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Descobrindo John Reed, jornalista revolucionário que nasceu em 22 de outubro de 1887

Howard Zinn

Descobrindo John Reed, jornalista revolucionário que nasceu em 22 de outubro de 1887

Howard Zinn

Diante do 134º aniversário do nascimento do escritor, publicamos um artigo de Howard Zinn onde ele conta a história de John Reed, o grande jornalista americano que, entre outros, nos contou a revolução "de dentro" em seu livro Dez Dias Que Abalaram o Mundo.

Howard Zinn
16 de novembro de 2010

Em 1981, a fábrica de Hollywood produziu um filme, "Reds", no qual não só o personagem principal – o jornalista John Reed – era comunista, mas também era representado com simpatia. Esta foi mais uma das muitas provas existentes de que os EUA se distanciaram da histeria anticomunista que prevaleceu nos anos 50. Na esteira disso, os editores do Boston Globe me pediram, como historiador, para contar aos seus leitores sobre John Reed. As seguintes linhas apareceram naquele jornal em 5 de janeiro de 1982.

Os radicais são duplamente irritantes. Eles não só se recusam a se conformar com a ideia do que um verdadeiro patriota americano deve ser, mas também não se encaixam na ideia geral do que são os radicais. Isto é o que acontece com John Reed e Louise Bryant, que confundiram e enfureceram os guardiões da ortodoxia cultural e política nos tempos da Primeira Guerra Mundial. Ambos aparecem hoje no grande filme Reds de Warren Beatty, e alguns críticos resmungam com o que eles chamam de "comunista chique" e "marxismo da moda", em uma repetição involuntária das lorotas que Reed e Bryant tiveram que suportar em seu tempo.

Já era ruim o suficiente que eles e seus notáveis amigos - Max Eastman, Emma Goldman, Lincoln Steffens, Margaret Sanger - defendessem a liberdade sexual em um país dominado pela retidão cristã, por se oporem à militarização em uma era de patriotismo bélico, por defender o socialismo quando o mundo dos negócios e o governo estavam espancando e assassinando grevistas, ou por saudaram o que lhes parecia a primeira revolução proletária da história.

Mas o pior foi que eles se recusaram a ser meros escritores e intelectuais daqueles que atacam o sistema com suas palavras; em vez disso, eles se juntaram aos piquetes, amaram-se livremente, desafiaram comitês governamentais, foram para a cadeia. Eles eram defensores da revolução em suas ações e em sua arte, ignorando os avisos eternos que os voyeurs dos movimentos sociais de qualquer geração sempre emitiram contra o compromisso político.

John Reed não poderia ser perdoado pelo Establishment (nem mesmo por alguns de seus críticos, como Walter Lippmann e Eugene O’Neill) por se recusar a separar a arte e a insurgência, por não ser apenas rebelde em sua prosa, mas imaginativo em seu ativismo. Para Reed, a rebelião foi compromisso e diversão, análise e aventura. Isso fez com que alguns de seus amigos liberais não o levassem a sério (Lippmann mencionou seu "desejo exorbitante de ser preso"), sem entender que, para a elite do poder do país, o protesto junto à imaginação era perigoso, coragem combinada com inteligência não era brincadeira. Rebeldes sombrios podem ser presos, mas a maior traição, para a qual não há punição adequada, é tornar a rebelião atraente.

Os amigos dele o chamavam de Jack. Ele foi um poeta toda a sua vida, desde sua infância confortável em Portland, Oregon, passando pela Faculdade de Harvard, desde as insurreições camponesas no México, as greves dos trabalhadores da seda em Nova Jersey e a greve dos mineiros de carvão no Colorado até a frente de batalha na Europa e ao lado das massas que cantaram e gritaram pela revolução bolchevique em Petrogrado. Mas, como Max Eastman, seu editor no The Masses, disse, "poesia para Reed não era apenas escrever palavras, mas viver a vida." Na verdade, nenhum de seus muitos poemas eram memoráveis, mas ele foi direto para o coração de guerras e revoluções, greves e manifestações, e o fez com o olhar preciso de uma câmera (antes de existir) e com a memória de um gravador (antes de ser inventado). Deu vida à história para leitores de revistas populares e publicações mensais ruins para consumo por radicais.

