DIÁRIO DE UMA PRECARIZADA

Diário de Uma Precarizada #4: "Não temos uma linha imaginária que nos divide, estamos em todas as partes."

O "Diário de Uma Precarizada" é uma iniciativa do Esquerda Diário e do grupo de mulheres Pão e Rosas, reproduzindo uma série de páginas de diários de mulheres precarizadas dos nossos tempos, com relatos de suas reflexões, suas histórias e cotidianos vivendo a combinação da opressão e exploração. É fundamental olhar a realidade do mundo pelos olhos das mulheres, que são metade da classe trabalhadora hoje, e no Brasil majoritariamente negras, que vivem em duras condições de vida, trabalhadoras precarizadas, terceirizadas, muitas delas moradoras de favelas e periferias. Esse diário busca dar voz a essas mulheres e contribuir para despertar, através de uma perspectiva revolucionária, para que a força cotidiana dessas mulheres se transforme em organização e luta, e estejam na linha de frente nos combates contra a opressão e exploração capitalista, sendo protagonistas da transformação do mundo com a nossa classe.

Pão e Rosas

@Pao_e_Rosas

terça-feira 1º de junho| Edição do dia

Foto:@macacodosul

O Diário dessa semana é de uma trabalhadora terceirizada da saúde. A terceirização que precariza ainda mais a vida, principalmente das mulheres negras que recebem até 60% a menos que os homens brancos, faz parte do avanço dos ataques aos direitos dos trabalhadores, das políticas neoliberais do capitalismo, barateando os gastos às custas de manter os trabalhadores em situações cada vez piores. Enquanto enriquecem os donos das empresas prestadoras de serviço, os trabalhadores têm salários cada vez mais baixos, fortalecendo a divisão entre os trabalhadores. Trabalhadores que inúmeras vezes têm seus salários atrasados e convivem diariamente com o descaso escancarado de governos como o de Eduardo Paes e Castro, que se aprofundou com a Lei da Terceirização Irrestrita e diversas reformas, e ainda mais na pandemia com as consequências do negacionismo de Bolsonaro e Mourão junto à governadores e golpistas.

Malocas

Uma memória vivíssima que tenho é da minha mãe recebendo no começo do mês e colocando o salário em envelopes de banco para deposito, assistia em silencio a divisão

Envelope 1: contas

Envelope 2: mercado

Envelope 3: passagem filha, passagem trabalho

Envelope 4: lazer

Preciso falar do envelope destinado ao lazer, era a parte que eu mais me questionava, “como ela consegue com tão pouco?” tinha mês que dava para ir até quatro vezes na sorveteria Disfrut para tomar cascão de chiclete com flocos, outros, dava para ir e voltar algumas vezes no Parque da Cidade ou visitar uma prima. Para ter o lazer a minha mãe gasta menos no almoço. Ao invés de comer R$ 19 reais por dia, come R$ 10 (e por incrível que pareça ela ainda faz isso) inclusive para poder me visitar todo ano. No momento que escrevo ela anda economizando ainda mais levando marmita de casa. Já tiveram tempos que o envelope de lazer não existia, para completar a manutenção do viver a saída era também a venda de trabalhos manuais.

Pulando da minha casa para o meu quintal (quintal é a referência que uso do meu trabalho como terceirizada da saúde) neste lugar tem um bando de mulheres como a minha mãe e as vezes como as mães das minhas colegas de escola. Lá é mãe que fala “amiga, pra quê comprar uma coisa na revista da Avon neste momento, se Eduarda está precisando de um tênis novo para ir para escola.” ou “a gente tem que levar muito em conta se podemos ir naquele boteco comer uma carninha de sol... não volto tranquila porque no fundo tenho medo de que o divertimento falte nos cachos de banana para a criança.” Tem mãe triste que pensa em divórcio, mas não leva adiante por conta da contribuição do marido com a escola e saúde da criança. No ano passado tinha amiga de trabalho, mãe como a minha, com medo de morrer pelo vírus por não termos equipamento de segurança adequado.

