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Crise Climática | É o capitalismo, não a humanidade

A publicação do novo relatório do IPCC reacende as discussões sobre a crise ecológica e as necessárias mudanças para inverter o curso do aquecimento global e da destruição ambiental. Tais discussões trazem à tona a irracionalidade capitalista, tornando patética a utópica ideia de “capitalismo verde”.

Babi DellatorreTrabalhadora do Hospital Universitário da USP, representante dos trabalhadores no Conselho Universitário

quarta-feira 11 de agosto | Edição do dia

Foto de incêndio no Pantanal (naturepl.com / Bence Mate / WWF)

Do longo relatório apresentado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) podemos destacar, ao menos, 4 pontos que fundamentam que já se trata de um fato o aquecimento da atmosfera, do oceano e da terra. Mudanças sentidas nos eventos climáticos extremos, que já se observa.

1. É a maior concentração de gases do efeito estufa em 800 mil anos: a concentração de dióxido de carbono (CO2) foi a mais elevada em 2 milhões de anos; os gases metano e óxido nitroso atingiram sua maior concentração dos últimos 800 mil anos. A emissão desses gases foi intensificada após a Revolução Industrial.

2. A temperatura média global já aumentou 1,1ºC: como consequência da elevada concentração de gases causadores do efeito estufa, estima-se que a temperatura foi elevada a 1,1ºC em relação aos níveis pré-industriais. A velocidade deste aquecimento não encontra processo semelhante nos últimos 2 mil anos.

3. O nível do mar subiu 20 cm entre 1901 e 2018: entre os anos de 1901 e 1990, a taxa de elevação do nível do mar era de 1,35 mm/ano. Já entre os anos de 2006 e 2018 foi de 3,7 mm/ano. O que significa que a taxa de elevação do nível do mar, desde o início do século XX, foi a mais rápida dos últimos 3 mil anos.

4.Projeções:
a)Temperatura: estima-se que, até o final do século XXI, a temperatura pode ter um aumento de 4,4ºC, a menos que ocorram reduções drásticas na emissão dos gases do efeito estufa, o que permitiria conter o aumento entre 1,5 - 2 ºC. A elevação da temperatura tem relação direta com a frequência e intensidade dos fenômenos de extremos de calor, descongelamento do chamado gelo permanente (permafrost), redução da camada de neve e secas.

b)Nível do mar: com referência a taxa de elevação do nível do mar no período entre 1995 e 2014, estima-se que em 2100 a elevação poderia ser de 80 cm, se nada for feito. Caso haja redução drastica da emissão de gases, poderia ser de 40 cm. Com isso, aumentaria a frequência e intensidade de inundações costeiras e erosão da costa.

Seria a humanidade responsável pelo aquecimento global?

Com esses dados, o relatório do IPCC destaca que houve um aceleramento das mudanças climáticas no século XX, consolidando, no meio científico, que a sociedade humana é a principal força geológica responsável pelas alterações no Sistema Terra. O que tem levado à conclusão precipitada de que a responsabilidade pela crise climática é da humanidade.

Entretanto, não é verdade que toda a humanidade é culpada de forma indiferenciada. A sociedade humana adquire o patamar de principal força responsável pelas alterações ecológicas no momento em que o sistema capitalista atinge seu grau máximo de desenvolvimento: sua fase imperialista. Onde grandes monopólios controlam os preços e a escassez, intensificando a exploração da natureza, tratando os recursos naturais como fontes inesgotáveis, para convertê-los em mercadorias.

Em outras palavras, o desenvolvimento do capitalismo aprofundou o desequilíbrio entre o homem e a natureza, intensificando a contradição entre a produção da vida humana em sociedade e os ciclos da natureza. A responsabilidade pela crise ecológica é do sistema capitalista - grandes empresários, bancos e seus representantes políticos - não da humanidade em geral. Ainda que a produção capitalista tenha encontrado na intensificação do consumo, através da obsolescência programada e de um forte investimento em propaganda para a venda, moldando o padrão de consumo social e individual, isso está a serviço de responder a uma necessidade da produção.

Um exemplo do efeito devastador do modo de produção capitalista é o aumento de pandemias causadas por vírus animais que adquirem a capacidade de infectar seres humanos depois de aceleradas mutações favorecidas por uma forma de produção que confina enorme quantidade de animais para o abate. Foi o caso da gripe aviária, gripe suína e, também, da covid-19.

Os capitalistas não podem solucionar a crise climática que produziram: a classe trabalhadora como sujeito

As medidas necessárias para reverter o curso de devastação são urgentes, mas não poderão ser encontradas na irracionalidade dos capitalistas que já deixaram claro que estão dispostos a passar por cima da vida de centenas de milhares de pessoas mortas pela pandemia, pelos deslizamentos de barragens, inundações, queimadas, pelo extermínio dos povos indígenas, tudo em nome de seus lucros.

Para enfrentar o negacionismo de Bolsonaro, a extrema direita e todo autoritarismo do regime com aval do imperialismo que avançam sobre os recursos naturais, o movimento ambientalista e os trabalhadores não podem ter ilusões que serão os grandes empresários a resolver a crise climática criando novas tecnologias para uma produção limpa ou adotando práticas seguras para as populações locais e o meio ambiente. É preciso estatizar empresas como a Vale, todo o sistema de transporte do país, impedir a privatização da Petrobrás, dos Correios e das empresas de energia e água, colocando sob controle dos trabalhadores que junto com os povos originários e todos os setores oprimidos são os que podem planejar a produção de forma verdadeiramente sustentável.

Uma alternativa como esta se choca com os interesses não só do negacionista Bolsonaro, mas com todo o Congresso, o judiciário e os militares que estão avalizando os ataques às condições de vida dos trabalhadores, a venda e destruição das riquezas nacionais. Para construir uma força como esta seria necessário que a esquerda, a partir dos sindicatos que dirige e de seus parlamentares, organizasse um polo de esquerda antiburocrático, para se dirigir às bases das grandes centrais sindicais dando exemplo de unificação dos setores em luta. Uma força assim poderia avançar para uma luta contra todo o regime político degradado e antidemocrático, impondo uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana para mudar os jogadores e as regras do jogo.

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