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Porto Alegre | É preciso construir um fundo de greve para enfrentar Melo contra a privatização da Carris

Na última segunda-feira (23) os rodoviários da Carris deram uma importante demonstração de qual força pode barrar a privatização da empresa e todos os ataques contra os trabalhadores. A reação do prefeito Sebastião Melo (MDB) foi o corte de ponto, uma medida ilegal, que ataca o direito de greve e busca impedir novas ações. É preciso uma ampla resposta a essa arbitrariedade.

quinta-feira 26 de agosto | Edição do dia

Foto: Ricardo Giusti

Apesar de ter pedido urgência na tramitação do projeto que prevê a privatização da Carris, Sebastião Melo (MDB) teve que rever seus planos. Com a cidade parcialmente paralisada, o que se viu foi um importante apoio da população à luta dos trabalhadores da Carris, que cruzaram os braços contra a venda da empresa e em defesa de seus empregos. Nas garagens privadas, a luta da Carris também repercutiu, gerando solidariedade e mostrando o caminho para enfrentar também a extinção dos cobradores que a prefeitura e os empresários querem impor, além de outros ataques da patronal como ganchos e demissões. Essa luta precisa seguir, e a votação de estado de greve realizada na assembleia do final do dia 23 tem que se concretizar em novas ações da categoria, como poderia ser uma nova paralisação na próxima segunda, quando novamente a Câmara pode pautar a privatização. Para isso, é necessário, além da convocação de uma assembleia geral da categoria, a solidariedade ativa de amplos setores para garantir condições objetivas de seguir a luta.

Veja também: A força da greve da Carris, a traição do sindicato e como seguir a luta contra Melo

Os rodoviários vêm sentindo na pele não só o descaso em relação à pandemia, mas também a brutal retirada de direitos imposta pelo governo de Bolsonaro, Mourão e dos militares, com as terríveis MPs que cortam salários, atacam as férias e facilitam demissões e a perseguição contra os trabalhadores. Melo, alinhado com Guedes e o Congresso, que impuseram privatizações como dos Correios e Eletrobrás, quer acelerar a venda da Carris. Neste contexto nacional, em que apesar dos embates entre o executivo e o judiciário, todos se unificam para fazer os trabalhadores e o povo pagarem pela crise, tem ainda mais importância a luta da Carris. Assim como os indígenas, que ocupam Brasília aos milhares contra o Marco Temporal, a luta dos rodoviários da Carris mostra um caminho a toda a classe trabalhadora e os setores oprimidos para enfrentar os governos e os patrões.

Por isso é necessário a mais ampla unidade para fazer frente à arbitrariedade de Melo. Os rodoviários demonstram sua disposição de luta, mas o corte de ponto é uma medida cruel e ataca o mais elementar dos direitos dos trabalhadores, que é receber seus salários, além de colocar os rodoviários em uma difícil escolha: seguir defendendo seus empregos ou garantir no imediato o sustento de suas famílias. Se a Carris é do povo e precisa continuar sendo, é necessário então construir um fundo de greve que concretize a mais ampla unidade e solidariedade em torno dessa batalha.

O fundo de greve é medida histórica que tem o objetivo de garantir condições materiais para que os trabalhadores continuem sua mobilização, contra a intransigência das empresas e dos governos. O apoio que se expressou à luta da Carris mostra o potencial de uma política assim. É preciso que os sindicatos, a começar pelo próprio STET-Poa, sindicato dos rodoviários, se unam na arrecadação de fundos para cobrir o corte de salário que Melo impõe. Além disso, não é nenhuma novidade que os parlamentares dispõe de muito mais recursos financeiros e privilégios do que o conjunto da população. Nesse sentido, os mandatos da oposição, como os do PT (Aldacir Oliboni, Jonas Reis, Laura Sito, Leonel Radde), PCdoB (Bruna Rodrigues, Daiana Santos) e PSOL (Karen Santos, Matheus Gomes, Roberto Robaina e Pedro Ruas) precisam colocar todos os recursos possíveis para a construção desse fundo de greve e também pressionar todos os partidos da Câmara que se dizem oposição à gestão municipal a se somarem.

