Gênero e sexualidade

RELATOS

DIÁRIO DE UMA PRECARIZADA #3: “Aos 23 anos sinto que minha juventude está sendo roubada”.

O "Diário de Uma Precarizada" é uma iniciativa do Esquerda Diário e do grupo de mulheres Pão e Rosas, reproduzindo uma série de páginas de diários de mulheres precarizadas dos nossos tempos, com relatos de suas reflexões, suas histórias e cotidianos vivendo a combinação da opressão e exploração. É fundamental olhar a realidade do mundo pelos olhos das mulheres, que são metade da classe trabalhadora hoje, e no Brasil majoritariamente negras, que vivem em duras condições de vida, trabalhadoras precarizadas, terceirizadas, muitas delas moradoras de favelas e periferias. Esse diário busca dar voz a essas mulheres e contribuir para despertar, através de uma perspectiva revolucionária, para que a força cotidiana dessas mulheres se transforme em organização e luta, e estejam na linha de frente nos combates contra a opressão e exploração capitalista, sendo protagonistas da transformação do mundo com a nossa classe.

terça-feira 25 de maio| Edição do dia

Imagem: macacodosul

O Relato dessa semana é de uma trabalhadora da saúde. Parte do setor dos trabalhadores essenciais, que são tratados como descartáveis, linha de frente do combate ao COVID-19, sem teste massivos, sem EPIs, sem vacina e sem descanso. Apesar do negacionismo de Bolsonaro e Mourão, e da conveniência de governadores, prefeitos e os golpistas, seguem firme na luta em defesa da vida e da saúde pública de qualidade para a população.

“Como jovem negra, estudante e trabalhadora começo este relato com esse trecho de Milton Nascimento:

“Maria, Maria
É o som, é a cor, é o suor
É a dose mais forte e lenta
De uma gente que ri quando deve chorar
E não vive, apenas aguenta”
(Milton Nascimento)

Sim, isto é exatamente como tenho me sentido neste período pandêmico, como quem não vive, mas aguenta. Aguenta uma carga horária exaustiva, negligência por parte da empresa e do Estado. Aos 23 anos sinto que minha juventude está sendo roubada, não viajo, não tenho muitos momentos de lazer, sempre exausta, com a grana curta, sem tempo, com sobrecarga de trabalho. Como jovem, deveria estar curtindo minha melhor fase. Mas aí me deparo com situações que temos que ser gratos pela sobrevivência, um prato de comida, por nossas moradias, por um salário de fome, que mal paga as contas. Sem dizer o EAD que nada tem facilitado a vida dos estudantes, principalmente os estudantes que trabalham. Confesso que, por incrível que pareça, foi uma luta interna escrever, nunca achava que era suficientemente precarizada para estar aqui, e o quanto isso é triste, né?
Estamos tão acostumadas e acabamos normalizando essas vivências tão tristes. Trabalho na parte administrativa de um hospital, e no início da pandemia foi bem difícil. Nós não tivemos a jornada de trabalho reduzida, não tivemos nenhum tipo de escala, nada. O EPI era escasso, no primeiro período tivemos que comprar nosso próprio álcool, as máscaras foram disponibilizadas muito tempo depois. Mas o que quero de fato deixar aqui, é que nós temos o direito de viver e de usufruir dos frutos do nosso trabalho de maneira saudável.

“Maria, Maria É um dom, uma certa magia
Uma força que nos alerta
Uma mulher que merece viver e amar
Como outra qualquer do planeta”
(Milton Nascimento)

Me agarro na luta de outras mulheres, no exemplo de esperança de dias melhores, na esperança de um amanhã sem amarras, sem exaustão. E que as Marias do mundo possam experimentar e saber que a vida pode sim ser bonita”.




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