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Debate | Deputada Isa Penna: “frente ampla até doer” com a direita e pedido para Lula iniciar campanha eleitoral

Em um Brasil profundamente afetado pela crise capitalista global, e com os impactos dos ataques de Bolsonaro, Mourão, Congresso e Judiciário, em que nos chocamos e vivemos as filas do lixo, do osso e do desemprego, o cenário para as eleições de 2022 se acelera. As direções burocráticas da CUT e da CTB, centrais sindicais dirigidas pelo PT e pelo PCdoB, cancelaram as convocações para os atos do dia 15 de Novembro contra o governo, chamando na verdade uma reunião de cúpula de lideranças em espaço fechado. É nesses termos que é necessário debater a crise que existe entre as organizações à esquerda do PT, como o PSOL, a exemplo da deputada Isa Penna (PSOL-SP), que escreveu uma coluna para a Mídia Ninja intitulada “Por que Lula?”.

sábado 13 de novembro | Edição do dia

O que parece uma pergunta (“Por que Lula?”), na realidade é uma afirmação favorável a acelerar a campanha de Lula para 2022. Isa Penna certifica: “Por que não começar logo um processo de formação de campanha amplo e participativo? Qual o plano para fazer os ricos pagarem pela crise que lhes pertence? Qual a prioridade no combate à violência contra as mulheres? Essas são algumas perguntas importantes em meio a tantas outras”.

Isa Penna localiza seu argumento pelo ângulo de Lula não ter convocado as manifestações contra Bolsonaro durante o ano, dizendo que João Doria (PSDB-SP), Ciro Gomes (PDT-CE) e João Amoedo (Novo) convocaram e foram. A verdade é que a deputada já carrega um histórico da defesa da presença da direita nos atos, se propondo a compor uma Frente Ampla “tão ampla até doer” contra o governo até mesmo com Kim Kataguiri, assim como a falência do superpedido de impeachment, ombro a ombro da extrema-direita orfã de Bolsonaro, como Joice Hasselmann (PSL).

O que pudemos ver foi que a presença da direita teve o efeito contrário do que o PT, a própria Isa Penna, e a esquerda defendiam: não aumentaram as forças nas ruas, ao contrário diminuíram. A deputada dividiu palanque, convocou e participou do ato do MBL, que agora estava atacando os professores municipais, e defendendo a repressão que feriu diversas professoras. Ou seja, Isa Penna chamava de aliados para lutar contra Bolsonaro justamente aqueles que atacam os trabalhadores fortalecendo e depositando confiança em vários dos setores que se postulam com terceira via, como o MBL e o PSDB. Todos que atacam a classe trabalhadora, o povo pobre, as mulheres, os negros e as LGBTQIA+, responsáveis pela aprovação e implementação da Reforma da Previdência e da Reforma Trabalhista, defensores e fortalecedores das polícias que assassinam a juventude negra, destiladores de misoginia e machismo.

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E agora, Isa Penna corre para localizar o debate eleitoral fazendo um chamado para que Lula comece sua campanha desde já. Assim, o petismo que não construiu nunca um plano de lutas sério para enfrentar Bolsonaro, e fez de tudo para desarticular os atos, isolar as lutas que surgiam, justamente seguiu por esse caminho para antecipar o calendário eleitoral e seguir dando sequência para sua política de alianças com setores da direita.

Em caravana eleitoral pelo nordeste, Lula se reuniu com oligarcas, com a direita e até mesmo com setores mais reacionários, como o homofóbico Pastor Isidório na Bahia. Também já se reuniu com Sarney, FHC, Kassab e vários setores do PT cogitam a possibilidade de ter ninguém menos do Alckmin como seu vice. Desde que está cotado como candidato, Lula e o PT reafirmam o perdão aos golpistas de 2016, que depuseram Dilma Rousseff para asfaltar com mais velocidade a rodovia de ataques aos trabalhadores, a realização de mais privatizações, acenando para diversos setores reacionários como o agronegócio, o fundamentalismo religioso, e as forças armadas.

