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Atos 7 de setembro | Doria se junta a Bolsonaro, proíbe atos da oposição, vomita autoritarismo e tira máscara de terceira via

Com a convocatória de atos reacionários e de teor golpista, em apoio a Bolsonaro, para o próximo dia 07/09, se abriu uma disputa sobre quando e onde se realizarão os atos da oposição em SP. Disputa esta que o governador, João Doria (PSDB), disse ter acabado ao conceder a Paulista para a extrema-direita, e em uma ação ditatorial, proibir que se realizem atos da oposição no mesmo dia.

João SallesEstudante de História da Universidade de São Paulo - USP

sexta-feira 27 de agosto | Edição do dia

Os contornos que vem ganhando a convocatória dos atos bolsonaristas, marcados para o dia da comemoração da “Independência” do Brasil - 07 de Setembro, tem intensificado a crise política do país. Os atos se inserem em um contexto de escalada da retórica golpista de Bolsonaro em torno da pauta do questionamento das eleições de 2022, e em um embate com setores do judiciário, sobretudo o STF. Apesar de o ministro da Defesa, general Braga Netto, já ter declarado que não haverá desfile militar no dia, se somam ao chamado pastores-empresários da reacionária cúpula evangélica, militares da reserva, setores do Agronegócio e policiais militares de diversos Estados.

O STF, principal alvo dos ataques desferidos pelo bolsonarismo, tem respondido com mandados de busca e apreensão contra aliados do atual presidente, além de conduzir o inquérito das Fake News autorizando a investigação de Bolsonaro no processo. O mais chamativo talvez tenham sido as determinações de prisão expedidas contra correligionários da política golpista de Bolsonaro, com ações inquisitoriais e autoritárias onde o Supremo é, ao mesmo tempo, quem acusa, julga e manda prender.

Combinado a esta disputa entre projetos autoritários, há o fato de estarem sendo aprovados inúmeros ataques de grande intensidade contra os trabalhadores e que merecem uma resposta contundente para serem derrotados. Se por um lado, Bolsonaro tem como objetivo avançar posições em sua política reacionária de cunho golpista com os atos do dia 07, por outro as ações da oposição institucional deixam claro que a única resposta possível só pode vir da nossa classe confiando em nossas próprias forças.

Basta olharmos atentamente para o histórico acampamento em Brasília com 10.000 indígenas, em luta contra o ataque histórico do Marco Temporal que unifica STF, Bolsonaro e o Agronegócio.

A própria decisão arbitrária e inconstitucional de Doria é exemplo nítido, caracterizando os atos bolsonaristas como “democráticos” e concretamente querendo impedir a realização do histórico Grito dos Excluídos que conta com manifestações dos setores da esquerda e dos movimentos sociais desde 1995. Importante lembrar que ainda esta semana ocorreu a greve dos ferroviários de SP da CPTM, que sofrem com ameaça ao direito de greve diretamente de Doria e seu secretário de Transportes, Baldy (PP), querendo demitir 10 trabalhadores da empresa para “dar o exemplo”. Contra nós estão todos estes atores alinhados em um projeto de descarregar a crise capitalistas nas nossas costas.

João Doria e a demagogia da “alternativa” de terceira via

O atual governador do Estado de SP, e pré-candidato à presidência nas prévias do PSDB para as eleições de 2022, foi o convidado do programa Roda Viva deste último dia 23/08. Entre diversos temas que atravessaram o debate, a questão da disputa eleitoral com Bolsonaro e Lula foi um dos principais, bem como a questão dos atos bolsonaristas no dia 07 e a problemática da convocatória realizada por um Coronel da Polícia Militar de SP além de críticas à gestão estadual de Doria.

Ao ser questionado sobre a disputa entre as organizações dos atos pelo direito de utilizar a Avenida Paulista, o governador declarou que a decisão cabe a sua gestão e que o dia, horário e local serão destinados exclusivamente aos apoiadores de Bolsonaro. Se pautando em um argumento formal de que estes teriam solicitado o direito primeiro, Doria confirma mais uma vez, apesar da bravata oposicionista, seu lado autoritário e profundamente golpista. O mesmo prefere que se expressem atos abertamente reacionários enquanto deliberadamente proíbe os setores da esquerda na oposição de se manifestarem. Isso justamente porque, como colocamos anteriormente, Doria e Bolsonaro se juntam quando se trata do objetivo de atacar os trabalhadores e seus direitos de luta.

