Política

Depois da Pfizer e da Moderna, a AstraZeneca reduz suas remessas. De onde vem a escassez?

A lógica do lucro e da propriedade privada aumenta um problema que começa a afetar fortemente os países imperialistas: a escassa capacidade de produção dos laboratórios está atingindo os países que se consideravam imunes, depois de terem monopolizado as doses.

quarta-feira 3 de fevereiro| Edição do dia

Escassez de vacinas: os impasses da gestão capitalista da crise

O início da campanha de vacinação, pautado pela competição econômica entre potências e pelos interesses dos laboratórios titulares das patentes de vacinas, revelou a hipocrisia da retórica sobre "distribuição acessível e equitativa da vacina", defendida em particular pelos principais dirigentes dos países da União Europeia. A realidade da gestão capitalista da crise sanitária se impõe cada vez mais diante das mentiras dos diversos governos, e se expressa por limites específicos de cada país e profundas desigualdades no acesso à vacina em escala internacional. 82% da produção da Pfizer e 78% da produção da Moderna são, portanto, detidas pelas maiores potências mundiais. Por exemplo, a União Europeia se comprometeu a comprar quase 2,6 bilhões de doses para uma população total de 600 milhões de habitantes.

No entanto, a lógica do lucro e da propriedade privada vem agravando um problema que começa a afetar fortemente os países imperialistas: o espectro da escassez está se aproximando dos países que se julgavam seguros depois de monopolizar as doses, devido ao limite da capacidade de produção dos laboratórios. De fato, a recusa em compartilhar patentes com outros laboratórios ou com países dominados pelo imperialismo, como solicitado pela Índia e África do Sul, reduz as capacidades globais de produção de doses da vacina, incluindo aquelas encomendadas por Estados ocidentais como França, Espanha, Alemanha ou Reino Unido.

Não faltam exemplos e se acumulam os impasses na gestão capitalista da campanha de vacinação. Ainda recentemente, o laboratório sueco-britânico AstraZeneca declarou que não poderia garantir 60% das doses inicialmente prometidas, enquanto as autoridades sanitárias da França, Alemanha e Espanha desaconselham o uso desse produto para vacinar maiores de 65 anos, pois faltam dados sobre os seus efeitos na população idosa. Um tapa na cara da UE, já que a Comissão Europeia havia liberado 336 milhões de euros para ajudar o laboratório a desenvolver sua vacina e aumentar sua capacidade de produção. Com efeito, pelo preço e facilidades de armazenamento e de transporte, a vacina do grupo Sueco-Britânico deveria ser, como explica Sandra Gallina (Diretora Geral de Saúde do Executivo Europeu), “a vacina do primeiro trimestre” de 2021. Se somam a esses anúncios o fato de que a Moderna não pode atender a mais de 25% dos pedidos feitos pela União Europeia e que a Pfizer deve adiar novas entregas em um mês, abalando as esperanças de um plano de vacinação massivo e rápido dentro da UE.

Cada um por si: respostas do governo frente à escassez

Embora muitos Estados tenham concedido ajuda financeira a grandes laboratórios em troca de contratos dando-lhes primazia sobre as doses produzidas, a diminuição da produção exacerbou esse "nacionalismo da vacina". A aposta para os países é alta, pois além do aspecto da saúde, a aposta também é econômica: o país que receber mais doses de vacinas para imunizar sua população poderá reivindicar o reaquecimento de sua economia o mais rápido possível, ganhando vantagem sobre os capitalistas de outros países.

A vontade da UE e de seus principais dirigentes, Merkel-Macron, de mostrar uma abordagem unida e o livre acesso à vacina está começando a desaparecer frente às pressões competitivas. Em 29 de janeiro, a União Europeia pôs em prática medidas extraordinárias para bloquear a liberação de vacinas do território da UE para outros países, a fim de manter a prioridade nas doses. Essas tendências nacionalistas culminaram recentemente no Reino Unido, onde a AstraZeneca possui fábricas de produção de vacinas. Após o anúncio de uma queda acentuada nas entregas planejadas, a UE acusou o Reino Unido de reter as doses que deveria receber.

Na continuação dessas tensões, a Comissão Europeia anunciou nesta segunda-feira, 1º de fevereiro, sua disposição de recorrer às vacinas BioNTech-Pfizer e Johnson & Johnson para se distanciar do laboratório AstraZeneca. Se isso se concretizar, essa ameaça seria um golpe para o grupo sueco-britânico, que veria um de seus principais mercados decolar.

Contra a gestão capitalista da crise sanitária: pela quebra das patentes e da nacionalização, sob o controle dos trabalhadores dos laboratórios privados

Os contratos secretos, a propriedade privada de patentes, o apoio financeiro dos Estados a esses laboratórios para fins privados ou mesmo as medidas protecionistas vão contra a saúde da maioria da população, especialmente dos mais precarizados e pertencentes aos países dependentes. Até a OMS (Organização Mundial da Saúde), que atende aos interesses das principais potências mundiais, havia alertado que o nacionalismo e a competição entre os países corriam o risco de prolongar a pandemia. De fato, o forte contágio da Covid-19 vai além das fronteiras e o desenvolvimento de novas variantes significa que não é possível uma solução nacional para a crise sanitária.

Os funcionários em greve, da Sanofi, denunciaram recentemente as consequências dessa gestão irracional da crise sanitária. Enquanto as linhas de produção da Sanofi estavam paralisadas por falta de patentes a explorar, os grevistas nos explicaram que “nada nos impediria de produzir essas vacinas que conhecemos, com as quais trabalhamos, e produzi-las na Sanofi. O único problema é o ego dos dirigentes: eles não querem admitir que estavam errados. "Podemos estar em guerra, mas não podemos pressionar as empresas capitalistas para que produzam mais doses. Se estivéssemos em guerra, em um “esforço de guerra”, chegaríamos lá. Devemos pegar os meios de produção da Sanofi e fazer uma das três vacinas que estão no mercado hoje."

A produção da vacina e sua distribuição não podem depender dos interesses dos capitalistas donos dos grandes grupos farmacêuticos. Para colocar todos os recursos disponíveis a serviço da resolução da crise sanitária e romper o impasse da gestão capitalista da pandemia, é preciso lutar para impor a quebra das patentes e da nacionalização, sob o controle dos funcionários dos laboratórios privados.




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