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Análise | Das ameaças golpistas ao compromisso de prestar continência a Lula ou a qualquer outro. Qual o significado das declarações do comandante da Força Aérea?

Desde o ano passado viemos analisando novas movimentações entre militares e Bolsonaro após o fatídico 7 de Setembro. Depois de meses de descrição e poucas declarações públicas que pudessem desestabilizar o recuo articulado por Temer, agora a cúpula militar começa a dar acenos de que “respeitará” o próximo presidente eleito como chefe supremo das forças, mesmo que esse seja Lula.

terça-feira 1º de fevereiro | Edição do dia

Foto: Ministério da Defesa

Antes de tudo é preciso esclarecer que os militares seguem sendo parte fundamental de sustentação do governo, e também por isso são responsáveis diretos pela barbárie social e sanitária a qual o país se encontra. No entanto, agora esses mesmos militares têm buscado uma relocalização diante de Bolsonaro.

Em um primeiro momento, a posição da cúpula militar foi de evitar manifestações públicas com ameaças golpistas. Isto é, mesmo aqueles generais mais bolsonaristas, como Braga Netto, entraram em um longo silêncio após o recuo de Bolsonaro frente ao STF. Agora há uma mudança de comportamento, chegando a membros do alto comando declarar que respeitarão o próximo chefe da nação, seja quem for.

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A última declaração do comandante da Força Aérea Brasileira, Baptista Junior, ilustra bastante essa mudança. Aquele que era julgado pelos seus próprios colegas como “o mais bolsonarista dos chefes do comando”, agora diz à Folha que “Nós [militares] prestaremos continência a qualquer comandante supremo das forças armadas, sempre”. Baptista Junior ainda disse “Como comandantes da FAB, sempre ratifiquei a posição apartidária da Força. Uma coisa é falar de política, outra coisa é falar de política partidária”.

É bastante simbólico que tal declaração venha do mesmo comandante que meses atrás disse que “homem armado não ameaça” em resposta à declaração do senador Omar Aziz sobre haver uma “banda podre” das Forças Armadas. Na ocasião, o comandante declarou que a nota do alto comando “foi dura, como deveria ser”, mas também foi apenas “um alerta às instituições”.

Diferente do que alguns analistas da grande mídia tentam fazer parecer, os militares não tiveram um surto de consciência e passaram a ver quem é Bolsonaro e, por isso, passaram a negar seu golpismo. O que realmente buscam é conservar a posição de moderadores que alcançaram dentro do Estado - incluindo aí todos os seus privilégios materiais de casta -, mesmo que por fora de um próximo governo Bolsonaro.

Frente à enorme possibilidade de que Lula volte ao poder, como têm apontado as pesquisas, a cúpula militar se prepara para aparecer perante a sociedade não mais como uma antiga ala do governo Bolsonaro, mas sim como uma força de Estado capaz de garantir a ordem e a legalidade no país, inclusive dentro do processo eleitoral. Fazem isso para preservar suas localização no regime, e seus poderes autoritários. Inclusive, será um general, que foi ministro da defesa de Bolsonaro, o responsável por comandar o TSE durante as eleições.

O conjunto do regime de braços abertos aos militares

Não só as movimentações entre militares e Bolsonaro chamam atenção, mas também a postura que outros atores do regime têm adotado frente à relocalização militar. Como já dito, a grande mídia tem endossado a narrativa de “surto de consciência” dos militares com relação a Bolsonaro e a pandemia, mas também outros atores importantes do regime, como o congresso e o próprio Lula, que tem se relocalizado frente às Forças Armadas.

Ao contrário do que faziam meses atrás, quando o congresso e o centrão faziam demagogia e adotavam uma postura mais “enfrentada” contra os militares pela via da CPI da Covid, pressionando Pazuello e a “banda podre”, agora os parlamentares adotam uma linha também mais discreta e até de esquecimento ao papel tenebroso dos militares durante toda a pandemia. O STF também parece seguir essa tendência mais discreta.

Por outro lado, Lula tem feito declarações escandalosas dizendo que respeitará os militares como respeita qualquer civil, em uma clara demonstração de que está disposto a reconciliar com aqueles que estiveram o tempo todo com Bolsonaro e foram responsáveis diretos por mais de 630 mil mortes por covid no país.

Um aspecto importante que pode guiar a reconciliação das Forças Armadas com o PT é a busca pela manutenção de privilégios materiais do poder militar. Como Lula gosta de dizer, em nenhum governo desde a constituição de 88 os militares receberam tantos investimentos. A Aeronáutica de Baptista Junior foi a principal beneficiada em investimentos, vide a compra dos caças suecos durante o governo Dilma.

Mesmo que não seja de forma pública, os militares seguirão atuando na política nacional como garantidores da legalidade institucional. O conjunto do regime, seja pela via do STF, Congresso ou Lula, agora se apresenta de braços abertos à cúpula militar.




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