O atual governador ainda disse que o dia para serem realizados atos de oposição será no final de semana seguinte, mais especificamente dia 12/09, onde estão programados atos capitaneados pela direita como MBL, Novo e a extrema-direita do PSL. Um de seus objetivos principais é tornar o dia enquanto alavanca política para a “terceira via” e disputar a hegemonia da oposição à Bolsonaro com os setores do petismo e da esquerda. Para realizar tal feito, Doria se utiliza de mecanismos extremamente autoritários como a justiça e a polícia, ao proibir atos da oposição no dia 07/09.

Sua rasgação de seda com a instituição da Polícia Militar, ressaltando o quanto tem orgulho dos assassinos e repressores policiais, e que estes são parte da “melhor PM do Brasil”, também evidenciam sua preocupação em dialogar com a base bolsonarista. Ao tratar o ato do Coronel como um caso isolado, reforçar a confiança nos policiais de São Paulo tem como objetivo não deixar que estes se joguem nos braços do bolsonarismo. Este aspecto deixa claro que, apesar de se postular como candidato para a “alternativa” da terceira via nas eleições presidenciais, a real face de sua política é privilegiar uma das polícias que mais mata no mundo, justamente para que cumpram seu propósito de reprimir a revolta para garantir os ataques neoliberais.

Fica cada vez mais claro que Doria, PSDB e outros setores da direita não são aliados na luta contra Bolsonaro, como parte das centrais sindicais e organizações de esquerda vieram defendendo. Mas o que fazem as principais direções do movimento de massas frente a isso? Em um dia de importância crucial para uma demonstração de forças contundente nas ruas, contra a escalada autoritária do regime, da retórica golpista do bolsonarismo e da intensificação dos ataques contra nós, precisamos responder à altura.

A luta indígena em Brasília mostra o caminho: Onde estão Lula, as Centrais e a UNE?

Após ensaiarem uma disputa judicial em torno do direito de utilização da Paulista no dia 07, as direções organizadoras dos atos de oposição decidiram por alterarem o local para o Vale do Anhangabaú. Apesar da decisão absurda e nojenta de Doria, ao que tudo indica será mantida a manifestação do Grito dos Excluídos no Vale para este dia. Nós chamamos todas as organizações sindicais, estudantis, da esquerda e movimentos sociais a não aceitar essa medida ditatorial, que viola as garantias mais elementares que restam na constituição, e manter os atos contra Bolsonaro. Mas não basta somente mantê-los, é preciso discutir a necessidade de massificar o movimento.

Com o último ato nacional pelo Fora Bolsonaro tendo ocorrido no dia 24 de Julho, naquele momento já se abriu uma discussão cínica de que os atos estariam “perdendo tração”. O fato é que foram sucessivas convocatórias esparsas, realizadas por cima e sem qualquer participação democrática nos rumos do movimento por meio de assembleias nos locais de trabalho e estudo do país. Com intervalos de quase um mês, e com o horizonte do impeachment cada vez mais irrealizável, a janela de oportunidade que se abriu com os atos de rua, expressando uma vanguarda ampliada pleiteando a saída do presidente, se fechou com uma maior degradação no autoritarismo do regime e uma inflexão à direita na conjuntura política de uma situação essencialmente reacionária.

Basta vermos que após o grotesco desfile militar em Brasília; a escalada da retórica golpista envolvendo Bolsonaro, o oficialato das Forças Armadas e setores do Agronegócio; ataques históricos como a MP1045, privatização dos Correios, corte de ponto automático para servidores públicos grevistas; além das arbitrariedades do judiciário com a prisão política de Paulo Galo e a condenação do dirigente sindical Macapá, fortalecidos pela disputa com os bolsonaristas; a resposta nas ruas que se expressou estão longe do esperado.

Tendo ocorrido dois atos, o dia do estudante (11/08) chamado pela UNE e a “Greve” dos servidores públicos contra a PEC32 (18/08) chamada pelas Centrais Sindicais, se evidenciou uma redução substancial no nível de mobilização. Sendo muito menores que os anteriores, os atos expressaram, por um lado, que ainda há setores de vanguarda dispostos a se enfrentar com o projeto de país dos capitalistas no regime do golpe institucional, mas também que não há qualquer disposição de suas direções políticas em organizar e ampliar essa disposição de luta.

