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SEMANÁRIO

Da censura à resistência contra a ditadura: as representações LGBTs na música brasileira

Gabriela Mueller

Ney Matogrosso (Secos & Molhados)

Da censura à resistência contra a ditadura: as representações LGBTs na música brasileira

Gabriela Mueller

Na trajetória do desenvolvimento da música brasileira, as representações das identidades LGBT marcaram presença. Mesmo que de maneira não explícita, os versos sobre o amor, o desejo, a repressão e os questionamentos das barreiras normativas sobre as sexualidades e expressões de gênero, do que deve ser masculino e feminino, podem ser encontrados, antes mesmo de nomes como Liniker, Pabllo Vittar, Linn Da Quebrada, As Bahias e a Cozinha Mineira, entre outros.

Desde a época da ditadura militar, a arte furava o cinza dos anos de chumbo, trazendo, além das temáticas de repúdio à ditadura, a necessidade da livre expressão de nossas sexualidades e identidades nas músicas, ainda que essas fossem censuradas por serem consideradas subversivas, o que de fato eram. Nesse mês do orgulho LGBT, nós do Carcará- Semanário de Arte e Cultura do Esquerda Diário, elencamos algumas músicas, cantores e cantoras que retratam essa temática ao longo da história.

A música “Bárbara”, de Chico Buarque e Ruy Guerra, do álbum “Chico Canta” lançado em 1973, foi censurada na ditadura por trazer em seus versos declarações e promessas de amor entre duas mulheres:

“[...]
Vamos ceder enfim à tentação
Das nossas bocas cruas
E mergulhar no poço escuro de nós duas
Vamos viver agonizando uma paixão vadia
Maravilhosa e transbordante
Como uma hemorragia
[...]”

Nos anos após o lançamento de “Bárbara”, Chico Buarque voltou a lançar músicas que também representavam personagens LGBT, como "Geni e o Zepelim", de 1978 e parte do espetáculo Ópera do Malandro, onde o compositor carioca narra a saga de uma travesti frente a sua desumanização, objetificação, controle dos corpos e censura em meio a sociedade capitalista e na ditadura militar. Chico Buarque também narrou a história de um casal lésbico em "Mar e Lua", mas foi com "Bárbara" que ele incomodou de fato o regime militar. No disco "Chico Canta", com músicas da peça "Calabar", a expressão "nós duas" é cortada na versão final por expor o desejo entre duas mulheres.

Também, Ney Matogrosso rompia barreiras normativas, impressionando jovens e adultos da época com a sua irreverência, suas danças e performances ligadas a uma estética andrógina. Junto ao seu grupo Secos e Molhados fizeram um enorme sucesso com a música “O Vira”, lançada no seu álbum Secos e Molhados, em 1973, em plena ditadura. A canção ficou muito famosa e foi considerada uma alusão bem humorada à sexualidade, devido ao refrão “Vira, vira, vira homem, vira, vira/Vira, vira, lobisomem”.

Além desses artistas, também havia mulheres apagadas por cantarem sua sexualidade, como no caso de Tuca cantora paulista que foi “esquecida” pela indústria cultural da época - que era tutelada pelos militares - já que escrevia canções que transgrediram a cena por dirigirem-se à outra figura feminina. A cantora, que chegou a morar em Paris e colaborar com discos de Françoise Hardy, deixou pelo menos um disco bastante transgressor. Em "Drácula, I Love You", de 1972, ela assumiu um discurso homossexual, como em "Girl", na qual o eu lírico faz um convite à outra mulher: "Não tenha medo / Você não vai se machucar".

Na década de 70 alguns cantores de estilo brega lançaram músicas que retratavam a homossexualidade, isso durante o período mais conturbado de censura às artes. Como referências desses cantores estão Agnaldo Timóteo, Wando, Nelson Ned e Odair José. Entre 1975 e 1977, fez sucesso a música “Galeria do Amor” de Agnaldo Timóteo, onde a letra fala sobre um ponto de encontro gay na Galeria Alaska em Copacabana no Rio de Janeiro. A letra da música fala:

“[...]
na galeria do amor é assim
muita gente à procura de gente
A galeria do amor é assim
um lugar de emoções diferentes
Onde gente que é gente se entende
onde pode-se amar livremente
[...]”

Mais tarde, em 1982, no álbum “Comissão de Frente”, João Bosco lança a música “A nível de..”, composta junto a Aldir Blanc, na qual retrata o amor livre e a bissexualidade, com humor e ousadia. Nela, é contada a história de dois casais heteroafetivos que, infelizes com a sua relação, decidem experimentar uma troca de casais, formando dois novos casais: Vanderley e Odilon e Yolanda e Adelina, que são “bem mais felizes e acham viver um barato / Vanderley e Odilon bem mais unidos empataram capital / E estão montando restaurante natural cuja proposta é cada um come o que gosta”.