Quando vou para os “quintais vizinhos” consigo ver que a minha realidade de quando criança é quase uma dadiva. Tem mãe como a minha que também é pai, mas que muitas não conseguem ter o saquinho do lazer porque o salário no começo do mês não cai nem no dia certo. Tem mãe que não recebe 19 reais de comida, mas sim três cestas básicas no valor de 90 reais e quase todo mês com atraso. Tem mãe que vai para o primeiro trabalho deixando o filho de 15 anos cuidando do irmão de 2 anos e depois do expediente pega algumas roupas para passar, tudo isso para completar a renda. Este relato ouvi de uma trabalhadora terceirizada da Home Bread que estava por completar duas semanas de atraso de salário, trabalham na parte da alimentação nas escolas do Rio de Janeiro e mal conseguem alimentar a própria casa.

Dentro do trabalho da minha mãe ela é vista como secretaria, auxiliar de dentista, auxiliar administrativo. Mas na sua CLT seu chefe deixou claro para o Ministério do Trabalho que ela é auxiliar de serviços gerais mesmo saindo todos os dias da semana para fazer pagamento dos profissionais, abrindo prontuário para novos pacientes, fazendo marcação e colocando os instrumentos dos dentistas na autoclave.

Saindo de dentro da minha casa e voltando para o quintal vizinho tem mulher trabalhando com fogo e gás sem receber pelos riscos de vida que corre. No meu quintal tem homem saindo de um plantão de 12h e entrando em outro também de 12h para sustentar três crianças.

É, somos filhas e filhos dos quintais sem condomínio. Estamos mais para malocas (palavra Tupi moro-oca=casa de gente. Casa de residência fixa, onde o indígena vive em comum) do que para os grandes residenciais onde estão nossos patrões vivendo individualmente uma vida de puro conforto.

Os nossos quintais compartam os reflexos de muitos de nós, das nossas casas e posso dizer com bastante certeza: definitivamente somos a maioria! Não podemos esquecer que nossas ocas fazem parte de uma aldeia. Nossos conflitos e glorias atingem um todo (mesmo sem querer) diferente das paredes intocáveis dos donos das terceirizadas e multinacionais, onde aposto que tem uma plaquinha na parede com a seguinte frase “TRABALHE ENQUANTO ELES DORMEM”, autoconvencimento que participam da linha de produção que mantem o carro e a geladeira cheia com os melhores produtos.

Descobri bem pequena que estou cercada de gente que precisa de uns beliscões ao longo da vida para voltar a enxergar o quintal alheio com potência e ter pertencimento da terra que sempre foi nossa. Uma vez escutei de um trabalhador ferroviário imigrante francês chamado Anasse Kazib e militante da Corrente Comunista Revolucionária na França: “meu pai achava que eu teria um futuro mais tranquilo do que o dele, por ele não saber escrever e ler com potência em francês. Hoje mesmo eu tendo conhecimento, meu pai tem medo de que eu trabalhe como ele, trabalhe cada vez mais só para poder continuar vivo”.

Viu? A nossa maloca é do tamanho do mundo! Não temos uma linha imaginaria que nos divide, estamos em todas as partes, mesmo que os homens dos grandes condôminos de luxo tentem nos convencer do contrário e batalham para nos dividir.

Meu presente agora é poder me reconhecer, reconhecer a casa que pertenço, os quintais que eu vejo e os que não vejo também, sei que fazemos parte de uma corrente viva que é a da classe trabalhadora. Sou jovem, filha, terceirizada que combate o medo de um dia não conseguir fazer uma faculdade publica pela demanda da vida. Sei onde piso, sei disso por instinto, sei que muitos estão para segurar a minha mão e me bate uma felicidade quando solto das deles para poder agarrar uma nova que caminhava sem esperança.

Meu diário acaba aqui, mas muitxs continuarão por mim e por aquelxs que foram arrancados de nós. Somos tantos, nossa maloca, quilombo, comunidade tem história forte e continuará lutando por uma vida digna.




Tópicos relacionados

Diário de uma Precarizada   /    Gênero e Sexualidade   /    Pão e Rosas   /    [email protected]   /    Gênero e sexualidade   /    Mundo Operário

Comentários

Comentar