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O dia 8 de Agosto é o dia do orgasmo feminino e, ainda que existam várias versões sobre esse dia, ele é uma oportunidade para explorar mitos, questionamentos e reflexões sobre desejo e sexualidade.

Celeste MurilloArgentina | @rompe_teclas

segunda-feira 23 de agosto | Edição do dia

Na América Latina, desde 2001, comemora-se o dia do orgasmo femenino e também se fala do orgasmo clitoriano. A maioria das versões coincidem com a iniciativa que surgiu do ex-vereador brasileiro José Arimateia Dantas Lacerda no município de Esperantina (estado do Piauí) sobre esse dia, já que ele ficou sabendo de um estudo da Universidade Federal do Piauí que demonstrava o dado preocupante de que 28% das mulheres não sentiam prazem com a relação sexual.


Plataformas de Desejo:

Em Junho de 2021, a plataforma Netflix ofereceu ao público a minissérie polaca “Sexify”, a qual é apresentada de maneira provocante, por falar sobre orgasmos, sexo livre e masturbação. Com boas intenções (um” discurso a favor da exploração da sexualidade e objetificação em doses mais moderadas) acrescenta mais uma camada a esse “feminismo” de baixa intensidade que circula nas plataformas de streaming. A minissérie é mais interessante do que o seu trailer, talvez mais por conta das ideias que deixa flutuando do que pelo que diz de fato. No centro da história está a transformação pessoal de se gozar livremente da sexualidade.

Fora desse algoritmo (leia-se: alguém dizendo “você viu o ginecologista?”) se pode acessar a obra “Arte de Amar”, de Michalina Wislocka, perfeitamente escondida no catálogo de produções polonesas da Netflix. O filme retrata a vida de uma ginecologista e sexóloga que tenta publicar um livro sobre educação sexual. O texto se esbarra constantemente com a censura, embora seja conhecido e lido pelas esposas dos burocratas de várias repartições estaduais. O filme se passa na época em que a Polônia estava sob domínio da burocracia stalinista da URSS, resultante da conferência de Yalta, ao final da Segunda Guerra Mundial. Não se trata de um filme com um argumento anticapitalista, mas ele estabelece uma relação interessante sobre o que acontece (ou não) entre a vida e o clitóris. A falta de educação sexual e contracepção evidenciam o peso que têm a Igreja e o Estado (representado como “o partido”, numa dose básica de anticomunismo das produções culturais mainstream, presente no filme). Nos créditos finais, Michalina fala para a câmera e diz que o livro era sobre sexualidade, sobre o amor e o cotidiano, que era também para os homens, mas sobretudo para as mulheres, já que a emancipação nesse campo não acabaria automaticamente com a opressão de gênero.

Já em Sexify, 3 universitárias desenvolvem um aplicativo para ajudar a alcançar e a melhorar os orgasmos das mulheres. A pesquisa de Natália, Paulina e Monika explora os mitos e preconceitos sobre a sexualidade feminina, o que nunca é demais desnaturalizar. No entanto, essa pesquisa das universitárias não escapa a quase nenhum mito e preconceito da liberdade sexual no neoliberalismo, a qual é cheia de desejo e gozo individual sem romper em nada com o que determina essa “liberdade” e reproduz as lógicas de mercado nas relações interpessoais.

Agora que estamos livres?

A socióloga Eva Illouz escreve em “No fim do amor” que a liberdade sexual significou uma maior igualdade no campo da sexualidade e significou uma redução na comparação do desejo com a repressão e proibição. Ela adverte também que essas consequências positivas sucedem em um contexto de mercantilização e hiperssexualização em que o desejo e o prazer são assimiláveis de formas diferentes. Illouz explica isso com o seu conceito de capitalismo emocional: o corpo e as emoções são as únicas coisas que tornam possível um consumo infinito. Essa crescente sexualização se produz num contexto em que o indivíduo se torna uma mercadoria.

Isso não quer dizer que não haja algo de pessoal e único em nossos desejos. Quer dizer que eles acontecem e realizam-se (ou não) em um ambiente em que somos bombardeados pelos discursos de felicidade, liberdade e bem-estar num mundo onde as relações sociais continuam a se organizar em torno da exploração da maioria da população. Não há scripts de relacionamentos que sejam completamente independentes dos valores e ideias que emergem desse mundo. Além disso, muitas vezes, as próprias narrativas neoliberais incluem desejo e prazer na ideia de “liberdades” individuais.

Em conversa com Diego Sztulwark sobre seu livro “A Ofensiva Sensível” , Tamara Tenenbaum (autora de O Fim do Amor, Querer e Pegar) diz que se fala do desejo como se fosse “uma pedra de toque, sendo inquestionável e impensável. O que eu desejo não é pensado como algo que é construído, mas sim como algo que é a pedra última da minha liberdade. Não sei se isso é assim, pois me parece mais que os desejos são efetivamente parte do que se construiu e de questões que têm condições históricas, condições econômicas.”