Alguns anos após o final da ditadura militar, em 1989, Legião Urbana grava a música “Meninos e Meninas”, do álbum “As Quatro Estações”, com o icônico refrão “Acho que gosto de São Paulo / Gosto de São João / Gosto de São Francisco e São Sebastião / E eu gosto de meninos e meninas”, retratando a bissexualidade.

Em 1990, Cássia Eller lança “Rubens’, do álbum “Cássia Eller”, onde a letra fala por si mesma:

“Quero te apertar
Quero te morder e já
Quero mas não posso, não, porque:
- Rubens, não dá
A gente é homem
O povo vai estranhar”

Na mesma linha de letras muito claras como Cássia em “Rubens”, Marina Lima, em seu álbum homônimo de 1991 lança “Não estou bem certa”, onde também retrata a sua bissexualidade:

Será que você será a dama que me completa?
Será que você será o homem que me desperta?

Fechando parte de nossa lista, trazemos aqui duas grandes músicas de Jorge Vercillo, “Final Feliz” e “Avesso”, ambas do álbum “Leve” de 2000. Em “Avesso”, Vercillo aborda a repressão contra a homossexualidade e a resistência pelo direito ao desejo.

Com dois canos pra mim apontados
Ousaria te olhar, ousaria te ver
Num insuspeitavel bar, pra decência não nos ver
Perigoso é te amar, doloroso querer
Somos homens pra saber o que é melhor pra nós
O desejo a nos punir, só porque somos iguais

Assim como em “Final Feliz”:

pode me abraçar sem medo’
pode encostar sua mão na minha

Hoje, há uma nova geração de artistas que se tornaram verdadeiros ícones da cena LGBT, representando sua afetividade, sua sexualidade e desejo livremente em suas canções. Linn da Quebrada, Liniker, Rico Dalasam, As Baianas e a Cozinha Mineira, Jaloo, Majur, Potyguara Bardo, Hiram são hoje referências de inúmeras pessoas que têm suas identidades e sexualidades esmagadas pelo capitalismo, sujeitas à violência, à lgbtfobia e aos piores empregos, ainda mais no Brasil, país que mais mata pessoas trans.

Liniker, por exemplo, é uma cantora transsexual de 25 anos que, desde o seu surgimento, impressionou pela sua voz forte combinada às suas composições ternas, sutis e sensuais, conquistando rapidamente diversos públicos. A canção “Zero” teve um enorme sucesso, com traços eróticos e afetivos que aqueceram os corações de todos os públicos em seus versos:

“A gente fica mordido, não fica?
Dente, lábio, teu jeito de olhar
Me lembro do beijo em teu pescoço
Do meu toque grosso, com medo de te transpassar...”

Ainda que seja positivo o surgimento desses inúmeros artistas, o capitalismo se utiliza sistematicamente das lutas LGBT e de sua subversiva expressão artística para cooptar as identidades que fogem das normas cisgêneras e da heterossexualidade. Se, por um lado, essas figuras são exemplos da expressão artística e do orgulho lgbt, por outro, são constantemente cooptadas e absorvidas por marcas e pela indústria cultural capitalista. É constante o fenômeno de alguma artista LGBT ficar famosa e várias marcas capitalistas disputarem a sua imagem, para capturar maiores públicos que costumam ser marginalizados.

A contradição é que o capitalismo, na verdade, em nada se preocupa com a emancipação de todas as pessoas em relação à exploração da sua força de trabalho, da sua sexualidade e da sua identidade. Muito pelo contrário, utiliza da opressão de suas identidades e sexualidades para explorar ainda mais e dividir a classe trabalhadora. Por mais que tente se pintar de colorido, esse sistema nada tem a oferecer aos LGBTs. O capitalismo quer transformar uma luta histórica que custou, e ainda custa, a vida de inúmeros gays, lésbicas, transgenêros em mera mercadoria para lucrar mais, como se nossa emancipação só pudesse caber em poucos bolsos.

O legado da ousadia dos artistas e de suas obras faz parte da história da luta pela expressão da diversidade e pela transgressão às normas e padrões heteronormativos e burgueses no Brasil. É com esse espírito subversivo que se deve lutar por um mundo livre das amarras limitadoras do capitalismo, em que a arte seja livre da indústria cultural, dos militares, e dos burgueses, e sirva como um potente arsenal da livre expressão das diversas formas de ser no mundo.

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