Logo Ideias de Esquerda

Logo La Izquierda Diario

SEMANÁRIO

Desgaste ou luta?

Rosa Luxemburgo

Desgaste ou luta?

Rosa Luxemburgo

Publicamos aqui a tradução do texto aparecido inicialmente no Ideias de Esquerda argentino, feito a partir da versão alemã dos escritos da revolucionária Rosa Luxemburgo.

Esta obra, que apareceu em uma série de artigos na revista teórica da social-democracia alemã Die NeueZeit, dirigida por Karl Kautsky, é uma polêmica justamente contra este último autor. É parte de um debate de longa data sobre a greve de massas como método de luta pela Alemanha e pelos países da Europa Ocidental que remonta, pelo menos, aos primeiros textos críticos da ala esquerda da social-democracia que Alexander Parvus escreveu. Nos últimos anos do século XIX, a polêmica de Rosa Luxemburgo sobre a greve pelo direito ao sufrágio igualitário na Bélgica em 1902 continuou, seguida por seu texto de 1906 Greve das massas, partidos e sindicatos (como uma teoria da aplicação desse método na Revolução Russa de 1905), as polêmicas nos congressos, de um lado, o sindical de Colônia (1905) e, de outro, o de Jena do Partido Social-Democrata Alemão (1906). Essa polêmica reacendeu-se em 1910.

Naquele ano, em decorrência de uma crise econômica, havia muitos conflitos econômicos em empresas e fábricas, ao mesmo tempo em que se discutia no Parlamento prussiano um projeto de reforma eleitoral. O Reino da Prússia constituía a maior parte do Império Alemão em termos de território e população, enquanto os Junkers do território a leste do rio Elba, a aristocracia latifundiária e a casta militar conservadora típica da Prússia, detinham a hegemonia estatal. Ao contrário de outras regiões da Alemanha, onde existiam formas mais democráticas de sufrágio, na Prússia o voto era, por um lado, exclusivamente masculino e a partir dos 25 anos (a maioria da população ativa masculina começou a trabalhar com 15 anos, e estava concluindo o serviço militar aos 17, mas apenas oito a dez anos depois poderia votar!) E, além disso, os votos tinham pesos diferentes. Era conhecida como "lei eleitoral de três classes" de acordo com a renda e a posição social, buscando distorcer a composição do Parlamento regional e nacional, o Reichstag, a favor das classes dominantes e seus partidos, e contra a social-democracia que era, então, o partido da classe trabalhadora. Além disso, a votação também não era secreta, o que também intimidava os que votavam na esquerda, já que tinham que fazê-lo publicamente.

O chanceler liberal Bethmann-Hollweg enviou um projeto de lei ao Parlamento propondo reformas que atendiam apenas às duas classes altas estipuladas por lei, mas reforçava medidas contra os eleitores da classe trabalhadora e dos setores de baixa renda. A social-democracia opõe-se a esta reforma e exige uma vez mais o sufrágio igualitário e para ambos os sexos. Ao mesmo tempo, as lutas econômicas convergem com a luta que trava a bancada social-democrata no Parlamento, fazendo com que as greves adquiram cada vez mais um caráter político. As enormes mobilizações são vistas por Rosa Luxemburgo como a ponta de lança para partir para a ofensiva e desencadear um poderoso movimento de mobilização operária que poderia ter sucesso. No entanto, essa perspectiva se chocou com a da maioria das lideranças da social-democracia, a começar por Bebel e Kautsky, onde este deu cobertura teórica à posição conservadora de conter o movimento operário e se contentar com uma luta puramente parlamentar e legal, à espera das eleições seguintes em 1912 e do aumento da bancada socialista.

Este debate ficou conhecido como o das "duas estratégias", uma vez que Kautsky, procurando dar cobertura teórica à sua posição passiva, expectante, de "nada mais que parlamentarismo", criou a ideia, tomando termos da história militar apenas como metáfora, que a classe operária deveria seguir uma "estratégia de desgaste", que esquivasse os golpes da burguesia em vez de combatê-los, enquanto Rosa Luxemburgo seria supostamente a representante de uma "estratégia de aniquilação", de ataque revolucionário frontal em todos os momentos, e que, para colocá-lo em termos dos debates posteriores no marxismo da década de 1920, supostamente procuraria dar lutas parciais com métodos mais típicos da guerra civil.

Hoje, intelectuais ligados a setores da esquerda norte-americana como os DSA (Democratic Socialists of America) e que escrevem na revista Jacobin reivindicam explicitamente o legado da teoria de Karl Kautsky anterior a 1914 e de sua “estratégia de desgaste”. Esta obra de Rosa Luxemburgo é uma das contribuições mais importantes neste debate.

Maio-junho de 1910

I

Estou consideravelmente atrasada para responder ao camarada Kautsky devido à minha campanha de agitação presencial [1]. Mas se meu artigo sobre a greve de massas [2] e minha agitação de abril [3] simplesmente conseguem abrir uma discussão detalhada dos problemas táticos e quebrar a proibição da discussão da greve de massas, especialmente em nosso corpo teórico, a Die NeueZeit, [Os Novos Tempos em tradução livre, revista mais importante da social-democracia alemã até 1923, NdT] então posso me considerar completamente satisfeita. Acima de tudo, tratava-se de se opor à incompreensível tentativa de impedir a discussão pública na imprensa partidária de temas que despertam o mais profundo interesse nos círculos mais amplos do partido. Afinal, meu artigo sobre a greve de massas não foi apenas rejeitado por nosso órgão central, Vorwärts, mas também pela Die NeueZeit - chegou até a ser aceito a princípio e estava pronto para ir para a imprensa – mas decidiram que uma discussão sobre o assunto da greve de massas não seria desejável na imprensa do partido.

O absurdo disto é óbvio se considerarmos que não se trata de uma discussão caprichosa, nem a ideia de uma só pessoa, como diz o camarada Kautsky, falando exclusivamente de mim e da minha agitação em todo o seu artigo, que começa com a frase: "A camarada Luxemburgo levantou o problema da greve de massas por meio de um artigo no órgão do nosso partido que se publica na cidade de Dortmund" [4]. Antes de publicar meu artigo, a questão da greve de massas já estava na agenda de vários organismos e jornais importantes do partido. Camaradas de Halle e do distrito de agitação de Hesse-Nassau sugeriram formalmente ao executivo do partido que a questão da greve geral fosse discutida. Os camaradas de Königsberg, em Essen, em Breslau, em Bremen, decidiram organizar conferências com discussões sobre a greve de massas. Grandes greves de protesto de meia jornada já haviam sido realizadas com grande êxito em Kiel e Frankfurt [5]. O camarada Pokorny do sindicato dos mineiros havia prometido, em uma reunião pública em Essen, que faria uma greve em massa, e disse que esperava que os mineiros desempenhassem um papel de liderança nas grandes lutas políticas que estavam por vir; até mesmo nossos delegados na Câmara dos Representantes da Prússia já haviam ameaçado uma greve de massas. O fato que a discussão da greve de massas simplesmente correspondia ao estado de ânimo e às necessidades da maioria dos membros do partido é mostrado pelo fato de que meu artigo foi amplamente reimpresso por toda a imprensa da seção prussiana do partido e por alguns jornais fora da Prússia. Outra evidência se dá pelo fato de que nas dezesseis grandes reuniões de que participei durante o mês de abril na Silésia, Kiel, Bremen, Frankfurt am Main, no distrito industrial da Renânia-Vestfália, e no Dia de Maio em Colônia, a consigna de a greve de massas recebeu, sem exceção, a aprovação mais entusiástica. Como observei, há apenas uma outra consigna que atualmente está despertando uma aprovação tão clamorosa da maioria do partido na Alemanha: a forte ênfase em nosso ponto de vista republicano, uma consigna que, infelizmente, não pode ser promovida nem pelo Vorwärts ou pela Die NeueZeit, e em que parte de nossa imprensa provincial - do Dortmunder Arbeiterzeitung ao Breslauer Volkswacht - também tem sua parcela de responsabilidade.

As amplas massas do partido têm uma atitude de luta tão forte, uma vontade tão determinada de continuar até a vitória a luta que se iniciou pelos direitos eleitorais, até mesmo mediante pressão das massas nas ruas, bem como de um intenso interesse na ideia de uma greve de massas como nunca antes vista na Alemanha. Nosso órgão central, o Vorwärts, que até agora não disse uma palavra sobre todo o debate existente sobre a greve de massas na imprensa do partido, um debate que uma parte de seus membros ignora completamente, como os camaradas de Berlim, que se informam pelo Vorwärts sobre o estado de ânimo e a vida espiritual do partido em todo o país. Sim, o órgão central, em sua estrita obediência da diretriz que recebeu, está trabalhando tão diligentemente que até mesmo cada pequena menção à greve de massas é suprimida nos relatórios das assembleias realizadas em Berlim; também no informe no Vorwärts do comício do partido em Frankfurt am Main em 17 de abril - o mesmo relatório que apareceu visivelmente "não editado" em outros jornais do partido - a frase foi cuidadosamente removida: "O orador provocou uma aprovação tempestuosa da multidão lá reunida com a propaganda da greve de massas”. O camarada Kautsky provavelmente também extraiu doVorwärts suas informações sobre as opiniões dos círculos do partido em todo o país, pois considerava que era possível evitar uma discussão pública sobre a greve de massas em tais circunstâncias.

A propósito, não é a primeira vez que se tenta proibir o debate público sobre a greve de massas, e mesmo o repetido fracasso dessas tentativas deveria, em minha opinião, ter demonstrado suficientemente a futilidade dessa empreitada. Em 1905, o Congresso Sindical de Colônia proibiu a "propaganda da greve de massas" na Alemanha. A pré-conferência dos camaradas do partido da Áustria alemã, antes do Congresso de Salzburgo em 1904 [6], também decidiu que a consigna da greve de massas não deveria ser discutida ou mencionada no Congresso. Mas ambas as decisões falharam pelo simples fato de que a social-democracia não é uma seita formada por um punhado de estudantes obedientes, mas um movimento de massas. Os problemas que se discutem internamente chegarão, de uma forma ou de outra, à opinião pública, queiram-no ou não.

Portanto, o que é lamentável não é a própria tentativa de interromper a discussão sobre a greve de massas neste caso específico - em minha opinião, tais proibições devem ser aceitas com serenidade, ao invés de indignação - mas a visão geral da greve de massas subjacente a essa tentativa. Casos e escute os argumentos usados ​​para embasar por que a discussão pública da greve de massa no momento atual seria nociva, pode-se acreditar que os ensinamentos da Revolução Russa e todo o rico tesouro de experiências daquele período que foi transcendental para a apreciação prática da greve de massas e das táticas de luta do proletariado em geral passaram sem deixar vestígios, e ainda estamos nos bons tempos dos debates com Domela Nieuwenhuis [7] e Cornelissen [8].

Se isso acontecer em público - isto é, a discussão da greve de massas, diz o camarada Kautsky - significa que estamos mostrando ao inimigo os pontos fracos de nossa própria posição. Toda a discussão seria tão apropriada quanto celebrar um conselho de guerra na frente do nariz do inimigo para decidir se deve lutar numa batalha ou não [9].

