Política

ELEIÇÕES NATAL 2020

Debate à prefeitura de Natal-RN: show de horrores bolsonarista e demagogia para encobrir ataques

Com a direita e a extrema-direita fazendo questão de afirmar seu alinhamento com o governo Bolsonaro, o debate entre os candidatos à prefeitura de Natal na Band deixou bem expresso que a disputa na cidade não passará por fora do rearranjo nacional das alas do regime do golpe institucional.

sábado 3 de outubro| Edição do dia

Em primeiro lugar, o debate ocorreu entre 13 dos 14 candidatos, porque Álvaro Dias (PSDB), candidato à reeleição, não compareceu, utilizando-se do argumento de que tinha uma reunião emergencial em Brasília. Álvaro Dias tem sido o prefeito que ataca a classe trabalhadora e o conjunto da população natalense. Álvaro Dias é a gestão que pretende verticalizar toda a orla da cidade e, em setembro, modificou as rotas de ônibus, com suspensão e fusão, junto às empresas, prejudicando toda a população.

E, como se não bastasse, aprovou seu projeto da Reforma da Previdência municipal em agosto pela Câmara de Vereadores, que faz parte de descarregar a crise nas costas dos servidores, e também a reabertura de shoppings e templos em pleno julho pandêmico para beneficiar empresários e pastores, com Natal sendo a cidade com mais mortes por COVID no RN. Em junho, cortou 75% do salário de estagiários da educação, para atacar quem realiza trabalho já precarizado, sem os direitos mínimos básicos.

A pauta dos transportes foi alvo da discussão demagógica entre os participantes do debate. O histórico recente dos transportes em Natal é marcado pela aliança de Álvaro Dias com a máfia do Seturn (Sindicato de Empresas do Transporte do RN), que garante seus lucro com a diminuição das linhas, preço da passagem, em tempos de aumento do preço dos alimentos e diminuição do auxílio emergencial.

Afrânio Miranda (Podemos), Coronel Hélio (PRTB), Coronel Azevedo (PSC) e o delegado da policial civil Sérgio Leocádio (PSL) não pouparam esforços em marcar seu alinhamento com o governo Bolsonaro. Coronel Hélio sai do debate como tendo uma relação próxima com Bolsonaro, apontando que a prefeitura não deve ter só alinhamento com Bolsonaro, mas também com o presidente Trump dos EUA. E reivindicou junto a Afrânio Miranda a política de Bolsonaro em relação à pandemia do coronavírus, ambos dizendo que o presidente “não deixa ninguém na mão”, sem vergonha alguma diante das 150 mil mortes, em sua maioria de pobres, negros, trabalhadores, em todo o país.

Coronel Azevedo reivindicou a militarização das escolas no Brasil e disse que fará igual em Natal, abrindo mais espaço para a política de Bolsonaro saudosista da ditadura, buscando um projeto de educação mais precário e repressivo. Já o delegado Sérgio Leocádio mostrou que fez escola com o discurso de Bolsonaro mais populista de extrema-direita, colocando-se contra a corrupção, dizendo que veio para “chutar o pau da barraca”, “mimimi não vai acontecer”. Leocádio já disse anteriormente que queria acabar com o viés ideológico quando lançou sua pré-candidatura, ou seja, também é parte de um projeto que visa a implementação da perseguição nas escolas e contra o pensamento crítico.

Já Kelps Lima (Solidariedade), atual deputado estadual, que é um dos candidatos que está em indo bem nas pesquisas, disse que “a relação com o presidente Bolsonaro tem que ser valorizada para conquistar recursos”, mas também não quis se desvencilhar da possibilidade de diálogo aberto com o governo estadual de Fátima Bezerra (PT). Kelps Lima é o candidato que quer mostrar uma cara “gestora”, “ao lado da população”, mas que defendeu reabrir as academias em plena pandemia, votou a favor da Reforma da Previdência estadual na ALRN, e faz parte do mesmo partido que Paulinho da Força, dirigente da Força Sindical que estava a favor da Reforma da Previdência de Bolsonaro. Kelps Lima está completamente distante de qualquer coisa que seja uma novidade na política natalense, foi parte da gestão de Micarla de Souza do PP, conhecida como a pior prefeitura na história da cidade do sol, responsável pela remoção das estações de transferência de ônibus.

Hermano Morais (PSB) passou o debate afirmando que é necessário “mudar a forma de gestão”, não negando que, se precisar, se alinhará também ao governo Bolsonaro, ou seja, fazendo parte da representação da direita nacional, que hoje estabelece um pacto com Bolsonaro para fazer passar os ataques.

Esses candidatos estão à serviço dos planos de Bolsonaro, de entrega cada vez maior do país aos imperialismo estado-unidense, de ataca aos trabalhadores como fez com a Reforma da Previdência e pretende fazer com a Reforma Administrativa, responsável por mais de 140 mil mortes pela Covid-19 no Brasil.

Por uma verdadeira oposição à expressão bolsonarista em Natal

O show de horrores bolsonarista natalense contou com momentos de comadres, nos quais todos concordavam e buscavam desgastar Álvaro Dias, merecia uma resposta à altura dos setores que se reivindicam como parte da esquerda, o que não ocorreu.

