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"Corríamos o risco de ter princípios de incêndios na moradia" diz bolsista da Unicamp

Estudante, mãe e moradora da Moradia Estudantil da Unicamp, relata o que vem passando no último período com a precarização da permanência estudantil.

sexta-feira 29 de janeiro| Edição do dia

“Eu sou moradora do Programa de Moradia Estudantil há alguns anos e sempre morei no Bloco O. Desde que entrei na moradia já havia problemas de energia elétrica quando chove ou quando venta, ou mesmo a lâmpada ou o chuveiro que queima.

Já fiz parte da representação discente durante alguns anos e sempre solicitamos que houvesse manutenção. A vistoria e a troca da fiação da moradia que é muito antiga, mas a administração sempre postergou e sempre disse que não, dizia que não era necessário ou simplesmente ignorava.

Na semana passada, na sexta-feira, antes da primeira fase do Enem, tivemos uma queda de luz na moradia, aqui no Bloco O, na madrugada de quinta para sexta, por volta das 4 horas da manhã. Uma amiga viu quando aconteceu e disse que as luzes ficaram piscando e em seguida acabou a energia.

Na manhã seguinte, nós acionamos a administração, pedimos que chamassem a equipe de manutenção, mas descobrimos nesse dia que não tinha mais equipe de manutenção da Moradia Estudantil, pois o contrato havia acabado. Então, chamaram a CPFL, que chegou no final da tarde e não resolveu o problema. Acabou que ficamos quatro dias sem energia, de sexta até segunda, até chegarem os novos técnicos da Unicamp, pois a CPFL disse que o problema era com a Unicamp. Os técnicos constataram que o fio de alta tensão tinha entrado em curto. Mas ao invés de trocarem o fio, eles simplesmente remendaram, só cortaram onde tinha acontecido o curto-circuito.

Depois disso, pediram para ligarmos na CPFL. Ou seja, quem ligou fomos nós, os moradores. A CPFL veio para religar os fios, mas quando viram o que tinha sido feito, falaram que não deveriam ligar a força, já que os fios de alta tensão não poderiam ter remendos. Após falarmos que tinha crianças precisando de luz, eles falaram que iriam ligar, mas que tínhamos que ficar cientes que era algo emergencial, que não iria durar muitos dias, e, que por conta do remendo, corríamos o risco de ter princípios de incêndios na moradia. Nós notificamos a Unicamp e não fomos ouvidos.

Nesta segunda-feira, dia 25, houve nova queda de energia. Os técnicos da CPFL vieram de novo, verificaram e trocaram uma fiação deles, mas na hora que tentaram religar a fiação da moradia, começou a aparecer fumaça. Ou seja, teve princípio de incêndio de novo. Então o técnico da CPFL desligou a luz, cortou a fiação da moradia e nos avisou que o mesmo fio estava em curto de novo, que precisava ser trocado pela Unicamp. No dia seguinte, vieram os técnicos da Unicamp, mas ao invés de verificarem o fio em curto, eles ficaram verificando a caixa de luz da moradia.

É uma série de erros... a Coordenadora da moradia veio na terça-feira conversar com a gente e nós fizemos algumas propostas para resolver a questão, já que temos cinco estúdios sem luz, sendo que os estúdios são casas para estudantes com famílias. Somando as cinco casas temos 10 crianças, sendo dentre elas temos um bebê de 1 ano e meio. E entre os estúdios, nós temos uma gestante que está no final da gestação, que é outro caso muito sério, já que a gestação é algo muito complicada e precisa ter um mínimo de condições de comodidade, como um ventilador.

Chegamos até a propor para a Eliete (Coordenadora da Moradia) para colocar um gerador de energia para essas casas, mas disseram que não podiam, pois o painel estava curto. Também, propomos para a administração um mapeamento das casas que estivessem vazias para realocar os alunos afetados ou verificar a possibilidade de uma bolsa para podermos alugar algum lugar de forma temporária até que o problema fosse resolvido.

Hoje,quarta-feira, a Eliete disse que conversaria com o SAE (Serviço de Apoio ao Estudante) e com a PRG (Pró-Reitoria da Unicamp), que são instituições responsáveis pelos estudantes. Já no final da tarde. Por volta de umas 4 horas, a Eliete informou que ainda não tinha conversado com eles pois estava em reunião.

Além da falta de luz, por conta da falta de manutenção das áreas por fora da moradia, estamos com uma proliferação de pernilongo muito grande, as crianças estão todas picadas e não temos como passar veneno na casa ou nas crianças que têm asma.

É uma situação insalubre, precisamos de luz, por uma série de fatores. No final da tarde, ela (a Coordenadora) conseguiu chamar uma reunião com o SAE e com a PRG, e só então acertaram que vão disponibilizar bolsas emergências para que possamos ficar quinta e sexta-feira em algum lugar para morar.