Isso explicaria a razão pela qual, em meio a este cenário, as Centrais Sindicais comemoram sua reunião com o crápula Onyx Lorenzoni, ministro do Trabalho e Previdência do governo, enquanto sufocam e isolam as diversas lutas em curso conscientemente. Para as direções das grandes Centrais, como por exemplo a CUT e a CTB - dirigidas pelo PT e PCdoB, sentar junto de nossos inimigos, em reuniões de portas fechadas para “dialogar”, é o caminho. Mas longe de ser um caminho para barrar os ataques, estes querem apenas negociar nossos direitos para garantir seus privilégios, o preço pago para isso é justamente atuar como um fator de contenção e controle da nossa luta. Da parte da UNE, dirigida majoritariamente por estes mesmos partidos, nada se vê em termos de organizar a força dos estudantes democraticamente nas universidades do país para derrotar o desmonte e a privatização do ensino público superior.

Se analisarmos em tendência, o nível de organização para os atos da oposição no dia 07 está muito aquém da resposta nas ruas que devemos protagonizar contra a extrema-direita, e inclusive para que possamos impor a realização dos atos no dia 07, após a proibição do nojento e autoritário João Doria. Neste sentido, o papel de alimentar a passividade por parte das direções do movimento de massas se prova um fator decisivo para manter a situação reacionária.
Podemos dizer hoje que o principal objetivo destas direções é que os atos ocorram sem nenhuma perspectiva real de enfrentamento contra a escalada autoritária e da retórica golpista de Bolsonaro. Não querem que os atos atrapalhem a odisseia eleitoreira protagonizada por Lula, que hoje percorre o país costurando alianças com reacionários do Centrão e da base governista, em um verdadeiro vale-tudo eleitoral pela frente ampla em torno de sua candidatura presidencial para 2022.

Mas soma-se a esse fato o problema dos setores de oposição ao petismo seguirem completamente adaptados a esse projeto. Basta olharmos para a crise que atravessa o PSOL neste momento, onde os últimos dias foram voltados em SP para o Congresso Estadual. Mas que serve de antessala para o teste da correlação de forças interna entre as correntes do partido e suas teses, para o principal debate nacional “estretégico”. E a principal disputa é saber se lançarão uma candidatura própria para a presidência nas eleições do ano que vem. Isto é, saber se apoiarão Lula desde o primeiro turno ou somente no segundo para as eleições

O PSTU, que dirige importantes sindicatos pelo país, e a CSP-Conlutas, uma Central Sindical de oposição, segue embelezando a atuação das burocracias sindicais do PT e seus satélites em nome da “unidade” dos trabalhadores. Além de que durante os últimos meses ambos os partidos, bem como os stalinistas da UP e do PCB seguiram na rabeira da política de impeachment que serviu apenas para o desgaste progressivo de Bolsonaro e o fortalecimento da candidatura de Lula, ou até mesmo indiretamente para o surgimento de uma terceira via.

É preciso tomar fortemente como exemplo o acampamento histórico dos povos originários em Brasília em sua luta contra o Marco Temporal, em defesa de suas terras contra o Agronegócio, Bolsonaro e o STF. E é neste sentido que nós, do MRT e do Esquerda Diário, estamos fazendo um chamado para os setores da esquerda para a conformação de um polo antiburocrático que possa materializar uma alternativa às burocracias do PT e seus satélites políticos. Imaginem a força que teríamos se em cada sindicato da CSP-Conlutas e das Intersindicais (onde o PSOL tem peso) fossem organizadas assembleias democráticas de base, colocando a perspectiva de solidariedade ativa, de unificação e coordenação das lutas em curso.

Assembleias onde poderia se fortalecer a exigência às grandes Centrais e a UNE, dirigidas por essas burocracias, para que rompam sua trégua com o governo e organizem pela base a luta contra Bolsonaro, Mourão e o conjunto dos ataques capitalistas, inclusive contra Doria e sua demagogia opositora neoliberal, mantendo os atos em SP neste próximo dia 07/09 para que a força da nossa classe se expresse de maneira contundente nas ruas.




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