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Cuba: cinema e revolução

Violeta Bruck

Cuba: cinema e revolução

Violeta Bruck

Esse texto foi escrito no aniversário de 56 anos da Revolução Cubana. Hoje, muito tem se falado sobre Cuba, sua revolução e situação atual conflituosa. No âmbito do cinema, a revolução significou a expulsão das produtoras e distribuidoras imperialistas, e a posterior nacionalização da indústria, medidas que deram um impulso inusitado à produção audiovisual.

A revolução cubana avançou contra os interesses imperialistas expropriando terras e empresas, atacando a dominação capitalista, o que significou a obtenção de enormes conquistas para o povo em distintas áreas. No campo do cinema também foi vivida uma revolução, com a expulsão das produtoras e distribuidoras imperialistas, e a nacionalização da indústria que veio em seguida, fazendo com que a produção audiovisual tivesse um impulso inusitado. Realizadores e trabalhadores do cinema puderam trabalhar em uma indústria que já não era regida pelos interesses comerciais.

A nacionalização da indústria cinematográfica cubana é o que permitiu o importante desenvolvimento do campo audiovisual da ilha que hoje tem reconhecimento latino-americano e mundial. Em 1959 foi fundado o ICAIC (Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográfica), e na Lei que tratava de sua criação, há uma definição importante “O cinema é uma arte” e seguidamente que “o cinema constitui por virtude de suas características, um instrumento de opinião e formação da consciência individual e coletiva, e pode contribuir para tornar mais profundo e diáfano o espírito revolucionário e sustentar seu alento criador (...). A estrutura da obra cinematográfica exige a formação de um complexo industrial altamente tecnológico e moderno, e um aparato de distribuição de mesmas proporções”.

Desde esse ponto de vista, para que esta lei funcionasse cabalmente, era preciso resgatar toda a linha de produção que vai desde a produção propriamente dita, até a distribuição geral, incluindo as salas de cinema de todo o país. Enquanto isso, várias companhias norte-americanas como a Republic Picture, Paramount e RKO Radio, fechavam suas sucursais em Cuba.

O primeiro cinema que foi ocupado foi o de Arte e Ensaio La Rampa pela resolução 1104, do Ministério de Recuperação de Bens Apropriados Indevidamente. Mais tarde, O ICAIC passou a controlar os circuitos mais importantes do país, segundo a Lei 890 do dia 13 de outubro de 1960. Alguns cinemas como Rivera, Acapulco e Lido já tinham sido nacionalizados, e este processo continuou até abarcar toda a exibição comercial do cinema no território nacional.

Em relação às distribuidoras de filmes, em 1961 houve a intervenção e nacionalização de todas elas. Nesta primeira etapa foram nacionalizadas seis empresas norte-americanas: Fox Filmes de Cuba, Artistas Unidos, Metro Goldwyn Mayer, Columbia Pictures, Warner e Universal. Todas essas empresas foram assumidas pelo ICAIC em uma distribuidora nova chamada Distribuidora Nacional de Filmes. No dia 5 de janeiro de 1965, com a nacionalização de outras empresas distribuidoras, culmina esse processo. Mas não só ocupavam a velha infraestrutura, como também foram criadas novas, no mesmo ano de 1965, foram inauguradas em toda a ilha 35 salas de cinema modernas recém construídas em pequenas cidades e povoados do interior do país.

Essas medidas de expropriação e nacionalização da indústria do cinema impulsionaram uma produção audiovisual nova e original, uma renovação temática e na linguagem audiovisual, que aportou em muitas das bases do movimento do “Novo Cinema Latino-americano” que surgiu no final da década de 1970.
Os primeiros anos foram impulsionados com o ICAIC sendo dirigido por Alfredo Guevara. Santiago Alvarez começa com a realização do Noticiário ICAIC Latino-americano. Várias personalidades do cinema mundial, como Roman Karmen, Chris Marker, Joris Ivens, Agnes Varda, Cesare Zavattini, dentre outros, viajaram a Cuba para aportar nesse processo. Tomás Gutiérrez Alea dirigiu o primeiro longa-metragem de ficção, Histórias da Revolução, e continua com As doze cadeiras, A morte de um burocrata, Memórias do subdesenvolvimento. Julio García Espinosa, Humberto Solás e Manuel Octavio Gómez são outros dos importantes nomes desses tempos.

O cinema cubano se destaca pela utilização de múltiplos recursos e gêneros, e teve distintos momentos em que pôde expressar não só a crítica ao capitalismo e ao imperialismo, mas também nos primeiros anos do impulso revolucionário, uma crítica aos elementos de burocratização do regime.

A vitalidade e criatividade desse movimento se encontra nas bases de um processo revolucionário que avançou com medidas anticapitalistas, com a expropriação e nacionalização do conjunto da economia. O resultado também implicou em uma revolução no público, no gosto e no acesso às salas. Até hoje o povo cubano é entusiasta do cinema e enche as salas, inclusive porque o custo é muito baixo e permite um acesso popular. Um processo inverso foi vivido no resto da América Latina nas últimas décadas, em que a entrada do cinema está cada vez mais cara e as salas de cinema se concentram nas grandes cidades, onde estão os setores com mais recursos.

As medidas econômicas que o PC cubano vem impulsionando há anos, os acordos com os Estados Unidos, a abertura ao capitalismo, apontam em um sentido contrário. Neste momento, resgatar essa experiência do Cinema Cubano é uma fonte inspiradora para seguir pensando o cinema em chave revolucionária.

Tradução de Lara Zaramella

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