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Artes Visuais - De Marielle a Marcos Vinícius: relato do trabalho "Abrir um nome" (Parte 1)

Lina Hamdan

Artes Visuais - De Marielle a Marcos Vinícius: relato do trabalho "Abrir um nome" (Parte 1)

Lina Hamdan

Parte 1: Intenção - "Às vezes fazer algo poético pode vir a ser político, às vezes fazer algo político pode vir a ser poético" (Título de exposição de Francis Alÿs, Nova York, 2007

O projeto artístico atualmente intitulado como "Abrir um nome" é ainda um esboço. Ou, vendo de outra forma, é uma trama que, por ora, se desemaranha em uma aparente infinitude de pequenos fios-desdobramentos. O presente texto não busca dar conta de todos esses aspectos, sobretudo porque muitos desses fios devem ser cortados, repensados e relocalizados. Ainda assim, busco trazer à luz alguns dos elementos suscitados pela obra em andamento.

Nessas placas que me rodeiam diariamente, das quais cuido e penso, quero extrair aspectos que percebo da relação plástica do ’ato humano e temporal que forja a obra’ com sua própria temática e a realidade social.

O substrato do trabalho é incontável: mortes que se acumulam em nossas memórias e ressoam, fruto do desenvolvimento de um projeto de país que há muito decretou que tais vidas valem menos. Há estatísticas, mas sabemos que elas são intencionalmente falhas. Mas eu mesma não visava contar mortes, nem chegar a "cobrir" todas elas. Mas há algo de tão cruel que parecia exigir a materialização desses nomes. Que eles saíssem das páginas dos jornais e tornassem algum outro tipo de significação.

A princípio, quando comecei a transformar esses sentimentos em prática, em meados de 2019, em Belo Horizonte, tomaria nomes de mortes brutais, ocorridas pelo Estado, que marcaram esse recente período repleto de transformações bruscas, nada sutis. E transferiria com tinta, algo que ainda parece guardar muita sutileza, esses nomes para telas de pintura, cujo formato e tamanho são semelhantes aos de placas de ruas.

Sem contar histórias, sempre senti que conto, nos meus dedos, nos meus arquivos, nas folhas com nomes impressos, vidas incontáveis. Mas o próprio processo me conta uma história que se constrói em ações contraditórias. E percebo que, do já sabido problema inicial de colocar em nomes uma quantidade inumerável de pessoas, o que se abria para mim era um registro que ia muito além da mera lembrança desses nomes. Afinal, as mudanças provocadas na obra ao longo do processo/tempo ultrapassaram qualquer intenção inicial.

Leia a parte 2 aqui.

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Lina Hamdan

Estudante de Artes Visuais na UFMG
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