do regime do golpe se mostraram abertas a novas combinações.

Lula respondeu como esperavam. Perdoando todos, preservando o lugar dos generais, dos magistrados, dos políticos golpistas. Assim, também perdoando cada reforma, cada privatização que aconteceu até aqui (ou que aconteça até um hipotético novo mandato em 2023). Lula nem mencionou as reformas no discurso e, ao criticar as privatizações nada propôs até virar governo, nada exigiu dos sindicatos petroleiros dirigidos pelo PT para que a greve nacional contra as privatizações na Petrobras virasse realidade, nem falar que nada exigiu da CUT diante de tamanho descalabro sanitário e econômico que os trabalhadores padecem.

Como já argumentamos em outra coluna aqui, o maior dirigente petista, o partido e seus braços no movimento sindical e popular falam contra as privatizações (ou reformas) mas atuam para que as lutas que existam sejam desfiles e não batalhas. Precisam aparecer aos trabalhadores contra as medidas, mas precisam demonstrar à Faria Lima que seus interesses serão preservados, e muitos atores do regime, e até da Bovespa, lembram que em 12 anos de governo nenhuma “herança maldita de FHC” foi revertida. A Lei de Responsabilidade Fiscal não só continuou vigente como foi aplicada com rigor maior do que no tucanato, a Vale seguiu privatizada, a reforma da previdência de FHC não foi desfeita, foi ampliada.

A “grande política” petista, portanto, vira um esquecimento do ontem, um lavar as mãos com o hoje (nem sequer um plano de ação contra a crise sanitária oferecem) e, a promessa de um amanhã que nada reverte o que a burguesia conquistou desde o golpe e pode conquistar até sua hipotética eleição.

Está em aberto para este autor quanto que o terremoto ocorrido em Brasília essa semana pode estar pré-desenhando um novo regime político, ou, por outro lado, se seria meramente a inclusão do PT no existente, preservando o papel de arbítrio do judiciário e seu bonapartismo e suas incursões autoritárias sobre o sufrágio e outros poderes, e preservando também algum nível de ingerência de outro autoritarismo, o dos militares.

Porém, para além dessa dúvida sobre o futuro do regime do golpe, é possível pensar numa equação política que está se desenhando. Se pensarmos na fórmula que o marxista italiano Antonio Gramsci usa para pensar como se processam em diferentes momentos a dominação capitalista (com ou sem sufrágio, com diferentes intensidades de controle, supressão, repressão etc). O estado ampliado é descrito “em sua significação integral: ditadura + hegemonia”. Poderíamos pensar que justamente está em jogo no Brasil o peso e contorno das partes dessa equação: quanto que se manterá do extra de degradação bonapartista dos últimos anos que se somou no elemento “ditadura”, que inclui toda atuação das forças armadas, policiais, do judiciário e também – seguindo Gramsci - os dirigentes sindicais e seu impedimento à luta de classes, seu “policiamento” para manter tudo dentro dessas regras autoritárias desse jogo) e, por outro lado, quanto se tentará renovar a parte mais manca do “estado ampliado” desde o golpe, um sistema hegemônico. Desenharia-se um sistema que possa conferir maior legitimidade eleitoral aos atores políticos, que possa incluir e articular mais frações de classe etc? A falta de uma nova base material, um novo ciclo econômico, dificulta e muito o lado “hegemonia” da equação para a burguesia e não à toa vislumbra recorrer até à carta Lula que estava fora do baralho para manter ao máximo o “extra” de degradação bonapartista que somaram à “ditadura” normal.

Quanto de “degradação bonapartista”, quanto de “hegemonia” não está definido, e isso será resultado em última instância da luta de classes (nacional e internacional). Mas fica claro que o PT aceita que se mantenha muito da degradação bonapartista, as reformas e privatizações já feitas e um longo etc, desde que Lula esteja na urna. Não somos obrigados enjaular o amanhã nessas barras de aço do que é aceitável para Gilmar Mendes, para a FIESP, para a Bovespa. É possível romper essa prisão questionando todo o regime golpista, todos seus atores, todo seu legado, todas as medidas de reformas e privatizações que querem até as eleições e toda condução assassina da pandemia por todo o regime, não somente Bolsonaro mas também os governadores. Para um amanhã sem resquício do golpismo é necessário o oposto do que fala e faz o PT, é necessário o hoje e a luta de classes.




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