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De Marielle a Marcos Vinícius: relato do trabalho "Abrir um nome" (Parte 3)

Lina Hamdan

De Marielle a Marcos Vinícius: relato do trabalho "Abrir um nome" (Parte 3)

Lina Hamdan

Parte 3: Condição Processual. "Percebe-se a instância processual como ação deflagradora de suas potências artísticas, sempre fazendo do tempo a condição de suas materialidades." Maria Elisa Mendes, 2015.

(Veja a primeira e a segunda parte deste relato)

Resolvo manter registrado esses diferentes momentos do processo. Ao não expressar com uma nomeação estanque é como se eu os recolocasse no anonimato que lhes havia sido tirado pela brutalidade de seus assassinatos. Ao invés de um, se tornam inúmeros no conjunto de marcas e desdobramentos de acontecimentos em presente continuidade, ao mesmo tempo que através dos vislumbres das marcas de corte, do registro deixado com papel carbono, do sutil baixo relevo sob a massa de tinta branca, esses nomes seguem reconhecíveis em sua individualidade.

Chego a um todo que me aparece como um registro em formas, massas, grafias e signos em candentes contradições "que se aproximam muito dos fenômenos vivos". Seus nomes se repetem ao mesmo tempo em que somem. Às vezes são puros espaços vazios. Outros permanecem marcas permanentes.

Neste sentido, colocar em forma, em pintura, em letras e nomes que surgem e desaparecem ao longo do processo, me fez pensar em como o ato de expô-los sem contar suas histórias é também retirar o nome do âmbito do sofrimento privado, dissolvendo-o em vários nomes. Também, o tempo e o sol fazem os nomes deixados em carbono perderem contraste e se apagarem. As fitas adesivas perdem a cola, se enrugam e amarelam em manchas.

Assim, o espaço de ação humana e temporal do trabalho, assim como o seu sentido político (de tirar do individual e trazer para o coletivo), podem ser vistos, contraditoriamente a qualquer pensamento original, como um ato de esquecer de apagar, de perder.

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Também no sentido coletivo, o processo pode ser um ato de esquecimento: colocar o nome de determinados indivíduos específicos, sabendo que existe uma triste imensidão de nomes [que também tem cor, que também tem classe], é uma maneira de esquecer, ao personalizar essa imensidão em poucos "indivíduos" [sendo que são nomes que inclusive já foram de alguma maneira "lembrados" pela mídia. Todos os outros foram esquecidos novamente no trabalho?]

Porém, complementar e contraditoriamente, o trabalho segue sendo um processo de lembrança, de trazer ao momento de luto. Do ponto de vista social, o ato de aparecer de novo com nomes, como uma tentativa de trazer à memória em sua forma coletiva, é também instigar a lembrança de quem o Estado tenta fazer ser lembrado somente no âmbito privado, da família e da dor particular, já que é potencialmente turbulenta essa transformação em dor coletiva. Ou seja, deixar de ser um nome individual formaliza uma memória muito mais ampla de uma situação social, que é a morte de determinado grupo social como política de Estado. [Também, o tempo e o sol fazem os nomes deixados em carbono perderem contraste e se apagarem. As fitas adesivas perdem a cola, se enrugam e amarelam em manchas. As telas choram.]


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Lina Hamdan

Estudante de Artes Visuais na UFMG
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