A greve de massas seria, portanto, um golpe de Estado inteligentemente concebido, que o "conselho de guerra" da Social-Democracia - isto é, o executivo do partido e a Comissão Geral dos Sindicatos - tramaria secretamente em uma conspiração de sala fechada, assim pegando o inimigo - a sociedade burguesa - de surpresa. Já em 1906 me dediquei a escrever, contra este ponto de vista, todo um panfleto sobre a greve de massas [10] encomendada pelos camaradas de Hamburgo, pelo que só posso repetir o que aí disse:

Na mesma base de uma abordagem abstrata e a histórica, hoje se encontram aqueles que querem organizar a próxima greve de massas na Alemanha em um determinado dia do calendário por meio de uma resolução da direção, bem como aqueles que, iguala os que participaram no Congresso dos Sindicatos de Colônia, querem eliminar o problema da greve de massas banindo sua "propaganda". Ambas as orientações baseiam-se na ideia comum e puramente anarquista de que a greve de massas é um meio de luta puramente técnico que pode ser "decidido" ou "proibido" à vontade e de forma estritamente consciente, uma espécie de navalha que pode ser guardada seu bolso “para todas as ocasiões” ou que pode ser desdobrada e usado de acordo com sua própria decisão [11].

Parece-me que não há melhor resposta aos temores do camarada Kautsky - que têm sua origem neste ponto de vista - de que a discussão pública da greve de massas exponha o inimigo "os pontos fracos", do que as palavras do camarada Pannekoek, que já esclareceu a maioria das fraquezas da posição de Kautsky no BremerBürgerzeitung [12]:

A falácia dessa comparação técnico-militar - escreveu Pannekoek - é demonstrada pelo fato de que o partido nunca fez nada além de discutir seus pontos fortes e fracos publicamente. Simplesmente porque a social-democracia não é um pequeno grupo fechado, mas um movimento de massas. Não há nada que possamos fazer com planos secretos. A força e a fraqueza aqui dependem das condições políticas e sociais gerais, contra as quais nada pode ser mantido em segredo, e que também não podem ser desenvolvidas ou regredidas apelando-se para o segredo. Como podemos expor nossas fraquezas ao inimigo? Os conhece tão bem quanto nós. E se você não os conhece, se se engana sobre nossas forças e as suas, é também devido às condições sociohistóricas necessárias que o sigilo não pode mudar.

Mas o camarada Kautsky também sugere que um debate público teria outras consequências prejudiciais.

Seria lamentável - escreve - se o artigo da camarada Luxemburgo suscitasse um debate na imprensa partidária, em que uma das partes se contrapõe às razões pelas quais considera que uma greve de massas, neste momento, seria inútil. Pode se estar certo ou não, mas tal debate de forma alguma incentiva a ação [13].

Este ponto de vista é totalmente incompreensível para mim, uma vez que a social-democracia nunca o levantou antes. Nunca tentamos "encorajar a ação" com ilusões e encobrindo os verdadeiros fatos das massas. Se aqueles que se opõem à greve de massa estão corretos nas razões que os levam a ver a futilidade de tal ação, então é saudável e necessário que ouçamos seus motivos e concordemos com eles. Se estiverem errados, é saudável e necessário que suas razões sejam publicamente reconhecidas como infundadas. A única coisa útil é a discussão mais profunda para contribuir para o esclarecimento do partido e para chamar a atenção para as fragilidades do nosso movimento nas tarefas práticas mais urgentes de agitação e organização que temos diante de nós.

Mas se o camarada Kautsky está pensando sobre o perigo de que minha agitação escrita e oral ponha em cena os dirigentes sindicais direcionando suas armas contra a ideia da greve de massas, então esse medo é, em minha opinião, uma superestimação do poder dos dirigentes, o que só pode ser explicado pela concepção um tanto mecânica da greve de massas como um plano surpresa planejado e ordenado pelo "Estado-Maior". Na realidade, os dirigentes sindicais não podem impedir um movimento de greve de massas se ele resultar das condições, da intensificação da luta, do estado de espírito das massas proletárias. Se em tais situações os dirigentes sindicais são contra as aspirações das massas, o que está em jogo não é o ânimo das massas, mas a autoridade dos dirigentes sindicais. Na verdade, já existe um espírito de luta tão vivo entre os trabalhadores que se o Estado-Maior dos sindicatos quisesse atuar como freio, não teria outra consequência senão despertar críticas e protestos nas próprias fileiras dos membros do sindicato. Portanto, na questão de "estimular a ação", nada poderia ser mais desejável do que os dirigentes sindicais finalmente aparecendo em cena com suas "grandes armas" para que seus argumentos possam ser julgados à luz do dia, e para que se possa estabelecer o quanto os dirigentes ficaram para trás em relação às massas em seus sentimentos e pensamentos.

O fato de o camarada Kautsky, como teórico do radicalismo, poupar os dirigentes sindicais desse vergonhoso esforço ao resistir primeiro à discussão pública e, se isso se provar em vão, aparecendo em público para desviar a discussão e o interesse na greve de massas para as próximas eleições do Reichstag [14], certamente terá causado enorme satisfação à Comissão Geral dos Sindicatos, mas me parece duvidoso que tenha um “efeito alentador na ação”.

Então, o que levou o camarada Kautsky a soar o seu chamado de atenção? Quais foram os perigos dos quais o partido teve que ser salvo? Alguém pensou em organizar uma greve em massa durante a calada da noite, ou havia o perigo de que o partido criasse ilusões infundadas sobre o efeito milagroso da greve em massa e, assim, conduzisse as massas com toda leviandade e esperar que com certa ação, de uma só vez, será encontrada uma solução para todos os problemas? Não estou ciente de que nada disso tenha aparecido nas reuniões ou na imprensa. De minha parte, não deixei margem para dúvidas.

Uma greve de massas - escrevi - como se disparada por uma pistola, "feita" por um simples decreto do partido numa bela manhã, nada mais é do que uma fantasia infantil, uma alucinação anarquista. Uma greve de massas é produzida a partir de um movimento de protesto de enormes massas de trabalhadores que dure meses e cujas dimensões aumentam até chegar a uma situação em que um partido de três milhões de pessoas se depara com o dilema de, ou avançar a qualquer custo, ou a ação em massa desmorona sem sucesso. Tal greve de massas, nascida da necessidade interna e da determinação das massas que se movem e, ao mesmo tempo, de um agravamento da situação política, é justificada e tem garantia de eficácia em si mesma.

É verdade que a greve em massa não é um meio milagroso de garantir o sucesso em todas as circunstâncias. Em particular, a greve de massas não deve ser considerada como um meio artificial e puro de pressão política que pode ser aplicada de acordo com certas regras e ordens, em um só golpe e mecanicamente. A greve de massas é apenas a forma externa de ação, que tem seu desenvolvimento interno, sua lógica, sua intensificação e suas consequências na relação mais estreita com a situação política e seu posterior progresso. A greve de massas, entendida como uma única manifestação breve, certamente não é a última palavra em uma luta política em curso. Mas é sem dúvida sua primeira palavra no atual estágio. E se o percurso, a duração, o sucesso imediato, mesmo os custos e perdas dessa luta não podem ser computados antecipadamente com um lápis e papel, como é feito o cálculo de custos de uma bolsa de valores, há, no entanto, situações em que existe o dever político de um partido que dirige milhões de pessoas, que consiste em erguer a única consigna que pode fazer avançar a luta iniciada [15].

E para concluir, eu disse claramente o que considero o mais importante:

No entanto, não é de se esperar que um belo dia a direção suprema do movimento, o executivo do partido e a Comissão Geral dos Sindicatos, “dêem a ordem” para uma greve de massas. Os organismos responsáveis ​​por milhões de pessoas são naturalmente reticentes quanto às decisões que outras pessoas devem implementar. Somado a isso, a decisão de agir imediatamente por parte das massas só pode vir delas mesmas. A libertação da classe operária só pode ser obra da própria classe operária - aquela expressão marcante do Manifesto Comunista [16] - também implica, em particular, que mesmo dentro do partido de classe do proletariado, todo grande movimento decisivo não deve surgir da iniciativa de um punhado de dirigentes, mas da convicção e determinação da maioria dos membros do partido. Mesmo a decisão de levar ao triunfo a atual luta pelo direito de voto na Prússia à vitória "por todos os meios" – segundo as palavras do Congresso da seção prussiana do partido - isto é, fazendo uso da greve de massas, só podem ser tomadas pelos círculos mais amplos do partido. É responsabilidade dos militantes do partido e dos sindicatos, em cada cidade e em cada distrito, posicionar-se sobre os problemas da situação atual e expressar sua opinião e vontade de forma clara e aberta, para que a opinião das massas trabalhadoras organizadas como um todo possam ser ouvidas. E uma vez feito isso, nossos dirigentes estarão a salvos como estavam até agora [17].

Era uma questão, então, de que as massas discutam o problema da greve de massas e adotem uma posição sobre ele. Se uma greve de massas fosse possível, apropriada e necessária, então dependeria da situação e da atitude das massas. Contra isso, a postura do camarada Kautsky é curiosa, precisamente desde a concepção de Marx. O próprio camarada Kautsky baseia toda a sua teoria da "estratégia de desgaste" no fato de que pode ser que não nos vejamos obrigados a aplicar a greve de massas agora, mas depois das eleições para o Reichstag nos próximos anos. O próprio camarada Kautsky admite ainda que "algum acontecimento repentino, como um banho de sangue após uma manifestação de rua" [18], pode fazer com que a greve de massas se torne espontaneamente necessária. Sim, ele mesmo escreve no final: “Desde a existência do Império Alemão [19], as contradições sociais e políticas internacionais nunca foram tão tensas como agora; é bem possível que surjam surpresas que, mesmo antes das próximas eleições para o Reichstag, conduzam a violentos confrontos e catástrofes, em que o proletariado terá de fazer uso de todas as suas forças e meios de poder. Uma greve em massa em tais circunstâncias poderia destruir o regime existente” [20].

Mas se for assim, se houver a possibilidade de que a greve de massas seja implementada na Alemanha em um futuro próximo, então nem é preciso dizer que é nosso dever conscientizar as massas de todas essas contingências, para despertar simpatia para esta ação nos círculos mais amplos possíveis do proletariado, para que os trabalhadores não sejam pegos de surpresa, para que eles não entrem em ação cegamente, por puro êxtase, mas com plena consciência, com um sentimento seguro de sua própria força e da forma mais concentrada possível. As próprias massas devem estar preparadas para todas as contingências políticas e determinar suas próprias ações, mas não devem esperar “no momento certo” o sinal do bastão de cima, “confiando em seu magistrado, que piedosa e exaltadamente protege o Estado com um governo cortês e altamente sábio”, embora seja sempre apropriado que as massas do partido“fiquem caladas” [21]. O ponto de vista marxista consiste justamente em respeitar as massas e sua consciência como fator determinante em todas as ações políticas da social-democracia. Afinal, no espírito desse ponto de vista, a greve política de massas - como toda a campanha pelo direito ao voto - é apenas um meio de iluminar a classe e organizar as camadas mais amplas do proletariado. Como então é possível pensar em realizar tais ações em um futuro próximo e ao mesmo tempo proibir as massas de tratar este problema como se estivesse brincando com fogo, algo que as massas não deveriam experimentar. Isso é intrigante precisamente do ponto de vista da doutrina de Marx, e todas as estratégias de guerra modernas e antigas são incapazes de explicar esse enigma.

II

Estritamente relacionada a esta concepção da greve de massas como uma ação comandada pela batuta do Estado-Maior, também está a embaraçosa distinção que o camarada Kautsky faz a respeito dos diversos tipos de greves: greve demonstrativa, greve forçada, greve econômica, greve política. O camarada Kautsky exige que se separem estritamente, porque se a propaganda não for clara o suficiente, as massas podem nos interpretar mal e no lugar da greve demonstrativa que pretendemos realizar, podem inadvertidamente realizar uma “greve forçada” inapropriada, pois misturar as exigências econômicas incluindo um movimento pela jornada de oito horas com o movimento pelos direitos eleitorais, só prejudicariam este último.

