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Doria cogita frente para as eleições de 2022 que vai de Sérgio Moro a Marina Silva e Ciro Gomes

Em entrevista divulgada hoje para o jornal Estado de SP, Doria sinaliza cinicamente aliança com golpistas e conciliadores. Querendo se apresentar como alternativa ao bolsonarismo, reivindica aliança com Sérgio Moro e sinaliza possível aliança com a REDE e o PDT. Mas o histórico desses partidos, como o do próprio Dória, mostram que vão servir à mesma classe dominante que a favor ou contra Bolsonaro, apoiaram e vão seguir apoiando os ataques contra a classe trabalhadora.

segunda-feira 23 de novembro de 2020| Edição do dia

Depois de se eleger à Prefeitura, em 2016, e ao governo do Estado, em 2018, com um discurso marcado pelo antipetismo, o governador João Doria (PSDB), agora, tem pregado um discurso hipócrita “contra os extremos”, por meio de uma frente que conte com figuras como Sérgio Moro até a centro-esquerda, incluindo a REDE de Marina Silva e o PDT de Ciro Gomes.

O cinismo de Dória, ao tentar se posicionar como um político de centro não vai apagar o Bolsodoria, e o fato de que a sua eleição para à prefeitura só foi possível a partir da ligação de sua imagem com o bolsonarismo, com o qual a candidatura ficou conhecida como "Bolsodoria". Ou seja, surfou no machismo, no racismo e na defesa da tortura e da perseguição à esquerda que o asqueroso atual presidente desferiu contra as mulheres, os negros, a comunidade LGBT.

Foi durante os primeiros meses da pandemia do novo Coronavírus que Dória buscou se afastar de Bolsonaro, tentando fazer parte de uma suposta racionalidade em favor da ciência contra o negacionismo do presidente. Mas na prática tanto Bolsonaro quanto Doria (como representante da postura de todos os governadores) não fizeram absolutamente nada para frear o impacto letal do coronavírus sobre a população trabalhadora e pobre. Assim como o Planalto, o governo de São Paulo não disponibilizou a testagem massiva para a população, se negou a impor a reconversão da produção industrial que seria capaz de produzir respiradores mecânicos, obrigou milhões de pessoas a seguir trabalhando nas fábricas e galpões de logística em condições insalubres, e permitiu aos empresários demitir funcionários cujas famílias amargaram no desemprego em meio à pandemia.

Durante a entrevista, realizada para o Estadão, e publicada nesta segunda feira (23), Dória diz em relação à seu afastamento de Bolsonaro que "O comportamento das pessoas muda ao longo do tempo. Não há comportamento estanque, paralisado, congelado das pessoas nem da sociedade. O comportamento evolui. Pode evoluir para melhor, para pior, mas evolui."

Tal "evolução" de Dória é parte apenas da mudança de correlação de forças eleitorais, em que a maioria dos candidatos à Prefeitura e Vereança apoiados por Jair Bolsonaro não se elegeram (apenas 10 de 45 candidatos a vereador, e somente 4 de 13 candidatos à prefeito em todo o país).

Em relação a composição de uma Frente contra o que chama de "extremos", Dória afirma: "A frente não deve ser contra Bolsonaro, mas a favor do Brasil. A frente deve reunir o maior número possível de pessoas e pensamentos que estejam dispostos a proteger o Brasil e a população. (Essa frente) Comporta o pensamento liberal de centro, que é o que eu pratico, mas comporta também centro-direita, centro-esquerda, aqueles que têm um pensamento mais à esquerda e à direita. Só não caberá o pensamento dos extremistas, até porque os extremistas não querem compartilhar, discutir. Eles querem impor situações ao País, tanto na extrema-esquerda, quanto na extrema-direita. Destes extremos nós temos que ficar longe".

