PÃO E ROSAS

Diário de Uma Precarizada #1: "A vida é pra ser tudo que ela pode de mais belo. E será." 

O "Diário de Uma Precarizada" é uma iniciativa do Esquerda Diário e do grupo de mulheres Pão e Rosas, reproduzindo uma série de páginas de diários de mulheres precarizadas dos nossos tempos, com relatos de suas reflexões, suas histórias e cotidianos vivendo a combinação da opressão e exploração. É fundamental olhar a realidade do mundo pelos olhos das mulheres, que são metade da classe trabalhadora hoje, e no Brasil majoritariamente negras, que vivem em duras condições de vida, trabalhadoras precarizadas, terceirizadas, muitas delas moradoras de favelas e periferias. Esse diário busca dar voz a essas mulheres e contribuir para despertar, através de uma perspectiva revolucionária, para que a força cotidiana dessas mulheres se transforme em organização e luta, e estejam na linha de frente nos combates contra a opressão e exploração capitalista, sendo protagonistas da transformação do mundo com a nossa classe.

quarta-feira 28 de abril| Edição do dia

Ilustração: Macaco do Sul

"É difícil a gente escrever ou falar quando a gente pensa da vida ou do que a gente sente, passa, acumula. É meio complicado organizar isso tudo. Eu tive uma experiência engraçada quando fui pensar em escrever esse diário, porque lembrei de um dia que eu tava com a minha família na praia, eu era bem pequena, não lembro quantos anos eu tinha nessa época, mas eu lembro que a gente tava no Arpoador, num dia de semana, numa quarta-feira, porque meus pais não podiam levar a gente pra praia nos finais de semana porque não tinha grana, não tinha dinheiro pra bancar as passagens, a comida na praia, então a gente ia dia de semana porque a gente podia usar o Riocard da escola. Foi um dia que não teve aula, tava bem no finalzinho do ano já, quase verão, e foi um dia lindo. A gente tava no Arpoador brincando e tal, e eu lembro que eu e meus irmãos fomos brincar na água e eu mergulhei numa onda e nessa onda eu subi e sabe quando você sobe e você respira? Cê sente que tá respirando, sabe? Uma sensação estranha mas é tão gostoso. E eu lembro que naquela hora o Sol tava se pondo e eu fiquei quietinha, parada, olhando pro horizonte, pro mar, pro Sol. Eu achei aquilo sensacional. Foi engraçado porque pensei comigo mesma, e lembro exatamente dessa ideia que tive no dia: “nossa, cara, eu queria muito ver isso todo dia, pelo resto da minha vida! Ter essa mesma sensação, de respirar, de mergulhar” sabe? E depois de um tempo a gente cresce e descobre que não dá pra ir pra praia todo dia, e aí entende porque meus pais não podiam ir pra praia todo dia, e porque a gente só podia exclusivamente ir em dia de semana, porque o dinheiro não sobrava. Depois disso, eu comecei a trabalhar.

Eu estudava mas comecei a trabalhar bem cedo, bem jovem, com uns 13/14 anos. Comecei a trabalhar limpando janela das vizinhas numa vila do morro que eu morava, no Lins Vasconcelos, era um beco mas a gente chamava de vila pra ficar mais bonito, e nessa vila eu passei a limpar as janelas das tias, das moças do beco, pra conseguir uma grana. Logo depois disso eu comecei a trabalhar em outras coisas, mas é muito louco porque eu sempre fiquei pensando assim: toda vez que eu ia na praia eu lembrava, "eu quero muito ver isso todos os dias, esse sol brilhando na água". Quando pensei em escrever esse diário, pensei nesse dia porque, tudo que eu queria, de verdade, hoje, era só mergulhar e ver o sol saindo da água e descendo na água. Tem dia que é muito pesado. Eu trabalho num hospital como terceirizada, tenho acesso a vários pacientes com tratamento oncológico e diversos outros tipos.

Chego em casa tenho que estudar, tenho EAD, EAD que faço hoje, porque consegui entrar por cota, e ainda tive que passar por toda a humilhação de dizerem se sou negra mesmo ou não. Porque é isso, né, quando a gente é trabalhador, principalmente quem é pobre e não tem condição de estudar e trabalhar ao mesmo tempo, porque ou você dedica seu tempo à estudar ou você dedica seu tempo à conseguir pagar as suas contas e sobreviver ao fim do mês, e hoje com o preço do mercado, alimentação, tudo tá muito caro, então fora de cogitação eu pensar em sair do trabalho, mas, mais do que isso, é que eu vejo tantas meninas no trabalho comigo que passa pela mesma coisa que eu todos os dias, de só trabalhar porque não tem escolha. É difícil porque a gente só é criado assim, quanto trabalhador, quanto classe trabalhadora, quanto ser humano, principalmente como negro e eu acho que principalmente favelado, a gente que veio de favela, é tão condicionado a só trabalhar pra sobreviver, e como se isso fosse uma dádiva, sabe? Como se fosse um “presente de deus”, que a gente só tivesse que trabalhar todos os dias e viver daquilo dali porque você não tem outra opção de escolha, não pode arrumar outro emprego melhor do que aquele porque tem uma crise ou porque você é a pessoa mais nova da sua casa, então sua mãe tá doente e ela não pode trabalhar e você tem que começar a trabalhar com 13/14 anos, que é uma idade que você não tinha que estar limpando janela, então você tá, e não só limpando janela mas, com 13, mas depois com 15, depois com 17, depois com 18, depois com 20, você seguir trabalhando, pra mim é muito estranho porque eu tô num período que eu falo assim: "eu nunca fiquei um tempo só estudando", só quando era criança mas eu nunca tive esse tempo da gente só se dedicar a pensar no que quer fazer da vida ou no que quer ser, ou simplesmente se você quer se tornar alguém que não seja aquela pessoa que você é. Não tem esse tempo. Hoje a minha vida é trabalhar 8/9h por dia, dentro de um hospital, recebendo 1.100 reais que muito mal dá pra pagar as minhas contas, dá pra me sustentar, que hoje com tudo tão caro, não dá pra se manter, é tudo muito contado, Vendo as meninas com quem eu trabalho, que moram tão distante, que demoram duas horas pra chegar em casa porque o transporte é péssimo, lotado, porque tá no meio de uma pandemia, suando, sem ar ali, precisa chegar em casa pra poder sustentar uma casa ou pra poder fazer uma comida pro dia seguinte, ou pra lavar a roupa, o uniforme do dia seguinte.