Na realidade, o PT já realiza um ensaio de um possível futuro governo federal nos estados em que tem governadores, com a aprovação e implementação da Reforma da Previdência em todos eles. A Assembleia Legislativa do Piauí aprovou a reforma da previdência proposta pelo governador Wellington Dias (PT), por 24 votos a 04 e com a votação unânime da bancada de deputados do PT a favor. Tanto o Ceará quanto o Piauí não incluem os militares nem os agentes penitenciários. Fátima Bezerra no RN aprovou na calada da madrugada, no auge da pandemia em 2020, na ALRN, enquanto oferecia isenção e crédito para empresários com Cresce+RN. Rui Costa aprovou em base à repressão dos servidores públicos que se manifestaram. No Piauí, Wellington Dias atacou as universidades, com cortes de verbas; no Rio Grande do Norte, Fátima Bezerra aumenta a terceirização na saúde e em órgãos públicos como o Detran; no Ceará, Camilo Santana reabriu as forças especiais da PM; na Bahia, Rui Costa reprime terras quilombolas. Por tudo isso a posição de Isa Penna expressa ainda mais fortemente a subordinação que a maioria do Congresso do PSOL votou em relação ao PT, dessa vez implorando para que Lula comece sua campanha eleitoral, decretando também que a luta nas ruas “fracassou” como se fosse culpa dos trabalhadores e jovens e não das direções burocráticas dirigidas justamente pelo PT.

Ao contrário desta política de aberta conciliação de classes, hoje é necessário que a esquerda batalhe para exigir que as centrais sindicais saiam da paralisia, e que se construa imediatamente um plano de lutas contra os ataques, a fome e a inflação.

Nesse espírito, precisamos construir um verdadeiro pólo para intervenção na luta de classes que possa ser também a base de uma frente política de independência dos trabalhadores que justamente parta de uma aliança para resistir aos ataques do governo Bolsonaro, do regime golpista e de todos os capitalistas, não como faz a maioria do PSOL, votando em seu Congresso a subordinação ao PT.

Junto com a perspectiva da mobilização, apoiando ativamente cada luta que surja, é preciso unificar a esquerda que se reivindica socialista no Brasil com uma perspectiva de independência de classe, como a Frente de Esquerda e dos Trabalhadores - Unidade (FIT-U), na Argentina. Na Argentina, o país com a maior taxa de inflação do G20, seguida da Turquia e nada menos do que o Brasil, a crise do governo e da oposição de direita vem abrindo espaço para os revolucionários como alternativa. No programa, a FIT-U parte de rechaçar e chamar a não pagar a dívida pública com o FMI, enfrentando a ingerência imperialista na Argentina e em toda a América Latina, mas também defende a independência dos trabalhadores diante de qualquer partido burguês. Essa frente também propõe a redução da jornada de trabalho para 6 horas, 5 dias na semana, e a divisão das horas de trabalho entre todas as mãos disponíveis, sem redução salarial, para unificar empregados e desempregados, a luta pela nacionalização dos bancos e do comércio exterior. Diferente de longe dos reformistas que argumentam que, para ter sucesso eleitoral, o programa tinha de ser rebaixado, a FIT-U apresenta abertamente um programa contra o imperialismo e as burguesias locais, levantando a unidade socialista da América Latina.

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Basta de confiança em saídas institucionais, e na velha conciliação de classe. É preciso confiar nas forças da classe trabalhadora, da juventude, dos setores oprimidos, contra Bolsonaro, Mourão, Congresso e Judiciário. É urgente defender um programa que ataque o bolsonarismo, mas também a direita liberal supostamente opositora, combatendo o conjunto do regime político herdeiro do golpe institucional, que para nós deve ser levado adiante com a consigna democrático-radical da Assembleia Constituinte Livre e Soberana, imposta pela luta, na perspectiva de um governo de trabalhadores de ruptura com o capitalismo. E a defesa desse programa carrega uma estratégia, uma estratégia da composição das nossas forças através de cada local de estudo e trabalho.

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