Tais categorizações e esquemas estritos de greve de massas, de acordo com tipos e subtipos, podem existir no papel e serem suficientes para o cotidiano parlamentar. Porém, assim que começam as grandes ações de massas e os tempos da política se tornam mais tempestuosos, essas categorias acabam se confundindo na própria vida. Por exemplo, isso atingiu seu ponto mais alto na Rússia, onde as greves demonstrativas e as de combate se alternavam incessantemente, e onde a constante interpenetração da ação econômica e política era precisamente a característica da luta revolucionária russa e a fonte de sua força interior. O camarada Kautsky, no entanto, rejeita o exemplo da Rússia, porque "a revolução dominava a Rússia naquele momento" [22]. Uma vez que os eventos russos pertencem à rubrica de "a revolução", as lições da luta russa não devem ser aplicadas a outros países. Mas quanto mais nos aproximamos de tempos de confrontos tempestuosos entre o proletariado e a reação dominante na Alemanha, mais os fenômenos da situação revolucionária se aplicam às nossas próprias condições.

Mas nem precisamos olhar para a Rússia para ver a inaplicabilidade desses esquemas sem vida. Na verdade, a história da luta pelos direitos eleitorais na Bélgica, onde não houve guerra nem revolução, mostra-nos exatamente a mesma coisa. O camarada Kautsky diz: "O curso da luta até agora ... tem sido muito meticuloso" [23] em manter a luta econômica e política estritamente separada, pelo menos "nas lutas eleitorais da Europa Ocidental, o momento econômico e político foram estritamente separados” [24]. O camarada Kautsky está equivocado.

O movimento pela lei eleitoral na Bélgica começou em 1886, a partir de lutas econômicas convulsivas. De início, o que deu o primeiro sinal foi uma greve elementar dos mineiros. A greve dos mineiros foi seguida por outras em quase todas as cidades e indústrias, nas quais as reivindicações salariais foram o tema principal. O movimento de massas pelo sufrágio universal nasceu na Bélgica a partir destas lutas puramente sindicais. As demandas por salários logo foram acompanhadas pela demanda por sufrágio universal e, aproveitando o grande entusiasmo da luta econômica, a jovem social-democracia belga pôde realizar sua primeira manifestação de massas pelo sufrágio universal em Bruxelas, em 15 de agosto de 1886. O mesmo se repetiu mais tarde. A grande greve política de massas de 1891, que obrigou o governo a conceder o direito ao voto, surgiu ligada à luta pela jornada de oito horas, ou seja, sob o impulso direto das comemorações do 1º de Maio, e como produto de uma série de ações sindicais. Foi novamente uma grande luta salarial dos mineiros, seguida por greves nas fábricas de ferro e aço e, em seguida, por greves de marceneiros, estivadores e outros. Destas greves industriais, sob a liderança corajosa e firme dos então líderes do partido belga, a primeira greve de massas pelo sufrágio aconteceu e também obteve sua primeira vitória. Essa greve política de massas culminou ante à concessão do governo e, depois, os mineiros de Charleroi continuaram sua greve para obter redução na jornada de trabalho e aumento nos salários. Ao longo de 1892 houve uma crise latente na indústria belga, que causou grande inquietação entre os trabalhadores, várias greves foram realizadas para evitar cortes de salários e, no final do ano, o desemprego generalizado. Em 8 de novembro de 1892, dia da abertura das sessões do Parlamento, o partido organizou uma greve de manifestação em massa em todas as fábricas de Bruxelas, mas em dezembro desse mesmo ano os sociais-democratas belgas defenderam a causa dos desempregados e organizaram magníficas manifestações. Assim, em uma interação constante de manifestação e "greves forçadas", de ação econômica e política, preparou-se a próxima grande greve de massas pelos direitos eleitorais e a luta decisiva de 1893 [25].

Se o camarada Kautsky agora, curiosamente, tenta reduzir esta vitória apontando que “a Bélgica ainda não tem o direito ao voto igualitário” [26], este fato bem conhecido seria um argumento contra qualquer um que considere a greve política de massas como uma panaceia milagrosa para alcançar todas as vitórias de uma vez, seguindo a receita anarquista. No entanto, no momento, o que está em questão é o fato de que a greve de massas foi um excelente meio para permitir que o proletariado belga entrasse pela primeira vez no Parlamento e ganhasse um quinto de todos os assentos nas primeiras eleições, mostrando que as lutas econômicas desempenharam o papel mais importante neste movimento pelo direito ao voto, constituindo o ponto de partida e a base da greve política de massas.

Nossas próprias experiências anteriores também contradizem a suposição do camarada Kautsky. Neste momento, temos a grande luta pela construção do sindicato [27]. De acordo com o esquema anterior, teríamos que separar estritamente essa luta econômica do nosso movimento pelos direitos eleitorais, e teria sido melhor se essa luta, tão prejudicial aos interesses desse movimento, pudesse ter sido evitada. Na verdade, é impossível realizar esse divórcio e, se o fizéssemos, seria um absurdo total. Ao contrário, os bloqueios patronais da construção civil são naturalmente mencionados em cada assembleia da campanha pelo direito de voto, e os que sofrem com estes bloqueios fazem parte do nosso público em cada assembleia e manifestação, e sob o efeito da brutalidade do capital na indústria da construção, cada crítica às condições existentes encontra um eco mais vivo nas massas. Em suma, a prova de força da construção civil ajuda a levantar o ânimo da luta pelo direito de voto e, inversamente, a simpatia geral, a agitação geral das massas na luta pelo direito ao voto beneficia os trabalhadores da construção.

Da mesma forma, temos pecado contra esse esquematismo ao vincular a luta pelo direito de voto com a comemoração do 1º de Maio, ou seja, com a luta pela jornada de oito horas, ao converter esta celebração diretamente em uma manifestação pelo direito ao voto. Todos entendem que esse vínculo é um simples imperativo das táticas social-democratas e que é precisamente esse vínculo com as manifestações do 1º de Maio do socialismo internacional que deu à nossa campanha eleitoral prussiana o marco adequado como luta de classes proletária.

Este é precisamente o ponto principal do problema. Se queremos dirigir nosso movimento pela lei eleitoral prussiana no espírito do liberalismo burguês e como uma luta constitucional puramente política, então se requer uma estrita separação desse movimento de todas as lutas econômicas contra o capital. No entanto, a greve de massas estritamente política também está condenada desde o início como uma meia-medida, como evidenciado pelo destino da greve de massas belga de 1902 [28], que poderia ser a explicação que o camarada Kautsky pede sobre o porquê, “a Bélgica, por outro lado, ainda não tem direito ao voto igualitário”. Se, ao contrário, queremos levar a cabo a luta por este direito no sentido de uma tática puramente proletária, isto é, como uma manifestação parcial de nossa luta de classes socialista geral, se queremos que seu fundamento seja uma crítica abrangente das relações econômicas e políticas da classe como um todo e baseadas unicamente no poder e na ação de classe do próprio proletariado, então é evidente que uma “separação estrita” dos interesses econômicos das lutas do proletariado parece inadequada, até mesmo impossível. Isso paralisaria artificialmente o poder e o ímpeto do movimento pelos direitos eleitorais, empobreceria seu conteúdo se não quiséssemos assimilar tudo dentro dele, se não quiséssemos incorporar tudo o que afeta os interesses vitais das massas trabalhadoras, tudo que vive no coração delas.

O camarada Kautsky fala aqui precisamente sobre aquela visão mesquinha e estreita do movimento pelo direito eleitoral que já nos prejudicou antes.

Quando testemunhamos em 1908 [29] e 1909 [30] a primeira onda de manifestações do movimento pelos direitos eleitorais na Prússia, os trabalhadores experimentaram os horrores da crise econômica. Em Berlim havia uma enorme taxa de desemprego e isso se expressou em agitadas concentrações e manifestações. Ao invés de conduzir esse movimento de desempregados ao redemoinho da luta eleitoral, ao invés de combinar a reivindicação por trabalho e pão com a reivindicação por sufrágio igualitário, se separou estritamente a causa dos desempregados da causa do sufrágio igualitário, e os Vorwärts fizeram tudo o que foi possível para separar os desempregados do impulso do movimento político eleitoral. De acordo com o esquema do camarada Kautsky, era uma sábia "estratégia de desgaste"; em minha opinião, foi uma violação do dever mais elementar de uma genuína tática proletária e um meio de deter rapidamente o movimento de protestos do momento.

Agora, ao advogar pela separação estrita do movimento eleitoral das grandes lutas econômicas das massas, o camarada Kautsky teoricamente apóia aquele espírito da social-democracia que deriva a tendência de nossos círculos dirigentes: de preferir planejar manifestações apenas com pessoas que já são organizadas. Esse espírito vê no conjunto do movimento pelos direitos eleitorais uma manobra realizada sob o estrito comando de autoridades superiores, segundo um plano e regulamento precisos, ao invés de ver nele um grande movimento histórico de massas, uma peça da grande luta de classes que se nutre de tudo o que constitui a contradição atual entre o proletariado e o Estado da classe dominante.

Em uma palavra, o camarada Kautsky teoricamente apoia os preconceitos e as limitações de nossos círculos dirigentes que são, em todo caso, um obstáculo a qualquer ação política de massas, maior e mais audaz na Alemanha, o que é de interesse imediato ser superado pelo atual movimento pelo direito ao voto.

III

Vamos ao que interessa.

O camarada Kautsky tenta propor, com base em uma teoria geral de estratégias, o problema em se considerar uma greve de massa na Alemanha neste momento. Até a ascensão da Comuna de Paris, o fator decisivo para as classes revolucionárias teria sido a "estratégia de derrubada", mas desde então a "estratégia de desgaste" tomou seu lugar. Foi graças a esta estratégia de desgaste que a social-democracia alemã alcançou todo o seu crescimento e brilhantes sucessos até hoje, e não teríamos razão para abandonar esta estratégia vitoriosa agora com uma greve em massa para avançar para a estratégia de derrubada. Os argumentos do camarada Kautsky sobre as duas estratégias e as vantagens da estratégia de desgaste são obviamente o pilar mais importante de seu argumento. Em particular, o camarada Kautsky cobre seu postulado com maior autoridade, declarando que sua "estratégia de derrubada" é diretamente o "testamento político" de Friedrich Engels [31]. Infelizmente, todo o argumento é baseado em uma nova palavra, um novo rótulo para coisas velhas e conhecidas. Mas se esse novo nome enganoso for posto de lado, o que estamos discutindo tem muito pouco a ver com Friedrich Engels. O que há, especificamente falando, por trás da chamada "estratégia de desgaste", tão elogiada pelo camarada Kautsky, e à qual a social-democracia alemã deve seus brilhantes sucessos até agora? A utilização dos meios parlamentares do estado burguês para a luta de classes quotidiana, para o esclarecimento, o reagrupamento e a organização do proletariado. Aliás, as bases dessa "nova estratégia" já haviam sido lançadas não apenas desde a Comuna de Paris, mas particularmente na Alemanha quase uma década antes, por meio da agitação de Lassalle, que, como diz Engels, era simplesmente um executor das diretrizes do Manifesto Comunista. Essa tática é, de fato, recomendada e justificada por Friedrich Engels em seu famoso prefácio de As lutas de classe na França. No entanto, ao invés de elaborar esquemas gerais de estratégias, como o camarada Kautsky fez, Engels diz muito claramente em que consiste a tática que recomenda, mas em particular - contra que outra tática ela se dirige.

Todas as revoluções até agora resultaram na supressão da dominação de uma classe pela instalação de outra, mas todas as classes dominantes até agora foram pequenas minorias frente às massas dominadas. Desse modo, uma minoria governante foi derrubada, enquanto outra minoria assumiu o comando do Estado em seu lugar e remodelou as instituições do Estado de acordo com seus interesses [32].

Como todos esses embates foram, na verdade, revoluções minoritárias, eles foram produzidos por meio de golpes de mão. Esperava-se que a revolução socialista de 1848 começasse da mesma maneira, com uma minoria revolucionária dando esse golpe.