Em Harvard, entre 1906 e 1910, Reed foi um atleta (na natação e polo aquático), um brincalhão, um líder de torcida, um satírico, um estudante do famoso professor de escrita Charles Townsend Copeland, a quem eles chamavam de "Copey" e, ao mesmo tempo, um protegido do muckraker [1] Lincoln Steffens. Ele era um crítico travesso do esnobismo de Harvard, embora não tenha se tornado membro do Clube Socialista de Walter Lippmann. Após a formatura, ele trabalhou a bordo em um cargueiro para a Europa, onde visitou Londres, Paris e Madri, e depois voltou para se juntar a um grupo de escritores boêmios e radicais de Greenwich Village, em Nova York, onde Steffens lhe forneceu seu primeiro emprego, no qual ele lidou com tarefas editoriais chatas e rotineiras para uma revista político-literária chamada The American.

Em Nova York, em 1912, para quem olhava em volta tão acentuadamente quanto John Reed, os contrastes de riqueza e pobreza atordoavam os sentidos. Ele começou a escrever para a The Masses, uma revista que tinha acabado de aparecer, editada por Max Eastman (irmão da feminista socialista Crystal Eastman) e escreveu um manifesto onde dizia que "Poemas, histórias e desenhos, rejeitados pela imprensa capitalista por conta de sua excelência, encontrarão boas-vindas nesta revista". The Masses era algo vivo, não o órgão oficial de um partido, mas um partido em si, com anarquistas e socialistas, artistas e escritores e rebeldes indefiníveis de todos os tipos em suas páginas: Carl Sandburg e Amy Lowell, William Carlos Williams, Upton Sinclair. E, do exterior, Bertrand Russell, Gorky, Picasso.

Os tempos tremiam com a luta de classes. Reed foi para Lawrence, Massachusetts, onde mulheres e crianças haviam deixado seus empregos na indústria têxtil e estavam envolvidos em uma greve heroica e dolorosa com a ajuda da IWW (Industrial Workers of the World — Trabalhadores Industriais do Mundo) e do Partido Socialista. Lá, ele conheceu Bill Haywood, o líder do IWW (a quem descreveu como "um gigante espancado, com um olho perdido de um lado, e um olhar eminente do outro"). Haywood o informou da greve de 25.000 trabalhadores de seda do outro lado do rio Hudson, em Patterson, exigindo a jornada de trabalho de oito horas e sendo espancados pela polícia. A imprensa não publicou nada sobre isso, então Reed foi para Paterson. Ele não era o tipo de jornalista que tomava notas de fora: ele foi para a linha de piquete, foi preso por se recusar a seguir em frente, e passou quatro dias na prisão.

O artigo que ele publicou no The Masses já era um novo tipo de escrita, inflamada, envolvida. Ele participou de uma assembleia de grevistas de Paterson, ouviu a jovem radical irlandesa Elizabeth Gurley Flynn falar do poder dos braços cruzados e ele, que nunca foi tímido, ficou à frente da multidão cantando La Marseillaise e The Internationale. Ele e Mabel Dodge, cujo apartamento na Quinta Avenida era como um centro de arte e política (ela logo se tornou sua amante), tiveram a brilhante ideia de organizar com mil trabalhadores um show sobre a greve no Madison Square Garden. Reed trabalhou dia e noite no roteiro, enquanto John Sloan pintou o cenário. Quinze mil pessoas participaram do evento.

No México, em 1914, Pancho Villa liderava uma rebelião camponesa e o Metropolitan pediu a Reed para ir lá como correspondente. Ele logo se viu imerso na Revolução Mexicana, cavalgando ao lado do próprio Villa, enviando artigos que Walter Lippmann saudava como "o melhor jornalismo já feito... A variedade de suas impressões, os recursos e a cor de sua linguagem pareciam inesgotáveis... e a Revolução de Villa, que até então aparecia na imprensa apenas com um incômodo, tornou-se uma multidão de camponeses que se moviam em um maravilhoso panorama da terra e do céu." O fruto disso, o México Insurgente, a compilação de artigos de Reed sobre este assunto, não é o que a ortodoxia considera "jornalismo objetivo", mas algo escrito para ajudar a revolução.

Ele tinha acabado de voltar para Nova York, aclamado como um grande jornalista, quando a terrível notícia do Massacre de Ludlow começou a se espalhar no país: no sul do Colorado, mineiros em greve foram mortos a tiros e suas famílias queimadas até a morte, atacadas por guardas nacionais no pagamento dos Rockefellers. Ele logo estava no local, escrevendo "A Guerra do Colorado"

Durante o verão de 1914 ele estava em Princetown, que se tornaria seu refúgio para os próximos anos, nadando, escrevendo, amando (até 1916, em uma aventura tempestuosa com Mabel Dodge). Naquele agosto, a guerra começou na Europa. Em um manuscrito inédito, Reed escreveu: "E aqui estão as nações, voando na garganta uma da outra como cães... e arte, indústria, comércio, liberdade individual, a própria vida tributada para manter máquinas monstruosas da morte".

