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Geração Z | Diário de uma estudante

Trotsky dizia que para entender a realidade é necessário olhá-la com os olhos de uma mulher. Aqui vai, então, um vislumbre do que é ser mulher, estudante, desempregada, filha de trabalhadores, no Brasil de Bolsonaro-Mourão, em um contexto de pandemia e crise capitalista.

Emily VitóriaCoordenadora do CACS Marielle Franco da UFRN (Ciências Sociais)

sexta-feira 1º de outubro | Edição do dia

Há meses tenho procurado emprego, me candidatado às escassas bolsas que surgem na universidade, procurado meios que possibilitem que eu continue na universidade, que possibilitem que eu possa ajudar em casa e aliviar a situação que não está nada fácil para minha mãe, uma professora desempregada e mãe de duas filhas.

Eu sinto como se estivesse sendo roubada. Roubada da minha juventude. Roubada do meu direito de estudar e poder me dedicar a algo que eu amo. Roubada de um futuro que a cada dia que passa tentam nos arrancar, nos fazer acreditar que essa é a única realidade possível, que não adianta lutar por um futuro melhor, livre de opressão e exploração.

E esse sistema perverso e seus representantes trabalham todos os dias para isso, para tentar fazer com que nos resignemos diante desse cenário de fome, miséria, precarização e crise climática. E é difícil não se resignar, não se frustrar, não desistir. Eu sei, todos os dias eu luto para levantar da cama, para encarar essa realidade e imaginar e lutar por uma muito melhor, mais bela, e que possibilite que vivamos plenamente livres. Liberdade. Ser livre para mim é não ter que escolher entre comprar algo no mercado ou pagar a conta de luz, porque as duas coisas não dá. É não ser morto pela polícia na favela ou abordado repressivamente por ela dentro de um campus universitário.

É poder escolher amar quem eu quiser, da forma que eu quiser e ser quem eu quiser, sem ser violentada por isso. É poder estudar e exercer a profissão que eu amo. É todos nós termos o direito de estudar e o acesso à universidade. Não morrermos de fome, de covid ou pela bala da polícia. É a possibilidade de viver nossa juventude e garantir o nosso futuro. Viver a vida plenamente e termos o direito não só ao pão, mas também às rosas. Essa realidade é possível, mas só é possível a partir da profunda e radical transformação da sociedade. E a juventude é parte primordial dessa transformação, carregamos em todes nós uma partícula do destino da humanidade. Canalizemos nosso ódio, nossa frustração, nossa revolta para garantir que isso se torne realidade. Para que os capitalistas paguem pela crise!

“... lutar pelo “pão” significa lutar por todas as condições materiais para a subsistência digna e abundante e lutar pelas “rosas” significa lutar pela beleza, pela arte, pela cultura, pela poesia da vida. Isso é impossível sob a bota do capitalismo. Pão e Rosas é, portanto, lutar por uma sociedade comunista.”

(Assunção, Diana. Pão e Rosas: identidade de gênero e antagonismo de classe no capitalismo. 2017.)




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