A história, diz Engels, demonstrou-nos e a todas as pessoas que pensavam igual, que estávamos equivocados. Deixou claro que o nível de desenvolvimento econômico do continente naquela época estava longe de estar maduro o suficiente para eliminar a produção capitalista (que) em 1848 era impossível alcançar a revolução social com um golpe de mão [33].

Ficou evidente que somente no longo processo de desenvolvimento da sociedade burguesa, as bases objetivas para a transformação socialista poderiam ser estabelecidas, e somente em uma longa e dura luta de classes diária o proletariado poderia estar preparado para sua missão nesta transformação.

O tempo dos golpes de mão, das revoluções realizadas por pequenas minorias conscientes à frente das massas inconscientes acabou. Quando se trata de uma transformação completa da organização da sociedade, as próprias massas devem participar, elas já devem ter entendido do que se trata, o que devem defender. Isso é o que a história nos ensinou nos últimos cinquenta anos. Mas para que as massas entendam o que precisa ser feito, é necessário um trabalho longo e persistente, e é exatamente esse trabalho que estamos fazendo agora, e com sucesso, o que está levando nossos inimigos ao desespero [34].

Engels enfatiza agora a arma mais importante a esse respeito: o uso do sufrágio universal. “Com este uso bem sucedido do sufrágio universal, uma forma completamente nova de luta proletária entrou em vigor e se desenvolveu rapidamente” [35]. Por outro lado, Engels mostra como, ao mesmo tempo, as possibilidades de golpes revolucionários à moda antiga também teriam sido grandemente diminuídas. “Porque também aqui as condições da luta mudaram consideravelmente. A rebelião de estilo antigo, a luta de rua com barricadas (grifos de R.L.), que teve a última palavra em todos os lugares até 1848, estava significativamente desatualizada” [36]. Depois que Engels esclarece o lado técnico-militar da luta de barricadas em condições modernas, diz:

A nossa principal tarefa é sustentar este crescimento (da social-democracia alemã, graças ao uso do sufrágio universal –R.L.) continuamente até prevalecer por conta própria sobre o atual sistema de governo. E só há um meio pelo qual a ascensão constante das forças socialistas na Alemanha poderia ser interrompida hoje e até mesmo regredir por algum tempo: um confronto em grande escala com as forças militares, um derramamento de sangue como em Paris, em 1871 [37].

Portanto, a burguesia desesperada procura nos provocar a fazer isso. A prova: o projeto de lei contra os golpes de Estado [38].

Este é o "testamento político" de Friedrich Engels, tal como foi publicado há quinze anos, no momento em que surgiu o projeto de "Lei Prisional" [39]. Ele critica de forma clara e concreta o socialismo utópico de 1848, que buscava iniciar a realização do objetivo final por meio de uma luta de barricada, e o contrasta com a luta social-democrata moderna da época, que foi explorada, em particular, pelo parlamentarismo.

Agora eu pergunto: o que esse "Testamento" de Engels poderia ter a ver com a situação atual e com nossa discussão sobre a greve de massas? Alguém já pensou em uma introdução repentina do socialismo por meio da greve de massas? Ou já ocorreu a alguém desenvolver a luta de barricadas, para "um enfrentamento em grande escala com as forças militares"? Ou, finalmente, alguém pensou em se opor ao uso do sufrágio universal, se opor ao uso do parlamentarismo?

É claro: ao levantar o “Testamento” de Engels contra o slogan da greve de massas na luta atual pelo direito de voto na Prússia, o camarada Kautsky mais uma vez triunfa lutando no ar contra o espectro anarquista da greve de massas, é claro que é o som congelado no tempo das trombetas de Domela Nieuwenhuis, que repentinamente o colocou em guarda para iniciar sua campanha [40]. No entanto, o "Testamento" de Engels, embora critique a tática antiquada do golpe de mão, se dirige no máximo contra o próprio camarada Kautsky, que considera a greve de massas como um golpe de mão planejado em segredo pelo "Conselho de Guerra".

Há uma feliz circunstância que mostra quão pouco a "estratégia de desgaste", defendida pelo camarada Kautsky, tem realmente a ver com o "testamento político" de Engels. Ao mesmo tempo que o camarada Kautsky, na Sozialistische Monatshefte, Eduard Bernstein fala contra o slogan da greve de massas na situação atual [41]. Usando os mesmos argumentos, às vezes quase literalmente de acordo com o camarada Kautsky, Bernstein diz que a greve de protesto deve ser estritamente separada da "greve de força", bem como a greve sindical da greve política, e protesta contra os "irresponsáveis" que agora lançam às massas o perigoso slogan da "greve de força". Esta tática não era apropriada "para os representantes do movimento operário, que estão cientes do progresso social que isso acarreta e, portanto, consideram que o meio mais seguro de fazer esse progresso na Alemanha acabou sendo o incessante trabalho de organização" [42]. Diante dos perigos de uma greve de massa, “não há realmente nenhuma razão para que o movimento operário alemão abandone o caminho observado até agora, ao longo do qual progrediu lenta, mas firmemente e com segurança [43]. Aqui é Bernstein, não Engels, quem defende a "estratégia de desgaste" do camarada Kautsky. Mas essa estratégia de desgaste significa algo muito diferente do "Testamento" de Engels.

A greve de massas, tal como se discute atualmente na luta pelo sufrágio prussiano, não foi e não é concebida por ninguém como uma antítese do parlamentarismo, mas como seu complemento, isto é, como meio de conquistar direitos parlamentares. Não como uma antítese do trabalho diário de formação, esclarecimento e organização das massas, mas como um excelente meio para promover precisamente a formação, o esclarecimento e a organização das massas proletárias. Agora, uma vez que o camarada Kautsky se opõe à greve de massas pensada desta forma, e se opõe à nossa tática parlamentar já consagrada, o que ele realmente recomenda, para este momento e para a situação presente, é simplesmente nada mais do que parlamentarismo [Nichtsalsparlamentarismus]; não em oposição ao socialismo utópico das barricadas, como Engels fazia na época, mas em oposição à ação social-democrata de massas do proletariado, para alcançar e exercer direitos políticos.

Na verdade, o camarada Kautsky – e aqui está a pedra angular de sua estratégia de desgaste – nos assinala enfaticamente as próximas eleições para o Reichstag. Todas as bênçãos são esperadas dessas eleições. Certamente eles nos trarão uma vitória esmagadora, criarão uma situação completamente nova, nos darão uma base mais ampla para a luta, podem produzir as condições sob as quais podemos pensar em uma "estratégia de derrubada" – digamos, em vez de uma ação de massas – causarão “uma catástrofe para todo o atual sistema de governo”, e hoje depositam “em nossos bolsos a chave desta excelente situação histórica” [44]. Em suma, para nós, sociais-democratas, o céu das próximas eleições para o Reichstag está tão cheio de violinos que cometeríamos uma imprudência criminosa se pensássemos em uma greve em massas agora, em vista de uma vitória futura que garantimos "em nossos bolsos" graças ao processo eleitoral.

Não acho que seja bom e apropriado para o partido pintar nossa futura vitória nas eleições para o Reichstag com cores tão brilhantes. Pelo contrário, creio que seria mais aconselhável prepararmo-nos para estas eleições, como sempre, com todo o zelo e energia, mas sem expectativas exageradas. Se vencermos, e em que medida vencemos, é algo que veremos. Saborear antecipadamente as vitórias futuras não é da natureza dos partidos revolucionários sérios, e concordo plenamente com o camarada Pannekoek que seria melhor se nem sequer mencionássemos perspectivas fantásticas, como a duplicação do nosso número de votos.

Mas acima de tudo: o que a futura vitória eleitoral no Reichstag tem a ver com a luta pelos direitos eleitorais na Prússia hoje? O camarada Kautsky acredita que o resultado das eleições para o Reichstag criaria "uma situação completamente nova". Mas, em princípio, não está claro em que consistirá essa nova situação. Se não vivermos a fantástica esperança de obtermos de repente a maioria dos cargos parlamentares, se ficarmos, na realidade, e até contemplarmos um aumento da nossa bancada para cerca de 125 deputados, isso, por enquanto, ainda não é de forma alguma uma revolução nas condições políticas. Ainda somos uma minoria no Reichstag, enfrentando uma maioria reacionária compacta, e é provável que o próprio camarada Kautsky não acredite que nossa vitória eleitoral terá um efeito tão avassalador sobre a reação prussiana que repentinamente nos concedam, por sua própria vontade, o sufrágio igualitário na Prússia. Portanto, a "nova situação" só pode consistir em uma coisa: um golpe de Estado, a anulação do direito de voto no Reichstag. Nesse caso, o camarada Kautsky pensa que teremos de prosseguir por todos os meios, incluindo a greve de massas. A "estratégia de desgaste", que polemiza contra a necessidade de empreender uma ação de massas de maior alcance na atualidade, está ligada à especulação sobre um golpe, que se supõe ser a única coisa que nos permitiria tomar medidas importantes. Essa especulação sobre o futuro tem em comum com todas as especulações de que é simplesmente ... música do futuro. Se não ocorre nenhum golpe de Estado, mas nosso desenvolvimento continuar progredindo em ziguezagues – o próprio camarada Kautsky deve admitir que esse resultado das eleições para o Reichstag é o mais provável – então se derrubará toda combinação entre a "nova situação" e as nossas grandes ações. Bem, se nossa tática não aponta para a chegada de um momento crítico entre as eleições do Reichstag e um golpe, se não queremos nos preparar para certas combinações futuras, então por que nos preocupar se ganharemos mais ou menos cadeiras nas próximas eleições ou se ocorrerá um golpe de Estado. Se cumprirmos nosso dever em cada momento do tempo presente de fazer todo o possível para despertar e iluminar as massas em todos os momentos e estarmos no nível da situação e de suas demandas, então nossa política será sempre validada no curso dos acontecimentos. Se, ao contrário, como o camarada Kautsky, baseamos toda uma "estratégia de desgaste" para hoje com a perspectiva de grandes ações no marco de uma "estratégia de derrubada" para o próximo ano, fazendo esta depender também de um eventual golpe, então nossa "estratégia" guarda certa semelhança com a dos democratas pequeno-burgueses da França, que Marx caracterizou tão brilhantemente em seu 18 de Brumário. Eles costumavam se consolar por suas próprias meias medidas e derrotas no presente, esperando grandes feitos na próxima vez. Por volta do dia 13 de junho, eles se consolaram com a frase profunda: Ah, mas se você se atreve a atacar o sufrágio universal, então... então mostraremos quem somos! Nous verrons [Veremos]! " [45].

IV

Por outro lado, a defesa do camarada Kautsky em nome da "estratégia de desgaste", que coloca todas as suas esperanças nas próximas eleições do Reichstag, está muito atrasada. Sua exortação não deveria ter sido dirigida contra a presente discussão da greve de massas, senão já contra as manifestações de ruas, aliás, contra todo o quadro do movimento pelo sufrágio na Prússia, proposto pelo Congresso do partido prussiano em Janeiro [46]. Neste Congresso se formulou com insistência o ponto de vista principal de toda a campanha pelo sufrágio, a saber, que a reforma das eleições prussianas não podiam ser alcançadas por meios parlamentares, ou seja, nem pela atividade dentro do Parlamento nem pelas eleições parlamentares, por mais brilhantes que fossem, mas apenas por uma forte ação de massas extraparlamentares em todo o reino. "É necessário pôr de pé um movimento popular formidável", declarou o orador entre vivos aplausos, "do contrário as massas, destituídas de seus direitos, serão enganadas e enganadas. E, pior ainda, nós mesmos seríamos os culpados desse engano" [47].