Reed voltou para Portland para ver sua mãe, que nunca aprovou suas ideias radicais. Lá, na sala de reuniões da IWW local, ele ouviu Emma Goldman falar. Para ele foi uma iluminação. Ela foi o motor do feminismo e do anarquismo dessa geração e provou com sua própria vida que ela pode ser revolucionária com seriedade e também com alegria.

Os grandes jornais de Nova York o pressionaram a ir para a Europa para cobrir a guerra e ele concordou em trabalhar para o Metropolitan. Ao mesmo tempo, ele escreveu um artigo para o The Masses. A guerra era uma questão de lucro, ele dizia no artigo. No caminho para a Europa, ele estava ciente de que estava indo na primeira classe enquanto três mil italianos viajavam como animais. Logo ele esteve na Inglaterra, na Suíça, na Alemanha e, mais tarde, na França, pisando no terreno da guerra: chuva, lama, cadáveres. O que mais o deprimiu foi o patriotismo criminoso que apreendeu todos os dois lados, incluindo alguns socialistas, como H. G. Wells na Inglaterra.

Quatro meses depois, quando ele voltou para os EUA, descobriu-se que os radicais Upton Sinclair e John Dewey haviam se juntado ao grupo de patriotas. Walter Lippmann também. Este último, que agora era editor da New Republic, escreveu um curioso ensaio em dezembro de 1914: "Pelo temperamento, ele não é um escritor profissional nem um jornalista, mas uma pessoa que se diverte". Depois disso, Lippmann, que se orgulhava de ser um "escritor profissional", acrescentou a esnobada final: "Reed não é objetivo e tem orgulho de não ser".

Era verdade. Reed retornou à guerra em 1915, desta vez para a Rússia, para as aldeias queimadas e saqueadas, para os assassinatos em massa de judeus pelos soldados do czar, para Bucareste, para Constantinopla, para Sófia, depois para a Sérvia e Grécia. Ele foi muito claro sobre o que o patriotismo significava: morte por armas ou por fome, varíola, difteria, cólera, tifo. De volta aos Estados Unidos, ele encontrou o discurso interminável sobre prontidão militar contra "o inimigo" e escreveu para o The Masses que o verdadeiro inimigo do trabalhador americano era os dois por cento da população que possuía sessenta por cento da riqueza nacional. "Defendemos que os trabalhadores se defendam contra esse inimigo. Essa é a nossa preparação.

No início de 1916, John Reed conheceu Louise Bryant em Portland e os dois imediatamente se apaixonaram. Ela deixou o marido e foi com Reed para Nova York. Era o início de uma relação apaixonada e poética. Ela era escritora e anarquista. Naquele verão, Reed buscou um descanso com Bryant longe dos sons da guerra, nas praias tranquilas de Princetown. Há uma foto dela nua e recatada na areia.

Em abril de 1917, Woodrow Wilson pediu ao Congresso que declarasse guerra à Alemanha e John Reed escreveu no The Masses: "A guerra é a loucura das multidões, a crucificação daqueles que dizem a verdade, o sufocamento dos artistas... Não é nossa guerra." Ele testemunhou perante o Congresso contra o recrutamento obrigatório: "Eu não acredito nesta guerra... Eu não me alistaria".

Quando Emma Goldman e Alexander Berkman foram presos sob a Lei de Conscrição por "conspiração para induzir as pessoas a não se alistarem", Reed testemunhou em sua defesa. Eles foram condenados e enviados para a prisão junto com milhares de outros americanos que se opuseram à guerra. Jornais radicais foram banidos, e o The Masses entre eles.

Reed ficou desanimado com a forma como as classes trabalhadoras na Europa e nos EUA apoiaram a guerra e esqueceram da luta de classes, mas ele não perdeu a esperança: "Não posso desistir da ideia de que da democracia nascerá o novo mundo mais rico, mais corajoso, mais livre e mais bonito".

Em 1917, notícias estrondosas vieram da Rússia. O czar, o antigo regime, tinha sido derrubado. A revolução estava em andamento. Aqui, finalmente, Reed pensou, era uma população inteira que se recusou a continuar com o massacre, virou-se contra sua própria classe dominante, e estava estabelecendo sobre a criação de uma nova sociedade, seus contornos ainda não claros, mas seu espírito intoxicante.