O candidato, que é atualmente senador, Jean-Paul Prates (PT), passou boa parte do debate justificando a aprovação da Reforma da Previdência estadual da governadora Fátima Bezerra (PT), que chegou a um acordo com parlamentares da direita mais reacionária do RN, do PSDB, PSC, PROS e outros partidos, na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte (ALRN). Um ataque que corresponde ao mesmo plano econômico de ataque aos trabalhadores, não é menor que a Reforma da Previdência de Bolsonaro (inclusive porque existem pontos de conexão), porque já que aumenta a idade mínima, diminui a pensão por morte e o valor das aposentadorias. Prates buscou se apresentar como um bom gestor, inofensivo frente às disputas da direita e extrema-direita natalenses.

A lógica gestora também imperou no caso de Nevinha Valentim, candidata do PSOL, que ao ser indagada ao redor das escolas cívico-militares se limitou a responder que o IFRN também oferecia um ensino de boa qualidade, nem ao menos denunciando que hoje passa por uma Intervenção, praticamente confraternizou com Jaydir Oliveira (Democracia Cristã) sobre o Plano Diretor, sendo esta pastora inimiga dos direitos das mulheres. Nessa mesma lógica que o PSOL nacionalmente está fazendo dezenas de coligações escandalosas com partidos da direita golpista, até mesmo o DEM e MDB, e com um Coronel da PM como vice no RJ. As primeiras linhas do programa da Coletiva do Sol, bancada que Nevinha compõe para a prefeitura, defendem a necessidade de fortalecer os aparatos repressivos municipais, o que demonstra o quanto o PSOL se adapta a pautas da direita reacionária ao invés de se preparar para de fato querer derrotar Bolsonaro e o fortalecimento dos aparatos militares e de repressao do Estado. Se prepara sim para administrar uma parcela do regime do golpe institucional, sem sequer se declarar contrária a Bolsonaro durante o debate.

Carlos Alberto, o empresário do Partido Verde e ex-candidato a governador pelo PSOL, foi na mesmíssima linha gestora. Já Rosália Fernandes, do PSTU, corretamente questionou O candidato do PT pela aprovação da Reforma da Previdência de Fátima. Por outro lado, ela também coloca em seu programa a centralidade de fortalecer as forças repressivas, como fez sua organização no começo deste ano, apoiando o reacionário motim policial no Ceará que fortaleceu Bolsonaro.

A altíssima porcentagem de desempregados no Rio Grande do Norte tem sua maior concentração em Natal, chegando entre os jovens a mais de 34%. Enquanto são reprimidos no Bom Pastor pela Guarda Municipal, como ocorreu há poucas semanas, em Pipa a aglomeração é celebrada. Sabemos que não poderemos conquistar uma vida digna por meio das eleições, mas estas deveriam servir para que a esquerda preparasse as batalhas que estão por vir e não para se apresentar como gestora “mais responsável”, tampouco para essas negociatas abjetas que buscam percorrer o mesmo caminho do PT, que nessas eleições está coligado com o PSL, ex partido de Bolsonaro em mais de 140 cidades e em mais de 600 com o DEM.

A esquerda deveria utilizar as eleições para preparar as batalhas que estão por vir, em um cenário onde o auxílio emergencial foi cortado pela metade e o preço dos alimentos só sobe, enquanto Bolsonaro, Mourão e os golpistas buscam avançar com mais ataques, como com a Reforma Administrativa, que atacará a saúde e a educação. Precisamos nos organizar pela revogação de todas as reformas, pela proibição das demissões. Não poderemos derrotar Bolsonaro aliados a golpistas, a inimigos da classe trabalhadora, nem semeando ilusões municipalistas. Não pode ser que nossa luta por justiça a Geovane Gabriel, jovem do Guarapes assassinado pela polícia militar do RN, seja canalizada para fortalecimentos aos braços repressivos. Precisamos estar ao lado da juventude estadounidense que há meses vem se enfrentando com a polícia, assim como estivemos ao lado dos trabalhadores dos Correios em sua greve, para qual a esquerda natalense deu as costas, acompanhando as Centrais Sindicais.

As batalhas na cidade de Natal não passarão por fora dos debates nacionais, do regime político do golpe institucional, do pacto entre a direita e a extrema-direita que espreme mulheres, negros, LGBTs, trabalhadores, para descarregar cada vez mais a crise em nossas costas. Isso fica expresso pelos absurdos ditos pelos candidatos, que só deve servir para alimentar nosso nojo a esses setores, que estão claramente em defesa dos lucros, das privatizações, das reformas que atacam nossos direitos, da repressão.

O que salta é a necessidade de construir uma alternativa independente, dos trabalhadores, para varrer esses políticos e o regime podre, sem repetir a política de conciliação de classes do PT e é à serviço disto que o Esquerda Diário se coloca. Confiram vídeo de Marie Castañeda sobre a Reforma da Previdência estadual no RN:

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A Reforma da Previdência do governo do Rio Grande do Norte, chefiado por Fátima Bezerra do PT, foi aprovada com base em um acordo com a direita reacionária do estado. Uma medida que, ainda que com suas diferenças da reforma de Bolsonaro, faz com que os servidores paguem pela crise. É necessário repudiar essa reforma junto com a Reforma Administrativa de Bolsonaro e o conjunto dos ataques desse regime do golpe institucional, que o PT e o PCdoB querem administrar junto com a direita, como mostram seus governos estaduais #reformadaprevidencia #fatimabezerra #bolsonaro #reformaadministrativa #forabolsonaroemourão #pt #pcdob #crisecapitalista #pandemia #nãoaopagamentodadívidapública #ajustefiscal

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