Previamente, foram apresentadas ao Congresso do partido cinco propostas: as das regionais de Breslau, Berlim, Spandau-Osthavelland, Frankfurt am Main e Magdeburgo - que exigiam o uso de medidas mais duras, como as manifestações de rua e a greve de massas. A resolução, que foi aprovada por unanimidade, propõe a possibilidade de utilizar na luta pelo sufrágio "todos os meios disponíveis", e o orador fez o seguinte comentário em seu discurso: "A minha resolução absteve-se expressamente de mencionar as manifestações de rua ou a greve política de massas. Mas esta resolução pretende significar - desejo que o Congresso do partido o tome como tal - que estamos decididos a usar todos os meios que temos disponíveis". Quando utilizar estes meios é algo que dependerá sempre “do grau de atividade que tenha aflorado nas massas graças ao nosso esclarecimento e agitação. Há que insistir no fato de que se deve trabalhar sobretudo para conseguir esta atividade das massas na luta pelo sufrágio" [48].

Portanto, as manifestações que se iniciaram a partir do Congresso do partido prussiano foram pensadas, desde o início, em relação à palavra de ordem de uma eventual greve de massas como um meio para alcançar esse grau de "exaltação das massas" no qual se poderiam aplicar esses meios de luta mais duros. Por conseguinte, estas declarações já estavam claramente fora do quadro da "estratégia de desgaste" para o âmbito da "estratégia de aniquilamento", dirigindo-se diretamente a esta última.

Há mais uma razão para o que dizemos. Se você agir no âmbito da "estratégia de desgaste", que evita, no sentido do testamento de Engels de 1895, qualquer eventualidade de um choque com o poder militar, então as manifestações de rua por si só, ainda mais que a greve de massas, são já uma ruptura com esta "estratégia". Por isso é ainda mais estranho que o camarada Kautsky, por sua vez, defenda essas manifestações; com efeito, admite que é necessário "sobretudo continuar a utilizar a manifestação de rua, não desistir dela, pelo contrário, fazê-lo cada vez mais poderosa" [49]. Mas o que ele quer são manifestações que não intensifiquem, que não cheguem a um ponto crítico. As manifestações devem ser "cada vez mais potentes" mas não devem "avançar a qualquer preço", não devem "afrouxar" mas não devem chegar a um ponto crítico. Em uma palavra: as manifestações não devem avançar nem retroceder.

Agora, trata-se de uma concepção puramente teórica das manifestações, da ação de massas em geral, que não tem muito em conta as condições práticas reais, ou seja, a realidade viva. Quando chamamos a manifestar-se nas ruas às grandes massas proletárias; quando lhes explicamos que a situação é tal que só através da sua própria ação de massas, e não através da ação parlamentar, é que se pode alcançar o objetivo; quando conseguimos inflamar cada vez mais essas massas; quando as manifestações de rua se tornam cada vez mais fortes e o ímpeto e o ânimo de luta crescem cada vez mais e, ao mesmo tempo, aumentam cada vez mais o inevitável recrudescimento das relações com o poder estatal com possíveis confrontos com a polícia e os militares, então entre as massas surge como uma coisa natural: E agora? As manifestações não têm a solução; são o princípio, não o fim da ação das massas; ao mesmo tempo criam um recrudescimento da situação por si só. E se o movimento de massas que temos sobre demanda mais diretivas, mais perspectivas, devemos mostrar-lhe estas novas perspectivas, caso contrário, se não o pudermos fazer por esta ou aquela razão, mais cedo ou mais tarde o movimento de protesto também deve desmoronar-se.

O camarada Kautsky nega. Tome a Áustria como referência:

A luta pelo sufrágio durou mais de uma dúzia de anos; já em 1894 o uso da greve de massas foi contemplado pelos camaradas austríacos e, no entanto, até 1905 conseguiram manter seu esplêndido movimento de massas sem nenhuma intensificação e sem chegar a um ponto crítico... Os camaradas da Áustria nunca foram além das manifestações de rua em sua luta pelo sufrágio e, no entanto, o seu vigor não desapareceu, a sua ação não se desmoronou [50].

O camarada Kautsky se equivoca sobre o que passou na Áustria, como se equivocou sobre os fatos da luta pelo sufrágio na Bélgica.

Os camaradas na Áustria foram tão pouco capazes de manter "seu esplêndido movimento de massas" durante mais de uma dúzia de anos que esse movimento de massas, por o contrário, esteve completamente paralisado desde 1897 até 1905, ou seja, durante oito anos. Temos um testemunho confiável disto: todos os congressos partidários dos camaradas austríacos durante este período. De 1898 a 1905, as queixas pelo colapso da ação das massas, pelo fracasso da luta pelo sufrágio, foram a nota dominante o tempo todo em todos os congressos do partido. Já no Congresso do partido em Linz em 1898 o camarada Winarsky criticou o fato de que o documento sobre a tática do partido "não diz quase nada sobre o sufrágio universal" e declarou: "há que voltar a atacar este bastião" [51]. As mesmas demandas e queixas podem ser vistas no Congresso do partido em Brünn em 1899 [52]. No Congresso do partido em Graz em 1900, Emmerling diz: "Desde 1897 nós cessamos completamente a luta pelo sufrágio universal" [53]. Skaret pensa "que hoje cabe a nós forjar um movimento pelo direito eleitoral a partir do Congresso do partido" [54]. Pölzer compartilha: "Os camaradas dizem que desde que temos a quinta cúria [55] é como se nossos generais estivessem hipnotizados, nada se está a mexer. Por isso, penso que devem realizar-se manifestações pelo sufrágio universal em toda a parte". Bartel declara: "No manifesto dos representantes do partido e da associação foi emitido um tímido chamado à luta pelo sufrágio. Suspiramos de alívio por dentro, pensando que por fim algo ia acontecer. No entanto, nada aconteceu, e estamos onde estávamos antes do manifesto" [56]. Todos os oradores expressaram os mesmos sentimentos. As mesmas queixas foram repetidas no Congresso do partido em Viena de 1901, no de Aussig de 1902, e de novo no de Viena em 1903. Por fim, no Congresso do partido de Salzburgo em 1904 houve uma enorme discordância pela estagnação do movimento pelo sufrágio. Pölzer gritou: "Então, o que vai acontecer realmente?... Camaradas, isto não pode continuar. Se ameaçamos fazer algo, pois devemos cumpri-lo... Devemos intervir com todas as nossas forças, já que por muito tempo sozinho temos proferido ameaças" [57].

Schuhmeier afirma: "Não se pode negar que em nossas fileiras o ânimo diminuiu, que o fogo do entusiasmo da luta diminuiu” [58]. Tão grande foi o abatimento geral, tão baixa a moral, que Schuhmeier declarou em Salzburgo, um ano antes da tormenta vitoriosa de novembro de 1905: "Estou convencido de que hoje estamos mais longe do que nunca do sufrágio universal" [59]. Freundlich afirma que "prevalece entre as massas uma desesperança e uma apatia para a vida política... como não se observou antes" [60]. Pernerstorfer disse que nem sequer havia condições para fazer manifestações na rua: exigia-se "que saíssemos à rua, que chamássemos aos camaradas do partido para que iniciassem algum tipo de manifestação, como antes. Mas agora pensamos sinceramente que uma ação assim terminaria em um fiasco" [61]. Winarsky diz expressamente: "Temos esperado sete anos, e acho que é necessário que este período de espera termina no interesse do partido" [62].

O "esplêndido movimento de massas" que se teria desenvolvido na Áustria durante doze anos e o ímpeto que não teria decaído viam os mais pobres. É verdade que a culpa não foi da direção do partido. Adler já havia demonstrado exaustivamente a causa real no Congresso de Linz:

Vocês exigem que se ponha em marcha um movimento pelo direito ao sufrágio... um movimento com a mesma determinação que o que tivemos há vários anos. Frente a isto, digo que não podemos fazê-lo hoje, talvez tenhamos que fazê-lo amanhã, não sei. Mas está claro que não podemos fazê-lo hoje. Tais movimentos não se põem em marcha porque alguém assim o queira; devem surgir como uma necessidade inerente às condições existentes.

E desde então o mesmo foi repetido em cada Congresso do partido, pois o "amanhã" em que se tornou possível novamente um movimento de massa pelo sufrágio na Áustria não surgiu senão até 1905 [63], quando, sob a pressão imediata da greve de massas triunfante na Rússia, que tinha arrancado o manifesto constitucional de 30 de outubro, os camaradas reunidos no Congresso do partido interromperam as sessões para sair à rua, decididos a "falar em russo", tal como dez anos antes tinham decidido a falar em "belga".

Enquanto que, na realidade, o proletariado austríaco só conseguiu a reforma eleitoral através das duas tormentosas tentativas do movimento de massas que teve lugar no início da década de 1890, sob o impulso da greve de massas belga, e de massa russa, o camarada Kautsky rejeita tanto o exemplo belga como o russo para a Prússia, a fim de nos indicar como modelo o período intermédio de oito anos na Áustria durante o qual o movimento pelo direito eleitoral esteve, na realidade, completamente paralisado no que diz respeito a ações de massa. E em ambos os casos, tanto na realização da cúria de Taaffe com sufrágio universal, bem como na realização da reforma eleitoral mais recentemente, o movimento de massas na Áustria estava firmemente ligado com a determinação de levar adiante uma greve de massas. Em 1905, como bem sabe o camarada Kautsky, os preparativos para a greve de massas foram feitos da maneira mais séria. A única razão pela qual a greve de massas não ocorreu foi porque em ambos os casos o governo, que tendia a adotar uma reforma eleitoral, muito cedo concedeu essa concessão. É significativo que também na Áustria, quando no sombrio período intermédio se procuraram meios para reviver o movimento de massas, apareceu uma e outra vez a palavra de ordem da greve de massas. No Congresso partidário de Graz como no de Salzburgo, o debate sobre o movimento pelo sufrágio se converteu em um debate sobre a greve de massas. Todos os camaradas sentiam o que Resel disse em Graz: "Um movimento pelos direitos eleitorais só pode ser iniciado se alguém tiver a determinação de levá-lo para fora até o final" [64]. Naturalmente, a determinação por si só não alcança, já que nem as greves nem as manifestações de massas podem ser lançados artificialmente se a situação política, por um lado, e humor das massas, por outro , não experimentaram um avanço de forma correspondente. Mas não se deve fazer a ilusão de que, pelo contrário, podem lançar artificialmente se a situação política, por um lado, e humor das massas, por outro, não experimentou um avanço de forma correspondente. Mas não se deve ter a ilusão de que, pelo contrário, se podem manter um movimento de massas e manifestações durante anos sem ir escalando e sem a determinação de uma luta mais pronunciada.

O exemplo pela negativa demonstra o curso de nosso próprio movimento pelo sufrágio na Prússia até agora. É um fato bem conhecido que há dois anos o primeiro movimento de protesto que tinha começado parou pouco tempo depois, embora o impulso das massas proletárias não estivesse em absoluta descida. Mas este ano, também, o movimento acusa as mesmas características em alguns aspectos. Em cada grande manifestação realizada em Berlim, tinha-se a sensação de que se fazia pensando: "Aqui termina tudo!". Mas depois da magnífica manifestação no Tiergarten em março [65], que representou um grande passo em frente em relação à à de 13 de fevereiro [66], a moral das massas em Berlim era tão elevada que se o partido estava realmente preocupado em fazer que as manifestações sejam "cada vez mais potentes", deveria ter aproveitado a próxima oportunidade para organizar uma nova manifestação ainda mais chocante. Então uma oportunidade esplêndida foi apresentada: em 18 de março, ou pelo menos no domingo seguinte a essa data. Em vez disso, e para evitar esta manifestação, várias dezenas de eventos separados foram convocados em Berlim em 15 de março que, em vista do estado de ânimo das massas após a mobilização do 6, significaram uma miserável retirada.

