MULHERES NEGRAS E MARXISMO

É HOJE! Primeira sessão do Grupo de Estudos Mulheres Negras e Marxismo na USP

Nesta sexta-feira (04) terá início o grupo de estudos do livro Mulheres Negras e Marxismo na USP, impulsionado pela juventude Faísca e a agrupação internacional de mulheres Pão e Rosas. A primeira sessão terá o tema “Exploração e Opressão”; nela, resgataremos o conceito marxista de exploração, combinando-o a um debate sobre a opressão, tanto de gênero quanto de raça. Como o primeiro de uma série de encontros de discussão, chamamos todes estudantes a participarem conosco deste estudo da estrutura capitalista, a localização da mulher negra nesse sistema miserável e seu papel para construção de um mundo novo.

sexta-feira 4 de junho| Edição do dia

No último mês de março, a editora Iskra lançou o livro “Mulheres Negras e Marxismo”, co-organizado por Letícia Parks, Odete de Assis e Carolina Cacau, e inspirado nos últimos acontecimentos políticos internacionais e nacionais, desde o Black Lives Matter norte americano à trágica morte do menino Miguel em Recife, e na importante necessidade dos debates sobre raça e gênero na estrutura do capitalismo desde uma visão do marxismo revolucionário.

Saiba mais: Live de lançamento do livro "Mulheres negras e marxismo", no dia 26/03 às 19h

Agora, após a organização de uma série de grupos de estudo desta obra em vários estados do país, nós da juventude Faísca queremos trazer este debate para uma das universidade mais elitistas do país. A USP, que diz ser uma das melhores universidades da América Latina, foi uma das últimas do país mais negro fora do continente africano a adotar o sistema de cotas. Os negros na USP ainda assim raramente entram como estudantes ou professores, e sim pelas portas do fundo, sendo a massa de trabalhadores terceirizados da limpeza. Durante a pandemia, a reitoria colocou um plano para demitir as terceirizadas, que são majoritariamente mulheres negras. O CRUSP, onde se encontra a maioria dos estudantes pobres, negros, mães e cotistas, está largado em condições precárias, com violência policial e casos alarmantes de suicídio, fruto do descaso da Universidade.

No ano passado, no âmbito internacional, quem primeiro se colocou nas ruas mesmo em meio a uma pandemia, por não suportarem mais a situação que viviam, foram os negros e negras norte americanas por justiça a George Floyd, exigindo a abolição da polícia e denunciando o racismo do Estado. Mas também no Brasil neste último mês, vimos atos em repúdio à absurda chacina que ocorreu em Jacarezinho, com centenas de jovens negros em todo país se levantando por justiça às vidas negras ceifadas pelas mãos da polícia civil, braço repressor do Estado burguês.

O que permite essas atrocidades, seja no Brasil, nos EUA ou qualquer parte do mundo, é o tema da nossa primeira sessão. Partindo dos conceitos de “Exploração e Opressão”, vamos investigar como a estrutura capitalista funciona, segundo Marx, caminhando desde da acumulação primitiva do capital e a criação do racismo nesse processo para justificar a escravidão, passando também pela teoria do valor de trabalho, que demonstra como é conformada a mais-valia, o lucro e a reprodução da força do trabalho, onde não só o racismo, como principalmente a opressão de gênero, cumprem um papel decisivo para garantir o lucro dos capitalistas.

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Se por um lado durante mais de 500 anos os negros e negras no Brasil viveram em situação de escravidão, hoje, neste país submisso à burguesia internacional, as mulheres negras são usadas pelos capitalistas como tubos de ensaio para o avanço da precarização do trabalho e da vida de conjunto. Isso fica explícito quando olhamos para o histórico da terceirização do trabalho, que tem rosto de mulher e principalmente de mulher negra. Ou seja, no trabalho terceirizado, que é formalização aberrante do trabalho precário, as mulheres são maioria.

