Opinião

DEBATE COM A ESQUERDA

Debate com o PSOL-RJ: tragédia não é o grito de fim da PM, mas a política de Íbis Pereira

No dia 14 de setembro Ibis Pereira, coronel reformado e ex comandante da PMERJ e candidato à vice prefeitura do Rio de Janeiro, disse a uma entrevista concedida a DW Brasil na qual declara abertamente suas concepções. Dentre elas está a afirmação de que “o grito de fim da PM é uma tragédia”, e seu objetivo de fazer da polícia do Rio de Janeiro, uma das mais assassinas do mundo, um dos seus interlocutores mais privilegiados.

Simone Ishibashi

Rio de Janeiro

sexta-feira 9 de outubro| Edição do dia

Imagem: PORTAL QUEIMADOS

Ibis Pereira afirmou que o grito de fim da PM ele diz que entende que “rima é boa, e o garoto se sente estimulado a cantar isso, mas é uma tragédia. Impede o diálogo com os policiais, e eu acredito que seja possível dialogar com as instituições. Por isso é que estou fazendo política partidária”. Em seguida conclui que se você quer governar por dentro das instituições, precisa “entender o que elas são”. E para finalizar conclui que mantém um “vínculo afetivo” com a instituição policial. Declarações escandalosas.

Não é de hoje que Ibis Pereira mostra que sua política é desarmar o combate contra as forças repressivas do Estado. Já durante a intervenção federal havia declarado que se deveria “fazer do limão uma limonada”. Mas agora com essas afirmações citadas acima Ibis Pereira radicaliza ainda mais a lógica contida nas afirmações de Marcelo Freixo de difundir a falaciosa ideia de que seria possível e uma das tarefas mais hierárquicas reformar, humanizar e “responder ao problema da segurança pública mantendo intacta a ordem capitalista. Ao contrário de preparar os trabalhadores com uma política de independência de classe em relação à polícia, de acordo com Ibis Pereira se deveria torna-la um interlocutor privilegiado. Isso é um verdadeiro absurdo. Ibis Pereira chega ao ponto inclusive de condenar a demanda de fim da polícia militar. Isso justamente quando o que se deveria debater é que não apenas a PM deveria acabar, como o conjunto das forças repressivas, já que a maior ameaça à vida da juventude e dos trabalhadores, sobretudo negras e negros é o próprio Estado capitalista com suas operações policiais, encarceramento em massa de negros, enquanto reina a impunidade para a polícia.

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Ano após ano os trabalhadores, jovens e até crianças das comunidades são mortos pela polícia em número que não para de crescer no Rio de Janeiro. Em 2019 foram 1546 assassinados pela polícia em apenas 10 meses. Em 2020 a polícia do Rio de Janeiro foram 741 mortes causadas pela polícia, a maior alta em 22 anos. Trata-se de uma demonstração cabal de que a polícia em geral, mas em particular a do Rio de Janeiro, é uma instituição criada para garantir a imensa desigualdade criada e aprofundada pela ordem capitalista. Uma ordem feita por e para os ricos, na qual 12 bilionários detém o equivalente a 43% de toda a riqueza do país. Enquanto isso, à imensa maioria dos trabalhadores e do povo pobre é reservado o desemprego, a precarização e as mortes pela polícia. Portanto, o “vínculo afetivo” que os jovens e trabalhadores que moram nas comunidades do Rio de Janeiro têm com essa instituição assassina é, e só poderia ser, uma justa raiva. As mães que protestam nas comunidades após a morte dos seus filhos entendem muito bem a instituição policial.

Mas ao contrário de se basear nisso para desenvolver uma política de independência de classes em relação às forças repressivas, o PSOL-RJ escolhe ser a uma ala da militarização da política, lançando Ibis Pereira como candidato à vice prefeitura do Rio de Janeiro. A violência policial não é um mero produto do despreparo dos policiais. Mas deriva da própria natureza da polícia como uma instituição do Estado capitalista dedicada a garantir a propriedade privada das grandes empresas e conglomerados que produzem toda a riqueza do país explorando o suor dos trabalhadores, que é de onde emanam a imensa desigualdade social presente no Rio de Janeiro. Portanto, ao contrário de querer dialogar com a mais assassina das instituições do Estado capitalista, o que é necessário é dizer abertamente que sei sentido de existência não é garantir a segurança das pessoas, mas a segurança dos capitalistas mais ricos e exploradores do país.

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Isso se torna ainda mais grave em um país governado por Bolsonaro, em que a militarização da polícia elevou-se, e se expressa inclusive nas eleições com um crescimento notável de candidaturas policiais. E não apenas isso. Mas sobretudo em um país em que aprofunda-se a situação reacionária aberta após o golpe de 2016, com o recente pacto entre Bolsonaro, as alas do autoritarismo judiciário, em especial o STF, e o próprio Congresso. Todas essas instâncias estão unidas para atacar os direitos democráticos mais elementares da classe trabalhadora e do povo, e descarregar nas nossas costas o ônus dessa crise criada em prol dos capitalistas.

Isso leva ao segundo absurdo contido na fala do ex coronel Ibis Pereira, que é parte de uma lógica pela qual o PSOL-RJ se rege, e que tem tido expressões agudas nessas eleições. Trata-se da adaptação às instituições do atual regime degradado pela obra do golpe, ao qual o PSOL se propõe a governar como se tal processo simplesmente não existisse. O PSOL não apenas deixa de levantar qualquer questionamento sobre o autoritarismo crescente no regime político que se degrada cada vez mais, com a intervenção indiscriminada do STF, mas inclusive se orgulha dos cotidianos pedidos de impeachment e CPIs, em detrimento de utilizar a referência de suas figuras para mobilizar os trabalhadores, únicos que podem dar saídas de fundo aos problemas estruturais que assolam o Rio de Janeiro, como é o caso da violência urbana.