O 18 de março tinha adquirido uma importância e atualidade para o movimento de massas como em nenhum outro ano antes, por ser o aniversário da Revolução alemã [de 1848] e da Comuna de Paris [de 1871], datas que podiam ser exploradas de forma grandiosa para despertar as massas, em termos de lições políticas e análise histórica, para a crítica impiedosa aos partidos burgueses. No entanto, em 18 de março nada foi realizado em Berlim. Nem uma manifestação, nem mesmo reuniões em massa nem um folheto comemorativo; apenas um lânguido editorial no Vorwärts, e nem sequer uma só linha em Die Neue Zeit.

Esta foi a forma em que se percebeu a grande oportunidade e o excelente estado de espírito das massas para realizar "manifestações cada vez mais poderosas". E isso é bastante lógico. Se você não abordar as manifestações com uma clara determinação de impulsionar o movimento sem recuar perante as suas consequências, produzem-se essas hesitações que levam a preferir evitar a possibilidade de qualquer manifestação mais tumultuada.

As reuniões de 15 de Março em Berlim, que deram um golpe de morte em 18 de Março, foram simplesmente um passo atrás, se mede o estado de espírito das massas em Berlim e o dos camaradas no interior do país. Se o espírito de luta e determinação não teriam sido tão grandes aqui - onde os camaradas também aproveitaram o 18 de março na medida do possível e onde o slogan da greve em massa se tornou cada vez mais forte - é certo que não teríamos a manifestação de 10 de abril [67]. Há outra circunstância que demonstra a certeza do que foi dito. Pouco depois de termos conseguido, o de 10 de abril em Berlim, a grande vitória sobre a reação, o direito de se manifestar na rua [68], o que significava de novo um passo adiante mas além do de março - algo que era sem dúvida um fruto do de março mesmo -, surgiu para o partido o claro dever, se realmente queria continuar as manifestações e torná-las "cada vez mais potentes", de aproveitar ao máximo o direito às ruas recém-conquistado. A próxima oportunidade para isso foi o Primeiro de Maio. Aqui, no entanto, vimos um fato desconcertante: enquanto em todo o país, mesmo nas cidades menores, foram organizadas manifestações de rua em Dortmund, Colônia, Magdeburgo, Frankfurt am Main, Solingen, Kiel, Stettin, Hamburgo, Lübeck - as manifestações de rua naquele dia superaram em seu número e sua moral a todas as manifestações anteriores desta celebração e constituíram um verdadeiro passo em frente tanto para o movimento por o sufrágio para os próprios atos do Primeiro de Maio, em Berlim não se produziu nenhuma manifestação de rua, nem permitida nem não permitido; nem mesmo tentou. O que houve foi uma multidão de reuniões separadas em que o espírito esplêndido de luta da classe operária de Berlim se fez em pedaços de novo.

Embora o tratamento parlamentar do projeto de lei eleitoral - o ida e volta entre a Câmara dos Senhores [Herrenhaus] [69] e a Câmara dos Deputados prussianos - ainda vai exigir um mês e oferece a oportunidade de realizar manifestações, e embora o estado de espírito das massas não mostra o menor refluxo, parece como se já nos dirigimos para um encantador "recesso de verão" em que começam a nos incomodar outras preocupações - o camarada Kautsky já nos assinala as próximas eleições do Reichstag - e no qual certamente se adormecerá o movimento de protesto. Essa é a lógica inevitável das coisas. Não é culpa da minha agitação criminosa que o partido enfrenta um dilema, como pensa o camarada Kautsky, mas é o estado-alvo das coisas. Sim se quer pôr em pé "um movimento popular formidável" e fazer realidade o lema de que "não haja paz na Prússia" e que as manifestações são cada vez mais potentes, então você deve abordar o assunto com a determinação de ir até às últimas consequências, de não contornar o ponto crítico da situação que possa surgir, explorar todos os grandes conflitos econômicos para o movimento político, e depois também é preciso colocar na ordem do dia a palavra de ordem de a greve de massas, torná-la popular, porque só assim se manterá a longo prazo a confiança nas próprias forças, a combatividade e a coragem das massas. Mas se você só quer realizar algumas manifestações como pequenos desfiles bem organizados, para depois recuar da luta quando é necessário intensificá-la e finalmente retirar-se para a preparação consagrada das eleições do Reichstag durante um ano, então é melhor não falar de um "movimento popular formidável" nem anunciar no Congresso do partido que vão ser utilizados "todos os meios disponíveis" nem montar uma cena de um ruidoso duelo de esgrima em janeiro no Vorwärts nem ameaçar o Parlamento com a utilização da greve de massas. Por conseguinte, não devemos nos enganar pensando que vamos manter as manifestações a longo prazo e que vamos torná-las cada vez mais poderosas. Do contrário, corremos o risco de parecermos um pouco com o relato que fez Marx da democracia francesa em seu 18 Brumário:

As ameaças revolucionárias da pequena burguesia e seus representantes democráticos são meras tentativas de intimidação do adversário. E quando chegaram a um beco sem saída, quando se comprometeram o suficiente para serem obrigados a realizar suas ameaças, fazê-lo de uma forma que simplesmente ilude os meios necessários para obter o fim e que busca pretextos para a derrota. A abertura estridente que proclama a batalha é perdida em um resmungo fora assim que deve começar esta última... e toda a trama desmorona como um balão furado com uma agulha.

V

Qual é então o estado das coisas no geral? Pela primeira vez na Alemanha temos finalmente um ativo movimento de massas, pela primeira vez fomos mais além das meras formas de luta parlamentar e conseguimos mover ao Aqueronte [70]. Ao contrário do que ocorreu na Áustria durante quase uma década, não enfrentamos a dura tarefa de colocar de pé pela força uma ação de massas em meio a uma apatia geral, porém, temos a tarefa grata e simples de explorar o ânimo combativo e o entusiasmo das massas para brindar-lhes as consignas políticas, para transformá-los em esclarecimento político socialista, para dirigir as massas ao longo do caminho, para conduzi-las adiante. Dessa situação se desprende, da maneira mais natural, que a consigna da greve de massas passou ao primeiro plano, e é dever do partido discuti-la de forma aberta e clara, como uma forma de luta que deve emergir cedo ou tarde do crescente movimento de protesto e de resistência obstinada da reação. Não estamos falando de ordenar que se faça, de repente, uma greve de massas na Prússia de um dia para o outro, nem de “intimar” a uma greve de massas para a próxima semana, mas sim de deixar claro às massas, histórica, econômica e politicamente, em relação com a crítica de todos os partidos burgueses e o esclarecimento de toda a situação na Prússia e Alemanha, que não se deve depender dos aliados burgueses [71] nem da ação parlamentar, mas sim simplesmente das próprias forças, de sua própria ação de classe decidida. Não é que estamos proclamando a consigna da greve de massas como um meio sofisticado e patenteado para conseguir vitórias, mas sim com a formulação, a síntese das lições políticas e históricas das condições que há na Alemanha hoje em dia.

Uma agitação desse tipo a favor da greve de massas brinda a oportunidade de aclarar da maneira mais profunda toda a situação política, o agrupamento de classes e os partidos da Alemanha, de fazer com que as massas amadureçam politicamente, de despertar o sentimento de sua força, seu entusiasmo de luta, de apelar a seu idealismo, de mostrar novos horizontes ao proletariado. A discussão da greve de massas se converte assim em um excelente meio para despertar as camadas indiferentes do proletariado, para atrair até nós aos proletários que seguem aos partidos burgueses, especialmente do Centro [72], para preparar as massas para toda eventualidade da situação e, por último, para treiná-las de maneira mais eficaz para as eleições do Reichstag. Se o camarada Kautsky começa agora sua luta contra essa agitação, declara que a discussão da greve de massas é perigosa e trata de dirigir todo o movimento pelo sufrágio às próximas eleições do Reischtag como única meta, o que faz é simplesmente limitar o movimento do partido – que já teve gratificantes progressos indo por estes novos caminhos – ao velho e trilhado caminho do parlamentarismo puro.

Mas se o camarada Kautsky volta a levar corujas a Atenas [73] quando nos prega o otimismo parlamentar e a ação parlamentar na Alemanha. Em qualquer caso, há décadas já estabelecemos em nossas vidas partidárias que as eleições ao Reichstag são a ação principal, e nossas táticas estão suficientemente influenciadas por considerações com respeito às eleições parlamentares. Se repreendem as disputas periódicas sobre as táticas apontando as próximas eleições do Reichstag. Em 1907, considerando as eleições do reichstag, o Vorwärts seguiu uma política completamente equivocada de dirigir todas as armas contra o liberalismo e não ter em conta ao Centro por estar na oposição parlamentar. Só conseguimos manter nossa posição porque nosso jornal provincial, no distrito ocidental, não seguiu esse exemplo e lutou sem piedade contra o Centro. Em todo caso, a principal atenção da direção de nosso partido se dirige às eleições do Reichstag, e ainda que, por exemplo, em cada eleição se considera normal que se desenvolva uma agitação incansável em todo o país, se concentram todos os oradores, se celebram inúmeras reuniões em todos os povos e cidades; agora, durante o movimento pelo sufrágio, não se faz nada disso.

A agitação que se dá por meio de atos e folhetos é mínima. Desde o ponto de vista parlamentar, entre outras coisas, este ano se utilizou o 18 de março para a agitação: as reuniões ordenadas para o 15 de março em Berlim deviam estar relacionadas com a terceira sessão (do tratamento do projeto de lei de reforma eleitoral) da Câmara dos Deputados da Prússia, em lugar de estar com a revolução [74]. Por último, em consideração ao parlamentarismo e aos hábitos parlamentares a agitação republicana está muito descuidada em nosso partido, justo agora que é necessária de forma mais urgente do que nunca.

Então, o que é necessário justo agora na Alemanha é realmente uma intensificação ainda maior de toda nossa tática para as eleições ao Reichstag, uma fascinação ainda maior das massas com as eleições parlamentares?

Me parece que não. Os “perigos” contra os quais é necessário discutir só podem existir na imaginação daqueles que não podem livrar-se das concepções anarquistas da greve de massas. O efeito real da intervenção do camarada Kautsky, portanto, se reduz a proporcionar uma cobertura teórica aqueles elementos do partido e dos sindicatos que se sentem incômodos diante do desenvolvimento, imprudente do movimento de massas, que desejam mantê-lo sob controle e que preferem retirar-se o quanto antes aos velhos e incômodos caminhos da vida parlamentar e sindical cotidiana. Ao apelar a Engels e ao marxismo, o camarada Kautsky deixou estes elementos com a consciência tranquila com respeito a sua atividade e, ao mesmo tempo, enquanto esse movimento de protesto que ele quer potencializar cada vez mais, proporcionou um meio para voltar a estrangulá-lo no próximo período.

Porém está claro que agora as perspectivas do movimento pelos direitos eleitorais, pelo contrário, requer precisamente uma continuação e um desenvolvimento mais poderoso da ação das massas. O colapso parlamentar do projeto de lei do sufrágio significa a bancarrota do governo e do bloco clerical-conservador [75]. A ação de nossos inimigos deu, pelo momento, tudo o que podia dar de si; a ação do proletariado deve começar com mais força. O inimigo está em retirada, a ofensiva é nossa. Não são reconfortantes as expectativas da grandiosa vingança dentro de um ano e meio das urnas, mas sim que é necessário é devolver golpe após golpe agora mesmo; não apostar no desgaste, mas sim na luta em toda linha, isso é o que necessitamos. E repito, quando a massa dos camaradas do partido entenda e sinta isso, então nossos dirigentes também estarão em seus postos. “A multidão o faz” [76].