Outra maneira que o patriarcado encontra para manter o rebaixamento da vida não só dessas mulheres, mas consequentemente dos homens e do conjunto da classe trabalhadora, além dessa normalização dos postos de trabalho precário, são as dupla, triplas e quádruplas jornadas. Por um direcionamento artificialmente teorizado, no qual as mulheres seriam destinadas a ser mães e donas de casa, recai sobre elas o papel de reproduzir a força de trabalho: garantem não só a geração de sua prole e de novas camadas da classe trabalhadora, mas também a reprodução cotidiana das condições necessárias para força de trabalho de seus filhos, maridos e familiares, pois é nas mulheres que se concentra a responsabilidade pelas tarefas domésticas, como a alimentação, preparo das vestimentas, cuidado da casa etc.

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Elas não só trabalham em condições mais precárias com salários hiper rebaixados, como fazem quase todo o trabalho que é socialmente útil e garante que a força de trabalho esteja em condições para ser vendidas para os capitalistas. Sendo assim, são essas mulheres que são, social e economicamente falando, as que mais sofrem com os grilhões capitalistas e as que, ao lutar contra isso, não têm nada a perder. A luta das mulheres negras pelo mundo mostra que é necessário exigir não apenas sua igualdade e liberdade perante às leis burguesas, mas na realidade concreta de todos aspectos da vida.

No atual cenário político brasileiro, vimos desde o golpe institucional de 2016 um avanço da extrema direita, que culminou em Bolsonaro sendo eleito em 2018. Como filho indesejado do golpe, ainda assim se mostra disposto a jogar todo seu ódio às mulheres, aos negros, LGBTs, indígenas e imigrantes, com o intuito de rebaixar as condições de vida da população brasileira de conjunto, seja com as MPs da morte, a Reforma da Previdência e com outros ataques, como as restrições ainda mais duras ao já restrito direito ao aborto no país.

Se na pandemia, com o negacionismo do governo Bolsonaro e a demagogia de outros agentes do regime político como Dória e o centrão golpista, chegamos em mais de 450 mil mortes pela covid e níveis alarmantes de desemprego, fome e casos de feminicídio, também vimos recentemente nas ruas um potencial para combater nossos inimigos. O último dia 29 de maio contou com atos em todo país, com a juventude e setores do progressismo na ruas contra os cortes na educação e contra Bolsonaro.

Mas essa força pode ir muito mais além se for ligada aos trabalhadores em luta, como os metroviários aqui em São Paulo e professores municipais, e se for organizado desde base pelas centrais sindicais, como a CUT e CTB, dirigidas pelo PT e PCdoB, setores que também estão à frente da UNE - esta que deveria organizar o movimento estudantil de todo país num plano concreto de lutas, não só contra Bolsonaro, mas também contra Mourão e os militares, que fazem piada dos nossos mortos, seja pelas balas da polícia ou pela covid, e que se unificam com os governadores, o STF, o Congresso e todas instituições do regime político para atentar contra nossas vidas, em especial às vidas das mulheres negras.

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Em tempos históricos como o que vivemos, os setores oprimidos pelo sistema capitalista estão convocados pela realidade para estar na linha de frente pela construção de uma nova sociedade. É isto que expressa a luta das mulheres negras em todos os lugares, estampada na força do Black Lives Matter que incendiou os EUA e espalhou seu rastro de pólvora pelo mundo, na força de Mirtes Renata e das mães de Jacarezinho em sua batalha incansável por justiça, em cada trabalhadora terceirizada da Universidade de São Paulo que hoje não abaixa sua cabeça para as demissões e os ataques.

O Grupo de Estudos do livro Mulheres Negras e Marxismo na USP dá seu pontapé inicial hoje às 17h30, e marca o começo de uma série de encontros abertos a todes estudantes. Nós da juventude Faísca te convidamos a participar destes debates, para pensar as ideias marxistas como nosso guia para a ação, armando nossa mobilização com uma estratégia para transformar a realidade e superar este sistema de miséria e exploração.

Para participar e ter acesso à bibliografia, entre em contato conosco preenchendo o formulário de inscrição!




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