Depois do assassinato de João Alberto, Carrefour faz demagogia para silenciar gritos antirracistas

Para amansar a revolta gerada pelo assassinato de João Alberto, Carrefour vai doar R$25 milhões para o fomento de ações de combate ao racismo, enquanto distribui R$482 milhões a acionistas

quarta-feira 25 de novembro de 2020| Edição do dia

R$25.000.000 parece muito dinheiro. Mas para o Carrefour, que em 2019 lucrou 1,9 bilhão só no Brasil e esse ano, só nos primeiros 9 meses teve alta de 49,6%; para o Carrefour que acaba de distribuir entre os capitalistas que têm ações na empresa R$482 milhões; o Carrefour de capital francês, imperialista, com filiais em trinta países, que tem no Brasil a segunda maior rede de supermercados; para o Carrefour não é. O que significa o anúncio da destinação de fundos de 25 milhões de reais para fomentar o combate ao racismo no Brasil?

Já tendo anunciado a doação, o Carrefour deve divulgar hoje mais detalhes da destinação dos fundos. Assim como não foi a primeira vez em que uma pessoa negra é assassinada em estabelecimentos comerciais, não é a primeira vez que as empresas responsáveis tentam se redimir com doações financeiras. O assassinato de George Floyd nos EUA redespertou o movimento Black Lives Matter e exportou a fúria negra para diversos países do mundo, forçando as maiores companhias norte-americanas a responder com a mobilização de 3,3 bilhões de dólares entre maio e setembro para uma suposta promoção de igualdade racial.

Suposta. Porque essas empresas são incapazes de acabar, nem mesmo de combater o racismo, que se expressa todos os dias, vale lembrar, no trabalho precário da limpeza, estoque, caixas, etc., e salta aos olhos com o assassinato de clientes negros. O caso de Moisés Santos, morto “em chão de fábrica” enquanto trabalhava num Carrefour em Recife e coberto por guarda-sóis, é um retrato de que não apenas a Covid-19 e as balas, joelhos e punhos da polícia ceifam vidas negras. A superexploração do trabalho rouba horas dessas vidas, lhes tira a saúde e, quando morrem, não merecem nem mesmo mais atenção que a venda de mercadorias.

Os fundos do Carrefour não serão destinados para promover a igualdade salarial entre homens e mulheres, negros e brancos. Nem para garantir um salário mínimo com base no cálculo do Dieese para seus funcionários. Tampouco para cobrir todos os direitos trabalhistas, agora já legalmente inexistentes graças às reformas que avançaram ainda mais desde o golpe de 2016, com Temer e Bolsonaro-Mourão. Muito provavelmente o dinheiro será destinado para ONGs e inclusive outras empresas, que lucram “ensinando” valores neoliberais para que setores oprimidos se esforcem para vencer individualmente.

Mas, sobre isso, basta lembrar que o Carrefour tem uma diretora negra, o que já nos permite afirmar que o problema do racismo não é a falta de negros no poder (como inclusive pudemos ver com o surgimento do Black Lives Matter durante o governo de Barack Obama nos EUA). O problema é que enquanto houver capitalismo, haverá racismo, pois essa ideologia foi artificialmente criada e é artificialmente mantida para extrair mais lucro dos trabalhadores negros e dividi-los dos brancos, na tentativa de fazer com que sejam inofensivos para a dominação capitalista.

As manchetes nos jornais de hoje poderiam ser substituídas por “Carrefour destina R$25 milhões para silenciar os gritos de ‘Carrefour racista’ com uma migalha demagógica”.

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