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Se a presente situação nacional agudiza a necessidade de saídas de fundo em base à luta de classes, e opostas à confiança nas instituições autoritárias do presente regime político, a lição de que atuar via CPIs, e por “dentro da institucionalidade” capitalista como defende Ibis Pereira, não é uma resposta, vem inclusive de antes. Desde a CPI das milícias em 2008, que teve Freixo apoiado pela Globo à frente, a presença das milícias na política e a violência de sua atuação não apenas continuou existindo como ainda elevou-se. De acordo com estimativas da Folha de S Paulo a presença das milícias teve uma elevação de 75% desde 2017.

Além disso, não constitui necessariamente uma novidade que a violência urbana só será resolvida com uma política que reverta o enorme desemprego e informalidade, e a precariedade de saúde e educação. Mas isso só pode ser conquistado com uma política anticapitalista, atacando os seus lucros, com medidas como o não pagamento da dívida pública, a reversão da entrega da Petrobrás que deve ser gerida pelos trabalhadores e controlada pelo povo. E no percurso da luta por essas demandas os trabalhadores e o povo deverão se auto organizar para enfrentar a repressão policial. E não confiar que elas se solidarizarão com as causas dos trabalhadores porque esse setor que defende a política do PSOL-RJ representada por Ibis Pereira teria dialogado com essa instituição assassina.

Tirem as mãos de Lenin

Como se não bastasse, Ibis Pereira ainda justifica suas posições dizendo que o “Estado é um campo em disputa”, e vai além. Ainda quer se apoiar em Lênin, dizendo que “O próprio Lenin fala isso: se a gente quiser mudar o mundo, tem que olhar para o mundo, que é sempre muito mais complexo e rico do que uma ideia.”

Com essa tentativa de apropriação totalmente descontextualizada, quer convencer que os que veem que a polícia não foi criada para garantir a segurança dos trabalhadores seriam puros míopes políticos, esquerdistas que não entendem a complexidade da vida concreta apontada por Lênin. Pois bem, vejamos o que próprio Lênin diz sobre o Estado capitalista que Ibis Pereira quer disputar, seu braço armado, a polícia, e o qual a atitude correta que os trabalhadores devem adotar frente a essas questões.

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A experiência da Comuna de Paris, retomada por Lênin em O Estado e a Revolução, já demonstrava a importância da reivindicação pela dissolução da polícia numa perspectiva de superação da ordem capitalista vigente. Não à toa foi uma das suas primeiras medidas: desarmar os inimigos de classe e armar a classe operária. Depois, na Revolução Russa e em distintos processos revolucionários mais uma vez foi esta a atitude da classe trabalhadora. Lênin cita a definição de Marx de que o Estado capitalista é “uma força que se colocasse aparentemente acima da sociedade, com o fim de atenuar o conflito nos limites da "ordem". Essa força, que sai da sociedade, ficando, porém, por cima dela e dela se afastando cada vez mais, é o Estado". O Estado é, portanto, uma derivação dos interesses de classe opostos, entre trabalhadores e capitalistas, que Lênin caracteriza como “irreconciliáveis”. Para impor sua ordem, os capitalistas recorrem à polícia como um dos principais instrumentos do poder governamental, e essa deve ser combatida.

Lênin aponta a vigência da lição deixada pelos trabalhadores na Comuna de Paris ao adotar o primeiro decreto acabando com o exército permanente e a polícia, deram um grande passo que deveria ser um guia para a atitude frente a polícia, substituindo-a pelo povo armado. Nas palavras de Lênin: “Mas, na Comuna, o órgão de repressão era a maioria da população e não mais a minoria (...) Ora, uma vez que é a própria maioria do povo que oprime os seus opressores, já não há necessidade de uma "força especial" de repressão!” Com isso as bases do Estado capitalista, ao invés de serem disputadas por dentro da institucionalidade como defende Íbis Pereira, eram quebradas. A auto-organização em armas da própria população e a atitude correta frente à natureza de classe da polícia foram fundamentais para isso.

Os trabalhadores e o povo precisam apontar o caminho

Essa noção, tão importante, não é coisa do passado. Ainda que de maneira muito mais incipiente encontrou eco nas recentes revoltas contra a violência policial nos Estados Unidos, em que as demandas de desfinanciamento da polícia e saída dos seus sindicatos das centrais foi uma marca. Seus protagonistas, muitos dos quais nunca devem ter lido Lênin, estão muito mais próximos dele que os que querem humanizar a polícia. Quando se levantam em defesa de seus interesses, os trabalhadores são capazes, e encontrarão as vias de se auto organizar para garantir sua própria segurança. Em primeiro lugar contra quem mais os ameaça: o Estado capitalista.

Uma resposta de fundo ao problema da violência social, e da repressão policial, passa portanto da necessidade de instaurar a confiança dos trabalhadores em suas próprias forças, para oferecer uma saída anticapitalista para a atual crise. Isso passa pela mobilização para colocar de pé uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana, em que se candidatariam e elegeriam livremente através do mais amplo sufrágio universal os representantes dos trabalhadores e do povo. Seria fundamental impulsionar, não a confiança em instituições reacionárias deste regime como a polícia, mas a auto-organização da classe trabalhadora e das massas para defender e fazer valer a soberania da vontade popular contra a burguesia.

Sabemos que essa não é uma perspectiva imediatista, mas é tarefa da esquerda clarificar que mais ainda num momento de crise grave como o que vivemos, não podemos apostar na perspectiva de reformar este sistema e muito menos se postular para administrá-lo, como se fosse possível melhorar a situação pela via institucional.




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