Além da hipocrisia da defesa de não compor os "extremos’, que já colocamos acima, que Doria busque alimentar o propósito de compor uma frente ampla com partidos como PDT e REDE, é indicativo de que essas organizações não podem ser vistas como aliadas dos trabalhadores. A falta de uma perspectiva de independência de classe, a naturalização de uma política parlamentar junto ao regime golpista que se articula pro ataque sistemático aos direitos mais básicos da população, como a reforma trabalhista e da previdência, escancaram que esses partidos estão do lado dos capitalistas e dos empresários, e com o discurso do anti bolsonarismo se aliam ao que também há de mais abjeto dentro do bonapartismo institucional, que toma cadeiras no congresso para atender a demanda dos de cima.

Doria e o PSDB tem sua representação na figura de Bruno Covas, concorrendo no segundo turno a prefeitura municipal de São Paulo. Esse assiduo defensor das privatizações, que atacou os servidores com a aprovação do SAMPAPREV na base da repressão e esteve ao lado de Dória em sua criminosa tentativa de servir farinata nas escolas para as crianças, é a cara da direita tradicional que com base em suas políticas de ataque visa legitimar o regime podre do golpe institucional.

Não podemos esquecer que, como colocamos aqui, o discurso do PDT de Ciro Gomes contra o Bolsonaro e neoliberalismo, cai por terra em cada uma das ações do partido, de seus governantes e parlamentares. O maior exemplo é o Amapá, onde estão articulando uma brutal repressão com toque de recolher para a população pobre, enquanto privilegia a aliança com as oligarquias locais.

E por outro lado, a REDE de Marina Silva apoiou o impeachment de Dilma Rousseff, levado adiante pela direita e pela Lava Jato, para acelerar contra os trabalhadores ataques mais duros do que o PT vinha fazendo. Além de ter cumprido um papel direto na consecução do golpe institucional, apoiando politicamente o incremento do autoritarismo judiciário no Brasil. Por conta disso, não nos surpreende que seja vista por Dória como um partido aliado numa frente que conte com Sérgio Moro.

O fato de que esses partido não vão se mover no sentido de combater o regime podre fruto do golpe institucional que nos governa, escancara o giro à direita que o PSOL vem tomando a partir da candidatura de Boulos nas eleições atuais para prefeitura de São Paulo. Nesta sexta-feira, 20, Guilherme Boulos e o PSOL lideraram o ato de lançamento de uma Frente Ampla junto a partidos burgueses como PSB, PDT e Rede, e partidos de conciliação de classes como o PT e o PCdoB, se comprometendo a fazer um governo em aliança com esses setores.

Além de selar compromisso com esses partidos burgueses e golpistas, Guilherme Boulos se reuniu com empresários da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), aonde dialogou amigavelmente, afirmando que não se deve esperar dele “nenhum tipo de demonização do setor privado”. Tal encontro, contou inclusive com a presença de Cotait Neto, atual atual presidente do PSD, partido de Andrea Matarazzo, e em seu discurso de posse na Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo (Facesp), em 23 de maio de 2019, defendeu enfaticamente a reforma da previdência, dizendo “A reforma precisa ser profunda, com os parâmetros da proposta enviada pelo governo ao Congresso”, defendendo o ultra liberal Paulo Guedes e o presidente Bolsonaro.

Bolsonaro e Doria são dois lados complementares da tragédia capitalista que encabeçaram essas distintas facções da classe dominante, nesse regime golpista. Por isso, não devemos ter ilusões quanto a política de conciliação de classes levada à cabo pelo PT, e que agora o PSOL de Boulos busca repetir, tampouco em qualquer Frente que busque se conformar com estes partidos da ordem. Com isso defendemos uma política que seja impulsionada pelos próprios trabalhadores e setores oprimidos da sociedade, contra Bolsonaro, Mourão e também todos os setores desse regime golpista, sejam eles postos como centro, centro direita ou centro esquerda.

Não apenas combatendo o “Bolsodoria”, mas também contra o Legislativo e o STF golpistas, levantando a necessidade de lutar por uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana. Não nos sentamos com os patrões que foram a espinha dorsal que sustentou o golpe aplicado pelas instituições do regime, mas com os trabalhadores que sofrem com os efeitos da reforma, porque queremos organizar este setor social para impor nossas demandas: nosso combate é contra os patrões que arrancam nosso suor para engordar lucros milionários.




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