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Eleições Argentina | Crise política na Argentina: é preciso romper com o FMI e lutar por uma saída para o povo trabalhador

Horas decisivas no marco de uma grande crise. Derrota eleitoral, fraturas internas e uma grave situação econômico-social se retroalimentam e têm posto o governo da Frente de Todos nos seus momentos mais difíceis desde que assumiu. Um presidente enfraquecido e duas alas que, até ontem, faziam campanha juntas e hoje fazem luta interna, sem dar respostas para a maioria ou para enfrentar a direita. As organizações sindicais e sociais devem romper com sua subordinação ao Governo e que um plano de luta seja discutido. Mais do que nunca, tomar partido junto da Frente de Esquerda, que acaba de conquistar mais de um milhão de votos: um grande ponto de apoio para lutar por uma outra saída diante da crise, que só pode partir do rompimento com o FMI.

Fernando ScolnikBuenos Aires | @FernandoScolnik

quinta-feira 16 de setembro | Edição do dia

Para ir ao fundo da crise que a Argentina atravessa neste momento, em uma disputa pública entre o presidente Alberto Fernández e a vice-presidente Cristina Kirchner, vale a pena voltar um pouco no tempo.

Quando a Frente de Todos foi constituída em 2019, várias incógnitas atravessavam o debate político.

Em pouco tempo, uma delas foi rapidamente resolvida: como máquina eleitoral, a unidade do peronismo mostrou-se eficiente para tirar o macrismo do poder. A tarefa não era complexa, dado o grande descontentamento popular com um governo que ajustava sem parar e só beneficiava os setores mais poderosos.

No entanto, as incógnitas mais profundas, que hoje emergem em todas as suas dimensões frente à derrota eleitoral e às internas a céu aberto, deviam ser vistas naquela altura com um olhar de longo prazo, e estavam relacionadas com a capacidade de manter a unidade de coalizão e a chamada "governabilidade" no poder, em um contexto de grande crise econômica e social e de uma hipoteca de dívida pública impagável com o FMI e credores privados.

A Frente de Esquerda (FIT-U) disse desde o princípio: pagar a dívida e cumprir as promessas eleitorais era impossível e, mais cedo ou mais tarde, essa contradição seria a fonte de crises.

De forma relativamente rápida, as disputas internas da coalizão foram se manifestando e desenvolvendo (desde o “affaire Zaiat” até a disputa pelo nível de aumento das tarifas dos serviços públicos), mas foram desfeitas e controladas, ainda que não sem deixar feridas no caminho. A pandemia e a “herança recebida” ainda atuavam como amortecedores.

No entanto, hoje a crise é mais grave. O resultado eleitoral deste domingo, já precedido de múltiplas mostras de descontentamento, deixou claro que o crédito popular do governo está muito longe de ser o de antes e está fortemente golpeado pela aplicação de políticas de ajuste. O mandato eleitoral de 2019 para "colocar dinheiro no bolso das pessoas" claramente não foi cumprido. Não só isso: escândalos como o da Quinta de Olivos nada mais fizeram do que irritar o povo perante o poder.

Neste contexto, ressurgiu com mais força uma crise interna do partido no poder, cuja dinâmica está em curso e o seu fim ainda não se sabe qual é. O que é inegável é que aprofunda a crise de um governo debilitado. No momento do fechamento desta nota, diversos meios de comunicação noticiaram a continuidade de reuniões entre os diversos atores da Frente de Todos. Do lado dos que respondem à vice-presidente Cristina Kirchner, o gabinete estava “vazio”, do outro vieram declarações pedindo unidade e apoio a Alberto.

A população em geral assiste neste momento a um espetáculo de crise palaciana que começou com "que medidas tomar" para tentar reverter a derrota eleitoral, mas rapidamente se agravou para uma crise de gabinete, o que deixa claro que aqueles que fizeram campanha juntos até recentemente, hoje se dividem nas internas, aprovam projetos e discutem um curso no qual, porém, todos eles têm um acordo fundamental: negociar com o FMI, o que inevitavelmente traz anos de penúrias para as grandes maiorias.

Com esse organismo, "a vida que queremos" não vem. Além disso, se chegamos aqui, é porque, de uma forma ou de outra, todas as alas do Governo mantiveram um curso de ajustes: por exemplo, votando o orçamento de 2021, que, entre outras coisas, eliminou o IFE.

Em vários setores da classe trabalhadora, um comentário começa a se espalhar: é um governo morno com os poderosos. É uma forma popular que vai no sentido de denunciar uma realidade em que a herança de Macri foi legitimada e a dívida continuou a ser paga, os bancos, grandes empresários e latifundiários continuaram ganhando, enquanto a pobreza seguiu aumentando e os salários, pensões e benefícios sociais perdendo ante a inflação.

Essas políticas de ajuste, a desmobilização imposta pelos sindicatos pró-governo e movimentos sociais, e o ar dado a personagens como Sergio Berni ou campanhas de direita como a que pede por tasers e a redução da maioridade penal, foram as que deram lugar à direita tradicional, que acabou triunfando nas eleições do último domingo.

Nesse sentido, as possíveis mudanças de gabinete que se anunciam, ou medidas parciais tomadas às pressas para tentar melhorar o clima social até novembro, não devem deixar lugar para engano: procuram vender a ilusão de que é possível que o Governo tome uma orientação que responda aos sofrimentos populares, sem romper com o FMI.

Com esse discurso, eles tentam conter os descontentamentos e até recuperar algum voto. Mas a realidade é que não há "mudança de rumo" que responda aos problemas de salários, desemprego, precariedade ou pensões, sem o desconhecimento soberano da dívida, o rompimento com o FMI, a nacionalização de bancos e do comércio exterior, entre outras medidas fundamentais que nenhuma ala do atual governo está disposta a tomar, nem mesmo chegar perto. Muitas delas foram levantadas pela Frente de Esquerda na recente campanha eleitoral, além da jornada de trabalho de seis horas, cinco dias por semana, com salário mínimo equivalente à cesta básica familiar, para enfrentar o desemprego e a precarização do trabalho.

Essa abordagem consistente, assim como a participação e o apoio às centenas de lutas que assolam o país desde 2020 (muitas delas "autoconvocadas"), foi o que abriu caminho para os mais de um milhão de votos que a Frente de Esquerda conquistou no último domingo, o que lhe permitiu ser a terceira força e demonstrar que não existe apenas uma guinada para a direita como alguns querem ver, mas também tendências à polarização.

As organizações sindicais (esta quarta-feira a CGT saiu para “bancar” o Governo) e as organizações sociais, devem romper com a sua subordinação ao partido no poder, deixar de sustentar com sua passividade o ajuste e permitir assim o avanço da direita. É preciso promover assembleias em todos os locais de trabalho e sair para lutar pelas necessidades urgentes das grandes maiorias, por suas demandas imediatas e por um programa de fundo como o que propõe a Frente de Esquerda. Esta é a nossa perspectiva e a segunda etapa da nossa campanha eleitoral também estará a serviço dessa luta, assim como o apoio a cada luta que dão os trabalhadores, as mulheres e os jovens. Não há tempo a perder.




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