Por último, uma pequena reminiscência histórica, que, entretanto, não deixa de ter amáveis paralelismos com o presente. O camarada Kautsky rechaça para Prússia os exemplos de outros países nos quais se aplicou recentemente a greve de massas. Rússia não serviu de exemplo nem Bélgica, nem sequer Áustria. Em geral, “não é apropriado referir-se ao exemplo de outros países para a situação atual na Prússia” [77]. O próprio camarada Kautsky, entretanto, para buscar o modelo correto para nossas táticas, se remonta aos antigos romanos e a Aníbal. Aqui encontra o exemplo com o qual o proletariado alemão deve edificar-se, se trata de Fabio “O Postergador” com sua “estratégia de desgaste” supostamente vitoriosa. Me parece um pouco exagerado voltar aos antigos romanos, mas já que o camarada Kautsky o faz, eu gostaria ao menos afirmar que aqui também os fatos não são de todo corretos. A fábula da estratégia necessária e vitoriosa do Cunctator (Postergador) já foi destruída por Mommsen, quem provou que “o uso natural e apropriado” da força militar romana haveria sido um ataque firme e decidido desde princípio, e que a atitude ditadora de Fábio, que Mommsen chama “ociosidade metódica”, não era a expressão de nenhum plano estratégico profundo ditado pelas circunstâncias, mas sim uma consequência de toda a política conservadora e vetusta do Senado. “Quintus Fabius”, diz Mommsen:

Era um homem já de idade avançada, de uma parcimônia e resistência que a muitos lhes parecia como procrastinação e teimosia; como um ciumento adorador dos bons velhos tempos, da onipotência política do Senado e da Dominação da diarquia, esperava conjugar a salvação do Estado com os sacrifícios e as demandas da condução metódica da guerra.

Em outro lugar diz:

Deve ter feito falta um estadista que conduzisse e que pudesse controlar as circunstâncias do contexto (...) em todas as partes havia o bem muito pouco ou bem demasiados acontecimentos. Agora que a guerra havia começado e havia sido permitido ao inimigo determinar seu momento e seu lugar, apesar do sentimento bem fundado de superioridade militar se encontravam desconcertados quanto ao objetivo e o curso das seguintes operações. O ataque na Espanha e África era a primeira exigência da tática, mas se descuidou a exigência de manter uma posição vantajosa não menos que a honra. Podia-se prever com muita segurança que por culpa dessa demora os aliados espanhóis de Roma seriam sacrificados pela segunda vez, da mesma maneira que a própria demora poderia ter sido evitada facilmente (...) Por muito prudente que fora, desde o lado romano, manter-se na defensiva e ter a esperança de que o principal êxito provinha de cortar os meios de subsistência do inimigo, como sistema defensivo e de derrota do inimigo por esfomeamento, a verdade é que era bastante estranho, já que o inimigo se dedicava a assolar sem impedimento todo o centro da Itália sob a mirada de um exército romano igual em números se aprovisionava em forma ordenada, em grande escala, o bastante para passar o inverno (...) Finalmente, quanto ao exército romano, não se pode dizer que se requerem comandantes para dirigir esta guerra; estava formado em partes, é certo, por reservistas mobilizados, mas seu núcleo estava formado pelas legiões de Armínio, com experiência militar, quem, longe de desalentar-se por suas últimas derrotas, se amargava pela tarefa menos honorável que seu comandante (Quintus Fabius Cunctator), “o lacaio de Aníbal” [78], lhe atribuía, e exigia a viva voz que se enfrentasse ao inimigo. Nas assembléias de cidadãos ocorreram duríssimas discussões contra esse teimoso ancião.

E depois Mommsen continua na mesma linha um longo trecho de seu texto. “não foi o ‘Postergador’ quem salvou a Roma”, diz em poucas palavras, “mas sim a firme união com seus aliados, e talvez não menos o ódio nacional com que os ocidentais receberam aos fenícios”. Isso era tão evidente que ao final inclusive “a maioria do Senado, apesar da quase legitimação que os recentes acontecimentos haviam dado ao sistema de postergação do combate de Fábio, já tinha a firme resolução de apartar-se dessa forma de conduzir a guerra, que estava destroçando ao Estado em forma lenta, porém segura” [79].

Tal é a vitoriosa “estratégia de desgaste” de Fabius Cuntactor. Na realidade se trata de uma lenda que se ensina aos jovens em nossas escolas para instruí-los em um espírito conservador e adivertir-lhes contra os “impacientes” e os “subversivos”, para inculcar-lhes como espírito da história o lema de nossos exércitos de reserva: “Sempre devagar e adiante”. Que essa lenda se aplique agora ao proletariado revolucionário, hoje em dia, nesta situação... é uma das voltas inesperadas do destino.

Seja como fosse, o tipo de gente que se parece ao nobre Fabius Quintus, que esperava salvar ao Estado conduzindo metodicamente a guerra , além dos sacrifícios e necessidades próprias do militar, está, creio, demasiado representado em nosso Senado supremo do partido e dos sindicatos. Até onde sei, não temos tido muitos problemas na direção do partido por carecer de prudência, por excesso de confiança juvenil e impaciência. Como disse o camarada Adler no Congresso do partido austríaco em Graz:

O chicote sempre faz bem, e confesso que prefiro que as queixas do Congresso partidário de que se faz demasiado pouco as declarações que aconselham prudência e paciência. Já nos armamos de paciência, talvez demasiado. Não necessitamos que nos ponham freios [80].

Creio que ocorre algo mais ou menos parecido em nosso partido. Que o camarada Kautsky empreste sua caneta e seu conhecimento histórico para a defesa da estratégia do Cunctator é um desperdício, pra dizer o mínimo. Camarada Kautsky: não necessitamos que você nos ponha freios.

Fonte original: „Ermattung oder Kampf?“, Die Neue Zeit, 28. Jahrgang, 1909/10, Zweiter Band, I und II: pp. 257–266, III-V: pp. 291-305. Traduzido a partir do texto publicado em Rosa Luxemburg, Gesammelte Werke, Bd. 2, Berlín, Dietz Verlag, pp. 344–377.

Tradução: Guillermo Iturbide

veja todos os artigos desta edição
FOOTNOTES

[1Em seu artigo „Was nun?“ ("E agora?") No Die Neue Zeit, Kautsky rejeitou as demandas de Rosa Luxemburgo sobre a greve política de massas e a república democrática.

[2Rosa Luxemburg, „Was weiter?“ ("How to continue?"), Dortmunder Arbeiterzeitung, 14-15 de março de 1910.

[3Entre 3 e 18 de abril de 1910, Rosa Luxemburgo deu palestras sobre a greve política de massas na Alta Silésia, Bremen, Kiel, Dortmund, Essen, Düsseldorf, Solingen, Barmen, Frankfurt am Main e Hanau.

[4Karl Kautsky, „Was nun?“, Die Neue Zeit, 28. Jg. 1909/10, 2. Bd., P. 33

[5Em 23 de fevereiro, houve uma greve política ao meio-dia em Frankfurt pelo direito democrático de voto na Prússia, da qual participaram cerca de 25.000 trabalhadores; em Kiel, 10.000 trabalhadores do estaleiro entraram em greve em 15 de março com o mesmo propósito.

[6O Império Austro-Húngaro (1867-1919) tinha uma composição plurinacional na época, razão pela qual o território da atual República da Áustria era denominado "Áustria Alemã", porque sua população falava essa língua. O Congresso de Salzburgo do Partido Social Democrata Austro-Alemão ocorreu entre 26 e 29 de setembro de 1904.

[7Sob a liderança da social-democrata holandesa Domela Nieuwenhuis, um grupo semi-anarquista foi formado na Segunda Internacional, que exigia que o proletariado respondesse a cada declaração de guerra com uma greve geral e rejeitasse o serviço militar. No Congresso Internacional dos Trabalhadores em Bruxelas (agosto de 1891), essas opiniões foram rejeitadas pela esmagadora maioria dos delegados.

[8Christiaan Cornelissen, também holandês e também pensador de Domela Nieuwenhuis, viu a greve geral como o único meio de derrubar o domínio da classe capitalista. A vitória da greve geral acabaria com a exploração capitalista de uma só vez. Cornelissen subestimou a necessidade de preparação e organização ideológica para a revolução.

[9Karl Kautsky, „Was nun?“, In Die Neue Zeit, 28. Jg. 1909/10, 2. Bd., P. 33

[10Greve de massas, partido e sindicatos.

[11Idem.

[12O Bremer Bürgerzeitung foi um dos jornais social-democratas mais importantes da Alemanha no início do século 20, publicado na cidade de Bremen, no noroeste. Era um órgão da esquerda do partido, onde escreviam Anton Pannekoek, Johann Knief e o bolchevique Karl Radek, entre outros. Durante a Primeira Guerra Mundial, todos eles fizeram parte da corrente conhecida como "esquerda radical de Bremen", oposta à direção social-democrata, e funcionou como o único jornal social-democrata com ampla circulação de internacionalistas. Os esquerdistas de Bremen mais tarde se uniram à Liga Spartacus para fundar o Partido Comunista Alemão.

[13Karl Kautsky, „Was nun?“, In Die Neue Zeit, 28. Jg. 1909/10, 2. Bd., P. 33

[14Karl Kautsky, „Was nun?“, In Die Neue Zeit, 28. Jg. 1909/10, 2. Bd., P. 33

[15Rosa Luxemburg, „Was weiter?“, In RL, Gesammelte Schriften, Volume 2, pp. 294-295.

[16Na verdade, a origem desta frase está nos Estatutos Provisórios da Associação Internacional de Trabalhadores, outubro de 1864. Ver K. Marx e F. Engels, „Provisorische Statuten der Internationalen Arbeiter-Assoziation“, em Marx-Engels-Werke 16, Berlin, Dietz Verlag, 1962, pp. 14-16.

[17Rosa Luxemburg, „Was weiter?“, In RL, Gesammelte Schriften, Volume 2, p. 299.

[18Karl Kautsky, „Was nun?“, In Die Neue Zeit, 28. Jg. 1909/10, 2. Bd., P. 40

[19Ou seja, desde 1871, após a guerra franco-prussiana, altura em que foi fundado o Império ou Segundo Reich.

[20Karl Kautsky, „Was nun?“, In Die Neue Zeit, 28. Jg. 1909/10, 2. Bd., P. 33

[21As duas últimas citações entre aspas nesta frase são uma citação de Heinrich Heine, „Erinnerung aus Krähwinkels Schreckenstagen“, em Heinrich Heine, Werke und Briefe em zehn Bänden, Bd. 2, Berlin, 1962, p. 241.

[22Karl Kautsky, „Was Nun?“, In Die Neue Zeit, 28. Jg. 1909/10, 2. Bd., P. 35

[23Idem.

[24Idem.

[25Em abril de 1893, pela primeira vez na história do movimento trabalhista internacional, uma greve geral política pelo sufrágio universal ocorreu na Bélgica, na qual participaram cerca de 250.000 trabalhadores. Como resultado desta greve, a lei eleitoral belga teve que ser substancialmente expandida.

[26Karl Kautsky, „Was Nun?“, In Die Neue Zeit, 28. Jg. 1909/10, 2. Bd., P. 37

[27Em 15 de abril de 1910, cerca de 160.000 trabalhadores da construção começaram a lutar contra o bloqueio patronal na indústria da construção, a fim de promover suas demandas por aumentos salariais, redução da jornada de trabalho, contratos de grupos locais e liberdade de agitação. A greve durou até o início de julho em algumas grandes cidades.

[28Em 14 de abril de 1902, uma greve de massa começou na Bélgica, na qual mais de 300.000 trabalhadores participaram. O Conselho Geral do Partido dos Trabalhadores Belga a retirou em 20 de abril, embora o pedido de modificação da lei eleitoral e da emenda constitucional tenha sido rejeitado pelo Parlamento Belga em 18 de abril.