Sim, não está fácil. Enquanto moradores, estamos conversando há um bom tempo sobre o bloco sem luz e temos percebido esse descaso constante da moradia com as nossas vidas. A moradia é o nosso lar, não temos como sair daqui com nossos filhos. Nós não temos a casa do pai ou da mãe para voltar, muitos alunos são de outros estados, nem se eles quisessem poderiam voltar. A Unicamp tem que se responsabilizar. Não estamos pedindo nada demais. Nem estamos pedindo, é obrigação deles. É obrigação que eles façam a manutenção das casas.

Nós abrimos as caixas que passam os fios do solo e estão horríveis. Estas caixas que deveriam ser para isolar os fios estão cheias de terra e a terra é condutora de eletricidade. Os fios estão todos remendados e emaranhados. É uma coisa horrível, são péssimas as condições que nós estamos vivendo.

Fora isso, vemos que há outros problemas. Tem um estúdio que caiu um pedaço do teto em cima do computador da moradora e a Unicamp não quer se responsabilizar, ou faz vista grossa para não se responsabilizar. Outro dia, um estúdio alagou na última chuva, e nós que temos que limpar a casa, controlar as goteiras, cuidar dos filhos para que não fiquem doentes, etc. É desesperador pensar o quanto as nossas vidas valem muito pouco para a instituição. É uma política, não é não é à toa o que está acontecendo. É uma política de desmonte da universidade e eles vão desmontar a partir do elo mais fraco, que são os estudantes pobres que necessitam de permanência estudantil, e onde eles podem desmontar primeiro é na Moradia Estudantil que já está caindo aos pedaços.

Do ano que eu entrei para 2021 a moradia mudou muito, muita coisa aconteceu e muito se degradou aqui, sendo que muitas vezes ficamos de mãos atadas. Nossa equipe de manutenção, que já era pequena e escassa, ficou menor ainda. Quando entrei, a equipe de manutenção era da Funcamp e era um pouco maior, mas terceirizaram e cortaram uma parte da equipe, e agora nem equipe temos.

A manutenção que eles estão fazendo dos fios está sendo com a equipe da Unicamp, eles falaram isso, então o resto dos alunos que estão precisando atualmente desse serviço não serão atendidos. Eles só vieram aqui por ser um trabalho emergencial. Inclusive, os próprios funcionários não sabem nem a grandiosidade do problema, falam que a extensão do problema é gigante e que nem temos como avaliar isso ainda.

Na reunião com a Coordenadora, falaram que vão trocar toda fiação externa das casas que estão sem luz, ou seja, a fiação de alta tensão, mas a fiação das casas não vão trocar. No entanto, na minha casa já houveram dois pontos de fogo. Um dia o chuveiro pegou fogo enquanto minha filha estava tomando banho e o disjuntor não desarmou, só não aconteceu nada pior porque eu estava em casa e desliguei o disjuntor. Outra vez, uma tomada do quarto pegou fogo e o disjuntor também não desarmou. É assim que estamos agora, com o sentimento de que nossa vida corre risco.

Atualmente dormir é muito difícil, porque nossa vida realmente está correndo risco. Fizemos extensões para pegar a luz de outras casas, para ligar as geladeiras, porém é algo que puxa muito energia, o que deve estar sobrecarregando o quadro de luz de outra casa e pode ser que a gente tenha problemas com isso também. Dormir está sendo difícil, também por pensarmos se não estamos colocando o outro em risco. Até que ponto estamos colocando o outro em risco e até que ponto a também estamos em risco? Precisamos pensar em como se movimentar, porque está muito difícil os cortes de bolsa e o sucateamento, pensar em nosso futuro na Unicamp é muito difícil.”

O relato foi colhido na quarta-feira (27), antes que a energia voltasse a ser restabelecida na ontem (28) por volta das 16h.

Além do relato, a estudante pontua que apesar do retorno da energia, os estudantes solicitam a troca de toda a fiação da moradia, pois consideram que esse pode ser o primeiro caso mais grave que ocorreu, mas não será o último, já que os cabos e a fiação datam da inauguração da moradia, o que já seria um motivo suficiente, fora todos os equipamentos domésticos que perdem e as trocas constantes de lâmpadas e chuveiros.

Não é novidade que as casas que se encontram com diversos problemas estruturais devido ao descaso da reitoria de Knobel, e as outras que a sucederam. Isso mostra a política de precarização da permanência em meio a um momento de crise econômica e pandêmica no país sob o governo Bolsonaro e Doria, que querem que os mais pobres paguem a conta. Devemos seguir exigindo a manutenção estrutural da Moradia e seu maior quadro de funcionários sem que isso signifique a precarização do trabalho desses trabalhadores, como faz a Unicamp hoje com a terceirização em diversas áreas da universidade.

Os Centros Acadêmicos dirigidos pelo PSOL e PCB devem se unificar para exigir do DCE, dirigido pela Juventude do PCdoB (UJS), que saia de sua paralisia e organize o conjunto dos estudantes em defesa da permanência estudantil e contra a precarização da Moradia. Assim, também não podemos confiar que a solução dessa situação venha pelas mão da Reitoria que descarrega os ataques aos setores mais precários da universidade, a solução só virá com a luta dos estudantes aliados aos trabalhadores.

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