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África do Sul | Crise na África do Sul se agrava: governo convoca reservistas para reprimir protestos

Os saques e protestos continuam em várias cidades do país africano motivados pela fome e pela pobreza, ocorridos após a prisão do ex-presidente Jacob Zuma. O presidente Cyril Ramaphosa convocou reservistas para colaborar com o Exército e a Polícia, que estão reprimindo com brutalidade.

sexta-feira 16 de julho | Edição do dia

Os mortos pela repressão do Exército e da Polícia já ultrapassam uma centena. Pequenos proprietários de terras, incluindo setores da minoria branca, começam a se engajar à repressão aos protestos e saques. Após 27 anos de apartheid, enormes desigualdades, pobreza extrema e alto desemprego continuam a impulsionar esses surtos sociais.

O epicentro dos protestos está na província de KwaZulu-Natal (de onde provém Zuma), especialmente na cidade portuária de Durban - Oceano Índico - e também na província de Gauteng. Nessas áreas, caminhões, veículos blindados e helicópteros sobrevoam com soldados que, desde os protestos e saques iniciados na última sexta-feira, não param de reprimir. Eles foram acompanhados por 12.000 reservistas.

Em Durban existe uma das refinarias de petróleo da África do Sul que decidiu fechar momentaneamente nos dias de hoje (o que significa simplesmente um lockout patronal), com o consequente perigo de causar escassez. Na última terça-feira, o mesmo foi feito em Kwazulu-Natal.

Entretanto, o ministro da Defesa, Mapisa-Nqakula, anunciou na tarde de quarta-feira que o número de militares destacados para reprimir os saques chegará a 25.000, com o objetivo de os distribuir nas zonas mais quentes.

A crise parece estar se agravando a tal ponto que elementos que podem levar a uma guerra civil começaram a ser vistos nesta quinta-feira de manhã, já que moradores de alguns bairros próximos a grandes supermercados saíram armados com paus e até armas de fogo para espantar os que tentaram entrar para os locais. Também a mídia local e internacional - como a Al Jazeera - relatam que motoristas de táxi (a grande maioria proprietários) de Vosloorus, ao sul de Joanesburgo, estavam armados com o mesmo objetivo.

Antecedentes políticos, sociais e sanitários

A crise da pandemia agravou a situação da maioria da população. O país vive uma nova onda de covid-19, agravada pela cepa Delta. Precisamente a província de Gauteng (onde ocorrem as maiores mobilizações), onde vive 25% da população, é o epicentro das infecções. A África do Sul tem menos de 5% da população vacinada e entre aqueles com mais de 60 anos, apenas um terço recebeu a vacina.

Isso se deve, em primeiro lugar, à desigualdade na distribuição de vacinas em todo o mundo, onde os laboratórios - que se movem com a lógica do lucro - vendiam as vacinas principalmente para os estados imperialistas que monopolizavam a maior quantidade, ainda que os mais pobres ou mais regiões desiguais foram deixadas para trás. Este "nacionalismo" das vacinas causou a morte de grande número das populações mais pobres do mundo. Apesar dos discursos demagógicos, os estados mais ricos nunca concretizaram a liberação de patentes.

Além dessa situação, o Governo de Ramaphosa não tomou medidas que pudessem evitar o salto nas infecções e pelas poucas vacinas que o país teve acesso, tiveram que se cadastrar em um sistema online que só a população com maior renda conseguiu, que continua a ser em grande parte a minoria branca do país.

O pano de fundo interno dessa situação é a profunda desigualdade que reina mais de duas décadas após o fim das leis do apartheid. O que indica que embora não estejam escritos na legislação, as diferenças continuam em vigor.

A grande maioria das empresas está nas mãos da minoria branca, metade da população adulta, segundo dados oficiais, está abaixo da linha da pobreza (49,2%), a grande maioria é a população negra. Desse percentual, a maioria são mulheres, 52%.

Esta situação, que para os trabalhadores implica baixos salários, aumento da precariedade laboral, já em 2012 estourou grandes greves nas minas de platina que pertencem à gigante mineradora britânica Lonmin, que a Polícia reprimiu brutalmente, matando 34 desses trabalhadores.

A isso deve ser adicionado a corrupção que prevalece no Congresso Nacional Africano, o partido criado por Nelson Mandela. Jabob Zuma é desse partido, assim como Ramaphosa.

Este é o quadro em que surge essa explosão social. O que mostra que o fim das leis do apartheid não significou igualdade para os negros. Porque justamente o que o partido que governou há 27 anos não acabou nunca foram as bases econômicas capitalistas que sustentavam e sustentam as diferenças raciais.




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