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Cultura de rua e resistência nas ruas de Belo Horizonte

Dani Alves

Cultura de rua e resistência nas ruas de Belo Horizonte

Dani Alves

A chamada cultura marginal, que envolve diversas expressões artísticas das periferias e grupos marginalizados, se expressa com força nas ruas da capital mineira, ocupando os espaços públicos da cidade em atrito com a política dos governos de restrição ao acesso à cultura e lazer.

É o caso do Duelo de Mc’s, a batalha de rap que nasceu no coração de Belo Horizonte, na Praça da Estação, em 2007, organizada pela Família de Rua, onde com uma caixa de som, se organizava a disputa de rimas, dando origem ao maior evento de Hip Hop do país que conta com a participação de rimadores de 25 estados e o Distrito Federal. Desde 2012, a batalha ocorre sob um palco de concreto, no Viaduto Santa Tereza, trazendo um marco de resistência urbana, ressignificando o espaço que abriga pessoas em situação de rua no centro da cidade. De conteúdo, as rimas expressam em maioria, as vivências criminalizadas de uma juventude que fortemente anseia por uma uma vida plena de sentidos, expressando as injustiças sociais, as opressões e as explorações que são submetidos no cotidiano. Outro fato importante é o rechaço às eventuais expressões de machismo, racismo, lgbtfobia e qualquer discurso opressivo que possa surgir nas rimas, que são instantaneamente repudiadas e sensivelmente dialogadas, além de ser passível de eliminação do duelo.

E essa ocupação se expandiu. Dezenas de jovens que se deslocavam de diferentes bairros da capital e de toda região metropolitana, enfrentando o consórcio de transporte público, muitas vezes sem passagem para ir até o centro rimar e assistir as batalhas, começaram a organizar em suas quebradas, nas praças e escolas, as batalhas clandestinas que ampliaram o acesso ao lazer e Hip Hop para a juventude. Segundo o Coletivo NuTrilhar no seu último mapeamento antes da pandemia, somavam mais de 60 batalhas mapeadas por toda BH e região metropolitana. Por serem menores, as batalhas clandestinas enfrentam constantemente a violência policial, que busca reprimir e conter qualquer expressão de revolta e descontentamento dos filhos da classe trabalhadora.

A poesia e a escrita marginal, por sua vez também ocupam espaço central no cenário cultural da capital mineira, organizando nas competições de poesia falada, os slams, e também nos saraus, espaços de voz aos que são silenciados, com uma escrita e oralidade livre de regras e padrões, com o objetivo de promover esses espaços de fala, mas também de escuta, onde acontecem trocas vivas de resistência às opressões sociais e a exploração de classe, em combate ao machismo, racismo, lgbtfobia, ao regime e ao sistema.

O Slam Clube da Luta é o primeiro Slam de Minas Gerais, e até antes da pandemia, acontecia no Teatro Espanca, ao lado do Viaduto Santa Tereza, desde 2014, com o grito "à luta, à voz" centenas de poetas de Minas e do país já se apresentaram nesse tradicional espaço.

O Coletivoz Sarau de Periferia também é referência no assunto. O coletivo organiza há 12 anos espaços de poesia e de fomento à literatura marginal na capital, levando muitos a se descobrirem enquanto escritores. O Sarau Comum, que acontece no Espaço Comum Luiz Estrela, celebra Arte e Resistência em Belo Horizonte. Outros coletivos artísticos também organizam eventos conhecidos na cidade, como o Avoante, que organiza o "Avoa, amor", slam de poesias de amor, onde ressoa a diversidade e o orgulho das sexualidades e as Afrolíricas, que promovem slams itinerantes e intervenções poéticas pela cidade.

Assim como o rap, esse movimento também se espalhou pelos diferentes bairros da cidade e região, fato registrado pelo coletivo Circuito de Saraus RMBH no "Mapa dos saraus e slams da RMBH" que localiza cerca de 40 destes por toda região metropolitana. O mapa, distribuído ou vendido a preço de custo nos eventos, é desdobramento do livro "Atlas dos Saraus da RMBH", trabalho da escritora Camila Félix que reúne o mapeamento completo com entrevistas exclusivas sobre esse desenvolvimento.

Durante a crise sanitária, o distanciamento social combinado ao negacionismo de Bolsonaro, levaram os artistas a uma situação ainda mais crítica, onde se viram sem a possibilidade dos eventos que geravam suas rendas e com um auxílio emergencial insuficiente, que aumentou ainda mais a precarização no setor. Apesar de Zema, Bolsonaro e seus aliados, artistas e coletivos que ocupavam as ruas, passaram a ocupar as telas, no intuito de seguir desenvolvendo o trabalho artístico e levar cultura e lazer durante esse período.

O pixo e o grafite são parte intrínseca da paisagem urbana da capital mineira, tendo em cada espaço cinza de concreto dos grandes muros e prédios, assinaturas (prezas) que registram histórias não contadas, além de frases, gritos de ordem e protesto perceptíveis no dia a dia de quem transita pela cidade.

A ofensiva dos governos contra pichadores é constante no estado e na capital, sendo explosiva em 2016, durante governo de Fernando Pimentel do PT, onde Goma, Frek e Maru, conhecidos pichadores de Belo Horizonte, foram processados por crime ambiental, meses depois do crime da Vale em Mariana, que contou com ajuda do governo para sua impunidade, o que gerou revolta e uma forte mobilização contra a perseguição e criminalização da arte.

Mais recentemente, o Circuito Urbano de Arte - Cura, que é responsável por extensos murais de grafite pelo centro da cidade foi vítima de uma ação ilegal e de cunho racista da Polícia Civil que perseguiu artistas e organizadoras do Festival por conta também do pixo presente no mural do artista Robinho Santana. Outro painel, da artista Criola, também foi ameaçado por ser considerado por um morador de "gosto duvidoso" que se amparou em uma lei da ditadura para querer apagar o mural feito em honra às mulheres e aos povos originários brasileiros e descendentes. É nesse mesmo tipo de lei que Bolsonaro e seus aliados se apoiam, na tentativa de consolidar um projeto de controle governamental da produção da arte e cultura no país, reprimindo qualquer expressão de questionamento e combatividade que a arte pode cumprir.

Muitas outras expressões artísticas e culturais se manifestam por Belo Horizonte, como os bailes de funk, os desfiles de maracatu e os blocos de carnaval. Essa cultura marginal pulsa pela cidade, tendo artistas em maioria mulheres, negres e lgbts, resistindo junto à juventude periférica e trabalhadora às restrições e alienações impostas, enfrentando constantemente políticas que buscam frear esse desenvolvimento, muitas vezes pela ação violenta e criminosa da polícia que reprime os corpos e desapropria os espaços.

O que todas essas expressões trazem em comum é justamente onde se encontram: nas ruas. A cidade se torna o ateliê e os espaços são ressignificados. A urgência de acesso à cultura, arte e lazer emerge e se impõe, com um grito de resistência que perpassa as diversas expressões e ressoa a poética mais bela que é pela liberdade.

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