É tanta gente que não pode pensar no que vai ser, no que vai se transformar ou no que pode ser, e eu queria colocar nesse diário porque, eu não tive esse tempo pra pensar no que a gente poderia ser e eu acho que isso tá tão dentro do sistema que a gente vive, que é tão condicionado, principalmente a gente que é mulher à trabalhar, estudar, e às vezes não dá pra estudar, às vezes não dá nem pra completar nem o Ensino Médio, às vezes só dá pra poder ir até onde foi e aí tem que começar a trabalhar muito nova, e que eu fico imaginando quanta gente como eu tem tanto projeto, tanta coisa querendo acontecer mas, vive numa realidade que não permite, ainda mais sendo mulher, tá colocado não só trabalhar fora, porque a gente precisa sustentar a casa mas trabalhar dentro, ter que limpar a casa, ter que fazer comida, ter que sustentar a família, educar os filhos, e fazer tantas coisas, que eu fico assim: tudo que a gente só quer no final do dia eu acho que é só mergulhar uma onda, passar por ela e sentir o ar sair do corpo e sentir que foi mais um dia que acabou, que completou. Mas também penso que não deveria ser só isso. Não deveríamos ter nossos sonhos e vontades limitados a um mergulho no mar no final de um dia exaustivo, mas no nosso horizonte não devem ter limites pros sonhos. No hospital, ainda não fomos vacinadas, não recebemos insalubridade, na maioria das vezes recebemos os piores salários dentro do hospital, fazendo muito mais horas que um médico às vezes. É pesado, aquela realidade massacrante, fazendo todos os dias os mesmos serviços e em péssimas condições. Acham que eu não sou uma profissional da saúde, só porque eu sou recepcionista, e que isso é tá muito fora da realidade, que as pessoas acham que eu sou uma pessoa que eu só sirvo ali pra atender telefone e atender as pessoas que chegam, que na verdade não são tratadas as vezes nem como pacientes, mas como clientes, e que eu tenho que satisfazer e agradar o meu "cliente", então se ele tá sendo injusto comigo, ou um médico tá, um profissional tá sendo insatisfeito comigo, tá sendo ruim comigo, eu tenho que simplesmente calar aquilo porque eu tenho aquele trabalho e eu dependo dele e não posso tá fora disso.

Pra mim é muito difícil porque eu vejo tantas trabalhadoras como eu, às vezes da higienização, às vezes da rouparia, às vezes da segurança, tantas mulheres assim como eu que as pessoas tratam como se não fosse ninguém. Hoje foi um dia que eu me senti assim, muito invisível dentro do trabalho, e eu escrevo isso emocionada porque foi um dia pesado que a gente só ouve e não pensa, como se a gente não pudesse raciocinar, como se a gente não tivesse capacidade pra isso. Isso é muita miséria que as mulheres vivem, principalmente as mulheres negras, no contexto que a gente vive nacionalmente, porque a gente sempre tá colocada nos piores postos de trabalho, nos piores setores, nos piores salários, porque a gente precisa, não é porque a gente quer, é porque a gente precisa. Mas se a realidade nesse sistema nos invisibiliza como indivíduo, eu quero com esse diário contribuir com a transformação dessa perspectiva, porque não somos invisíveis. Ao contrário.

Somos sujeitos da transformação do mundo. Quero desejar para nós, mulheres, negras, que trabalham desde muito nova, pegam ônibus lotado, não podem parar um segundo pela dupla jornada imposta à nós, que eu desejo muito além do mínimo, que seria ver o pôr do sol quando quisesse, mergulhar quando sentir vontade. Eu quero construir um mundo em que as mulheres com quem eu trabalho, que trabalham 12 horas por dia, limpando chão de hospital ou que trabalham 8h por dia atendendo telefone dentro de um telemarketing ou dentro de uma sala de marcação de exames, como várias outras amigas minhas trabalham lá no hospital, eu quero que elas vejam o quanto a vida é bela. Que nós mulheres temos uma força imparável pra nos organizarmos e sermos linha de frente na construção desse mundo outro. É possível construir um mundo onde a gente possa ir à praia durante a semana ver o pôr do sol, onde a gente não tem que estar condicionada a só trabalhar, trabalhar, trabalhar.

A vida não é suarmos pra que um punhado de parasitas, como todos os atores desse governo, desse regime, lucre em cima de nossos corpos, de nossas forças. Porque podemos nos organizar e acreditar nas nossas próprias forças pra lutar junto com tantos trabalhadores e trabalhadoras. Nossa classe é uma só. A vida é pra ser vivida em plenitude. A vida é pra ser tudo que ela pode de mais belo. E será."

Jovem terceirizada do Rio de Janeiro




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