Em seu livro, Sztulwark situa vários desses debates em outro marco, mais problemático do que o proposto pela ideia de um “feminismo do prazer/gozo”. Esse marco tem a ver, por exemplo, com o chamado para realizarmo-nos “livremente” mais como consumidores do que como cidadãos, num contexto em que o neoliberalismo encontrou uma articulação de “mercados e democracias nascentes, com suas promessas de ‘livre’ consumo e ‘livres’ eleições.” Em entrevista à revista Almagro, o autor fala “quem manda você se divertir, ser único, ser criativo? As empresas falam isso, porque já deram um sentido a isso, que é simplesmente: ‘acomode-se ao mercado’”.

Ainda somos autoras a autores dos roteiros de nossas vidas, mas seria ingênuo não refletirmos e discutirmos sobre as mensagens, discursos e políticas em constante tensão, as quais produzem e reproduzem ideologias e significados comuns (que vão até o feminismo e outros movimentos contra a opressão). Isso não se trata de que não podemos desfrutar e desejar; trata-se de pensar nas possibilidades que não cabem nessa liberdade que possui muitas condições para sê-la nesse sistema. Para pensar nessas possibilidades não há outra saída que construir outra sociedade, em que liberdade não se reduza a uma sensação-mercadoria que pode ser vendida e comprada.

Polônia fora das telas

Dagmara, que é professora do ensino médio e mora na cidade de Gdansk, diz sobre Sexify, que “a realidade das mulheres e de sua sexualidade na Polônia não é tão feliz”, pois não há educação sexual e a igreja católica é um enorme obstáculo (muito longe, mas também muito perto da Argentina).

Em 2016, o mundo viu a força organizada das mulheres na "Segunda-Feira Negra" que paralisou as cidades polonesas. Como em outras épocas e lugares, a mobilização contra a opressão (expressa em violência sexista, negação de direitos ou desigualdade) foi o catalisador para o descontentamento generalizado. Em outubro de 2020, em meio à pandemia, Dagmara participou das mobilizações a decisão do Tribunal Constitucional (controlado pelo governo do partido conservador Lei e Justiça) que eliminou a causa mais utilizada nos abortos não puníveis. Desde a década de 1930, um sistema de causas tem operado na Polônia (exceto durante a ocupação nazista, quando o aborto era usado à força contra as mulheres polonesas). A mudança mais importante foi em 1956, quando se introduziu a causa de “condições de vida” ao aborto, podendo ser uma justificativa não punível. Após sucessivas modificações, veio o “compromisso com o aborto”, de 1993, que restringia as causas a três: risco de vida, gravidez fruto de estupro ou feto com malformações graves e irreparáveis (esta última foi eliminada na reforma que finalmente entrou em vigor em janeiro de 2021).

Dagmara explica o que significa essa mudança no dia a dia das pessoas capazes de gestar. um exemplo disso é que, em Janeiro, quando foi anunciada a decisão do Tribunal, muitas mulheres que faziam abortos legais tiveram o seu procedimento suspenso pelos médicos por conta desse ataque. Essa medida traz consequências dramáticas, num contexto complexo, em que também a maternidade é dificultada para a maioria das mulheres (licenças curtas, ausência de políticas de reinserção laboral e creches inacessíveis), além de quase inviabilizar a interrupção de uma gravidez indesejada.

Organizações como a Aborto sem Fronteiras (ainda que sob o cerco do governo) ajudaram 17.000 mulheres polonesas a ter acesso a abortos seguros entre outubro de 2020 e abril de 2021. Os números explodiram desde a restrição do Tribunal. Segundo a ONG Aborto Dream Team, antes da proibição eles atendiam entre 5 e 6 pessoas por mês, agora o número sobe para 100.

“Os abortos continuam ocorrendo e são as mulheres pobres em cidades pequenas, sem acesso à informação e sem dinheiro, que pagam o preço mais alto pelo endurecimento da lei. Mulheres com dinheiro vão, por exemplo, para a Eslováquia, onde por 200 euros podem fazer um aborto em condições confortáveis”. Dagmara diz que “graças aos protestos, o aborto não é mais tabu, mas ainda estamos longe de celebridades e mulheres comuns falando sobre seus abortos. Muitas vezes o fazem em segredo de suas famílias: é uma tragédia para as mulheres polonesas ”.

Quase como uma homenagem a Michalina Wislocka, desde quando seu best-seller “A arte de amar” foi relançado em 2016 (40 anos após sua primeira publicação), as polonesas têm reescrito a história da qual são protagonistas.

Traduzido por Gabriela Mueller. A versão original deste artigo foi publicada em 01/06/2021 no boletim ‘Não somos uma irmandade’, de El Círculo Rojo e La Izquierda Diario. Para recebê-lo quinzenalmente em sua caixa de entrada, inscreva-se neste link.




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