[29Em janeiro de 1908, várias reuniões de desempregados e manifestações pelo direito ao voto democrático foram realizadas em Berlim, que foram brutalmente atacadas pela polícia.

[30De janeiro a março e no final de 1909, dezenas de milhares de pessoas protestaram em muitas cidades alemãs contra o sistema de votação de três classes prussiano antidemocrático e exigiram o sufrágio universal, igual, direto e secreto para todas as pessoas mais velhas.

[31Em seu artigo “Was nun?”, Karl Kautsky refere-se à introdução de Friedrich Engels de 1895 à obra de Marx, Class Struggles in France de 1848 a 1850, que ele interpreta erroneamente para justificar seus pontos de vista. Deve-se notar que este texto de Engels foi traiçoeiramente modificado por Kautsky, seu editor, para publicação, eliminando as passagens onde eram feitas referências a um previsto retorno da revolução e a necessidade de usar violência e ilegalidade nela. Kautsky exerceu esse ato de censura argumentando que essas passagens poderiam causar uma nova proscrição da social-democracia. Engels protestou contra isso, mas logo depois ele morreu. Na época dessa controvérsia entre Luxemburgo e Kautsky, o texto original sem censura de Engels ainda não era conhecido. O texto de Engels pode ser lido sem cortes, indicando quais foram as passagens omitidas por Kautsky, em K. Marx e F. Engels, Revolución (compilação), Buenos Aires, Ediciones IPS-CEIP, 2018, p. 77

[32Friedrich Engels, „Einleitung zu Marx’ Klassenkämpfe in Frankreich 1848 bis 1850 “(1895), K. Marx e F. Engels, Werke, Bd. 22, p. 509-527, aqui p. 513.

[33Ibid., P. 515.

[34Ibid., P. 523.

[35Ibidem, p. 519.

[36Idem.

[37Ibid., P. 524.

[38O projeto de lei, que visava a supressão da social-democracia, foi apresentado em dezembro de 1894 e pretendia substituir a "Lei Anti-Socialista" que havia expirado em 1890. Devido a protestos massivos, foi rejeitado no Reichstag em Maio de 1895.

[39Em 20 de junho de 1899, o governo alemão apresentou um projeto de lei "para a proteção das relações de trabalho", o chamado projeto de "Lei Prisional", que tornava a formação de piquetes um crime. Diante de protestos massivos, apenas os conservadores votaram a favor. Dado que o texto de Engels é de quatro anos antes, da época em que o golpe de Estado estava sendo discutido no Reichstag, neste texto Rosa Luxemburgo aparentemente confunde os dois fatos.

[40É interessante, aliás, saber a posição dos atuais anarquistas sobre a greve de massas na Alemanha. Em seu recente Congresso em Halle na Festa de Pentecostes - parece que ainda existem algumas dezenas desse tipo na Alemanha - eles dispensaram a seguinte sabedoria, de acordo com o relatório Berliner Tageblatt: “De acordo com a opinião prevalecente no anarquismo, um mera greve de protesto é absolutamente repreensível. Mas uma greve política de massas seriamente empreendida, na qual o trabalho não deve ser retomado até que a meta estabelecida seja alcançada, significa o início da grande revolução. Nas condições atuais, porém, isso significaria infortúnio para todo o proletariado, já que as classes dominantes não descansam ... Mas dificilmente seria possível, pois a Social-Democracia carece de material humano para uma greve de massas séria, já que a Comissão Geral [de Sindicatos] não está disposta a fazer isso, e o que ela não quer, o partido não pode fazer ... Todos os delegados foram claros que uma greve de massas séria no momento só poderia provocar um agravamento da situação social do proletariado, enquanto uma greve de protesto contradiz os princípios do anarquismo ”. É o raciocínio típico dos anarquistas: a greve de massas como uma grande greve que ocorre de uma só vez, a "grande revolução", cuja execução depende se "a Comissão Geral" está "pronta" ou não. E a partir dessa concepção, hoje se afirma que a greve de massas seria "uma desgraça" para o proletariado. [Nota de RL].

[41Eduard Bernstein, „Die Potenz politischer Massenstr

[42Ibid., P. 486.

[43Ibid., P. 487.

[44Karl Kautsky, “Was nun?”, In Die Neue Zeit, 28. Jg. 1909/10, 2. Bd., Pp. 77-78.

[45Karl Marx, O 18º Brumário de Luís Bonaparte, (1852).

[46Refere-se ao Congresso Regional da Social-democracia do Reino da Prússia (a Alemanha era um império que unia um grupo de reinos, entre os quais a Prússia cobria a maior parte do território) que ocorreu em Berlim entre 3 e 5 de janeiro de 1910 .

[47Heinrich Ströbel sobre a luta pelos direitos eleitorais, em Protokoll über die Verhandlungen des Parteitages der Sozialdemokratischen Partei Preußens, abgehalten em Berlim vom 3. bis 5. Januar 1910, Berlin 1910, p. 224.

[48Ibidem, p. 228.

[49K. Kautsky, „Was nun?“, In Die Neue Zeit, 28. Jg. 1909/10, 2. Bd., P. 71

[50Ibid., P. 70

[51Verhandlungen des Parteitages der deutschen Sozialdemokratie Österreichs, abgehalten zu Linz vom 29. Mai bis einschließlich 1. Juni 1898, Viena, 1898, p. 62

[52O Congresso do Partido Social-democrata da Áustria de língua alemã reuniu-se de 24 a 29 de setembro de 1899 em Brünn, o nome alemão da atual cidade tcheca de Brno.

[53Verhandlungen des Parteitages der deutschen Sozialdemokratie Österreichs, abgehalten zu Graz vom 2. bis einschließlich 6. Setembro 1900, Viena, 1900, p. 79

[54Ibid., P. 74

[55Na Áustria, como na Prússia e na maioria dos países europeus no início do século 20, não havia sufrágio universal geral; o voto foi qualificado, dividindo a população entre diferentes "cúrias" ou classes eleitorais de acordo com a renda, dando uma representação desproporcional aos setores mais altos. Devido às greves e manifestações do proletariado austríaco pelo sufrágio universal, o governo foi forçado a fazer concessões. Em 1896 entrou em vigor uma reforma da lei eleitoral baseada num projeto apresentado pelo Primeiro Ministro Eduard Taaffe em 1893. Uma quinta classe eleitoral (cúria) foi introduzida, além das quatro existentes, com base no sufrágio universal. Assim, pela primeira vez, a Social-Democracia teve oportunidade de obter um representante no Parlamento. Rosa Luxemburgo comentou esta reforma da seguinte maneira: “A quinta cúria foi introduzida em 1896 sob pressão do movimento sufragista. Na primeira cúria, 5.431 grandes proprietários de terras elegem 85 membros do Parlamento; na segunda cúria, 591 comerciantes e industriais elegem 21 membros; na terceira cúria, 493.804 eleitores da população urbana elegem 118 membros; na quarta cúria, 1.595.406 eleitores da população rural elegem 129 membros; enquanto na quinta cúria, 5.004.222 eleitores elegem 72 membros (Rosa Luxemburg, „Was wollen wir? Kommentar zum Programm der Sozialdemokratie des Königreichs Polen und Litauens“, em Rosa Luxemburg: Gesammelte Werke, Bd. 2, pp. 37-89, aqui uma nota de rodapé na página 59).

[56Ibid., P. 76

[57Protokoll über die Verhandlungen des Parteitages der deutschen sozialdemokratischen Arbeiterpartei em Österreich. Abgehalten zu Salzburg vom 26. bis 29. September 1904, Viena, 1904, p. 101

[58Ibid., P. 104

[59Ibid., P. 105

[60Idem.

[61Ibid., P. 107

[62Ibid., P. 122

[63Em setembro de 1905, a primeira greve política de massa pelo sufrágio universal ocorreu no Império Austro-Húngaro. Os constantes movimentos de protesto forçaram o governo austríaco a introduzir uma lei introduzindo o sufrágio universal em janeiro de 1907.

[64Verhandlungen des Parteitages der deutschen Sozialdemokratie Österreichs, abgehalten zu Graz vom 2. bis einschließlich 6. Setembro 1900, Viena, 1900, p. 77

[65Em 6 de março de 1910, os social-democratas de Berlim convocaram uma campanha pelo sufrágio democrático no Treptower Park, que teve de ser desviado para o Tiergarten devido à intervenção policial. Apesar da proibição em 13 de fevereiro de 1910, o evento acabou sendo uma demonstração impressionante, com cerca de 150.000 participantes.

[66Em 13 de fevereiro de 1910, grandes manifestações de sufrágio ocorreram em Berlim e em muitas cidades da Alemanha, desencadeadas pelo anúncio do chefe da polícia, Traugott von Jagow, de que ele proibia manifestações de rua sob a ameaça de intervenção militar.

[67Em 10 de abril, manifestações massivas pelo sufrágio democrático ocorreram em toda a Prússia e em outras partes da Alemanha, depois que os trabalhadores, em muitos casos, recuperaram o direito de se reunir ao ar livre.

[68O movimento sindical, realizando as anteriores manifestações de massa não autorizadas, forçou o governo a autorizar as de 10 de abril.

[69O Herrenhaus prussiano foi modelado após a Câmara dos Lordes britânica, isto é, composta por "lordes" (Herren), a nobreza, e funcionou como uma espécie de câmara alta.

[70Virgílio, Eneida, Livro VII, linha 312: “Se eu não posso persuadir os deuses do céu, mova-se”.

[71Esta é uma referência, em particular, ao ponto principal pelo qual a greve de massas belga de 1902 pelo direito a voto igual foi derrotada.

[72O Partido Católico, que também tinha sua própria central sindical.

[73É um ditado alemão que vem de The Birds of Aristophanes. Significa fazer algo desnecessário, redundante.

[74Refere-se às comemorações da revolução de 1848 e da Comuna de Paris, de que falou acima.

[75Durante o debate sobre a reforma financeira de 1909, o antigo bloco do chanceler Bülow se desintegrou e foi substituído pelo bloco dos Conservadores e do Partido do Centro, presidido por Bethmann-Hollweg como chanceler, que continuou nessa posição até julho de 1917.

[76Uma referência ao poema de Heinrich Heine com o mesmo título, "Die Menge tut es." Mais tarde, no meio da guerra (1916), Luxemburgo escreveu um artigo não assinado, “Die Menge tut es”: “A libertação da classe trabalhadora só pode ser obra da própria classe trabalhadora, diz o Manifesto Comunista de Marx e Engels. Enquanto os milhões de trabalhadores em todos os países não entenderem que devem se libertar, não haverá fim para a exploração, a miséria e a matança mútua de povos. Mas as massas trabalhadoras, homens e mulheres, velhos e jovens, estão começando a entender isso. É por isso que nosso poeta da liberdade, Heinrich Heine, cantou há quase cem anos: “Aconselho-o a ter cuidado. / Não quebra ainda, mas quebra / A multidão faz isso [Die Menge tut es] ’”.

[77K. Kautsky, „Was nun?“, In Die Neue Zeit, 28. Jg. 1909/10, 2. Bd., P. 36

[78Aníbal era o general do exército inimigo fenício.

[79Theodor Mommsen, Römische Geschichte, 3. Aufl., 1. Band, 1856, pp. 551–577.

[80Verhandlungen des Parteitages der Deutschen Sozialdemokratie Österreichs, abgehalten zu Graz vom 2. bis einschließlich 6. September 1900, p. 83
CATEGORÍAS

[comunismo]   /   [Mulheres]   /   [Alemanha]   /   [Rosa Luxemburgo]   /   [Revolução]

Rosa Luxemburgo

Comentários