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É necessário varrer os resquícios da ditadura da UFRGS e do Brasil

No dia em que a extrema direita comemora os 57 anos do golpe militar, de torturas e assassinatos, algumas reflexões sobre os resquícios da ditadura militar na UFRGS e as tarefas atuais das e dos estudantes.

quarta-feira 31 de março| Edição do dia

Em uma imagem é possível perceber marcas profundas da ditadura militar na UFRGS. Este prédio hoje é o Anexo I da reitoria da universidade. Em 1977, todo o Instituto de Filosofia (cursos de filosofia, ciências sociais e história) e o curso de letras foram transferidos para o Campus do Vale, no extremo leste da cidade, divisa com Viamão. Foram estes estudantes que, junto a professores e trabalhadores da universidade, foram parte da incontestável vanguarda da luta contra a ditadura militar no país. Uma clara manobra dos militares para limitar o contato das manifestações estudantis subversivas com as e os trabalhadores que passavam pelo centro da cidade.

Outra marca brutal da ditadura na universidade ficou conhecida como "expurgos". Nos anos de 64 e 69 foram efetivadas amplas ações repressivas contra a UFRGS. Os militares criaram o CEIS/UFRGS (Comissão Especial de Investigação Sumária da UFRGS) e a ASI/UFRGS (Assessoria de Segurança e Informação da UFRGS). Com a ação desses órgãos chegaram à expulsão de 18 professores em 64 e, ao menos, 23 professores em 69. Uma clara e brutal perseguição política.

No ano de 1968, dia 27 de julho, ocorreu a ocupação da Faculdade de Filosofia, contando com mais de 700 estudantes e durando cerca de 24 horas. Em março, o estudante Edson Luís tinha sido assassinado no Rio de Janeiro. É nesse momento tenso dos "anos de chumbo" que esses estudantes ousaram dizer: "abaixo a ditadura". É com o espírito combativo desses estudantes que o movimento estudantil precisa encarar os desafios de hoje, lutando incansavelmente para varrer todos os resquícios da ditadura de dentro da UFRGS e de todo país.

A UFRGS carrega em seu estatuto, ainda hoje, uma deplorável herança dos tempos da ditadura militar. A chamada lista tríplice, que entrou em vigor com a reforma de 1968 (na época "lista sêxtupla", mas o fundamental se mantém), dando poderes ao presidente em vigor de escolher entre os 3 mais votados para reitor. Assim, colocavam, ainda mais, o destino da ciência, da pesquisa e da educação nas mãos do regime capitalista brasileiro, na época, comandado pelos militares. Hoje, com Bolsonaro, vivemos a UFRGS da intervenção, cargo ocupado pelo último colocado nas eleições para reitor, Carlos Bulhões.

Além desse mecanismo autoritário, as eleições para reitor impedem que cada setor tenha seu peso devidamente representado. Na UFRGS foi usado o sistema 70/30/30. Uma desproporção gigantesca entre o voto de um professor e de um estudante. Assim, o reitor escolhido pelo presidente do país forma um governo composto por uma burocracia universitária com variados tipo de privilégios e servindo aos seus próprios interesses e/ou interesses do lucro de algumas empresas que lucram com a estrutura pública de educação superior. Inclusive o Consun, assim como outros conselhos de universidades públicas pelo país, contam com a presença de empresários representantes das indústrias que fazem parte das decisões.

Esses "reitores" (melhor dizer interventores) escolhidos pela extrema direita serão responsáveis por aplicar o corte bilionário nas universidades, anunciado por Bolsonaro. Ou seja, enquanto Bolsonaro sua corja reacionária comemora 57 anos de um golpe militar de assassinatos e torturas, nas universidades o mecanismo implementado pelos militares é utilizado de acordo com os interesses desse mesmo setor reacionário.

Por tudo isso é necessário acabar com a atual estrutura de poder da UFRGS, varrendo cada resquício dos ditadores e torturadores do regime militar. Começando por impor uma nova estatuinte, com delegados eleitos nos três setores (estudantes, professores e funcionários), onde cada voto valha um voto. Acabar com a reitoria e o Consuni, formando um governo composto pelos três setores citados anteriormente. Dessa forma, poderíamos colocar a universidade integralmente à serviço das necessidades reais da classe trabalhadora e do povo pobre, o que hoje significa girar todos os recursos para o combate à pandemia do coronavírus, desenvolvido aqui.

No clima do autoritarismo vimos nas últimas semanas o aumento do uso da Lei de Segurança Nacional (LSN) por Bolsonaro contra seus vários opositores. A correta frase "Bolsonaro genocida", levantada por várias pessoas em crítica a sua atuação na crise sanitária, teve como resposta o uso dessa lei herdada dos tempos da ditadura. Criada em 1983, com o intuito de perseguir opositores, foi mantida por todos os governos até hoje. Somente no governo Bolsonaro foram 77 inquéritos abertos pela LSN. No governo Dilma e depois no do golpista Temer, foram 20.

A mobilização de jovens estudantes, em aliança a classe trabalhadora e os setores oprimidos, é que pode ter força suficiente para acabar com a herança da ditadura nas universidades e em todo país. Não podemos esperar 2022, como faz na prática o PT e PCdoB que dirigem as maiores centrais sindicais do país e, na prática, garantem a passividade frente ao atual cenário. É necessário lutar desde já pelo Fora Bolsonaro, Mourão, militares e golpistas. Impor pela mobilização uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana, onde será possível revogar a LSN e todas as heranças dos militares, assim como os ataques às condições de trabalho, a reforma da previdência, trabalhista, terceirização, teto de gastos, entre outros.

Bolsonaro, os militares, os governadores e demais golpistas fazem o país bater diariamente recordes de mortes por covid-19. Quando olhamos para o passado podemos tirar lições valiosas. Com o espírito dos estudantes e trabalhadores que desafiaram os militares e tirando as lições desses processos podemos derrotar essa corja capitalista. Nossas vidas valem mais que o lucro deles!

Foto: Foto Banco de Dados do Museu da UFRGS
Fontes:
http://www.nonada.com.br/2021/03/pequena-memoria-para-um-tempo-sem-memoria-4-a-intervencao-da-ditadura-militar-na-ufrgs/
https://www.ufrgs.br/80anos/1964-1974/
http://www.iab-rs.org.br/noticia/a-ditadura-militar-e-os-professores-expurgados-da-faculdade-de-arquitetura-da-ufrgs.aspx
https://adufrgs.org.br/wp-content/uploads/2014/07/X-Encontro-AUTONOMIA-UNIVERSIT%C3%81RIA.pdf




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