Uma ampla campanha impulsionada por todos esses setores, além de ajudar objetivamente na manutenção da mobilização dos rodoviários, poderia ser um forte exemplo de solidariedade operária, inclusive envolvendo sindicatos e parlamentares a nível estadual e nacional. A CUT, central sindical controlada pelo PT, que foi um "grande ausente" no piquete na segunda-feira, mas que dirige milhares de sindicatos no país, como o CPERS no RS, poderia cumprir um papel importante em uma campanha assim. A CTB, que é dirigida pelo PCdoB e está em sindicatos importantes como o dos Municipários de Porto Alegre, metroviários de São Paulo e outros, além de ser parte da Comissão de Funcionários da Carris, também deveria depositar seus esforços aí.

No caso do PSOL, seus mandatos municipais, estaduais e nacionais também podem estar a serviço de impor uma derrota a Melo, inclusive sendo parte de exigir que o PT e o PCdoB se somem, já que se coloca como alternativa de esquerda a esses partidos. Além disso, o PSOL de Roberto Robaina também está presente em alguns sindicatos, como o Sindisaúde, e naqueles ligados às Intersindicais, e através deles pode dar importantes exemplos, pautando esse tema em assembleias de base nessas categorias. Também nas entidades estudantis, como o DCE da UFRGS e da PUC, além de diversos CAs, o PSOL tem força e pode mobilizar os estudantes para se unirem com os trabalhadores, algo que não foi feito na última segunda-feira, mas ainda há tempo de corrigir. O PSTU, que é parte dos delegados sindicais da Carris e dirige a CSP-Conlutas, também pode cumprir um papel importante nessa batalha através dos sindicatos onde está.

Em uma ampla campanha de fundo de greve, inclusive organizações como o PCB e a UP, que também são parte do DCE da UFRGS e de outras entidades estudantis, e simplesmente ignoraram a paralisação dos trabalhadores da maior empresa de ônibus de Porto Alegre, também poderiam rever essa posição anti-operária. Ao invés de estarem de costas para a luta dos rodoviários, como foi no dia 23, podem somar forças para fazer essa luta vencer.

Porém, além de se enfrentarem com Melo e a patronal, os rodoviários sabem que não podem contar com a direção burocrática que parasita seu sindicato e que não cansa de trair a categoria para garantir seus próprios interesses. Uma direção sindical que só se move mediante forte pressão das bases, como foi na greve de 2014 e em 2019 contra a extinção dos cobradores. Por isso é preciso que os rodoviários se organizem em cada garagem, em cada terminal e em cada linha, fazendo reuniões para discutir os próximos passos da luta e erguer uma forte exigência para impor que o sindicato convoque uma assembleia geral que unifique a categoria nessas batalhas. Nós do Esquerda Diário propomos a cada trabalhador e trabalhadora, que defendem seus empregos e estão fartos dos ataques da patronal e dos governos, que tomem em suas mãos uma forte campanha pelo fundo de greve, convencendo seus colegas, divulgando nas redes sociais, pressionando os sindicatos, os parlamentares e todos os setores que defendem uma Carris pública a que se somem. Assim como estivemos desde as 4h da manhã ao lado dos trabalhadores e fizemos a mais ampla cobertura da mobilização, contra as mentiras de Melo, da RBS e da grande mídia, colocaremos todas as nossas forças a serviço de que seja vitoriosa essa batalha. Chamamos rodoviários e rodoviárias da Carris e das empresas privadas a tomarem o Esquerda Diário como ferramenta de sua luta.

Uma vitória dos rodoviários contra Melo pode apontar um caminho a toda a classe trabalhadora a nível nacional. É com essa perspectiva que deve ser encarada a luta contra a privatização da Carris, contando com a enorme força que os trabalhadores já demonstraram, com o apoio que se expressou na população e entre os rodoviários das empresas privadas. É essa aliança que pode derrotar Melo e os empresários e lutar por uma Carris pública e por um transporte 100% Carris controlado pelos trabalhadores e usuários.




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