Ele embarcou para a Finlândia e Petrogrado com Louise Bryant. A revolução estava eclodindo em torno deles e ambos foram mergulhados em sua excitação: as manifestações das massas, os trabalhadores assumindo fábricas, os soldados declarando sua oposição à guerra, o soviet de Petrogrado elegendo uma maioria bolchevique. E então, nos dias 6 e 7 de novembro, a rápida e sangrenta tomada das estações ferroviárias, o telégrafo, o telefone, a distribuição de correio e, finalmente, os trabalhadores e soldados que correram em êxtase no Palácio de Inverno.

De palco em palco, incansavelmente, Reed tomou notas com incrível velocidade, coletou panfletos, pôsteres e proclamações, e então, em 1918, retornou aos Estados Unidos para escrever sua história. Quando ele chegou, suas anotações foram confiscadas e ele se viu acusado, juntamente com outros editores do The Masses, de ter se oposto à guerra. Mas durante o julgamento, no qual tanto Eastman quanto ele testemunharam eloquentemente e corajosamente sobre suas crenças, o júri foi incapaz de tomar uma decisão e as acusações foram retiradas.

Reed visitou o país dando palestras sobre a guerra e a Revolução Russa. No Templo de Tremont (Boston), ele foi aclamado por estudantes de Harvard. Em Indiana, ele conheceu Eugene Debs, que logo seria condenado a dez anos de prisão por falar contra a guerra. Em Chicago, ele participou do julgamento de Bill Haywood e de cem líderes da IWW, que seriam condenados a longas penas de prisão. Naquele mês de setembro, ele fez um comício em uma manifestação de quatro mil pessoas e foi preso por desencorajar as pessoas de se juntarem às Forças Armadas.

Ele finalmente recuperou suas anotações da Rússia e, durante dois meses de escrita intensa, produziu Dez Dias Que Abalaram o Mundo, um livro que se tornou a narrativa clássica de uma testemunha ocular da Revolução Bolchevique, cujas palavras estavam lotadas em suas páginas com os sons do nascimento de um novo mundo: "Na Avenida Nevsky, sob o crepúsculo azedo, multidões estavam lutando pelos últimos jornais.... Em cada canto, em cada espaço aberto, grandes grupos foram agrupados; lá argumentavam soldados e estudantes... O soviet de Petrogrado estava se encontrando continuamente no Instituto Smolny, o centro da tempestade. Delegados caindo de sono no chão e levantando-se novamente para participar do debate. Trotsky, Kamenev, Volodarsky falando seis, oito, doze horas por dia".

Em 1919, a guerra tinha acabado, mas exércitos aliados invadiram a Rússia e a histeria continuou nos Estados Unidos. O país que glorificava a palavra "revolução" ao redor do mundo, agora temia-o. Houve ataques de estrangeiros aos milhares, eles foram presos e deportados sem julgamento. Greves foram reprimidas em todo o país e os confrontos com a polícia se multiplicaram. Reed interveio na criação do Partido comunista dos Trabalhadores e foi para a Rússia como delegado para as reuniões da Internacional Comunista. Lá, ele discutiu com burocratas do partido, perguntou o que estava acontecendo com a revolução, conheceu Emma Goldman em Moscou, e a ouviu chorando desiludida.

Mas ele não perdeu a esperança. Passou de reunião em reunião, de conferências em Moscou para manifestações de asiáticos no Mar Negro. Sua saúde sofreu, ele adoeceu, febril e delirante: ele tinha contraído tifo. Aos 33 anos, no auge de seu caso com sua esposa e companheira Louise Bryant e com a ideia de revolução sempre em mente, John Reed morreu em um hospital de Moscou.

Seu corpo foi enterrado como um herói perto do muro do Kremlin, mas a verdade é que sua alma não pertence a nenhum exemplo, nem aqui nem lá, nem em lugar nenhum. O estranho é que hoje, em 1981, sessenta anos após sua morte, milhões de americanos acabaram de saber da existência de John Reed graças a um filme. Se apenas uma pequena fração deles pensasse sobre a guerra e a injustiça, sobre arte e compromisso, sobre como estender a amizade para além das fronteiras nacionais na busca de um mundo melhor, isso já seria uma enorme realização para uma vida breve e intensamente vivida como a dele.

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FOOTNOTES

[1Jornalista investigativo; o jornalismo muckraker atuava, na maioria das vezes, para expor os males sociais da época, como a pobreza e a miséria das grandes cidades, e a corrupção das grandes corporações e de políticos; muitas vezes traduzido como jornalistas sensacionalistas.
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